Bavarois
46 Capítulo LV
LV
Eu contemplei aquela mulher que, outrora, parecia-me tão inalcançável e distante, uma verdadeira ninfa perigosa. Victoria Barrington, entretanto, agora estava brincando com meus cabelos, com aquele seu sorriso perfeitamente ameaçador, tão perto de mim que sentia o aroma de sua toilette e via perfeitamente os recantos escurecidos de sua íris de um azulado perfeito.
Evoquei a última imagem decente que tinha dela, há muitos anos atrás, quando eu ainda era uma criança assustada e estranha. Victoria estava trajando um comportado vestido negro, enquanto deixava aquele seu perfume inebriante pairando por muito tempo nos corredores. Sem querer, nossos caminhos encontraram-se. Eu estremeci no mesmo minuto, mas ela apenas me sorriu.
“Boa tarde, senhoritazinha”, e fez uma mesura comportada, enquanto ia puxando de leve as bordas do vestido e curvando-se.
Ainda lembro-me de que ela tinha um belo sorriso no rosto.
“Ah, si-sim...!”, eu gaguejei, ainda com o pano que usara para limpar as janelas. “Bo-boa tarde, senhorita Barrington!...”
Porém, a imagem quebrou-se como vidro, espalhando-se pelo chão, e todas refletiram o brilho áureo que foi se tornando, aos poucos, algo tão escuro quanto piche, grudando-se à figura distorcida de uma cúmplice de crimes incontáveis, com um sorriso de víbora e olhos de tigresa.
- É você mesma, Victoria...? – debilmente, balancei a cabeça, como se não quisesse acreditar naquilo.
- Carne e osso, querida. – e, abandonando meus fios acobreados, ela deixou-se acariciar meu rosto, como fez Edward Shelser, a alguns momentos atrás.
- Você está tão...
- ...Diferente? Foi mesmo necessário fazê-lo, minha pequena. – e ela tocou seus próprios cabelos agora, espalhando aquele cheiro doce que, unido ao fétido aroma do quarto em si, me deixava nauseada. – Também o alisei, percebeu? Fiquei mesmo irreconhecível a esse ponto? Que bom! – sorriu abertamente.
- Por que, Victoria...?
- Isso é óbvio, Cora, querida: eu não posso aparecer na superfície de novo assim, sem nenhum preparo. Afinal, “Victoria Barrington” está morta.
Desviando os olhos de mim por míseros segundos, ela calou-se, enquanto eu acompanhava o trajeto de suas mãos e percebia que ela ia pegar o pano e, possivelmente, limpar minha testa. Enquanto isso, Edward Shelser sorriu-me, alisando outra vez a inscrição do brasão de sua família com os dedos.
- Pode chamá-la também de Lydia, senhorita Baker. – assentiu-me. – “Lydia Usher” é o novo nome dela, tão logo suba outra vez a St. Helens.
- É mesmo... – concordou Victoria, parecendo absorta em seus próprios pensamentos. – Acho mesmo que seria bom treinar já. Chame-me de Lydia, Cora. Não acha que é um bom nome, esse?
Estremeci diante do contato gelado do pano úmido em meu rosto. Minha vontade, realmente, era chorar de raiva, mas meu cérebro continuava, apesar disso, enviando mensagens insistentes para que eu mantivesse o sangue frio; o desespero, eu bem sabia, só pioraria as coisas.
Victoria limpou-me o queixo, subindo por minha bochecha, até chegar no corte em minha testa de onde vertia o sangue.
- Ora... Ed, querido! – ela elevou em algumas oitavas a voz. – Você machucou-a feio aqui. Não se faz isso no rosto de uma dama!
- Realmente, exagerei um pouco na força. Não calculei na hora. – ele assentiu, e com uma educada mesura digna de um patriarca, curvou-se diante de mim. – Sinto muitíssimo por isso, senhorita Baker. Se ficar alguma cicatriz, irei me responsabilizar por isso.
Passando-me o pano úmido que se manchava, aos poucos, do mesmo escarlate do vestido dela, um tremor de dor percorreu-me o corpo, e bem a tempo contive o gemido ante a ardência do corte.
