Bater de Asas

26 26. Antes de tudo desmoronar.


Notas iniciais
Um dia para treinar e decidir se vai tudo acabar em meio a arena.

&. Escutar a música e ler a letra para melhor experiência.&

Um dia, é todo o tempo que tenho para treinar. Um dia para decidir se vou viver ou não, se Zack vai voltar sozinho para a nossa casa... ou não.

Enquanto ele me puxa pelos corredores, estou desnorteada. A alguns dias estava na praia pensando que não teria mais tempo de vida, mas estava feliz pelo que vivi porém, agora que me deram uma chance de viver, vão me tirar essa chance de novo?

Sinto suor descendo pela minha testa, esta quente? Não, o clima aqui é a mesma coisa sempre.

Sinto meu coração acelerar, minha perna perder a força, caio de joelhos apertando meu peito.

— Zack eu... não consigo respirar.

Ele abaixa na minha frente com um semblante assustado. Tento puxar o ar, sinto ele passar pelas minhas narinas, mas ainda sinto falta de ar.

Zack acalma seu olhar, ele me senta no chão no meio do corredor. Tem pessoas passando com roupas, lavando quartos, vivendo suas vidas. Mas estou ali com um garoto da raça demoníaca no meio de um maldito corredor, sinto que vou morrer.

— Esta tudo bem... Você não esta morrendo.

Ele diz com a voz calma, se senta no chão comigo, como não estou morrendo?! Sinto que meu coração vai parar a qualquer segundo.

— Você só esta tendo uma crise de ansiedade.

Uma oque? De onde ele tirou essa ideia? Seguro minha garganta sentindo que ela vai se fechar.

— Esta tudo bem... Vai passar, é só algo que li nos livros do mundo humano.

Ele leu livros do mundo humano?

— Seu corpo não esta aguentando oque você esta passando, basicamente ele quebrou por um momento.

Não sei se isso era para me acalmar, mas continuo olhando ele. Solto meu pescoço, tento respirar fundo, mas ao final no corredor vejo quem me atiçou esse problema. Lucy.

— Garota maldita...

Levanto-me rápido, ainda com falta de ar. Desvio de Zack que ainda me olha incrédulo sentado no chão. Vou em sua direção.

— Yas... eu...

Por um segundo eu perco a razão, só percebo oque eu fiz quando vejo ela no chão com a mão no rosto. Minha mão em formato de punho está parada em minha frente.

— Ainda se dizia minha amiga! Vou morrer por sua culpa!

Seguro a blusa dela levantando ela um pouco do chão, me lembrou do Zack e o Kalibam na arena. Porque estou assim? Sempre fui descontrolada? Estou ficando louca?

Respiro fundo e a solto, vejo Kalibam chegar e levantar ela do chão. Olho para os lados procurando Zack, vejo ele no mesmo lugar de antes com os braços cruzados e um sorriso no rosto. Não sei se era para ele estar feliz.

— Yas... você esta bem?

Olho para quem falou comigo, Kalibam segurando a garota que dizia ser minha amiga de infância, porque ele se importa? Não me jogou na arena?

— Você ainda pergunta para ela?

Diz a Lucy, se soltando e indo embora. Se eu pudesse escolher com quem batalhar, seria com ela.

Vou até Zack que esta com um sorriso resplandecente, seguro seu pulso e tento sair do castelo.

— A dias espero pelo momento de você bater neles, finalmente chegou.

Zack diz atrás de mim em um tom risonho. Esboço um sorriso, pelo menos estou mais calma, e aquela garota mereceu... ou fui babaca de mais?

Consigo sair do castelo e ir até à praça central, puxo o ar o máximo que posso, e o sol como sempre forte.

Fico parada vendo a cidade viva, as pessoas apenas existindo. Crianças correndo, casais juntos, pessoas comendo e rindo, e uma senhora em um banco alimentando alguns pombos com 4 patas. Eram fofos, mas assustadores ao mesmo tempo.

— Vou até à arena ver se tem alguém lá para treinarmos.

Zack apenas diz e sai, volto a ter o mesmo sentimento de antes, de que ele vai tentar ao máximo para nada.

Vou até à senhorinha.

— Olá, posso me sentar com a senhora?

Tento não espantar os pombos dela.

— Claro minha filha.

Ela esboça um sorriso lindo. Não tive muito contato com velhinhos, mas dizem que eles são a voz da sabedoria. E estou precisando disso, no momento.

Me sentei ao lado dela, ela me deu um bocado de pão moído. Os pombos estranhos vieram até mim, e então comecei a alimentar eles também.

— Posso te pedir um conselho senhora?

Nada melhor que o concelho de alguém que sabe nada da sua vida e não pode te julgar.

— Claro docinho.

Não conheci muitos idosos, mas agora os amo.

