Batalha de Realidades
1 Inferno
Abandonei minha vida antiga e parti nessa jornada em busca do Maior Tesouro que existe. O Tesouro que mesmo ainda não o tendo em mãos, consigo enxerga-lo parcialmente, e essa visão é oque me guia, ela é meu norte, o motivo do meu sofrimento e também do meu descanso mais sereno.
Quando fui recrutado para a Tripulação da Esperança, meus olhos brilharam com as boas vindas que me deram e com a apresentação de todos os setores da nave; e eu fui tomado por um senso de dever que inundou meu coração de coragem, e meus olhos de lágrimas.
Tudo isso começou a menos dias do que o número de tripulantes que temos, e minha introversão fez o seu bom trabalho de dificultar minha socialização com eles; mas o pouco contato que tive com todos fez com que eu sentisse uma admiração específica para cada um.
Meu companheiro de quarto é o tripulante mais recente depois de mim, um cara chamado “Daru” pelos outros. Ele é bem intenso e parece estar sempre bravo com alguma coisa. Daru está encarregado, assim como eu, de lutar na frente da subcriação das letras, e eu fui o sorteado a testemunhar suas mais profundas e dramáticas preces de inspiração divina à Amaterasu Oomikami, todas as noites. Ele me dá muitos conselhos de vida e de escrita, e também desabafa bastante comigo. Ter alguém tão caloroso por perto me faz muito bem.
Fora o meu parceiro de trincheira, temos outros 6 tripulantes e o nosso capitão. Assim como eu e o Daru, eles se dividem em duplas e ficam nos outros 3 quartos que temos na Nave, cada um com uma função. Eu ainda não os conheço tão bem, mas sei o que cada dupla faz.
A primeira dupla é a dupla que cuida das “relações exteriores, diplomáticas e conquistas de território” da tripulação, como também são os aventu-guerreiros responsáveis por travar as batalhas mais impetuosas e sangrentas, chamadas Jihad, contra nossos adversários declarados. É a dupla dos integrantes cuja presença é provavelmente a mais poderosa, eles são “Guimel”, um cara simpático, mas que carrega um aspecto cruel na sombra de sua voz, e “Double Lamed”, o líder da nossa tripulação na ausência do nosso capitão. Lamed é um líder exemplar, sábio, e muito inspirador. Ele parece priorizar o bem do grupo como um todo, e me disse estar sempre disponível para me ajudar com oque eu precisar. Eu quero ser como ele!
Se a primeira dupla é a que possui a aura mais poderosa e que mais impõe respeito, a segunda não deixa a desejar no sentido “intimidação”. Digo isso porque... Eles me dão medo. São dois caras bem durões e assustadores chamados “Omega One” e “El”. Pelo que me foi dito, eles são os responsáveis por extrair luz dos universos mais sombrios, e imagino que é por isso que possuem essa atmosfera tão assustadora, é um efeito colateral que estão dispostos a contraírem. Isso me faz admirá-los pela coragem e por todo o sacrifício que fazem pela Nave. Ambos também cuidam do comércio e administram os custos do aparato da Nave, então esses dois brutamontes carregam muita coisa nas costas, sou muito grato a eles.
E a ultima dupla... É a dupla responsável por eu estar escrevendo isto. A dupla feminina.
Quando eu as vi pela primeira vez na cerimônia de boas vindas para mim, nem consegui me aproximar. Elas foram tão receptivas e radiantes comigo que minha voz se recusava a sair da garganta. Sei que sou tímido, mas por Deus, o que eu senti precisava decair 10 vezes de intensidade pra começar a ser considerado timidez. Era como se elas exalassem um aroma sublime de pura confiança, e como se olhar para seus sorrisos meigos e graciosos cegassem meus olhos e me tirasse o folego. No meio de todos os outros 5 tripulantes e do Mestre, não me atrevi a dar nem um passo na direção dessas meninas, não quero ser ejetado pra fora da Nave na primeira semana!
Essa dupla, composta por uma garota da minha idade e uma ainda bem mocinha, são a maior fonte de contato que a Nave tem com os Deuses. Elas parecem viver uma vida tão monástica e de plena entrega, que se tornaram elevados receptáculos de informação e comunicação entre o Mundo Mágico e o nosso mundo. São as Sacerdotisas puras e virtuosas que mais atraem os Kamis com seus sorrisos e sua alegria contagiante. Sim, apenas as mulheres tem o dom de com um simples sorriso colorirem o dia de um homem, e essa tripulação está bem amparada por elas.
