Sirius Black é horrível em poções.

E quando eu digo “horrível” não estou exagerando, é horrível mesmo, horrível em níveis catastróficos, horrível do tipo caldeirões explodidos e queimaduras de terceiro grau. Isso não é segredo para absolutamente ninguém em Hogwarts, pelo menos 10 pessoas já foram para a Ala Hospitalar por causa dele. Ele é tão ruim que seus amigos elaboram a tirar no palitinho quem iria ter que fazer par com ele na aula.

Ele não tem nenhuma paciência, não pesa os ingredientes direito, não faz os cortes certos, não consegue manter a concentração por tempo suficiente. Muitas vezes me perguntei se aquele cara na aula de poções era o mesmo que possuía uma aptidão incrível na aula de transfiguração.

Uma vez ele fez uma poção para espinha e isso resultou nele correndo até mim, desesperado, com um cara VERDE. E isso é um exemplo pequeno, tenho pelo menos quatro cicatrizes da época em que tentei dar aulas particulares para ele durante o quinto ano, época essa que foi extremamente frustrante já que eu não consegui ensina-lo nem a mexer um caldeirão sem espirrar o liquido .

Levando tudo isso que contei em consideração, não vou mentir dizendo que não ficamos aliviados quando ele não conseguiu nota suficiente para continuar na matéria no sexto ano.

Entretanto, Sirius Black é persistente.

Persistente a um ponto preocupante, qualquer um com sua total incapacidade de usar um caldeirão já teria desistido e procurado uma carreira que não precisasse chegar a vinte metros de um. Mas ele insistia que um bruxo de verdade deveria conseguir fazer poções simples e continua tentando. Admirável se você quer saber minha opinião.

De qualquer forma o ponto é que quando Sirius corre desesperado, com os olhos arregalados e a respiração ofegante, eu já sei que alguma das suas tentativas de poção deu errado. E é exatamente assim que ele corre em minha direção naquela tarde em que eu estava preste a terminar minha ronda sem nenhum problema.

— Pelas barbas de Merlin, Sirius, não me diga que você fez o Peter provar alguma poção sua de novo.

Uma leve sombra de vergonha passou pelos olhos, muito rapidamente devo acrescentar, ao lembrar do episódio no fim do sexo ano, em que Peter teve que ser socorrido as presas porque a poção para alergia que Sirius fez tinha saído ao contrário e ao invés de sarar as urticarias tinha causando um sério ataque asmático no rapaz.

— Não, eu fiz algo muito pior. — Ele fala com tanta convicção que tive certeza que dessa vez Peter não tinha chegado na Ala Hospitalar a tempo e ele quer minha ajuda para enterrar o corpo. — Vem comigo.

E com isso ele agarra minha mão, me puxando desesperado por dois lances de escada até chegarmos na frente da porta dos dormitórios dos monitores-chefes. Sirius fala a senha e assim que ele me puxa para a antecâmara eu entendo o que ele quis dizer.

— Sirius, não me diga que...

— Sim, eu fiz.

— Ai, Merlin, você drogou o capitão do time antes do primeiro jogo da temporada de Quadribol?

Ele não precisa falar mais nada, a prova está ali na minha frente, pois James Potter esta deitado no chão a frente da lareira, fazendo bolas de sabão com a varinha e rindo absurdamente delas.

A preocupação que aperta meu peito apazigua a raiva que sinto de Sirius. Se alguém me dissesse há apenas um ano que um dia eu estaria extremamente preocupada com James, eu iria rir tanto que choraria, sem nenhuma dúvida, porém agora é diferente. Primeiro James estava diferente, isso não era de agora, na verdade começou em algum momento do sexo ano, ele tinha aquietado, estava mais focado e maduro, aparentemente a puberdade finalmente tinha parado de agir no corpo e passado para a mente. Ele até mesmo foi eleito monitor chefe junto comigo, e isso nos rendeu muitas horas juntos nesses dois primeiros meses do sétimo ano. Então pode-se dizer que eu e James tínhamos estabelecido uma amizade conveniente.