- Machucou?... – ela perguntou com um tom maternal que me causou asco.
- Não. – resmunguei de volta, virando o rosto.
Para meu (maior) espanto, Edward Shelser também participou daquela cena bizarra, aproximando-se de mim. – Gostaria de um curativo?
- Não será necessário, obrigada. – devolvi, engolindo em seco.
- Você é uma criança corajosa, Cora. – sorriu-me “Lydia”.
- Tenho dezessete anos. Não sou mais uma criança.
“Lydia Usher” riu, talvez de minha óbvia inocência, mas preferi considerar aquele riso uma mostra sádica do que estava por vir.
- Também falava a mesma coisa quanto tinha a sua idade...
- Ah, essa energia toda que só a doce juventude possui... – Shelser sorriu, surpreendendo-me, pois por um breve instante, cheguei a esquecer de sua presença no recinto. – Quase as invejo por isso.
Victoria riu e, deixando-me só por um momento, foi até o cond Edward, deslizando seus braços ao redor do pescoço dele e dando-lhe um estalado beijo na bochecha (enquanto eu ficava mais e mais assustada com aquilo).
- Não diga isso, querido. Você ainda é jovem. – ela dizia, com aquele seu sorriso sedutor de víbora pintado em escarlate. – Nem imagina o quanto.
- ...Pare de massagear meu ego, Vic. – ele devolveu, divertido.
- Jamais faria isso. Estou dizendo a verdade.
Enlaçando-a igualmente pela cintura e descansando o queixo sobre os cabelos negros e perfeitos, Edward Shelser soltou um suspiro antes de quebrar o estranho silêncio que se abateu sobre nós.
- Você percebeu... O cheiro dela?
Victoria, tão logo ouviu isso, pareceu-me uma pessoa que foi subitamente chicoteada com um violento tapa no rosto. “Dela”, percebi, era eu própria.
Com uma fúria que poucas vezes vi em olhos de um humano, aquela mulher enfronhada em um belo vestido vermelho veio caminhando até mim, o som de seus sapatos ecoando em toda a sala, enquanto eu lutava com aquelas garras de metal frio que se fechavam em meus pulsos e tornozelos.
Uma lufada de ar putrefato emanou repentinamente, impregnando um pouco mais minhas roupas e minha pele. Percebi aquele pano branco manchado de vermelho-sangue jogado ao chão, enquanto Victoria, impiedosamente, pisava em cima dele, ao se aproximar de mim e inclinar-se outra vez.
Enquanto ela o fazia, Edward Shelser movimentava a “mesinha” médica, trazendo para mais perto de nós os instrumentos médicos reluzentes sob a luz áurea das velas.
Imediatamente, todos meus instintos e noções de perigo avisaram-me que eu estava diante de uma situação absorta e totalmente inenarrável.
Tive, porém, a confirmação consumada disso quando “Lydia Usher” pousou seus olhos nos meus; nunca vi um azul tão assustador. Não era como os orbes de Mitchell, penetrantes, porém calorosos e gentis. Era como encarar um abismo no qual era capaz de perder-se de tudo, o corpo e a alma, e nunca mais voltar à superfície.
- Com licença, Cora. – pediu-me ela.
No segundo seguinte, senti o nariz dela pressionando-se contra meu pescoço, aspirando-o e derramando sobre o mesmo o ar quente de sua expiração. Ela farejou toda a extensão daquela parte de meu corpo, subindo até o queixo.
Aparentemente, foi o suficiente, porque quando voltou a me olhar, tinha os olhos injetados de fúria e os lábios vermelhos comprimidos.
- Cheira a Boss.
- “Boss”...? – perguntei eu, finalmente pensando que, talvez, não fosse tão má idéia deixar-me tremer de medo que, de fato, eu estava sentindo.
- É o perfume do Mitch. – Shelser me explicou, com um sorriso que beirava a diversão sádica.
- Você... Está... Cheirando ao perfume dele... – ela sussurrava-me, bufando a cada sílaba, como se aquela constatação fosse a queda de seu mundo. – Está impregnada... Do cheiro dele...