A mais nova se chama Rikka, e é uma criança bem intrigante. Tudo começou por causa dela, numa certa tarde. Eu estava na biblioteca da Nave procurando livros de ficção que pudessem me servir de base para um tema específico que eu não tinha tanto domínio, mas como sou novo, não sabia exatamente em que parte da biblioteca estariam livros do tipo. Eu andava pelas prateleiras de livros movendo atentamente meus olhos por todos os títulos de capa, com um constrangedor receio até mesmo de “lavar as minhas mãos neles”. Sei que essa minha timidez e cautela extrema de não causar descontentamento com ninguém é um péssimo hábito, mas eu não consigo me livrar dele.
— Ei... Você precisa de ajuda? — Me arrepiei como um gatinho arisco ao ouvir essa vozinha de criança assoprando no meu cangote, como uma alma penada.
Olhei para trás nitidamente assustado e... Não teria visto ninguém se não tivesse olhado para baixo e visto o projeto de mulher que residia na minha frente. Era a Rikka.
— E-err... Oi! — Disse tentando me recompor — Boa tarde. Por que a pergunta?
— Eu estava ali no fundo o tempo todo — Gesticulou com a mão esquerda, apontando para o local onde estava, enquanto inclinava levemente sua cabeça para a direita. — E você não parava de perambular de lá pra cá, parecia indeciso e perdido, então achei que pudesse te ajudar.
Contemplando os olhinhos curiosos dela diante de mim naquela tarde que tingia toda a biblioteca com um anestesiante alaranjado projetado pelo por do sol, era a primeira vez que estava sozinho com uma das duas, e isso me fez engolir em seco. Ela parecia tão serena, sua respiração tranquila e suas piscadinhas delicadas davam a entender que ela também estava aproveitando o clima gostoso daquela tarde, talvez estivesse com sono.
— Nossa, sério?! Você é muito discreta, eu achei que estivesse sozinho! — Eu estava morrendo de vergonha. E mais do que isso, desconcertado, com medo de alguém nos encontrar ali.
Com certo receio, engajei numa troca de frases com ela, onde pude observar algumas coisas. Rikka é uma garota tímida, mas ela não deixa isso controlar ela. Eu sei disso, porque também sou tímido, e nós tímidos nos reconhecemos bem. Isso me faz admirá-la, porque se ela consegue enfrentar a timidez e interagir com pessoas novas com tanta naturalidade, eu também posso! Outra coisa que aprendi sobre ela, é que ela ama ler! Isso nos rendeu algumas boas interações, já que sou escritor e que compartilho do mesmo amor por leitura que ela. Pelo visto vou encontra-la na biblioteca mais vezes do que eu pensei, e isso me deixa feliz.
— Muito obrigado! — Exclamei após ter recebido sua ajuda para encontrar o livro que precisava.
— De nada! — Ela respondeu com uma exclamação a altura e um sorrisinho descontraído que me fez cortar o contato visual, tímido.
Essa reação dela foi tão inesperada que eu só posso concluir que ela a fez para brincar com a forma exagerada que eu agradeci. Pelo visto mulheres são malvadas desde a infância...
Nossa inteiração havia chegado ao fim, era o momento de nos despedirmos. E eu aposto que muita gente diria que eu tenho segundas intenções com a próxima coisa que eu acabei falando pra ela, mas eu não concordo com quem diz isso! Fui criado com valores de gratidão e de apreço pelas pessoas que são importantes pra mim, e por mais que eu tivesse acabado de conhecê-la, eu já a considerava muito. Rikka era um anjinho dócil, empático e divertido, e que havia se conectado comigo no meu hobbie favorito que é leitura! Eu já a considerava uma companheira de tripulação, e isso significa que não havia nenhum problema em uma simples troca de favores!
— E-ehh... Rikka, espera. — Fiquei surpreso que minhas cordas vocais tenham funcionado.
— Huh? — Ela se virou curiosa, voltando a me observar com suas lentes de contato cor âmbar.
— Você me ajudou, e eu sou realmente grato. Estou te devendo um favor agora... Então... Se precisar de alguma coisa, é só falar, ta bom?
