Batom Vermelho e Sete Oitavos
1 Se abrem as portas de um Bordel!
Notas iniciais
–Já vai sair?– resmungou Celinha – Não se cansa de cantar naquele bar moribundo?!
–Não se cansa de fazer o que se ama!- disse avoado pegando meu violão apoiado na frente da porta.
–Menino quando você vai parar em casa para almoçar? Eu faço toda essa comida à toa?!
–Até logo Celinha!- sai e bati a porta.
Meu nome é Miguel. Tenho 19 anos e sou musicista, canto com a alma e um violão de cordas velhas. Tento ganhar a vida tocando no Recanto do Chop, um bar de esquina qual o chão não vê um esfregão há décadas. Moro junto à empregada da minha avó, Celinha. Eu era garoto quando minha avó morreu e, já que meus pais me largaram com ela, fui criado por Celinha.
Atualmente, moramos em uma fazenda que minha avó deixou para nós, onde cresci desvendando todo tipo de beleza que a natureza guardava (daí vem toda minha inspiração para músicas e poemas), mas sempre quis explorar o mundo que há do lado de fora de Minas Gerais. Minhas músicas tratam da natureza, da beleza que a vida transmite, da cidade, tudo menos de uma coisa... mulheres.
Nunca me entendi com garotas, apesar de ter crescido ao lado de Mari, minha vizinha qual o pai é dono do principal (e único) armazém da cidade. Sempre quis desvendá-las, conhece-las, mas como Celinha diz, tenho um coração muito burro.
Era uma manhã de terça-feira bem comum, onde crianças corriam e brincavam e meu "amado" bar estava repleto de bêbados velhos e divertidos, quais sempre me escutavam tocar o que fosse.
–Miguel!- exclamou Luís, dono do bar- Não está meio cedo? Você só teria que vir aqui às 20 horas, não às 8 da manhã!
–Posso fazer dois turnos- disse sorrindo bobamente.
–Você nunca muda né garoto?- bagunçou meu cabelo- Vá se divertir, passear pela cidade, e só volte aqui na hora certa.
Assenti com a cabeça e segui em frente até a praça principal. Logo vi um alvoroço de gente amontoada na frente de uma casa com um letreiro enorme escrito "Rubi Noturno". Me juntei à multidão que estava repleta de homens; em cima de um tablado estavam dois homens, sendo um deles o prefeito.
– Caros amigos e amigas desta minha cidade amada! Hoje nesta linda manhã anuncio a abertura oficial do Bordel Rubi Noturno! Que funcionará a partir de meia-noite desta noite!- diz o prefeito entusiasmado cortando a fita vermelha que bloqueava o portão principal.
Todos aplaudiram e assoviaram em comemoração. As mulheres da cidade já haviam se dispersado em grupinhos de cinco para espalhar fofocas; já os homens, bom, mais de uma dúzia deles sentaram perto do estabelecimento para esperar abrir. Eu já estava de saída quando vi que o dono do bordel colocou uma placa que dizia:
“PROCURA-SE MÚSICO PARA TOCAR E COMPOR TODAS AS NOITES”
Eu entrei em uma espécie de ataque epilético feliz com uma corrida desajeitada que minhas pernas não andavam como as outras pernas humanas normais.
–Senhor!-berrei-Bom dia!
–Bom dia rapaz, ainda não estamos abertos, volte meia noite- disse o dono do bordel já se virando para entrar.
–Eu não vim por isso! Vim para a vaga de músico- disse sem hesitar.
–Músico?- virou-se o dono, intrigado- Não é muito novo?
–Sou admirado por toda esta cidade! Escrevo minhas músicas desde garoto e...- ele me interrompeu.
–Sem histórias garoto, o emprego é seu- disse o dono sorrindo e pegando um charuto do bolso do paletó- Escreva uma música para a estreia de hoje, mas não vai cantar.
–E quem vai?- questionei.
–Valentina- tragou seu charuto- Vai conhecê-la hoje à noite. Fique tranquilo, ela é um anjo de menina... Agora já vou, boa sorte garoto.