Além disso, talvez o motivo mais importante é que... bem... talvez eu seja um pouquinho fanática por Quadribol. Tudo começou no quarto ano, quando uma das meninas com quem dividia dormitório, Emmeline Vance, entrou para o tempo de Quadribol da Grifinoria. No início tentei ignorar tudo, afinal nem mesmo era amiga dela e James (que na época ainda era o Potter) tinha entrado para o time também, mas foi impossível ouvir sobre jogadas e manobras na vassoura. E meio que me acostumei, passei a ver os jogos, passei a ir nos treinos, e talvez tenha até me arriscado jogando por lazer com alguns amigos. Esse é meu último ano em Hogwarts, o time da Grifinoria tem que ganhar a taça.

Sego até James, tentando ver se ele tem algum efeito colateral além de estar rindo igual um retardado. Mas ele parece bem, os olhos não estão esbugalhados e focam facilmente em mim, não tem nenhuma marca na pele, os lábios não estão secos, sem sinais de envenenamento grave.

— Lily, a ruiva mais linda que já vi no mundo — ele fala sorrindo para mim e então fica sério. — Se bem que seu nariz é um pouquinho estranho, mas tudo bem, ninguém vai olhar para seu nariz ao invés dos seus olhos.

— É o que?! — exclamo chocada cobrindo meu nariz com a mão.

Está bem que ele era realmente um pouquinho grande, mas James nunca falaria algo assim para mim. A verdade é que James flertava comigo desde sempre, primeiro por causa de um orgulho ferido após receber um não, depois pelo simples costume de manter o clima. E devo admitir que eu também me acostumei com os galanteios e sorrisos, e talvez, só talvez , no último mês eu tenha flertado de volta.

— Você está vendo, ele está fazendo isso sem parar, falando tudo o que vem na cabeça para todo mundo. — Responde Sirius, começando a andar de um lado para outro. — Ele falou para o Slughorn que ele precisa fazer uma dieta! Por isso ele não quis nos ajudar.

Ainda estou chocada com o que James falou, mas digo a mim mesma que essa não é hora para a jovem e vaidosa Lily, pois precisamos da preparadora de poções que almeja uma carreira no ramo de criação. Meu cérebro tenta achar uma solução. Certo, certo, certo, primeiro passo: preciso de informações.

— Ele falou com mais alguém?

James se senta e começa a mexer no meu cabelo, me lembrando muito a uma criança. Dou um tapa em sua mão quando ele faz cocegas no meu ouvido com os fios, mas ele não parece se intimidar e ri.

— Não, levei ele imediatamente para o Slughorn e depois para cá quando ele nos expulsou, imaginei que você pudesse dar um jeito. — Responde prontamente, sentando em uma poltrona e cruzando as pernas. James prontamente senta ao seu lado e repete o ato, parecendo achar muita graça de sua brincadeira. — Você precisa conseguir isso, ruiva, pelo calção de bolinhas de Merlin, o jogo é daqui a menos de 15h, por favor, se você conseguir resolver isso juro que nunca mais dou uma poção para James.

— Você está muito estressado, relaxa e goza, Padfoot, — responde James simplesmente. — Eu estou me sentindo adorável. Acho que você está precisando dar para o Remus mais um pouco.

Olho assustado para Sirius observando quando inacreditavelmente uma vermelhidão se espalha por seu pescoço e orelhas.

— Acho que James deixou escapar a sobre um boato muito antigo que rola pelos corredores, mas vou ignorar isso agora e focar no que é mais emergencial.

Sirius Black ser gay não era novidade, mesmo que ele nunca tenha confirmado com todas as palavras, parecia apenas ser um fato de conhecimento geral, assim como o fato de James ser hetero, mas Remus era uma incógnita, muitos juravam que era gay, outros que era hetero, mas se me permite a opinião aposto no meio termo também conhecido como bissexualidade (sabe, aquela orientação sexual que as vezes parece que todos esquecem). O ponto é que muita gente jurava que Sirius e Remus tinha um caso, eu pessoalmente nunca vi nada que sugerisse, porém aparentemente é real, se é que se pode acreditar na palavra de um adolescente drogado.