Rikka ficou em silêncio, como que processando oque ouviu e se tornando estranhamente pensativa. Ela elevou sua mão direita até seu queixo, e começou a fazer barulhinhos de satisfação, até começar a balançar a cabeça em sentido de aprovação, com uma expressão que eu só posso descrever como: triunfante.
— Tem uma coisa que você pode me ajudar, mas pode não acabar bem pra você. — Concluiu com uma mão na cintura e outra estendida de cabeça pra baixo na minha direção, com a cabecinha tipicamente inclinada pra esquerda que ela adora fazer.
Aquela pose graciosa era como o convite de um anjo para uma aventura, uma aventura com a Rikka. Não havia nada que pudesse me fazer recusar isso, ainda mais depois de ter dado minha palavra pra ela.
— Faço qualquer coisa.
E foi assim que eu assinei minha sentença de morte.
Ela ficou surpresa com minha resposta, e o silêncio tomou conta da biblioteca. Precisei retomar a ativa da conversa enfim perguntando com o que ela precisava da minha ajuda, e após uma certa resistência, ela confessou meio sem jeito.
— Você é bem alto... Então eu pensei que pudesse te pedir pra pegar algo pra mim, em cima do meu guarda-roupas. — Ela enfim havia deixado escapar seu lado tímido. Significa que não estava mais encenando e que isso era algo realmente importante pra ela.
Mas devo confessar que não esperava esse tipo de pedido!
— E-entendo. Você fez um bom uso dos meus atributos. — Eu estava tentando tranquiliza-la de algum jeito, pois sei o quão desconfortável é demonstrar nossas inseguranças. – Mas... Posso perguntar, o que é que tem lá em cima?
— Meu... Celular.
— O que? Como seu celular foi parar em cima do seu guarda-roupas?
Ela suspirou carregadamente e esclareceu
— A Sugu-Senpai, minha parceira de quarto, pegou ele de mim e o colocou lá em cima pra mim não usá-lo – Disse cabisbaixa com um biquinho de ressentimento.
Suguha. É a outra garota da tripulação. Eu soube pelo Daru que foi ela mesma quem trouxe a Rikka para a tripulação e que as duas tinham uma relação de Mestra e Aluna, então não achei que esse tipo de coisa acontecia entre elas.
— Rikka, ela... Não está fazendo bullyng com você por ser mais velha, né? — Eu não consegui deixar de perguntar. Não aguentava nem imaginar isso acontecendo com a pequena Rikka.
— Não, não, não é nada disso! — Ela prontamente negou, balançando as mãos e o rosto. — Ela fez isso pra me proteger... É uma longa história, mas não pense coisas negativas dela!
— Te proteger do que...?
— É um segredo. Me desculpa, mas você vai ficar na duvida. E então, vai me ajudar a recuperá-lo ou não? — Ela parecia estar ficando impaciente, então eu apenas respeitei seus limites.
Fomos em direção ao quarto dela, e eu podia sentir que estava brincando com fogo. Digo, entrar no quarto das garotas? Isso é proibido até pros veteranos! Se me pegassem ali eu não sei oque seria de mim, mas eu havia dado minha palavra, e aquele biquinho da Rikka era duro demais de ver. Eu não sabia oque tinha acontecido entre ela e a Suguha, mas tinha o pressentimento de que não devia tentar descobrir, já estava fugindo e muito do trabalho que me foi atribuído.
Quando a porta se abriu, parecia que eu estava em outro lugar. O Quarto das duas era tão cheiroso e arrumado! Além disso, ele era todo decorado, e cheio de pelúcias, pôsteres e figures femininas, apesar de eu achar ter visto algumas capas de mangá Yaoi em cima de uma das duas camas. Vtubers, Vocaloids, Idols, Hello Kitty, Garotas Mágicas, Pokemons, e até o teto do quarto das duas tinham satélites, planetas, estrelas, constelações e galáxias fluorescentes! Enquanto isso, meu buraco onde coexisto com o Daru, é um amontoado de livros, espadas, e um pequeno santuário feito para Amaterasu. O quarto delas era tão maior que o nosso que tinha uma mesinha redonda no centro dele, com várias cadeirinhas onde os pelúcias pareciam estarem juntos tomando chá, e em volta de todos eles no chão, um grande circulo mágico. Era o cumulo do estereotipo, mas tinha algo de ocultista em tudo aquilo que me fazia ter pena dos bichinhos.
