Notas iniciais
De vez em quando (raramente) apareço por aqui com uma novidade. Dessa vez, um pokéshipping. :) Espero que gostem. ♥

A cidade de Cerulean estava em grande festa.

Pela primeira vez, trazida de outros continentes, uma tradição era instaurada para o contentamento dos habitantes ceruleanos: o Carnaval Pokémon.

Não era comum a cidade adotar particularidades de outras regiões, contudo, após o prefeito realizar uma viagem – transitando em especial pelo território de “Zilbra City” – que, inicialmente, era só a negócios, no seu retorno trouxe consigo novos costumes com o pretexto de aproximar turistas e atrair a atenção de outras sedes.

Naquele dia, as ruas estavam em polvorosa.

A ampla praça fora enfeitada com adereços coloridos, enquanto a via era organizada para o desfile de alegorias. Alguns caminhões foram ornados com diversos acessórios, ao mesmo tempo que os Pokémon se fantasiavam e ocupavam seus lugares junto aos treinadores – esses também fantasiados e maquiados a rigor.

Seria uma linda celebração.

Até mesmo o notável ginásio entrou para a festança. As irmãs sensacionais, conhecidas popularmente pela juventude, beleza e talento, já estavam em seus trajes de sereia e, acompanhadas dos Pokémon aquáticos, bailavam no aquário público ao som daquele ritmo quente produzido pelos batuques de tambores e pandeiros.

Todos foliavam, com exceção de uma pessoa, que estava distante desde que voltou para sua rotina.

Ela, a irmã mais nova, ávida por aventuras, no entanto, atada a um destino parcialmente estagnado. Não a entendam mal: ela estimava muito a sensação das batalhas como líder do ginásio, das vitórias e das revanches, de cuidar daquele lugar que era a sua casa e, principalmente, do convívio com os adorados seres aquáticos. Todavia, depois que experimentou a sensação de autonomia, quando retornou ao lar, sentiu que deixou algo importante para trás, dissolvido nos ares de novas realidades agora muito distantes.

Era doloroso conhecer parte do mundo e não poder desbravar o restante.

E um pouco mais doloroso era não ter seus amigos por perto, ainda que um deles fosse um tremendo cabeça dura, imaturo e mais teimoso do que ela só.

A menina permitiu escapar um acanhado sorriso. Afinal, apesar das desavenças, seus dias ao lado dele eram insubstituíveis. Eram frescos como o primeiro ar da cálida manhã de verão. Eram doces como o aroma de um bolo assando no forno de uma doceria. Davam arrepios como o toque álgido da brisa invernal. Eram marcantes como o cheiro dos primeiros pingos na terra seca depois de um período muito longo sem chover.

Um nó formava-se dentro dela; sentia tristeza, falta, saudade.

“Tuc, tic, tuc, tic, tuc, tic”

As batucadas não davam trégua nem por um segundo. E a garota compreendeu que não estava em uma jornada naquele momento e sim em meio ao agito quando, enfim, despertou de suas lembranças.

Sentada em um banco da praça, observava o movimento na esperança de se animar e desfrutar do primeiro dia daquele evento, até então, excêntrico.

“Tuc, tic, tuc, tic, tuc, tic”

Repetiam os instrumentos, formando filas de pessoas e pokémon atrás do alarido.

“Tuc, tic, tuc, tic, tuc, tic”

Acompanhadas de canções pitorescas que fixavam rapidamente na cabeça e não podiam deixar de ser cantadas a peito aberto ou, singelamente, cantaroladas.

“Tum, tum, tum, tum, tum, tum…”

Vibrou o coração dela subitamente, quando avistou, ao longe, um boné vermelho escoltado por um par de orelhas cumpridas e amarelas. E, confusa, não sabia se estava percorrendo os seus próprios sonhos ou se os seus vivos desejos concebiam ilusões.

Entretanto, a música, as danças, os festejos e o brilho das lantejoulas em cada fantasia que passava permaneciam naquele cenário de felicidade.

Inconscientemente, ela ficou de pé, levantando a mão em um tímido aceno, tentando compreender se a realidade era tangível.

De repente, as íris amendoadas do garoto encontraram as íris esmeraldinas que habitavam o rosto da ruiva e, de uma simples troca de olhares, uma energia vivaz tomou conta do espaço, onde as emoções se mesclavam e os sentidos já não se faziam funcionar devidamente. Um instante exclusivo dos dois.

E a consonância perfeita fazia-se entre as batidas dos corações e os batuques carnavalescos.

Porém, ela entendia que aquele momento duraria não mais que alguns dias.

Ele tinha o espírito livre, tal qual o vento que sopra e deixa suas marcas onde quer que passe.

Mesmo assim, a menina sorriu, contente.

E, naquela ocasião, ela percebeu que passaria a amar carnavais.

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