— Bom, — tento continuar como se minha alma não corroesse por informações sobre a vida amorosa de Sirius. — é um alivio ele não ter falado com ninguém, assim sabemos que não colocou em risco nem sua posição como capitão do time, nem como monitor chefe.

Porque ainda tinha isso, James não teria apenas um jogo importante contra a Sonserina amanhã, mas também precisa fazer isso enquanto dá exemplo para todos os alunos.

— Que diacho de poção você tentou dar para ele?

— Você sabe como ele está trabalhando muito para ser monitor chefe e capitão do time, né? Tenha em mente que eu apenas queria ajudar e estava com as melhores intenções. — Lanço meu pior olhar para Sirius, cruzando os braços e inclinando minha cabeça ao apertar os lábios. James me imita. — Eu dei uma poção estimulante.

— Meu Merlin! Eu não acredito. — A verdade é que a poção de estimulante é realmente fácil de se fazer, e eu não consigo imaginar o que ele pode ter feito errado. — Do início: quais ingredientes você usou?

— Botão de prata, Aliquente, Descurainia, Losna, Romã, Arruda ...

— Arruda? Arruda?! Sirius, isso é ingrediente da poção revigorante!

Sirius parece não entender o que tem demais em um ingrediente a mais ou a menos, então faço com que me explique rapidamente como ele preparou a poção com esse ingrediente extra, enquanto eu uso um papel qualquer que estava jogado por ali para anotar e avaliar quais tipos de combinação química poderia ter ocorridos.

— No final ficou mais lilás do que roxa, mas achei que estava bom.

— Lilás é um sinal bom, se fosse azul Royal iria demostrar que fermentou, mas não, apenas superaqueceu. Isso é ótimo.

Estou falando apenas comigo, mesmo que James e Sirius pareçam tentar entender meus resmungos, a verdade é que o único que pode acompanhar a velocidade dos meus pensamentos naquele momento era meu antigo amigo da Sonserina, mas digo a mim mesma que não preciso dele. E isso se concretiza quando depois de 20 minutos (onde James pulou no sofá e contou sobre quando Sirius chorou porque ele passou a poção alisante do pai no cabelo do mesmo) consegui chegar em um resultado.

— O que isso quer dizer? — pergunta Sirius imediatamente depois da minha longa explicação.

— Quer dizer que você deu uma poção batizada para James, vou preparar um antidoto que acho que vai funcionar, mas não tenho certeza da quantidade dos ingredientes, então pelas próximas horas ele vai falar e fazer qualquer coisa que ele queira, porque ele está duplamente estimulado.

XX

Para crédito dele, Sirius até oferece ajuda, porém recuso afirmando que ele já fez poções demais por um dia, sendo assim ele fica sentado no sofá com James enquanto vou ao meu quarto trocar o uniforme de Hogwarts por algo mais confortável aproveitando para trazer meu caldeirão e os ingredientes que acho necessário.

Faço algumas anotações básicas, calculando para tentar achar teoricamente a melhor combinação para um antídoto, seria bem mais fácil se simplesmente tivéssemos bezoar. A arte das poções são basicamente um estudo contínuo de química, biologia e alquimia, e para a grande sorte de James, como pretendo seguir nessa carreira passei muitos anos estudando muito mais do que o necessário, tendo longas conversas com o professor Horácio e lendo livros sobre o tema.

É por isso que Sirius pede minha ajuda, porque depois de Horácio eu sou a única que poderia resolver isso. Já cheguei a um resultado quando James começa a contar sobre a vez que Sirius chegou tão porre em casa dos Potter's (no mesmo verão que fugiu de casa e entrou em uma crise existencial) que fez xixi nas calças e como a mãe de James deu a ele um castigo pelo resto das férias, obrigando-o a ficar no quarto.

Sirius fala algo sobre sair da frente de James para que ele pare de falar dele e corre para fora da comunal dos monitores chefes, aonde eu faço a poção experimental.