— Uau. — Disse de boca aberta.
— Bem vindo ao nosso mundo mágico. — Ela parecia orgulhosa.
Vivendo num espaço desses, é natural que transcendam tanto. Era como se elas comessem fantasia no café da manhã, almoço, jantar, e sonhassem com fantasia. Simplesmente incrível.
Pegando uma cadeira e enfiando a mão em cima do guarda-roupas, finalmente senti o celular dela. Um sentimento de alívio tomou conta de mim ao saber que já tinha pago minha divida e que poderia fugir dali antes que algo de pior acontecesse.
— Aqui está. — Eu entreguei pra ela, que o recebeu com o entusiasmo de uma criança.
— Obrigada!
“Por ter visto aquele sorriso, valeu totalmente a pena o risco que corri”, foi oque eu pensei. Mas pensei cedo demais... Porque logo após isso, meu coração parou ao ver que a porta do quarto estava se abrindo!
Como uma visita da morte, o sol terminou de se por com a entrada daquela garota de cabelos negros e mechas loiras no quarto. A escuridão tomou conta, mas junto das estrelas do teto que começaram a brilhar com a chegada da noite, eu continuava vendo os redondos e penetrantes olhos daquela figura encantadora.
Por um momento eu pensei: Vou me camuflar na escuridão. Mas em 1 segundo ela já havia ascendido a luz e frustrado meus planos.
— V-você... — Disse apreensiva, levando sua mão fechada até o peito e entrando numa postura corporal defensiva.
Ela era muito diferente da Rikka, no sentido de ser muito mais expressiva. Mas isso não a fazia menos radiante. Pelo contrário, era como se me fizesse derreter perante ela, mesmo que quem estivesse demonstrando uma expressão genuína de vulnerabilidade fosse a mesma. Meu coração acelerou e eu não sabia oque fazer, apenas olhei pra Rikka como que dizendo: “Foi bom te conhecer”. A garota de 12 anos apenas inchou as bochechas e começou a coçar a cabeça num instinto de nervosismo não assumido.
Suguha viu que sua parceira estava segurando o celular, e nesse momento, sua expressão mudou. Seus olhos assustados se tornaram obstinados, como se em um segundo ela entendesse a situação e tirasse uma conclusão dela. Fechou a porta e usou a chave que carregava para trancá-la. E então, ao se virar de volta para nós, eu juro que foi como se eu visse a imagem dela apontando uma espada pra mim.
— Você... Ela te contou? — Não havia uma espada na mão dela, mas seu braço se estendeu na minha direção enquanto ela apontava para mim com um tom confiante e estranhamente amigável.
— Q-que você tirou o celular dela? Sim, mas não me contou o motivo. — Eu intuí que ela só se preocupava com o motivo e que se tranquilizasse ela o quanto antes as coisas poderiam se resolver de maneira menos trágica.
— Rikka-Chan? — Ela sorriu pra Rikka de um jeito acolhedor.
— Não contei... — Respondeu emburrada.
— Ufa... — A garota mais velha realmente pareceu relaxar ao ouvir oque queria. — Você é uma garota travessa, o que eu faço com você? — Como num desabafo, ela colocou as mãos na cintura enquanto suspirava.
— Desculpa... Eu... — A mais nova realmente me preocupava com toda essa tensão e mistério em volta desse celular. — Só queria tentar mais uma vez...
— Sei o quanto você quer isso... Depois falamos disso, ta bom? — Disse sorrindo e indo em direção à Rikka. — Vai, me devolve o celular. — Ela estendeu a mão, e Rikka lhe entregou.
Eu havia visto aquele agradecimento singelo e luminoso da Rikka ao receber o celular das minhas mãos, se desmanchando naquele rosto triste, e a única coisa que eu sabia é que quem estava deixando ela daquele jeito era a Suguha. Eu não queria me envolver nisso, mas eu já estava envolvido o suficiente, meu destino era incerto agora que fui visto no quarto delas tendo menos de 1 semana como tripulante, então naquele momento, nada mais importava, o sorriso da Rikka era a única coisa pelo qual eu podia lutar, e eu não ia abrir mão dele!
— Chega. — Antes que Suguha retornasse seu braço, eu estendi o meu e a segurei pelo punho. — Não vê o quanto ela está triste?