– Obrigada senhor, não vou decepcioná-lo- disse entusiasmado- E também, sou Miguel.
–Pablo, prazer.
Saí disparado pela rua até minha casa, mas cruzo com Mari no meio do caminho.
–Miguel! Aonde vai com toda essa pressa?!- perguntou Mari.
–Eu consegui um emprego fixo Mari! De músico!
Continuei a correr e abri a porta de casa com um chute, que foi seguido por um grito de Celinha.
–Menino se você quebra essa porta eu juro que te faço fazer outra com as próprias mãos!- disse raivosa.
Eu avancei nela e a abracei o mais forte que pude, ela ria com tanta alegria que eu passava.
–Não te vejo tão feliz assim desde que fiz aquele pudim terça passada. O que foi que houve Miguel?
–Eu vou ser músico! De um bordel, mas.. MÚSICO!
–De um o que?- disse Celinha rindo-Menino você não vai trabalhar, só vai ter olhos para as moças de barriga de fora.
–Tenha dó, não sou dessas coisas, amo o que faço e só faço o que amo.
–Espere só até ver um par de melões italianos daquelas moças bem dotadas...- disse Celinha rindo e depois chicoteou um pano de prato em meu braço- Mas o que você tem que fazer para hoje?
–Uma música- respondi.
–Então vai trabalhar miserável!- disse me empurrando para as escadas com uma vassoura em mãos.
Passei o dia todo compondo a música de estreia de minha vida artística e do Rubi Noturno. Enfim chegara a grande hora. Eram onze e quarenta e cinco e eu estava frente a frente da porta vermelha gigantesca daquela casa. Tudo que pude ver ao abrir era um grandioso e luxuoso palco equipado com variados instrumentos quais me faziam babar mais do que qualquer homem babaria naquela noite pelas mulheres seminuas. Pablo desceu as escadas com duas mulheres de lingerie preta, agarradas cada uma em um braço.
–Miguel! Meu jovem músico; escreveu a letra de hoje?- saudou Pablo com um charuto entre os dentes.
–Sim senhor- respondi já com a música em mãos- O senhor gostaria de dar uma olhada?
–Não, tudo bem, gosto de surpresas, boa-sorte rapaz! E boa noite- disse apressado levando as duas mulheres para outro lance de escadas.
De repente ouço uma voz feminina aveludada vinda da coxia do palco.
–Você é o tal músico?- disse a voz.
–Já sou tão conhecido assim?- disse meio encabulado. Ela riu.
–Posso ler a música?- disse a voz, pondo à mostra um braço estendido entre as cortinas.
–Claro- entreguei-a o papel- Sou Miguel, prazer.
–Valentina- disse a voz um tanto distraída- Essa letra está maravilhosa, ensine-me a melodia.
–Não vai sair daí, senhorita Valentina?- perguntei intrigado.
–Você parece ser uma pessoa boa, não quero que me veja com este “figurino”...
–Certo, então vamos aprender este raio de música- disse rindo.
Meia noite. Uma porção gigantesca de homens estava presente nas mesas e outros nos sofás junto às dançarinas. Eu estava no palco de smoking afinando meu violão quando as cortinas se abrem repentinamente. Eu arregalo os olhos com a quantidade de pessoas na plateia. Fiz a saudação à mesma e anunciei o nome de Valentina, que ao dar o primeiro passo dentro do palco, deixou meu coração à mil.
Valentina estava linda. Com seus cabelos dourados sobre seus ombros nus. Seu vestido vermelho revelava por completo suas costas, além de realçar seu busto. Na saia do vestido havia uma abertura para perna que revelava nada mais nada menos que uma meia sete oitavos atraente.
Quando segurou o microfone e o levou à boca, uma voz angelical invadiu todo o bordel, como um canto de sereia em alto mar. Logo percebi que fui pela primeira vez, enfeitiçado por uma criatura fantástica chamada Valentina.
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