— Eu... fui convocada para a arena contra minha vontade... Não tem nada que eu poça fazer?

Ela para de alimentar os pombos e se vira para mim. Ela tinha a aparência de ter seus 80 anos, as asinhas pequenas e com penas faltando, talvez nem consiga mais voar.

— Meu marido foi até a arena anos atrás, era um guerreiro habilidoso, porém não teve sorte.

Como eles podem?

— Durante um tempo pensei que ele havia morrido com honra e seguindo os valores da nossa família e raça.

E ela volta a alimentar, enquanto escuto em silêncio.

— Porém vejo hoje, sozinha e velha, honra não serviu de nada não?

Lembro do Zack, ele também vai ser um velhinho sozinho? Ou vai morrer jovem...

— Oque a senhora teria feito?

Ela olha para o céu, como se estivesse lembrando de alguém querido.

— Teria fugido, ou invadido a arena, até mesmo já pensei que deveria ter queimado tudo e ido embora com ele.

Seria o tipo de coisa que o Zack faria.

— Mas não teria deixado matarem ele... Mesmo que a vida do perdedor sirva para algo importante, não teria deixado.

Algo importante? Oque de tão importante seria? Olho para ela curiosa.

— Há, claro não te falaram... Os perdedores são usados para manter esse lugar escondido. Nada mais poderoso que a vida de um angelical para manter um reino todo invisível e flutuante.

Olho para a beirada da cidade ao longe, uma fina camada, parecida com uma bolha de sabão envolve a cidade. Quantas vidas será que já foram usadas para todos estarem bem?

— Mesmo agora... mesmo sabendo que as pessoas precisam disso, teria sido egoísta e ido embora com ele.

Ser egoísta... Algo que eu deveria ser?

Encaro novamente as pessoas a minha volta, vivendo normalmente enquanto outras sacrificaram suas vidas pelo bem delas. E se eu não fizer isso, oque vai acontecer com esse lugar?

— Docinho, se você ama alguém, lute na arena, mate se for preciso, mas não deixe essa pessoa sozinha.

Essa senhora... Se eu pudesse levar alguém comigo, seria ela. Passar anos da sua vida, vivendo em um lugar onde mataram seu amado. Eu não teria conseguido.

Então Zack volta com uma espada na mão.

— Vamos, achei um lugar bom para treinarmos.

A senhora o encara, e Zack a encara de volta.

— Siga oque te falei, pelo bem desse belo rapaz.

Zack me olha confuso. Abraço a senhora e vou em direção a arena. Olho ainda para trás e por um segundo vejo Zack sentado no lugar dela, sozinho... Será que vai ser assim?

Chegamos a uma arena menor, onde tinha uma pequena árvore que dava sombra nela.

— Zack... você sabe que não vai adiantar...

Não deu tempo de continuar, ele jogou uma espada para mim, nunca nem havia segurado uma. Levanto ela, e ele em minha frente segura outra. Ao nosso lado vários tipos de armas diferentes... Nosso dia vai ser cansativo.

Então ele começa, avança para cima de mim e eu tento de um jeito desengonçado a me proteger, o barulho das espadas se batendo atinge meu tímpano. Mas continuo.

Ele não diz nada nas próximas horas que se passarão, trocamos de armas diversas vezes, tive alguns ferimentos. Mas Zack estava determinado e não pegava leve, e ele não está errado, independente de quem esteja lutando comigo na arena, vai tentar me matar.

Não almoçamos, não tomamos café da tarde, apenas lutamos um contra o outro, trocamos de arma diversas vezes, mas em momento algum ele deixou eu tentar o arco, ele sabia que eu era boa nele.

— Hora de descaçar, e comer.

Desabo no chão, já era fim de tarde, cansados e exaustos. Zack vai até sua mochila e tira alguns doces derretidos pelo tempo que passou lá dentro.

— Eu não sabia que derretia...

Mesmo assim peguei, estava morta de fome, mesmo que doce não fosse a refeição que eu queria no momento. Nos sentamos de baixo da árvore e ficamos olhando a arena maior, onde alguns guerreiros treinavam.

— Eles treinam para oque? Não correm perigo aqui.

Pergunto ao Zack, mas ele me responde com um não sei com a cabeça já que esta com a boca cheia de doce. Ele vai acabar tendo algum problema de saúde por conta disso.

— Zack... devemos conversar sobre amanhã...

Ele enfia doce na minha boca, e mantêm a mão nela. Ele está sendo infantil, mas entendo o motivo. Ele engole o doce.

— Não superei ainda o dia da praia, eu realmente achei que te perderia em meus braços, e não quero ter esse sentimento tão cedo.

Mastigo o doce. Mesmo ele tentando fugir do assunto, não é como se não fosse acontecer do mesmo jeito.

Então vemos três garotos enormes vindo em nossa direção, a feição de Zack se fecha.

