Bater de Asas
6 6. Dia Vergonhoso.
Notas iniciais
Depois de um dia cansativo, mas que terminou bem, acordei na manhã seguinte na cama que quase já estava me acostumando acordar, como sempre Zack não estava. Fico pensando.
— Será que ele dormiu comigo? Porque só tem uma cama e...
Fico vermelha com o pensamento, mas logo o pensamento foi embora porque vi um pano no chão, deveria ter ficado aliviada por Zack não ter se aproveitado, mas aquilo não era necessário.
Levantei e tentaria fazer o mínimo já que ele cuidou de mim, bom não foi um ótimo e amável médico, mas estou viva. Peguei um ajuntado de grama alta que estava em um canto e usei como espanador. Após tirar todo o pó da caverna, que não era pouco, fui arrumar a cama e vi que precisava ser lavada.
Fui a beirada da caverna e vi que ali perto tinha um rio, parecia ser o rio que chegava ate perto da minha casa, onde eu lavava minhas roupas e tomava banho, voar até lá não daria, olhei e vi que mais abaixo da entrada da caverna havia uma árvore que crescia da encosta, e dela tinha um galho que caia até quase o chão, olhando a situação dos cobertores, isso era necessário, já me falaram que minha vontade de sempre ajudar acabaria me matando um dia, espero não ser agora.
Peguei todos os panos e joguei pela entrada, olhando para baixo e rezando para chegar na árvore no mínimo bem. Abri as asas para ter um pouso mais suave, pulei, cheguei na árvore bem, mas as asas doíam bastante, desci pelo galho e pulei no chão, Zack no mínimo deve me agradecer pelo empenho, mas também não estou fazendo isso apenas para ter agradecimento dele.
Desci e recolhi as roupas de cama que havia jogado, limpei a poeira e andei até o rio, a brisa do vento e a grama alta me faziam bem, senti saudades disso.
Logo que cheguei no rio, achei umas pedras e esfreguei todos os cobertores, que estavam bem sujos. Enquanto limpava eles, escuto bater de asas, Zack chegava na caverna, cruzei os braços já esperando a cara de bravo dele, não deu dois segundos e vejo ele correr até a entrada e começar a farejar, logo em seguida olhando para onde eu estava, dei um oi com o braço, e vejo que ele vem na minha direção não muito feliz.
— Como cacetes você veio parar aqui?
Apontei para a árvore.
— Deu para perceber que não foi de um jeito seguro, olha para você.
Olhei para baixo e o ferimento da barriga que ignorei até então estava levemente sangrando, e eu estava cheia de folhas e terra.
— Mas as cobertas estão quase todas limpas, olha.
Apontei feliz olhando o meu trabalho bem feito.
A pose de bravo acaba, ele arregaça as mangas abaixa e pega umas cobertas e começa a esfregar também.
Olho as olheiras em seus olhos que estavam piores que quando nos conhecemos.
— Hey, você pode dormir comigo, não quero você no chão.
Depois dessa pergunta do nada, ele para de esfregar.
— Você não deveria confiar em uma pessoa que você conhece a alguns dias.
Ele volta a esfregar olhando para a água.
— Fiquei dois dias, desacordada e estou ótima, não precisamos dormir de conchinha, apenas não quero você no chão.
— Já dormi em lugar pior, e é só até você melhorar.
Fico meio triste ao escutar isso, já tinha me acostumando a ter a presença dele, era bem melhor que sozinha.
— Me de as cobertas, e vou lá em cima, enquanto isso toma um banho, está precisando.
Enquanto olhava brava, ele voava de volta para a casa diferenciada dele.
As árvores em volta eram densas.
Olhei em volta, meio apreensiva, não era o rio que eu costumava tomar banho, mas era oque tinha. Fui até uma parte com mais vegetação, e tirei tudo, inclusive as faixas, e olhando sempre em volta.
A água estava até morna, mergulhei até quase o nariz e fiquei um tempo lá, relaxando, algo que fazia tempo que não fazia, depois levantei e comecei meu banho olhando para a mata, depois dos caçadores estou com medo da floresta.
Depois de um tempo escuto barulhos atrás de mim, já virei tampando tudo que dava e me enrolando nas minhas asas. Era Zack com uma toalha nos ombros, parecia um pouco eufórico, mas logo que me viu tampou os olhos, e eu mergulhei na água até o nariz.
— ONDE VOCÊ ESTAVA?
— TOMANDO BANHO, VOCÊ MESMO QUE FALOU PARAEU VIR.
Mesmo tampando os olhos ele vira de costas.
— IDIOTA, SORTE SUA QUE NÃO FOI DEVORADA, SINTO SEU CHEIRO DE LONGE.
Neste momento fico confusa, mas olho para a água e vejo que o ferimento que estava um pouco aberto, deixava um rastro fino rio abaixo, fico ainda mais assustada, já que nessas florestas tem lobos e ursos.
— Ando te deixando muito preocupado ultimamente não?
Ele da de ombros.
— Você deveria prestar mais atenção.
Assim ainda de costas Zack começa a caminhar de volta para a floresta resmungando.
— Espera... Não quero ficar aqui sozinha, só faltam as asas.
Zack para, pega uma pedra grande e coloca no chão para se sentar ainda tampando os olhos com a outra mão, achando a cena meio ridícula já que a água era escura, continuei, logo veio um problema, sempre lavei as asas com muita facilidade, mas com o ferimento na barriga, tento me esticar e logo vem a dor, Zack fareja o sangue que escorre um pouco a mais.
