Bavarois
47 Capítulo LVI / Capítulo LVII
Notas iniciais
LVI
- Eu queria que Mitch estivesse aqui...
A lâmina daquela faca partia cada camada de derme que eu ainda possuía, e não eram poucas as vezes que pensei tê-la sentido atravessar inteiramente meu braço. As primeiras vezes deixaram-me às portas dos urros animalescos de dor, mas depois, foi como se tudo adquirisse um tom borrado de sonho, uma difusão nostálgica; também me sentia sempre assim enquanto Stuart Clayworth profanava meu corpo.
- Imagine só... Amarrá-lo também e fazê-lo ser testemunha de toda essa dor... Sem poder fazer nada...
Dor. A dor era tanta que me fazia tremer. Em pouco tempo, a sensação de ter aquele instrumento gelado penetrando minha carne já me era uma velha conhecida. E, ainda sim, me fazia estremecer e implorar o fim cada vez que a via baixar-se, procurando enterrar-se em mim outra vez.
Não me reconhecia. Ou, talvez, não reconhecia a nós duas: eu e Victoria parecíamos, em último caso, com animais.
- Ia ser meu paraíso particular...
O som das correntes de metal parecia uma banda de música direto em meus ouvidos, e eu tinha a sensação de que, se continuasse assim, eu ficaria surda por causa delas, enquanto meu estômago contorcia-se em asco e medo sempre que eu ouvia o som de minha própria carne contra a faca já manchada de sangue viscoso e vermelho vivo.
Mas eu já não estava mais ali... Em meio à dor, fui transportada, como mágica, talvez por alguma entidade dos céus que ainda gostasse de mim, mesmo eu sendo uma alma tão cheia de pecados, para as cozinhas da mansão Sunderland.
Sim, eu estava limpando o chão, as janelas... Eu estava sorrindo. Sem dor, enquanto mamãe Irisa acariciava meus cabelos, agradecendo-me pelo bom trabalho.
- Cora... Está ouvindo minha voz...?
Eu estava lá. Estava em qualquer lugar que não fosse numa prisão subterrânea e fétida, com uma mulher louca me subjugando com sangue e metal frio.
- Ei, menina!
A pesada mão de Victoria Barrington acertou meu rosto, e aquela dor que, por um mísero instante, foi até maior que a de meu braço, fez-me acordar.
...Eu ainda estava naquela câmara úmida e escura.
- Você sabe que não deveria ter feito isso que fez, não é? Devia ter se afastado do Mitchell quando pôde. – ela sussurrou-me no ouvido; sua voz estava rouca e bem composta, totalmente diferente do tom maquiavélico que usara até então. – Sabe que não deveria ter feito isso que fez, não é? Devia ter se afastado do Mitchell quando pôde.
Procurei Edward Shelser com os olhos, e não o encontrei. Ele havia, em algum momento, sumido dali. Provavelmente enquanto eu agonizava.
- Não... Se bem que não teria dado certo. Teríamos te capturado igual...
...Sozinha com Victoria Barrington.
- Cadela. O que eu não consegui com mais de meio ano de empenho, você consegue em poucos meses. – “Lydia” praticamente cuspiu aquelas acusações em meu rosto. – Imperdoável! Realmente imperdoável!
E, como eu temia, aquela faca cravou-se novamente em meu braço, mas, desta vez, não me arrancou mais do que um fraco gemido de dor.
- Ora... Não sente mais esse braço, Cora? – Victoria riu, o rosto contorcido em gozo sádico, enquanto a ponta da faca manchada de sangue deslizava por meu ombro, passando por meu colo e indo parar no ombro direito. – Bem, então vamos mudar para o outro, que tal?
A mesma dor excruciante que antes maculava a consciência voltou a correr solta, espalhando-se por todos os nervos de meu braço direito. Desta vez, foi impossível não ter gritado de dor, enquanto novas lágrimas escorriam sem nenhum obstáculo por meu rosto que continuava manchando-se de mais sangue do corte em minha testa.
