Bavarois

54 Capítulo LXV


LXV

- Não podemos deixar isso acontecer, mamãe... – exclamei, a mente em polvorosa. – Nós... Nós precisamos fazer alguma coisa...

Aquela lógica impecável que empreguei com Shelser e Barrington já não estava mais funcionando tão logo vi Mitchell Sunderland e o cond Edward sumirem por aquela cortina de água, entrando nos domínios da mansão de uma das Quatro Famílias e desaparecendo de nossos olhos, silenciosamente.

Enquanto meu corpo queria fazer alguma coisa, minha mente pensava por ele, imaginando mil e uma possibilidades. Todas elas convergiam para um único ponto: a morte de Mitchell. Era inevitável, minha razão dizia, enquanto eu desejava calá-la, não ceder ao peso da verdade absoluta.

Entre um homem que estava em sua melhor forma física e um que havia sido baleado e estava ardendo em febre... Não era preciso ter um Q.I. maior que 10 para saber quem sairia vitorioso.

- E se formos para lá, que poderíamos fazer?... – Irisa Baker passou a mão pelos cabelos úmidos, surpreendendo-me com a constatação. – Cora, querida... Se o jovem Mitchell não ganhar, estaremos perdidas. Ele sabe disso muito bem. Por isso, sei que irá vencer.

- “Esperança não enche estômagos”! Não foi isso que você sempre disse?! – fechei os olhos com força, já prevendo sua resposta.

- Sei que disse isso. E adoraria acreditar que, neste caso, apenas a esperança irá prover o jovem Mitchell de todos os meios para matar o cond Shelser. Mas... Acreditar nele é a única coisa que posso fazer.

É mentira!, eu rebati, mentalmente, temendo perder o controle com minha própria mãe. Você poderia fazer muito mais, mamãe! Eu sei disso!

- Ela tem razão... Ir até lá só irá adiantar a sua morte e distrair Mitchell...

A voz de Emma?

- ...Pode deixar que, sendo assim, eu vou com você.

Surpresa pela voz conhecida que ouvi em minhas costas, virei-me e me deparei com Emma Shelser saindo de onde estava, mantendo-se equilibrada em suas pernas com a ajuda da porta aberta da carruagem.

Tinha o vestido de dormir manchado de sangue (e eu ainda me perguntava onde estava seu ferimento a espada, com todo aquele vermelho atrapalhando-me) e a respiração descompassada. Toda sua pessoa exalava a fragilidade que sempre achei que tinha, mas que ela sempre provava que não era uma característica sua.

- Emma?... – ao percebê-la de pé, fui até ela.

- Milady Shelser, não pode erguer-se! – aparentemente, mamãe Irisa também me seguiu até, com aquele seu rosto de preocupação tão tradicional. – Volte a ficar deitada ou suas feridas vão abrir ainda mais...

- Não... Cora não pode ir sozinha... – ela sussurrou.

Quando percebi que suas pernas iriam traí-la e deixá-la cair ao chão molhado de chuva, precipitei-me até ela e segurei seu corpo, leve como uma pluma. Assustei-me, uma vez que, agora, Emma estava realmente fazendo jus à sua aparência de boneca de porcelana.

- Ela tem razão, mamãe. – assenti. – Eu e você somos pesos mortos, mas Emma... Mesmo ferida, ela sabe defesa pessoal. Poderá nos ajudar.

- Se Mitch ficar sozinho com meu pai por mais tempo... – ela suspirou. – ...Ele vai voltar com a sua cabeça em mãos.

A imagem mental, que podia muito bem ser verdade dentro de poucos minutos, considerando o temperamento de Edward (e até mesmo Victoria Barrington queria-o), só me ajudou a decidir ainda mais rápido que ela iria comigo, ferida ou não.

Amparando-a em meus ombros, Emma caminhava com dificuldades, fazendo o possível para depender o mínimo possível de mim.

Assim que meus primeiros três passos foram dados, voltei-me para Irisa Baker, que continuava na sua passividade forçada, ainda sem saber o que fazer (e isso era perceptível só de olhar para ela e aquele brilho em seus orbes).

- Mamãe, se nenhum de nós voltar dentro de... Não sei, dez minutos, Emma?

- É um bom tempo. – ela concordou, fracamente.

- ...Dentro de dez minutos, já sabe o que fazer. – continuei. – Pegue a carruagem e vá embora daqui.