— Hum, Sirius ficou envergonhado, acontece que ele tinha acabado de ser acolhido pelos meus pais, sabe, e acho que ele se arrepende de toda a dor de cabeça que deu para eles na época, mas meus pais entendem, é muito difícil ter crenças tão contrarias a da sua família conservadora. Mamãe o aceitou de braços abertos, ele até mesmo a chama de mama, sabia? — James continua sentando ao meu lado no chão. — Ele estava mal e minha mãe tomou como rédeas das coisas, não sei o que teria acontecido com ele se não tinha procurado os amigos naquela noite.

Ele continua contando histórias sobre Sirius, Remus e Peter. Sobre momentos engraçados, vergonhosos e alegres. Deixa escapar mais algumas informações sobre o relacionamento de Sirius com Remus, reclamando sem parar de como Remus não quer assumir algo verdadeiramente serio e como isso obriga todos a viverem em meio a grande tensão sexual que eles são.

Também conta histórias próprias, sobre quando beijou pela primeira vez e como a menina babou a cara dele todo, sobre quando teve diarreia de nervosismo quando precisaram dele para substituir um artilheiro no terceiro ano e que isso o fez perder a oportunidade. Também conta sobre a família, sobre como os seus pais já são idosos e que ele tem medo de já está chegando a hora deles partirem.

Noto que o tom de James mudou, até agora estava contando histórias engraçadas e rindo por bobagens sem graças, mas a euforia parecia estar passando, deixando apenas a sinceridade sem freio.

— Sabia que eu finalmente entendi...

— O que? — pergunto apenas para mantê-lo falando, pois é mais fácil continuar meu trabalho quando ele está distraído contando algo ao invés de bagunçar e se colocar em perigo.

— Porque você nunca quis nada comigo. — Ele responde revirando os olhos como se fosse uma coisa óbvia. — Quero dizer eu era um idiota, por isso me esforcei tanto ano passado.

Por um momento esqueço a poção, olhando para ele com os olhos arregalados. Desde o momento que Sirius me deixou aqui eu sabia que isso poderia acontecer, que poderia chegar a hora em que James Iria parar de contar as histórias das vergonhas dos meninos e começar a falar sobre os seus sentimentos por mim.

Não que eu realmente ache que ele ainda tem sentimentos por mim, longe disso, já que eu dei muitos foras nele e sem dúvida ele desistiu disso afinal nunca mais tinha me convidado para sair de verdade, mas... seria errado torcer para ainda ter alguma coisa?

Porque se eu for bem sincera comigo mesma, desde os últimos meses do sexto ano meu coração palpita quando falo com ele, e também fiquei muito entusiasmada quando recebi uma carta dele nas férias contando que nós dividiríamos as obrigações como monitores chefes, e talvez eu esteja esperando ansiosamente que ele faça um convite para o passeio que terá para Hogsmeade daqui a duas semanas.

— Sabia que eu brochei na minha primeira vez porque fiquei triste por não ser com você?

Certo, isso definitivamente é algo que não deveria ser compartilhado, principalmente não comigo.

— O que?! Digo, não! Digo, talvez devêssemos falar de outra coisa! — sinto meu rosto quente de vergonha, diferente de James que parece bem tranquilo com a situação, imagino se ele vai lembrar disso quando o efeito passar e se sim, como ele vai encarar o fato. — é bom que você tenha melhorado, mas você devia ter feito isso por si próprio.

— Ah, mas eu fiz. — Ele responde, esquecendo completamente o assunto anterior e me surpreendendo mais uma vez. — Acontece que fica mais romântico dizer que mudei pelo meu amor por você, mas a verdade é que eu mudei mais por mim do que por qualquer outra pessoa. Acho que a maturidade chega para todos, né? Apenas entendi que me aproveitando do poder que eu tinha para humilhar os outros... bom, isso não me tornava tão melhor que as pessoas que falam você-sabe-o-que para você, Lils.

Eu sei, sei a que ele se refere, como pessoas preconceituosas que não gostam que pessoas como eu estudem na mesma escola que elas, e que usam de seu poder e influência para poder atazanar a vida dos nascidos trouxas. Mas de uma vez eu soube de alguém que desistira de estudar magia por isso.