E, mais uma vez, as correntes voltaram a sacudir. Um ária angustiante de sons metálicos, todos retumbando em cada osso.
...Quando ela iria me matar?
LVII
Talvez, jamais aquele corredor tenha me parecido tão longo antes. Era como se eu estivesse preso em algum samsara, algum ciclo eterno. A chuva castigava o telhado daquela mansão, grossas e quase pontiagudas gotas de cristal líquido derramava-se do céu plúmbeo, chicoteando a cidade adormecida.
Enquanto corríamos, vez ou outra caía ao longe um trovão, cavalgando nuvens e rasgando a escuridão da noite com suas garras. O som estridente fazia-me, estranhamente, só ficar mais nervoso.
Ninguém em sã consciência sairia de casa em uma madrugada tão cruel.
Mesmo assim, naquela noite, quando acordei, ela já não estava mais ali. E em nenhum lugar que eu tenha visto. Tudo que achei, o único rastro de Cora Baker que ainda restava naquela casa era o livro caído ao chão, um dos exemplares de “Hamlet” que eu possuía, e as pegadas molhadas, porém grandes demais para serem do pé de uma mulher.
De imediato, foi como se um trovão tivesse atingido a mim. Não pude mais pensar com clareza depois da constatação de que alguém invadira a propriedade Sunderland, entretanto, como se aquela fosse a noite das invasões, Irisa veio até mim, o olhar em pânico, ainda de camisola de dormir. Tinha uma vela na mão trêmula, e os cabelos em desalinho indicavam que acabara de acordar, talvez de um pesadelo, para um ainda pior.
“Jovenzinho!”, disse ela. “Emma Shelser está aqui!...”
O tempo de me vestir, talvez, foi o mesmo que levei para piscar os olhos. Passei a mão pelos cabelos assim que vi diante de mim a porta cheia de arabescos da biblioteca. Irisa indicou-me que deixara Emma ali, enquanto me chamava.
Abri, o rangido ecoando pelo estabelecimento mal-iluminado, e encontrei aquela dama irritante de pé, de costas para mim.
Emma virou-se tão logo me ouviu chegar:
- Mitchell! – disse ela, abrindo um assustado sorriso.
Percebi-a encharcada de chuva e com uma camisola branca de fitas cor-de-rosa, que ficava transparente em alguns lugares graças à água torrencial que desabara sob seus ombros e escorrera por toda a extensão de seus 1m68cm (ironicamente, ainda lembrava-a dizendo o quanto se sentia feliz por ser mais alta do que a maioria das ladies que conhecia, com exceção de Catherine, talvez, e só).
- Emma! – corri até ela, desistindo do casaco que estava usando e colocando-o sobre os ombros dela, assim que a percebi tremendo. – O que está fazendo aqui a essa hora? Que aconteceu?!
Virei o rosto, entrevendo Irisa parada perto da porta, com a vela na mão; sua presença silenciosa, pela primeira vez, não me consolou.
- Eu... Eu... Eu corri... Corri para cá...
Só então, além de sua aparência deprimente, percebi que, além de trêmula, Emma Shelser estava arfante, como se tivesse corrido por muito tempo.
Imediatamente, pensei que enfrentar uma tempestade daquela envergadura em uma noite que, naturalmente, já era gelada era uma tentativa tola de suicídio. Fechei três botões do casaco e, ignorando o fato dela estar totalmente encharcada, sentei-a no divã escarlate.
Ela suspirou e me encarou, os olhos amedrontados e frágeis.
- Por favor, não...
Ignorando o protesto feito em voz diáfana, sacudi a cabeça, como se estivesse-a dizendo com a linguagem corpórea que ela devia calar-se, por enquanto.
- Irisa?
- Sim? – ela respondeu, dando um passo à frente.
- Pode preparar alguma bebida quente para a lady Shelser? Aparentemente, ela veio correndo sem carruagens ou cavalos de lá até a mansão Sunderland.