Ela tinha um braço tão fino que eu engoli o punho dela com minha mão. Podia sentir a maciez da sua pele e mesmo o quanto meu toque a fez se arrepiar e ficar assustada. Ela tentou se soltar fazendo força, mas não teve nenhum progresso. Então, eu pude ver que ela ficou ofegante e que seus olhos começaram a lacrimejar. Eu não queria estar fazendo aquilo, mas eu já não sabia mais o que fazer.
Rikka percebeu a situação e também se assustou, mas antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, eu e ela nos surpreendemos com o oque sobreveio por meio da Suguha.
— E-ei, você... — Ela havia enxugado as lagrimas com o outro braço, e ao retirar o braço dos olhos, o que eu vi não foi mais um olho humano... Foi o olho do furacão! — O que pensa que está fazendo? Decidiu bancar o herói? — Ela continuava ofegante, mas ao invés de chorar, estava sorrindo. Ela havia transmutado o medo em coragem, e por algum motivo, parecia se divertir com isso! — Você não devia estar aqui... Você depende de mim a partir de agora. Então seja sensato e colabore.
Ela estava certa. Mas minha situação continuaria aterradora e eu teria uma derrota completa ainda assim. “Ué? Desde quando virou uma competição?” Foi oque eu pensei. Não sei... Tudo oque eu sei é que agora era uma competição, e eu não queria perder.
— Você acha que eu sou tolo de aceitar virar seu refém? Você poderia me chantagear a partir de agora e pro resto da minha vida. Eu não vou te dar esse direito. — Disse com firmeza. Achava que só bastava continuar firme que ela sucumbiria sozinha.
Mas não foi o que aconteceu. Minha resposta fez seus olhos se tornarem ainda mais turbilhões coloridos, como se quisessem me engolir pra dentro deles.
— E o que você acha que pode fazer pra me impedir? Você já está na minha mão, não importa o que diga... — Ela transbordava confiança e coragem, mesmo encarando um homem, e isso me fazia admirá-la, os tripulantes dessa nave são realmente incríveis! Mas ao mesmo tempo, por algum motivo, isso me fazia querer vê-la chorar, queria vê-la sucumbir, pela minha mão.
Eu apertei seu punho ainda mais e a rebati com agressividade:
— Você acha que me tem na palma da mão? Mas eu posso dizer o mesmo, com esse segredo de vocês duas aí. Se é algo tão secreto a ponto de você trancar a porta para ninguém descobrir, significa que coisa boa não é! Eu posso não saber do que se trata, mas eu sei que estão escondendo algo, e só de saber disso eu já posso denunciá-las! O que você acha que é pior? Eu entrar no quarto pra resolver um problema, ou o problema em si? Eu vou ser visto como o Herói da história e vou ser inocentado!
— Já chega! — Foi a manifestação da Rikka. — Por favor, parem com isso!
Por mais que eu gostasse da Rikka, por algum motivo, estava mais interessado na Suguha. Eu sequer olhei pro lado, queria apenas ver o impacto das minhas palavras nela, queria ver aqueles olhos sinistros perderem a cor.
Mas não foi oque eu vi. Aquela garota possui uma capacidade adaptativa fora do comum. Diferente de mim, ela olhou pra Rikka quando ela gritou, e parece que esse simples fato, lhe serviu de base, como que lhe sendo a garantia de alguma coisa que a tornasse superior a mim. E isso lhe deu confiança, lhe deu força, e seus olhos não perderam a cor, eles brilharam ainda mais.
— Não sabia que tínhamos covardes sádicos a bordo. — Proferiu com um sorriso triunfante. — Eu entendi suas verdadeiras intenções, e agora... Vamos resolver isso.
Ela estava tão confiante que pensei que ela diria “e agora... é impossível perder pra você”. Como se estivesse abençoada pela Deusa da vitória, tudo porque eu não olhei pra Rikka. De onde ela tira essas conclusões?
— Resolver? O que você sugere?
— Uma trégua! — Disse a Rikka, pegando na minha mão e me fazendo soltar o punho de sua companheira. — Ambos são reféns um do outro, não são? Então vamos esquecer tudo isso e fim do problema.
A sugestão da trégua era a sugestão ideal, já que nenhum de nós realmente queria trazer nada a tona. No meu estado normal eu abraçaria essa opção em prol da estabilidade. Mas eu não estava no meu estado normal. Eu queria vencer, queria sair com mais do que eu comecei. Por incrível que pareça, eu não queria essa trégua.