— Espero que você não fique chateada com isso. — ele fala parecendo subitamente preocupado com meu silencio entendendo que talvez eu tenha ficado com raiva da revelação. — Em minha defesa eu nunca disse que mudei por você, foram as meninas deduziram isso e eu apenas escolhi não desmentir.

— Está tudo bem, James. — Respondo sorrindo, porque afinal estava. Na verdade, era até algo muito bom.

Eu não gostava da responsabilidade de ser uma pessoa causadora da melhora de alguém, porque parecia que todos esperavam que eu tomasse para mim a obrigação de tornar James um homem de respeito. Notei muito isso quando começamos a trabalhar juntos, com todos os monitores e professores perguntando se eu estava tomando conta de James, se eu estava confirmando que ele fazia tudo certo, se eu estava ensinando tudo para ele.

— Ainda assim, fico um pouco triste de você também não gosto dessa versão minha. — James comenta, parecendo cabisbaixo. — Quero dizer, não é como se você fosse obrigada a gostar de mim apenas porque eu criei um pouco de juízo na cabeça. Mas eu tive um pouquinho de esperança sabe, principalmente quando você passou a conversar comigo tão amigavelmente. Remus diz que eu não devo forçar nada, e devo deixar tudo seguir naturalmente. Sirius diz que eu me desviar declarar de novo e Peter diz que é impossível você não gostar de mim agora. Mas... não sei.

— Mas eu gosto de você, James. — Digo nervosamente querendo com todas as forças que o assunto acabasse, mas sem consegui me forçar a mudar de assunto. — Somos amigos.

— Mas eu quero ser mais do que amigo!

Congelo, a poção finalmente pronta na minha mão, não sei o que dizer. Aparentemente essa é a declaração dele, ele ainda tem sentimentos por mim, de alguma forma isso sobreviveu a todas aquelas brigas e xingamentos. E agora? O que eu deveria fazer com essa informação? Deveria contar que acho que eu também quero ser mais do que amiga?

— Aqui, beba enquanto ainda está morno. — Digo lhe entregando a poção.

— Oh, claro, claro, é por isso que você está aqui, — ele diz em um tom de chateação, como se torcesse para eu ter outra reação. — apenas para garantir que James Potter tenha condições de voar numa vassoura amanhã.

— Escute, acontece que você está falando isso por causa da poção, — tento explicar meu ponto, não quero magoa-lo, mas também não quero me iludir que ele gosta de mim quando isso pode facilmente ser apenas resultado dos sentimentos ampliados por uma poção batizada . — não falaria nada se não fosse por isso, e não é certo eu me aproveite.

— Sabe, meus pais iam gostar de você. — Ele diz olhando para a poção em suas mãos. — Sabia que papai cria poções? Ele criou uma bastante famosa para alisar cabelo, o que é irônico considerando que puxei meus cabelos dele.

Eu sorrio, pois sei tudo sobre Fleamont Potter sendo uma grande admiradora de poção como eu sou, sabia sobre suas criações e como ele é famoso, e já tinha lido vários livros dele ou sobre como ele trabalhava. O considerava uma inspiração a ser seguida, e talvez eu até fosse um pouco fã também, afinal ele teve ideias realmente originais.

— Papai ia gostar de alguém para conversar sobre poções, alguém que entenda de verdade o que ele está falando e não apenas finja como a gente faz — ele continua sua conversa aleatória, mesmo eu não contribuindo muito para ela. — e ele sempre diz que é bom eu me casar com alguém que entenda como fabricar e cuidar das coisas da família.

— Ui, certo, você começou a falar de casamento com alguém que nem tem um relacionamento. — Interrompo rindo de nervosa. — Vai bebe logo isso.

Ele engole o liquido gosmento de uma vez fazendo careta e barulhos de quem gostaria de vomitar, eu realmente não penso na poção para ser algo agradável, depois passa alguns segundos em silencio, olhando para os lados como se tentasse se situar.

— Fez efeito? — pergunto esperançosa.

— Me sinto igual. — Ele responde, mas noto que já há alguma diferença no seu tom de voz.