— Então é você a garota que vai batalhar contra nós, amanha, filha de Ykhar.

Toda a esperança que eu tinha em sair viva, se esvaiu. Minha cocha não dava o tamanho do braço dos garotos. Anos treinando dia após dia, e eu? Uma caçadora que plantava legumes e morava em uma casinha na árvore.

— Sei que você deve se achar a melhor, foi a melhor por anos, mas não vai vencer de nós.

Eles acham realmente que tenho uma chance? Posso usar isso contra eles... Então me levanto

— Vocês não escutaram os boatos não?

Tento ficar de igual para igual com eles, mas são mais altos, mesmo assim tento manter a postura de guerreira que eles tanto temem. Zack volta a se sentar, sorrindo já esperando oque vai escutar.

— O boato de que você esta enferrujada?

Solto uma leve risada.

— De que tem sangue demoníaco correndo em minhas veias.

Logicamente era mentira, mas pelo jeito funcionou, os garotos se olham.

— Era você a garota amaldiçoada e com presas saindo da boca que chegou na ilha?

Zack se levanta entendendo o plano. E vem atrás de mim.

— Sim... Vocês não me parecem tão confiantes agora. Não tem medo do que sou capaz?

Então Zack consegue concentrar sua raiva em seu braço que está em minhas costas, deixando aquela fumaça escura sair dela. Oque para eles parecia estar saindo de mim.

Os garotos dão alguns passos para trás.

— Mas isso é contra as regras... Apenas angelicais puros podem batalhar...

Os três voltam a sua arena e começam a treinar com mais vontade. Zack e eu voltamos a nos sentar.

— Somos duas crianças não? Brincando com os guerreiros para colocar medo neles?

Olho para Zack e ele esta com o mesmo sorriso do corredor. Acho que ele gosta do povo dos céus com medo.

Continuamos a treinar até o cair da noite, não havia mais nada que pudéssemos fazer. Os três guerreiros se quisessem poderiam explodir minha cabeça com uma mão.

Então vimos a visão de um garoto já conhecido chegando voando.

— Kalibam oque faz aqui? Ela não quer falar com você.

Zack diz se levantando.

— Não é só com ela que quero falar, é com os dois. Tem um jeito dela voltar a ser a guerreira que era.

Isso pode ser bom não? Mas a que preço?

Ele se aproxima de nós, Zack cruza os braços.

— O mesmo feitiço que lancei em você Yas, que fez sua memória sumir, posso reverter.

Sinto um pequeno cheiro de queimado aparecer, tento não olhar para Zack, mas sei que ele quer voar no Kalibam.

— Como? E a que preço?

Nada deve ser de graça. E se for verdade, porque ele não fez isso antes?

— O feitiço é simples, porém... Todas suas memórias voltaram...

Mas isso é ótimo não? Tudo que eu sempre quis durante anos.

— Inclusive os sentimentos...

É claro... Tudo voltaria a tona. Eu voltaria a ser guerreira, mas, em contrapartida voltaria a ter sentimentos por ele.

— Não.

Escuto Zack falar atrás de mim, a fumaça esta mais densa.

— Se ela não fizer, não vai ter as habilidades necessárias para vencer.

Ser uma guerreira e viver, mas ter a chance de perder tudo que sinto pelo Zack?

— Não me importo, ela já treinou, é o suficiente.

Será o suficiente mesmo?

— Não seja egoísta garoto de chifres... Ela vai acabar morrendo assim.

Não sei oque pensar, porque oque adianta viver, mas voltar a ser oque eu já vi que não gostava, alguém fria, que morava com malucos.

Zack fica em silêncio.

— Confia tanto no treinamento dela? Então posso a chamar para a arena agora?

Os olhos de Zack mudam. Talvez tenha uma chance, e é bom treinar sem o medo de morrer.

— Tudo bem Zack, é uma chance de treinar a mais.

Ele fica em silêncio, a fumaça não abaixa, então fomos para a arena maior. Paramos no meio dela, cada um com uma espada, e nenhum de nós com roupas de guerreiros.

Mesmo Kalibam não tendo a mesma fumaça que o Zack, é como se fosse um pressentimento ruim quando ele ficou em posição de batalha.

— Não interfira demoninho, ela consegue sozinha.

Zack de braços cruzados, mas com uma espada apoiada em sua perna. Estou com medo do que isso vai se tornar.

— Já vi que ele não é muito de seguir regras.

Então Kalibam de dentro do bolso puxa uma pequena sacola, e joga o pó de dentro no chão. Zack que estava mais longe segura sua espada e vem em nossa direção.

Mas sinto que o som ficou abafado, em volta da arena formou a mesma camada transparente que a ilha tem. Vejo Zack do lado de fora da cúpula gritando algo e batendo nela, não consigo escutar, mas diria que esta xingando o Kalibam.

