Bavarois

48 Capítulo LVIII


LVIII

Em 29 de Janeiro de 1820, acabava a Regência Britânica, e George IV subiu enfim ao trono, instalando definitivamente as futuras idéias “Vitorianas”, que substituiriam as obsoletas “Georgianas”.

Quatro anos depois, em 1824, nasceria uma menina de cabelos dourados e olhos azuis, entre as tantas que assim nasceriam, e se chamaria Victoria, filha de Conroy Barrington, que chegara das iminentes revoltas espanholas devido a um ferimento que o aleijara para sempre.

Mas, antes disso, sua alma também já estava lacerada. Conroy era um homem atormentado e sem sorte que, enfim, voltara a uma cidade que nunca havia lhe mostrado nada de bom, e que ele já não mais reconhecia. Impossibilitado até mesmo de permanecer na capital, pela bondade teatrada de seus superiores, foi parar na ‘bucólica’ St. Helens, longe das guerras, longe da agonia.

Antes de sua mudança para o interior, perdeu a esposa Adrienne, uma mulher de longas e negras madeixas e os olhos mais devoradores e perigosos que ele já conhecera e de quem, possivelmente, Victoria herdou os genes ambiciosos.

Ver aquele homem, um cadáver mal-esboçado do Conroy Barrington que ela conhecera, a desagradou profundamente e, numa noite gelada de Inverno, onde os céus derramavam pequeninas adagas de água, Adrienne Barrington fugiu e nunca mais voltou para aquele lugar. Anos mais tarde, numa viagem junto ao lord Sunderland, Victoria reconheceria sua mãe como a mulher que sorria feliz atendendo mademoiselles numa loja de toilettes em Londres.

Conroy mal sabia ler o próprio nome, e a guerra só lhe ensinou causas impossíveis e em como atirar e estourar os miolos dos adversários. Em nada tinha experiência em cuidar de uma criança, e o pior: uma menina.

O pouco dinheiro que o Exército Britânico lhe deu para reconstruir a vida deu para uma boa muleta, e para pagar os primeiros dois meses de aluguel. Conroy Barrington, então, procurou emprego em todos os lugares possíveis de St. Helens. Os poucos trabalhos que conseguia acabavam em questão de dias; e então, Victoria avistava o pai voltar, abrir a porta com fúria e desabar o coração e as mágoas em garrafas de bebidas alcoólicas, que impregnavam a casa com o cheiro detestável que deixavam e das palavras sem nexo do pai.

Sem escolhas, aquele soldado, um cadáver mutilado em corpo e alma, deixou-se envolver em grandiosos e obscuros negócios. Victoria sempre se lembraria de como Conroy Barrington sumia por vários dias, às vezes, até por semanas, para voltar com os olhos injetados de sangue e os bolsos cheios de dinheiro. E o que não fosse usado para pagar o aluguel era gasto em providências mínimas de comida e muita, muita bebida.

Victoria lembrava-se também de quando, lentamente, o pai foi parecendo vinte, trinta anos mais velho, e de como cheirava a pó quente. E, um dia, quando ela o viu, sem querer, espetando aquela agulha no braço, levou uma surra tão grande que desmaiou copiosamente, acordando dois dias depois. Quando isso aconteceu, Conroy a abraçou tão fortemente que ela sentiu-se sem ar, e só a soltou quando já não tinha mais força nos braços, quando os olhos injetados demonstravam quão longe a droga em seu sangue já o havia levado, mentalmente falando.

Enquanto a conspiração de Cato Street, que tanto abalou as fundações britânicas da época, era revelada e seus culpados eram mortos, um a um, Victoria era consumida de febre e doenças, magra de corpo, mas sedenta de espírito. Conroy Barrington sumia quando isso acontecia, talvez na esperança de encontrá-la morta, mas ao voltar encontrava a casa recendendo aos poucos produtos de limpeza que tinham e a via firme e forte cozinhando alguma coisa para comerem. E, às vezes, ele sentia vontade de matá-la por isso.

Com a bondosa esposa do padeiro Kingston, que sabia ler e escrever e ensinava as crianças carentes, ela também o aprendera. Sabia ler e escrever muito antes de seus companheiros; mas esse dom não era apreciado pelo pai.

“Se eu encontrá-la lendo qualquer coisa, mesmo a Bíblia, eu parto você em duas, entendeu?”, ele finalizava, com os olhos em fúria. E, em seguida, passava a mão pelos cabelos dela, num rápido carinho, o único que ela recebia, e desaparecia em seu quarto, possivelmente drogando-se um pouco mais.

De vez em quando, quando sobrava algum dinheiro que não era gasto em bebidas ou em comida, Conroy Barrington o dava à sua filha para que ela comprasse algum doce ou algo parecido. Victoria, entretanto, ia guardando todos essas poucas notas, na esperança de ter sua própria biblioteca, um dia. E escondia todos os livros que conseguia comprar em um buraco oco na parede, coberto providencialmente com as pouquíssimas bonecas que tinha.