— Está tudo bem?
— Não alcanço as asas devido ao ferimento...
Envergonhada com a situação, tampo o rosto pensando que era apenas um peso, sempre fui eu com eu mesma, e agora parece que tudo dependo de outra pessoa. Segundos depois escuto passos na água, e vejo Zack vindo tampando os olhos.
— Não preci...
— Fica quieta e ajude isso a acabar logo.
Fico com vergonha, mas deixo poxa ele me ajudou com os ferimentos e eu estava só de sutiã, agora era um pouco mais diferente, mas confiava nele, no fundo, confiava.
Ele ficou atrás e levantei bem devagar, ele me deu a toalha para eu me enrolar, assim destampou os olhos, começou a limpar, apesar dele ser um demônio, parecia estar tentando ser o máximo gentil, tenho que parar de pensar assim.
Quando ele limpava perto da base das asas, eu ficava muito envergonhada, me achando idiota por estar, mas nunca aconteceu nada parecido.
Logo que ele terminou, virei ainda tampando segurando forte a toalha, Zack estava me encarando e eu encarando ele, até os dois se virarem de costas e Zack sair da água o mais rápido que conseguiu e calçar os sapatos, me enrolei na toalha e subi na margem, o clima estava meio estranho e pensei em algo para descontrair.
— Até que não sou de se jogar fora.
Falei me vestindo e colocando as faixas enquanto ele ficava de costas.
— Idiota...
Jurava que ele responderia algo pior, mas a resposta dele em voz baixa, me deixou envergonhada e até um pouco feliz.
— Pronto pode sair.
Vejo que ele estava levemente vermelho, e dou uma leve risadinha, que quem diria o demônio matador com vergonha de uma garotinha. Logo ele me chamou e esticou os braços.
— Mas... oque você quer agora.
— Vai subir a encosta de volta gênia?
Aproximo-me ficando na frente dele, ele rapidamente passou o braço por trás das minhas coxas e costas e levantou.
— Não... não dá para ir nas costas?
— Como vou voar com você atrapalhando?
Logo que ele levantou segurei no pescoço dele e ele começou a andar por baixo das árvores.Assim que saímos da floresta, ele começou a correr e o abracei mais forte, deu um impulso e saiu do chão, só abri os olhos quando senti o vento bater.
— Você voa e tem medo de altura?
— Uma coisa é voar sozinha, outra é depender de alguém não te derrubar.
Olhei para baixo e observei o rio, a vista era incrível, olhei para Zack que não lembro de ver ele tão perto, ele era bonito, pelo menos para mim que nunca vi um garoto da minha idade, por ele sempre sair mais a noite e ficar em cavernas ele era bem branco, como eu, olhos azuis que quase que brilhavam, e cabelos pretos, que caiam pelo meio do rosto dele quase até o nariz.
Enquanto o encarava, ele olhou de volta e sorriu.
— Que foi? Está gostando da vista?
Enquanto ele fazia essa pergunta com um tom de sarcasmo, ele fingiu tentar me derrubar, oque fez eu segurar ainda mais.
— Idiota, idiota, idiota.
Com o medo nem respondi à pergunta, mas sei que olhando ele, meu coração disparou.Logo que chegamos na caverna com um pouso suave, ele me desceu.
— Eu deveria ter subido escalando, seria mais seguro.
— Tá, tá, fica aí que vou buscar lenha.
Enquanto esperava ele, peguei o coelho de cima da mesa e abri uns potes que achei, com sal dentro, que provavelmente foi roubado, tempero o coelho e coloquei no espeto. Logo que ele chegou, olhou para mim, segurando o espeto com o coelho.
— Penso que não quero que você vá não, até que está sendo útil.
Entreguei o coelho e ele acendeu a fogueira com uma pederneira. Enquanto esperávamos o coelho assar. Zack se faz de marrento, mas sei que ele é uma pessoa boa.
— Zack, você é melhor do que você pensa que você é.
Zack me olha confuso.
— É sério, você é confiável sim, cuidou de mim, mesmo eu dando trabalho.
— Tá mas... eu te mordi.
Ele olhou sério para mim.
— Você não fez por querer, além disso, eu teria morrido sem você.
Ele olhou fixo para o fogo enquanto o virava com um galho.
— Tá, mas você não deveria confiar nas pessoas assim, você é muito ingênua.
Ele me entregou uma coxa de coelho, assim comemos novamente olhando para fora da caverna, que tinha uma vista para o vale.
Ele estava contando das enrascadas que ele já entrou quando ia a cidade, nunca vi Zack rindo tanto quanto ele estava naquele momento, por um momento parei de rir e apenas fiquei observando a intensa felicidade no sorriso dele.
Logo que terminamos eu já estava bocejando.
— Vai dormir, eu não quero ficar te carregando para cama diariamente.
Olhei brava, mas estava tão cansada que apenas deitei.
— Você vem não?
Eu não queria mesmo ver ele dormindo no chão, mesmo que seja dormir com ele.
— Ok, já vou.
Não deu tempo de esperar ele e logo dormi. Acordei a noite e vi ele no mesmo canto dos panos, dormindo sentado encostado na parede.
Levantei devagar com a coberta na mão xingando ele por pensamento, já decidi que não deixaria ele passar por isso por causa de mim, já sabia que ele não dormiria na cama então sentei ao lado dele e cobri nós dois e dormimos assim.
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