— Eu recuso — Disse Suguha, roubando minha fala com o sorriso mais cínico e ousado que eu já vi.
Isso me abalou, foi como um critical hit na minha realidade. De alguma forma e por algum motivo, ela também queria sair com mais do que tinha antes. Mas o que? O que mais ela poderia ganhar? Seria me prejudicar com os outros? Ela seria tão vingativa assim, ou é mais do que só vingança? Eu só sei que o fato dela recusar uma trégua dessas dadas as condições, e ter dito isso antes de mim, mexeu comigo, eu dei um passo pra trás e engoli em seco.
“Oh não... Estou voltando a ser a pessoa tímida de antes? Não se contenha! Abrace essa nova versão de si mesmo! Não a deixe ir embora!”
— Eu também recuso — Disse com firmeza.
Eu sinto que a Rikka ter tirado a minha mão do punho dela inibiu ainda mais a minha capacidade de pressioná-la, ela se sente ainda mais confiante agora, como se a Rikka tivesse sido realmente a Deusa que lhe concedeu a garantia da vitória.
“Esse fantasma da influencia da Rikka não sai da minha cabeça, e é como se eu pudesse ler os pensamentos da Suguha, e soubesse que ela está pensando exatamente isso! Ela pensa que é impossível perder! Oh, droga! Estou perdendo a confiança? Será que eu consigo pegar o braço dela de novo...? Oh meu Deus, no que eu estou pensando? O que raios eu estou fazendo? Isso não é bom... Estou ficando acuado, estou diminuindo, me sentindo pequeno perante ela, perante os olhos dela. É como se eles fossem me engolir! Socorro!”
— Oh, e o que você sugere? — Indagou a mais velha, com um tom divertido.
“Ela me colocou contra a parede de uma hora pra outra. De repente, é como se eu tivesse medo de falar. É como se não valesse mais a pena lutar, como se não tivesse mais nada que eu pudesse ganhar com isso. Como se eu já tivesse perdido psicologicamente, perdido pra presença dela.”
“Não... Ela é só uma garota com excesso de confiança. Eu só preciso manter a calma, existem sim coisas que eu posso tirar disso, eu tinha entrado em pânico e isso me fez perder a lucidez.”
Eu respirei fundo, agarrei aquele meu lado intenso de novo, e proferi com convicção.
— Eu só aceitarei essa trégua se eu entender o que exatamente está acontecendo entre vocês. Quero que me digam qual é a desse celular. Contanto que eu saiba de tudo, dou a minha palavra de que não vou denunciá-las.
“Sim, eu só queria saber o que raios é esse segredo, é algo que eu não tinha antes e que sairei desse quarto carregando em mãos, vitorioso.”
Eu achava que tinha feito algo que a obrigava a se rebaixar a minha vontade e que me daria todas as informações necessárias para tê-la na minha mão, achava que apesar da pequena crise de confiança que me atingiu, eu havia conseguido assumir as rédeas da situação e conquistado a vitória.
Mas por que... Por que é que eu podia ouvir os pensamentos dela dizendo: “Oh, você se contentou em se rastejar? Que decepção.”
Fui atingido por um raio quando ela exerceu o seu turno de ataque.
— Que engraçado, essa era a mesma condição que eu tinha.
A capacidade adaptativa dela superou qualquer barreira. É como se a realidade dela engolisse a minha. Como se seu olho do furacão tivesse se tornado um buraco negro, e me engolisse por completo dentro dele.
— C-como assim...? — Minha alma havia deixado o meu corpo.
— É como ouviu... Eu quero te contar, quero que você escute, escute tudo sobre mim. Depois que você escutar, eu aceito a trégua. É uma ótima notícia termos as mesmas exigências, não? Você pode me falar sobre você também. Vamos trocar figurinhas como os bons amigos que seremos a partir de agora!
E então aconteceu. Suguha começou a me dar oque eu queria, e muito mais. E minha imaginação começou a me auto-sabotar, me trazendo a imagem de mim como um parasita grudado no pescoço dela, um vampiro que queria sugar toda a sua vitalidade, mas que ao abocanhar a minha presa, ela tivesse vida demais. Como se seu sangue me entupisse de puro veneno.