- Agora mesmo, jovenzi...
- Não, não quero nada! – a arfante Emma interrompeu-nos, causando a ambos a clara surpresa. – Não quero nada... Já perdi tempo demais na corrida...
Passando a mão pelos cachos úmidos e enegrecidos, suspirei.
- Emma, o que aconteceu? Respire fundo e me conte. – apesar disso, eu próprio mal conseguia conter minha ansiedade.
Shelser chegara em péssima hora.
Eu já não sabia o que fazer e a quem recorrer, e agora, cuidar de uma moça igualmente ansiosa era tudo o que eu não precisava.
- Vi papai... Eu vi meu pai... Com a senhorita Baker... Nos braços...
Pude ouvir, ao longe, mais um trovão derramando-se em uma luz argêntea que inundou toda a biblioteca. Seu rugido permaneceu por muito tempo ali dentro, como se estivesse acariciando cada um de nós.
- Ele desceu... Aos subterrâneos... Tenho certeza que desceu. – ela continuava, num tom desconexo que me causou até pena. – Cora estava desacordada... E eu os vi desaparecendo... Escada abaixo...
O som abafado de surpresa de Irisa Baker podia ter sido, muito bem, o meu. Deixei a mão cair, sem mais forças em meu corpo, até o chão.
- ...Você viu isso acontecer, Emma?
- Tão logo vi, fugi pela janela... Eu... Eu corri... Corri até aqui... – e suas mãos agarraram-se em meus ombros. – Deus, Mitchell, eu perdi tempo demais!... Enquanto isso, o que meu pai já fez a ela...?!
Lembrei-me, nunca saberia dizer porquê, de quando tinha cinco anos.
Do dia feito de nuvens que encobriam a maior parte do sol, enquanto um halo transparente de orvalho ainda vagava sem rumo pela atmosfera de St. Helens, aquela cidade que eu tanto abominava.
Alrick Sunderland, o homem que se considerava meu pai, deu-me um beijo de Judas na testa antes de fechar a porta da carruagem. E eu me vi sozinho, pela primeira vez, com Edward Shelser, o dono da mansão para onde eu iria. Não conversamos nada; e, quando chegamos à sua casa, ele tomou-me pela mão e me indicou uma escada.
Descemos, com um caminho tortuoso de velas e mármore frio nos seguindo onde quer que fôssemos. E tudo ficou escuro a partir de então.
“Ninguém nunca sai daqui como entrou”, ele dizia-me. “Isso quando se sai.”
- Por favor, Mitch... Eu não posso sozinha... Meu pai levou a Cora... – alheia às minhas memórias, Emma continuava insistindo.
- Irisa? – chamei-a uma vez mais.
Irisa Baker, a mulher que esteve comigo por toda uma vida, tinha os olhos úmidos de água, mas flamejando de convicção.
- Sim, jovem Mitchell?
- Você sabe guiar carruagens, não é? – perguntei-lhe, passando a mão outra vez pelos cabelos. – O senhor Matthew ensinou-a a fazer isso, correto?
- Jovenzinho?...
- Não temos tempo a perder. Teria como pedir para algum dos peões preparar uma carruagem para que você nos leve até a mansão Shelser?
Ela parecia surpresa com aquela decisão tão impensada, tão diferente do meu habitual (e até eu ainda estava assustado com minha reação).
- Mas...
- Edward invadiu minha casa. É o troco.
- Por favor, senhorita Baker... – Emma também a encarou, e eu achei-a uma tremenda covarde por jogar com aqueles olhos de cão faminto com uma mulher cujo espírito maternal ultrapassava a lógica.
A vela de Irisa bruxuleou enquanto ela se virava e abria a porta uma vez mais, espalhando o som do rangido da mesma.
- Deus, não tenho mais idade para esses sustos!
- Vamos, Emma.
- Sim!... – e, em questão de segundo, já estava me seguindo.
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