Eu queria gritar, mais do que nunca agora, mas não houve tempo sequer para piscar. Quando percebi, já havia acontecido.
Com um gemido de surpresa que não pude conter, vi quando Victoria Barrington agarrou-me pelos cabelos, puxando-os até que meu pescoço quase se descolasse do resto de meu corpo, fazendo-me inclinar-me o máximo que eu conseguia. Quando a olhei, finalmente deixando meus olhos encherem-se de lágrimas, eu tive medo.
Nunca vi tanto ódio na vida. Estremeci vergonhosamente, entreabrindo em surpresa os lábios, e clamando com toda a força que possuía, mentalmente, o nome de Mitchell ou mesmo de minha mãe Irisa. Até mesmo Ceres Valerie, aquela mãe distante que eu tanto queria esquecer, estava sendo evocada por mim... Qualquer um, eu só queria ser salva daquele olhar que me corroia aos poucos.
- Quantas vezes?! – ela bradou, sacudindo-me pelos cabelos e arrancando de mim amargas lágrimas.
- O que...?! – debilmente devolvi-lhe, confusa e assustada.
- QUANTAS VEZES, CORA BAKER?!
- Victoria... Controle-se... – a voz de Edward Shelser, atrás de nós, era como uma dissonância estranha que eu já não reconhecia, presa em meu próprio pânico, apenas com o grito de “Lydia Usher” ecoando em meus ouvidos.
Numa fria compreensão que assaltou-me em boa hora, eu não corei por entender o sentido de sua pergunta, mas estremeci por ter de ser obrigada a respondê-la.
- Duas... Duas... Eu juro, só duas... – sussurrei-lhe debilmente (ignorando, talvez providencialmente, do fato de que, naquela noite onde nos unimos pela primeira vez, Mitchell torturou-me várias vezes, não apenas... Uma vez).
Aquela resposta não pareceu animá-la:
- E qual é o seu período fértil?! – mas, ao menos, acalmou-a um pouco.
- O que...?! – repeti, ainda mais assustada.
- Quando descem as suas regras, Cora Baker?! – ela sacudiu mais um pouco meus cabelos, arrancando-me um novo gemido doloroso.
- Nos últimos dias do mês...
O rosto de Victoria crispou-se de fúria uma vez mais. – MALDIÇÃO!...
- Victoria, por favor, mantenha a compostura. – Edward Shelser pediu uma vez mais, apenas observando, um pouco afastado de nós. – Está se envergonhando.
Passando a mão pelos cabelos agora enegrecidos, ela encarou o cúmplice:
- Você não está entendendo, Ed?! Essa pirralha está grávida! Muito provavelmente está grávida, afinal, está em seu período fértil! A infame... – tive ainda mais medo de Victoria naquele momento; ela parecia que ia morrer engasgada com aquelas palavras. – Deus, ela está carregando mais um obstáculo em nosso caminho, não está entendendo?!
- Eu estou, querida. – ele assentiu. – Assim como também entendo que temos a senhorita Baker rendida sob nossa vontade.
Para o meu azar, aquelas palavras pareceram consolar a descontrolada Victoria Barrington. Porém, meus olhos acompanharam a trajetória de sua mão; e eu não gostei nem um pouco da mesma.
Ela pegara nas mãos trêmulas de raiva uma faca. Parecia muito com as facas de cozinha usadas para cortar peixes nos dias santos. E eu imaginei, com um pânico que me fazia suar frio, o que diabos ela faria com a mesma.
- Victoria... – Shelser, como se a estivesse avisando de alguma coisa, repreendeu-a uma vez mais.
- Não vou fazer isso, Edward. Ainda.
O brilho metálico daquela faca imaculada riscou o ar, como se fosse um dos trovões que tão incessantemente caíam em St. Helens. O som da velocidade com que ele vinha, pronto a acertar o alvo, assustou-me, fez-me lembrar de uma cena de degola de animal que vi quando pequena, e que muito me chocou. E me fez lembrar do dia em que brandi uma faca, como Victoria, e enfiei-a no pescoço de meu pai.
Ela também enfiou aquela faca em um pedaço macio de carne humana.
E eu gritei como nunca quando isso aconteceu.
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