Entretanto, um dia, depois que havia lido “Hamlet” pela oitava vez, em parte porque não tinha muitos outros livros, em parte porque aquele era seu preferido, Victoria acabou adormecendo, e esqueceu-se do pai, que quando voltou, encontrou aquele livro e a vela ainda ardendo, quase se apagando.

Naquela noite, as réstias daquela mesma vela queimaram todos os sonhos da pequena de ter sua própria biblioteca. A história do homem vingativo de Shakespeare tornou-se mais um amontoado de papel carbonizado, junto com todos os outros tão preciosos livros que ela possuía. E, então, veio o tapa. E vieram outros, até virar um ritual mecânico de espancamento. Victoria estava ainda na penumbra caótica de seus próprios pensamentos, e não soube mais se chorava pela dor, pelos livros ou pelo pai, que estava desmoronando ali na sua frente, também chorando enquanto a agredia.

E, no dia seguinte, quando a tão temida síndica, uma mulher de peso excedente e voz estridente, veio cobrar o aluguel atrasado, espantou-se, até mesmo perdendo o fio da meada, ao ver aquela criança totalmente coberta de sangue e hematomas.

“Meu Deus!”, ela exclamou, instintivamente apertando a pequena Victoria nos braços. “Está tudo bem? Quem lhe fez isso, menina?!”

“Eu caí”, ela respondeu. “Algum problema com o aluguel?”

“Mas...”

“Algum problema com o aluguel?”

Victoria Barrington esperou o pai até tarde da noite, sentada na cadeira da mesa de jantar da cozinha. Quando Conroy chegou, cheirando a álcool e desesperança, ela respirou profundamente, arriscando encará-lo.

“Fomos despejados, papai”, anunciou. “Temos até amanhã para pegarmos apenas algumas roupas e poucos pertences pessoais. O resto, os móveis e outras coisas, será usado para pagarmos a dívida.”

Não teremos mais casa. Não teremos mais uma vida.

Era isso que os olhos daquele homem tão deprimente sussurraram, antes dele desabar na cadeira logo ao lado dela e passar a mão pelos cabelos, sem sequer saber como reagir.

Porém, sua filha foi mais rápida. E estendeu-lhe, delicadamente, o revólver de guerra, o único pertence que lhe sobrou daqueles tempos.

“Está carregado”, ela disse.

“Victoria...?”, Conroy gemeu.

“Há quanto tempo o senhor deseja fazer isso, pai? Livre-se desta vida. Se ela não pode te dar uma chance, então, ao menos, que não faça você sofrer muito. Não tema, eu sou forte. Posso me cuidar sozinha”, ela assentiu, insistindo em deixar aquela arma pesada em cima do colo dele. “Sobrevivi por muitas enfermidades, e você nunca me viu morrer. Nem me verá. Eu sou forte, papai. Vou agüentar mais um pouco, mas... Por favor, você já fez o bastante. Eu te perdôo. Vá em paz.”

Conroy Barrington ergueu-se, entontecido de um torpor incrédulo. Quem sabe, talvez sequer tivesse aceitado o fato que, amanhã, naquela mesma hora, seriam dois mendigos, indigentes sem mais um teto e mais nada.

Horas após, depois de ter tomado duas garrafas inteiras de bebida alcoólica, ele, pela primeira vez, encarou aquela criança, sua filha, como uma igual.

“Eu a amo”, sussurrou.

“Também o amo, papai”, sorriu.

“Perdoe-me por ter te...”

“Não pense mais nisso. Já disse que o perdôo.”

E entregou-lhe outra vez a arma, desta vez com seu pai aceitando-a.

Conroy colocou-a na boca, fechou os olhos e encostou o dedo no gatilho. Victoria não moveu um músculo, não derramou uma lágrima. Estava do lado dele, de olhos fixos no pai, cheia de expectativa... E inveja.

“...Não tenho coragem.”

“Quer que eu faça isso para você?”

Sem esperar a permissão daquele homem que, outrora, lhe pareceu bem mais ameaçador, Victoria Barrington posicionou seus dedos pequeninos de criança no gatilho, sentindo o peso e o frio metálico da arma. Suspirou de deleite.

“Obrigado”, ele sorriu também. “Estou orgulhoso.”

“Não, papai. Você está feliz por estar me abandonando e, como um bônus, abandonando também esse mundo. E está feliz porque eu, a culpada de tudo na sua visão inconsciente, continuarei aqui pagando pelo meu crime indelével. Mas, como eu disse...”, e aquela criança sorriu radiante, condizendo com uma petiz de sua idade. “...Eu te perdôo. E te amo. Vou sobreviver, ferindo e machucando qualquer um que interpor-se em meu caminho, abusando de qualquer meio, e aceitando todas as conseqüências que essa decisão acarrete. Vou ser grande. E, principalmente, vou ser tudo que você e sua alma deprimente não foram.”

Muitos anos mais tarde, quando estaria enfiando uma faca no braço de Cora Baker, Victoria Barrington lembrar-se-ia daquela madrugada onde, quando apertou o gatilho, o crânio do pai explodiu como uma melancia madura e jorrou sangue como aquele braço branco que esfaqueava, e de não ter sentido nada ante grotesca visão, apenas o tédio das coisas mortas e uma grande paz de espírito.