— Não se preocupe Yas, só quero uma batalha justa para ver se esta mesmo pronta.

Agora já sinto que não estou, ele gira espada sobre sua cabeça, e se prepara.

— Vou lutar como os guerreiros na arena vão.

Zack do lado de fora bate na cúpula, mas nada acontece. Porém, a fumaça escura que saia dele, esta pintando aonde ele toca na cúpula, isso não é bom.

— Calma Zack...

Faço sinal com as mãos para ele se acalmar, não sei se esta me escutando, mas ele para de bater porém, continua com a espada na mão.

— Vamos começas.

Diz Kalibam, um segundo antes de me atingir.

Tão rápido, tão forte. Apenas tive a luz forte chegando no meu rosto. Saio de onde estava parada e bato no chão como uma pedra no lago, diversas vezes, até acertar a parede da cúpula. Olho para cima e vejo Zack batendo na parede.

— Kalibam esta certo...

Falo baixo para mim mesma, como eu pensei que seria? Uma batalha como a de Zack e eu?

Novamente faço o sinal de calma para o Zack, ele sabe assim como eu que é importante, porque será ainda pior amanhã.

Ele se acalma, me levanto sentindo que meus joelhos estão em carne viva. Observo em volta onde esta o guerreiro? Ele estava parado no ar, batendo suas asas lentamente, apontando a espada para mim.

Então ele vem em minha direção como uma bala, mas também tenho meus truques. Desvio e o vejo bater na parede do domo.

Zack do lado de fora esboça um sorriso, ele sempre se divertindo nos piores momentos.

Bato minhas asas para ir ao máximo longe dele, vou até o meio da arena. O vejo se levantar e também esboçar um sorriso.

Vejo ele caminhar lentamente até a minha direção, talvez ele quer tentar ver como estou em luta de perto?

Preparo-me, e ele corre com a espada. Elas colidem fazendo um som estridente, mas ele sempre mais rápido acertou meu braço, sangue escorre. Mas ele não para, e acerta meu outro braço, me fazendo soltar a espada e segurar meu braço.

— Kalibam!

Ele para por um segundo. Será que os guerreiros serão assim? Penso que será pior, então volto a sorrir e esperar o próximo golpe. Zack me ensinou bem a lutar com as mãos.

— Achei que nunca teria um ponto fraco, mas vejo que você é meu ponto fraco.

Ele solta a espada e vem com os punhos, desvio de cada investida que ele dá, mas ele me chuta na barriga, me fazendo cair. E sobe em cima de mim.

— Não será o suficiente.

Sinto a adaga que Zack que deu em minha perna, seguro ela.

— Kalibam... Porquê?

Posso estar sendo fraca em usar o ponto fraco dele, mas é vida ou morte.

Ele para por um segundo, seu semblante se entristece. Então passo a adaga em seu rosto. Cortando da testa, passando pelo olho até a bochecha.

Ele levanta gritando. Não sei se era para ter chegado a esse ponto, mas se ele tirou sangue meu, posso fazer o mesmo.

Levanto-me limpando o sangue que pingou do rosto dele no meu rosto. Ele para de segurar o olho, e vem em minha direção, acertando um chute lateral que tentei segurar, mas acabo caindo novamente.

— Não adianta usar seus truques psicológicos contra eles, eles só querem você morta!

Ele vem até mim e me chuta mais uma vez.

— Eu não quero você morta! Você não está preparada!

Ele para novamente em cima de mim, socando ao lado do meu rosto, o chão afunda ficando no formato da mão dele.

— Você estaria morta agora...

Escuto o rachar do Domo. Vejo Zack com a espaça enfiada em um furo que ele fez na película fina, mas firme.

Kalibam abaixa, aproximando seu rosto do meu, o sangue de seu olho pinga em mim.

— Não posso te perder de novo... Por favor, vença...

Então o Domo some, vejo a feição de Kalibam de tristeza, mas logo ele some no céu escuro da noite.

Zack vem até mim. Sento-me segurando a adaga dele em minha mão.

— Maldito vou matar ele!

Zack está com raiva, mas não sei se só do Kalibam, ou do treinamento que tivemos ter sido inútil.

— Ele não está errado Zack... Não estou preparada, mas também não vou aceitar ter minhas memórias e sentimentos de volta.

Ele se abaixa junto comigo. A fumaça que saia dele some, seus olhos voltam ao normal. O vento da noite fria chegava, levantando a poeira da arena.

— Estarei lá com você, nem que eu tenha de invadir a arena, você vai vencer.

É difícil escutar ele mentir para si mesmo, mas agora é tudo por minha conta.

Minha vida será decidida amanhã.

*Lembrando vocês de curtir e comentar*

Notas finais
Tudo vai dar certo novamente?