Batidas de Um Renascimento
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Do profundo sono, o homem acordou: surpreso e confuso, perdido em raciocínios aleatórios, sentindo suas batidas acelerarem cada vez mais, ritmadamente, e uma enxurrada repentina de adrenalina envenenar suas veias. Em um arrepio, sentiu-se renascer da morta eternidade. Seu coração pulsava. De bruços se percebera, ainda segurando tremulamente as margaridas já há muito murchas, apodrecidas e de poucas pétalas restantes, vestido com o escuro terno giz, não por ele escolhido e jamais em lúcida vida comprado. A morte! Por que esta ganhara?
Num salto tentou com fracasso se levantar, atingindo acidentalmente a testa no teto de madeira úmido que o pressionava, já antes visto pelo homem. Logo, pela ferida, o sangue fervente começara a escorrer lentamente pela pele, corrosivo, um grito de liberdade escarlate trilhando o caminho das enrugadas e magras bochechas, já pingando na superfície em que o velho se encontrava deitado, em dueto com as batidas do coração, agora sentidas até mesmo nos ouvidos. Como fora capaz de ignorar a imagem do teto se ele o vira... "Fora o sangue!", pensou "aprisionei e o matei!".
Os negros olhos arregalados figuravam o pânico do corpo e da alma do sujeito, a ansiedade e angústia ao ali se encontrar aprisionado e sem janelas. Incapaz de acreditar: velho, debilitado, adoecido, de rosto anêmico, por pouco a ter sua alma aprisionada na imobilidade perpétua! Oh, seus ossos frágeis e ocos! Já fora jovem, não sabia quando, mas agora, aquele sangue o invadia novamente. Poderia ele, num corpo tão fracote? Sim. A melodia da pulsação do coração, sentida além de nos ouvidos, nos pés, o energizava e o motivava a recuperar sua mocidade.
Com coragem, socou o caixão uma primeira vez. A dor. Em um espasmo, envergou todo seu corpo involuntariamente, sentindo um calafrio de dor percorrendo cada célula de seu organismo. Em todos os ossos, um estralar. Em todos os membros, a dormência de uma forte pancada contra a cova. Estava velho, debilitado, adoecido, de rosto anêmico e à beira da morte... Mas tinha de continuar. Desistir no primeiro golpe? Seu sangue fervia!
Com dupla coragem, socou o caixão uma segunda vez. Em outro espasmo de dor letal e afiada, urrara. Era o sangue! Era a juventude! A melodia do coração! Não poderia parar de o caixão espancar, destruí-lo, estraçalhá-lo, libertar-se daquele corpo tão gasto, aquelas grades enferrujadas. Tinha de viver! Era o sangue berrando!
Continuou: agudos gritos de tortura, contorções do esforço imposto àquela rígida prisão, tão frágil quanto o velho. Tão podre e esquecida, mas, em desvantagem: o sangue. Não o tinha... Oh, e já atravessava-lhe os ossos!
Não aguentando muito mais, uma grande fenda no topo do caixão, bem acima de seu rosto. Uma esperança. Contraiu todo seu corpo a ela,partindo o teto em duas grandes tábuas. Mas que terra o afundara? Eram papéis! Fora afogado de papéis. Reconhecia-os! Sim: seu passado! Todas as amarguras, conformidades e escritos já não literários... Afogado, mas nadando, frágil e quebradiço, com o que nada poderia deter: o sangue correndo nas veias! Amassava os papéis, rasgava-os, pisoteava-os e os transformava em apoio para subir! Subir... Para onde?
Em uma euforia ainda maior que o pânico ao acordar, enxergava (como acreditar?!) uma fenda de luz verdadeira. A claridade, a vida que buscava!
Menos uma folha.
Espere... Esse ritmo....
Menos duas folhas.
.... Tão familiar
Menos três folhas.
O sangue? O coração?
Última folha.
Não era seu coração, não eram os ouvidos nem os pés que pulsavam. Seu corpo por inteiro pulsava, banhado nos raio do sol (o sol de verdade), com o corpo não mais velho, cicatrizado com a melodia da vida.
Back in black, I hit the sack
I've been too long
I'm glad to be back
Yes I'm let loose from the noose
That's kept me hangin' about
I been livin like a star 'cause it's gettin' me high
Forget the hearse, 'cause I never die
I got nine lives, cat's eyes
abusing every one of them and running wild
'Cause I'm back! Yes, I'm back!
Well, I'm back! Yes, I'm back!
Well, I'm baack, baack
Well, I'm back in black
Yes, I'm back in black!
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