- Isso mesmo, senhorita Baker. Volte para a mansão, arrume suas roupas e fuja, esconda-se, faça alguma coisa... Porque, certamente, meu pai irá atrás da senhorita. O seu débito... – e aquela frase chamou-me a atenção. – ...Continua lá.

Pareceu-me, mesmo não entendendo, que aquilo foi como um tabefe em Irisa.

A passividade que tão obstinadamente a mantinha colada ao chão fê-la, enfim, dar os primeiros passos hesitantes até nós. Os olhos esmeraldinos nos quais eu tanto gostava de me perder quando pequena agora nos encaravam tão úmidos que eu tinha a impressão de que ela chorava e abusava do fato da chuva esconder qualquer vestígio, até mesmo de algum soluço sacudindo-a.

Dos fios acobreados, Irisa Baker tirou um pequeno enfeite de cabelo, como um bico-de-pato. Esse enfeite, eu sabia, era usado pelas empregadas para prender os cabelos na hora de dormir. Provavelmente, mamãe sequer arrumou os cabelos, apenas desfez o penteado, mantendo até o enfeite. O brilho metálico acompanhou-nos até que Emma estendeu a mão trêmula e pegou-o, antes que eu o pudesse fazer.

- Senhorita Baker...? – sussurrou-lhe.

- A dívida injusta que levou meu Matthew continua em pé, não é? – ela continuou com a mão estendida, fechando seus dedos sobre a mão pálida de Emma Shelser. – Naquela vez, eu fiquei parada, sem poder fazer nada. Vi meu amado morrer diante de mim desse jeito, estática de medo. E, agora, vejo meus filhos do coração e uma senhorita seguirem o mesmo destino incerto... E continuo sem fazer nada. Isso é o suficiente, milady Emma?

Censurando-me por tão tardiamente perceber a função daquele prendedor de cabelo, o pânico fez-me assentir. Aquilo seria mais do que suficiente, na falta de um florete. Só exigiria uma aproximação muito maior.

- Dessa vez, a senhorita evitará muitas mortes, Baker. – Shelser assentiu.

Em algum lugar distante de minha mente, passou-me pela cabeça perguntar quem era “Matthew”. O olhar que minha mãe adotiva fez ao mencioná-lo, mesmo debaixo de uma cortina de escuridão índigo, era impossível de não reconhecer; o olhar de alguém que perdeu uma parte de si próprio.

- Por meu medo de agir, deixei que Matt morresse... E deixei que essa marca se instalasse em meu corpo... – ela continuou, encarando obstinadamente aquele enfeite que deixou como nossa única “arma”. – Dessa vez... Por favor, eu não posso fazer nada mais do que lhes prover dos meios... Salvem o jovenzinho.

- É claro que salvaremos, mamãe. – eu disse, enfim. – Mas, prometa que irá fugir, de qualquer forma, caso não voltemos no tempo estipulado.

- ...Farei o possível.

Por que todos adoravam nunca cumprir os tratos que faziam comigo?

- Vamos, Cora. Temos de nos apressar. – Emma avisou-me, dando o primeiro e incerto passo, incentivando-me a segui-la.

- Certo. – assenti.

Aos poucos, quando me virei para despedir-me com um olhar de Irisa, ela foi sumindo, engolida pela cortina de água que a tempestade derramava sobre nossas cabeças. No lugar dela, apenas brumas acinzentadas, as quais eu já conhecia de longa data, tão características daquela pequena cidade.

Quando me concentrei apenas na mansão à nossa frente, ela nunca me pareceu tão horripilante antes, totalmente enterrada na escuridão salpicada do ruído violento das gotas de água caindo a ponto de nos machucar. Meus braços estavam dormentes, e eu me perguntava como ainda conseguia levar Emma sem deixá-la cair (assim como me questionava como nenhuma empregada ou peão havia percebido a agitação da madrugada. Mas, certamente, os primeiros que acordassem e vissem o chão coberto de sangue de uma lady ferida por uma espada iriam se assustar).

Esquadrinhei o cenário à minha frente: árvores que iam se retorcendo ao capricho do vento, enquanto qualquer coisa a mais de alguns metros de distância de nós era engolida sem dó pela escuridão sem estrelas. Se fosse possível, junto com o cheiro de terra molhada e sangue, havia um odor acre de ódio pairando no ar.

O clarão de um raio acariciou nossos contornos, fazendo Emma erguer os olhos para o céu, como uma gazela ferida que ouvia o menor dos sons.

- Está ouvindo isso, Cora...? – perguntou-me.