— Bom, pelo menos você não morreu. — digo dando de ombros, fazendo-o rir. — Talvez seja bom você deitar, pode ser que demore um pouco para fazer efeito.

Afinal já são quase 21h e sei que ele gosta de dormir bem cedo no dia anterior aos jogos e também talvez assim seja mais difícil para ele falar coisas comprometedoras. Acompanho James até seu quarto que é incrivelmente arrumado para um adolescente, observo enquanto ele tira a blusa que usava e deita usando as calças do pijama.

Eu fico na porta pensando no que fazer, provavelmente ia precisar ficar na sala, de olho para caso ele tenha alguma reação ou decida dar uma volta. Já pensou ele encontra o Prof. Dumbledore e fala que ele precisa sair do armário?

Porém, antes que eu consiga decidir algo, James fala:

— Você pode deitar aqui comigo? Não quero ficar sozinho.

E contrariando todo o meu bom senso eu concordo, ando até sua cama e deito ao seu lado, decidida a ficar só até ele pegar no sono.

— Você está me dando bastante trabalho, James. — Digo sorrindo.

— Espero que eu arrase no jogo amanhã então, para que valha a pena.

James vira de frente para mim, se aproximando devagar sem realmente me tocar de alguma forma, sinto o calor de seu corpo envolver confortavelmente o meu. Ele encosta a testa na minha e finalmente abre os olhos.

Ficamos assim por alguns minutos, os corpos mais perto do que em qualquer outro momento das nossas vidas, nos observando nos olhos, com todo um sentimento sendo transmitido por eles.

— Teus olhos são como sapinhos verdes cozidos.

Não tenho tempo de responder nada, pois James me beija. Não é um beijo desesperado como já vi ele dar em outras meninas em festas, é apenas um beijinho castro e infantil, um leve encostar de lábios, como se ele receoso de tomar essa atitude. Só que esse pensamento me faz lembrar da realidade, do fato de que eu era uma pessoa em plena consciência ali, que James estava drogado e que eu estava me aproveitando deixando ele fazer coisas que não faria no normal.

Com isso em mente eu me afasto sutilmente para não magoá-lo.

— Durma, James. Tenho certeza que amanhã você vai pensar diferente.

XX

Quando acordei James já não estava na cama, levanto em um pulo, e olho em volta torcendo para encontra-lo por perto, mas é lógico que ele não está no quarto. O relógio marca 10h da manhã, o jogo de Quadribol já deve ter começado há uma hora. Saio do quarto correndo, cobrindo meu pijama com desenhos de vassouras com uma capa que estava jogada na cadeira da escrivaninha. Preciso achar o James, ou o Sirius, ou qualquer pessoa que tenha visto o James para me dizer se ele saiu por aí falando mais do que deveria.

Assim que chego no salão comunal da Grifinoria encontro todos abarrotados enquanto organizam uma festa, resta saber se é de comemoração ou para afogar a tristeza, fico confusa com a quantidade de pessoas, o jogo não deveria ter acabado ainda. Quais são as chances de James ter tido uma reação tardia no meio do jogo? Será que nesse caso seria remarcado para quando ele estivesse bem ou seria dada uma vitória automática para o outro tempo?

— O que aconteceu? — perguntei segurando um primeiranista pelo capuz da capa.

— O jogo terminou, o apanhador da Corvinal pegou o pomo, mas James já tinha feito um monte de pontos, ele estava realmente empolgado. — Ele responde parecendo muito chateado por eu ter amassado sua roupa. — Ganhamos com a diferença de 10 pontos, que foi marcado segundos antes de capturarem o pomo, na real foi um jogo muito chato.

Soltei ele, que arruma rapidamente a roupa e sai de perto de mim quase correndo. Preciso achar Sirius, ou James, mas não tenho muita sorte. Aparentemente, eles foram juntos com Remus para conseguir o contrabando para uma festa mais tarde. Tento me acalmar pensando que Sirius está com ele e que vai cuidar de tudo, mas a verdade é que isso não é de muito conforto.