Victoria tornou-se órfã e livre. E tinha uma missão: ser grande.

Do mesmo jeito que prometeu ao pai.

Porém, o máximo de grandeza que conseguiu foi como limpadora de ladrilhos no prostíbulo Hazel Velvet, anos depois, abaixo de muita insistência e um toque pequenino do acaso. Antes disso, ela era conhecida pelos moradores dos arredores por partilhar sua vida com mendigos e pobres coitados que vinham esconder-se nos becos escuros da cidade decadente. Ninguém além dela própria jamais saberia o que foi sua vida naqueles anos de orfandade.

Ao menos, quando finalmente conseguiu o emprego naquele estabelecimento, ela sabia que não era qualquer casa noturna; escondida sob a fachada de um respeitável lugar, Amaryllis, a proprietária, comandava “suas meninas” com punhos de aço e palavras severas. Muitos contratos e reuniões entre ricos patriarcas e chefes que exalavam poder eram marcadas ali.

Victoria Barrington tinha tudo o que alguém que deseja crescer tem: paciência, disposição e sorte. Ela estava no lugar certo. Só precisava da hora certa e da pessoa certa, agora.

E, quando completou quinze anos, este dia chegou.

A limpadora de ladrilhos foi descoberta pelo “cliente fixo” de Mia, uma das mais velhas e respeitáveis cortesãs de Hazel Velvet, chamado Alrick Sunderland.

Um homem de pouca beleza física, mas, de acordo com as observações de Barrington, muito capital financeiro. Ele era o patriarca de uma das famosas Quatro Famílias, os ricaços que comandavam os negócios-mores de St. Helens. Dono de uma riqueza incontável e de impecável reputação, ela sabia que aquele homem era só mais uma alma frágil e quebradiça que vinha afogar suas incapacidades no leito permitido por Deus naquele, afagado especialmente pelo Diabo.

Alrick encarou Victoria. E o mundo dela começou naquele instante.

Ao mordomo que, antes de Irisa Baker, a tudo comandava, foi-lhe dada a ordem de abrir uma vaga a uma simpática e pobre garota que já não tinha mais onde ficar. Muito esforçada, muito bem quista e que, certamente, não causaria problemas. “Empregada da cozinha”, disse ele. E esse foi o papel de Victoria enquanto esteve naquela mansão.

Becka Sunderland, a lady da mansão, olhou-a de cima a baixo quando ela chegou, uma adolescente de olhos maliciosos e azuis, e suspirou.

“Faça como quiser”, disse-lhe, por fim. “Eu só não quero ouvir nenhum escândalo de meu marido engravidando empregadinhas. Fui clara?”

“Cristalina, milady”, Victoria dignou-lhe uma calculada reverência.

O problema era todo esse, não é? Era só não engravidar.

E, por mais de um ano, ela e o cond da mansão mantiveram aquele mesmo caso de chama ardente que brotou inconscientemente no ambiente de áurea podridão de um prostíbulo. Victoria suspirava não de deleite, mas de impaciência; aquele homem só exigia seu corpo. Tão entediante...

Porém, ela suspirou de extrema felicidade quando, quase dois anos após ter sido “empregada e amante”, Alrick e Anne Marie morreram, subitamente, de uma pneumonia que se complicou. E, como desejou, Becka estava indo pelo mesmo caminho. Um trono ficaria livre. O grande trono Sunderland!

Era só uma questão de mover as peças certas e, mesmo com a morte do amante, que poderia ter-lhe deixado tudo em testamento... Mesmo assim, ela iria conseguir usurpar aquele poder.

A esperança é tão afã e diáfana quanto uma estrela cadente.

E essa luz apagou-se, bem como seu rastro.

Um herdeiro foi anunciado. Um filho que Alrick Sunderland jamais mencionara, vindo de algum lugar muito distante, onde estava sendo educado para essas eventualidades. De saúde frágil, porém, de personalidade hercúlea. O moleque (apesar de, tempos mais tarde, descobrir que ele era um ano mais velho que ela, até) chamado Mitchell Sunderland, trazido especialmente para reinar onde devia ser o seu bendito trono.

A natureza, porém, presenteara aquela menina com nome de rainha com um dom especial, e totalmente necessário em um momento assim: a paciência.

E, assim, começara seu “plano B”, uma nova tática: seduzir o Sunderland Jr.

Se ele fosse tão tolo e inútil quanto o pai, dobrá-lo, ainda mais com o sangue quente inerente de sua juventude, seria uma tarefa mais fácil que tirar doce de criança. Mas Victoria sabia que não podia alegrar-se antes do tempo.

E, estava certa, afinal.

Mitchell Sunderland era um alvo muito mais difícil. Era uma fortaleza de alma e coração protegidos por uma capa de indiferença inumana.

Era o melhor desafio que ela podia ter tido.

Notas finais
...E algo me diz que vou ter que diminuir o ritmo de postagens antes que chegue até onde eu travei. ¬¬'