Tudo que eu ouvia era a tempestade cavalgando relâmpagos longe, muito longe, com um efêmero som grave penetrando meus tímpanos. E, fora o som da própria tempestade, não ouvia mais nada.

- Não... O que está escutando, Emma? – devolvi.

- Espadas. – ela confessou, como se fosse um segredo perigoso, uma confissão que deveria ser guardada a sete chaves.

A claridade dos poucos raios que riscavam o céu permitia-nos enxergar até a metade daquela distância. Depois, como um lodo negro, a escuridão devorava o cenário, impedindo-nos de qualquer movimento impensado.

Poucos passos errantes depois, ouvi, realmente, o som de metal chocando-se.

Tateando às cegas aquela escuridão, guiava-me por aquele tilintar, como numa brincadeira de “Quente ou Frio”. Ouvi a voz de Emma Shelser dizendo-me para seguir pela direita, e obedeci-a, sem pensar. Ao longe, então, pude ver o clarão de dois floretes chocando-se.

Quando enfim chegamos perto o suficiente para vermos o que se passava, pude constatar o que já imaginava: aquela era uma luta desigual.

Alheios à nossa presença, ambos os Patriarcas continuavam a digladiarem-se, erguendo os floretes e disparando-os, com uma força hercúlea e a habilidade de um espadachim bem treinado, em algum ponto vital de seus corpos. Ora avançavam, ora recuavam, ao ritmo das investidas, enquanto as lâminas sibilavam. O choque dos dois floretes aguçava cada vez mais minha audição, já sensibilizada.

- Difícil, não é? – Edward Shelser sorria, em meio aos seus golpes aplicados, que tinham a leveza de um gato. – Devorado pela febre, mal enxergando o inimigo à sua frente, e perdendo a consciência lentamente devido a hemorragia... Fico surpreso com o quanto você está resistindo, Mitch.

Minha vontade era correr até lá e ajudá-lo de alguma forma, mas contive-me, agradecendo em meu íntimo o fato de Emma estar ali e me atrasar no tempo de reação, o suficiente para que minha sensata razão sobrepujasse a vontade quase incontrolável.

- O que faremos, Emma...? – sussurrei, imaginando se já não nos tinham notado, em meio àquela bagunça.

- Atacar pela retaguarda, talvez... – ela pensava. – É como um escudo humano: anti-ético, porém eficiente.

- Vamos fazer isso, então. Podemos cravar esse enfeite em seu pescoço...

- Sim, mas como faríamos para...

O entrechocar do aço retinia nos jardins da mansão Shelser, quando o cond Edward ergueu os olhos e fixou-os diretamente em nós.

- Pois veja, o que temos aqui! – exclamou, abrindo um sorriso divertido.

Mitchell também se virou, e a surpresa em seu rosto quando nos divisou no meio daquela chuva, duas mulheres enfraquecidas e ensangüentadas, era até mais palpável do que a pele da lady ao meu lado.

- O que vocês estão fazendo aqui...?! – ele bradou, entontecido, possivelmente pelo esforço físico demasiado.

- Viemos ajudá-lo, ora essa! – Emma exclamou, fingindo-se de ofendida.

Eu também ia dizer-lhe que parasse de bancar o herói e olhasse para a frente, para a ameaça em potencial, mas antes que eu pudesse sequer entreabrir os lábios, um clarão que não foi nenhum raio rasgou a noite.

O sangue brotou diante de meus olhos, esguichando como o respiradouro de alguma baleia, e o líquido escarlate coloria-se de um vermelho parecido com o tinto, derramando-se no chão.

Mitchell caiu de joelhos ao chão, sufocando um gemido rouco de dor. Edward Shelser, então, tirou a sua espada de suas costas, arrancando ainda mais sangue, enquanto parte do mesmo ficava impregnado junto ao de Emma na lâmina que emitia a única luz argêntea clareando o cenário.

- Distrair-se é um erro muito comum entre os novatos, sabe, Mitch... – o cond dizia, calmamente, como um professor ensina seu aluno. – ...E, em certos casos, a distração leva à morte.

Erguendo os olhos para aquele homem, lord Sunderland aparentemente quis dizer algo, mas o peso de quatro tiros, uma febre de quase 40º e uma lâmina perfurando seu corpo falou mais alto.

- Vamos acabar com isso aqui, pode ser? No fim, você foi tão inútil quanto minha filha. – ele sorriu, brandindo a arma na altura da testa de Mitchell.

E eu nunca soube se fui eu ou Emma quem gritou por seu nome, num desespero que só era menor que a própria madrugada.