Por fim, decido que já passei muita vergonha com todos vendo a ponta da minha calça do pijama e vou trocar de roupa. Volto para meu quarto, aproveitando o tempo que ainda tenho para dormir mais um pouco antes da festa, porque passei a noite toda acordando de vinte em vinte minutos para checar se James estava tendo alguma reação à poção.

Acordar várias vezes na noite é mais cansativo do que passar a noite toda acordada, então quando finalmente acordo já são quase cinco horas da tarde. Decido que Sirius já deve ter levado James para Ala Hospitalar caso ele ainda não tenha voltado ao normal, ou caso ele tenha apresentado algum sintoma estranho.

Sendo assim, me dou o luxo de tomar um banho relaxante de banheira e finalmente me permito pensar no que James falou ontem. Não me entenda mal, eu não sou otária de mentir para mim dizendo que não sinto nadica de nada por James, principalmente agora que passamos tanto tempo juntos, eu apenas evito pensar no assunto para não me cobrar a tomar uma atitude sobre esses sentimentos.

Não é que eu seja orgulhosa e não queira admitir que finalmente James Potter me conquistou, eu apenas não sei como chegar nele e falar isso. Eu estava apenas esperando paciente o momento que ele me convidar para algo, ou sei lá rolar um clima de novo.

Só que como isso não tinha acontecido nos últimos tempos, eu comecei a me convencer que talvez James não fosse me convidar mais. Ele poderia ter desistido de vez, ou talvez estivesse saindo com outra pessoa, ou ainda poderia ter me superado. Quem poderia culpá-lo, né? E pensando mais a fundo, será se eu tinha o direito de me intrometer na vida amorosa dele assim depois de ter recusado tantas vezes? Isso não seria, sei lá, egoísmo?

Eu disse a mim mesma que ia deixar a vida rolar, sem forçar algo nem nada, que se fosse para ser seria, e que tudo aconteceria naturalmente. E então o Sirius preparou uma poção errada e drogou o capitão ao ponto de ele começar a me falar coisas comprometedoras. Pelas barbas de Merlin, eu realmente não acredito na minha sorte.

Será que ele estava falando sério? Será que no fundo aquilo era real? E agora, o que eu falo para ele quando o encontrar?

Ainda estou pensando nisso enquanto bebo uma cerveja amanteigada sentada entre Frank e Alice no sofá, ambos me contam sobre como foi a festa de noivado durante as férias, festa a qual não fui porque estava ajudando na organização do casamento de Petúnia, minha irmã.

— Estamos planejando nos casar assim que acabar Hogwarts, — conta Alice animadamente balançando os dedos da mão onde o anel com um enorme diamante está. — não vemos por quê perder tempo.

— Além do mais já namoramos há quase quatro anos, — continua Frank, completando o pensamento da noiva daquela forma natural que só os casais que estão juntos a muitos anos conseguem. — queríamos dar um passo para uma relação mais séria e agora só conseguimos pensar no casamento.

— Você tem que vim, sério! Dessa vez não vai ter desculpa.

Sorrio feliz, eu tinha me aproximado mais de Alice nos últimos tempos, não é como se tivéssemos uma amizade como a minha era com o Severus, mas ela e Marlene estavam ganhando um espaço no meu coração. Então estou muito feliz de vê-la tão animada, mesmo que um pouco assustada com um noivado antes mesmo de acabar o colégio, mas no geral... bom, bruxos são assim mesmo.

Normalmente se casam cedo com um parceiro que conheceu e namorou durante o tempo estudando, e logo têm uma pilha de bruxinhos correndo pela casa fazendo magia involuntária. É algo completamente ok para bruxos, eu só estanho porque querendo ou não fui criada em outra realidade.

— Eu não faltaria por nada, Alice.

— Isso é ótimo porque eu gostaria muito que você fosse uma das...

Entretanto ela não completa a frase, pois uma música lenta começa a tocar, e Alice dá gritinhos animados antes de puxar Frank para dançarem abraçados. Eu sabia que era a música deles, que estava tocando quando se beijaram pela primeira vez nessa mesma comunal, em uma igual festa de comemoração. Estou tão concentrada neles que só noto que alguém sentou ao meu lado quando uma pessoa passa o braço pelos meus ombros.

— Alguém me prometeu que poderíamos conversar quando eu não estava drogado.

James está particularmente bonito essa noite, com um brilho no olhar, o rosto corado pelo álcool e roupas trouxas.

— Você parece bem para quem me contou todos os podres dos Marotos ontem. — Respondo sorrindo.

— Bom, acontece que uma preparadora de poção realmente magnifica compensa o destrambelhado do Padffot. — Ele responde e me pergunto se estou imaginando coisas ou se ele realmente colocou uma entonação no elogio. — E tenho certeza que não contei todos os podres.

Pergunto como ele está, e por alguns minutos conversamos sobre alguma possível reação a poção e se isso afetou de alguma forma ao jogo.

— Eu contaram que você estava muito impressionante hoje. — Digo quando termino a minha cerveja. — Fiquei tão preocupada que talvez não tivesse funcionado e você ainda estivesse cheio de energia. Imaginei o que isso poderia causar, certamente não iriam aceitar a desculpa “Sirius Black é realmente horrível em Poções”.

— Certo, eu preciso te contar uma coisa. — Ele diz rindo e se vira no sofá ficando frente a frente comigo. — A poção antídoto fez efeito assim que eu a engoli.

— O que ?! Mas ... mas você ... falou aquelas coisas.

— Talvez eu tenha ... — ele cora ainda mais e passa a mão pelos cabelos deixando-os ainda mais bagunçados. — me aproveitado para fazer uma declaração sem me comprometer muito e podendo fingir que tudo foi efeito da poção caso você me desse um fora?

Eu estou em choque, uma poção deu certo, ele tinha me beijado já lucido, era real. James Potter ainda gosta de mim. James Potter ainda está apaixonado por Lily Evans. Eu sou a pessoa mais sortuda do mundo. Abençoado seja Sirius Black e suas poções assassinas.

— Bom, como você não me afastou imediatamente quando te beijei ontem — ele começa bagunçando os cabelos mais uma vez. — talvez eu possa te chamar para ir comigo em um encontro em Hogsmeade?

Ainda estou paralisada de choque, e apenas noto que isso talvez não pareça uma reação boa quando James começa a ficar nervoso.

— Aí Merlin, a menos que você não tenha me rejeitado porque eu estava drogado. Então eu... céus, me desculpa se fui inconveniente... apenas esqueça tudo o que eu disse... eu não... eu não quero estragar a amizade que construímos ess-

Não deixo terminar, pois essa é minha vez de beija-lo inesperadamente. E não é um beijinho calmo não, é totalmente diferente daquela noite anterior. Nós nos beijamos com força e desespero, sinto suas mãos em minha cintura me puxando para mais perto dele e passo meus braços por seu pescoço. Céus, James beija muito bem, não que eu estou surpresa afinal ele parece ser perfeito em tudo, mas... me sinto quente e eufórica enquanto seus lábios estão contra os meus.

Infelizmente a sensação não dura muito, pois assim que as pessoas em nossa volta nos notam, os gritos começam. Um coral de "uuuuuuuuu" junto com exclamações do tipo "até que fim" são ouvidos por todo o salão comunal quando James se afasta. Estou tão feliz que nem mesmo consigo ficar chateada por terem estragado o momento.

Mantemos nossas testas juntas, olhando um para o outro fixamente, sinto tanta emoção no momento que parece que meu coração vai explodir. Talvez daqui há algum tempo seja eu como Alice e Frank, comentando feliz sobre os preparativos para passar o resto da vida com alguém, e o pensamento me faz sorrir ainda mais.

— Será que devo me preparar para conversar sobre poções com o famoso Fleamont Potter? — pergunto para envergonha-lo. — é que me contaram que ele vai gostar de uma nora que possa administrar o negócio da família.

James gargalha parecendo nenhum pouco envergonhado pelo que falou. Depois olha para meus olhos com atenção antes de dizer:

— Ainda acho que teus olhos são como sapinhos verdes cozidos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!