— Somos Garotas Mágicas. — Proferiu cobrindo seu olho esquerdo com um V deitado, enquanto seu aroma de confiança impregnava as profundezas da minha alma. — E ninguém pode saber que levamos esse tipo de vida. Eles pensam que somos apenas canalizadoras de informação viva, mas nós somos muito mais do que isso.
Essa era a situação: as duas se consideravam Mahou Shoujo, que mergulhavam em Dimensões Perdidas para enfrentarem Seres Malignos e purificarem aqueles mundos, por meio de Shifting e Projeção Astral. Mas aparentemente essa prática não seria permitida pelos líderes, pelo fato delas serem “receptáculos de alto valor”, e que não valia a pena correrem o risco de “se estragarem” nessas experiências arriscadas. E era exatamente oque tinha acabado de acontecer. Rikka havia tido uma experiência traumática no seu ultimo mergulho, e isso havia prejudicado sua imaginação. Ela queria o celular de volta para que pudesse se conectar com aquele universo sombrio que a traumatizou, e tentar voltar lá de novo para derrotar “os vilões” que ela não tinha conseguido da outra vez, mas Suguha não queria expor ela àquilo de novo. Suguha estava tentando recuperar a Rikka e concertar a situação da maneira dela, sem que tudo viesse a tona aos outros tripulantes.
Com toda a expressividade de Suguha, minha cabeça foi invadida pela ideia das duas terem um laço muito forte. Rikka, cabisbaixa e abalada, se aproximou de Suguha e abraçou a companheira de quarto enquanto estávamos sentados em uma das camas. E eu queria explodir por dentro. Ver a Rikka buscando apoio emocional na garota que estava me devorando com os olhos, me consumia. Eu pensei em julgá-la pela irresponsabilidade de expor uma criança a algo tão perigoso e que podia causar tanto atraso aos objetivos da nossa tripulação, mas no fundo, eu é quem queria estar no lugar dela. Afinal, como eu mesmo disse, uma aventura com a Rikka é algo irrecusável... Eu também iria querer sair em jornadas com ela nesses mundos distantes, sem me importar com as consequências. Mas esse espaço na vida dela já está preenchido pela Suguha... Eu não tinha papel nessa história.
Ela tinha um espirito de criança aventureira maior do que o meu.
— Você não precisa se preocupar, eu estou cuidando dela, vamos superar esse obstáculo juntas e rir disso tudo no futuro como lembranças de uma emocionante aventura. — Ela concluiu sua desconsideração por mim enquanto passava a mão na cabeça da Rikka que continuava abraçada nela.
“O que eu estava pensando quando achei que pudesse resolver alguma coisa? Eu não sou necessário, não sou nenhum herói, a verdadeira heroína da Rikka é ela.”
Eu respondi de maneira compreensiva, adotando a minha postura passiva de sempre. Estava acabado. Queria que ela desse o golpe final logo, mas ela me torturou estendendo a conversa com mais “curiosidades” sobre ela.
Me contou o quanto ela admira a todos da tripulação, o quão leal e séria ela é em relação à nossa causa. Me contou o quanto todo esse mundo da fantasia enriquece a vida dela e como ela ama ler e escrever também. Tudo isso são coisas que eu também tenho, mas diferente do que eu senti quando vi semelhanças entre eu e a Rikka, dessa vez, a sensação era horrível. Não estávamos compartilhando gostos... Ela estava absorvendo os meus gostos pra ela, e me deixando sem nada. Eu não conseguia competir... Simplesmente, sentia como se tudo pertencesse a ela, como se ela fosse a dona de tudo oque era importante pra mim. Todas as coisas preciosas que eu tinha, até mesmo a minha admiração e lealdade à tripulação, não são o suficiente! A realidade dela é superior.
Também me contou sobre seus sonhos e todas as experiências que a fazem merecer sua posição de Sacerdotisa da Nave. Rikka acabou abstraindo dos sentimentos negativos e se empolgou para falar das experiências dela com os Deuses também, e eu comecei a me sentir pressionado até por ela. Na verdade, senti que no fundo a Rikka guardava uma natureza parecida à da Suguha, e com um potencial de consumo ainda maior. As duas firmaram contratos com entidades como Brigid, Apolo, Hermes, Amaterasu, Tyr, sem falar nas revelações que tiveram, até mesmo vendo Cristo. Elas também interagiam com seres imaginários que apenas elas conheciam, e os relatos de síncronicidades em torno das duas era algo fora do normal. E como se não fosse o bastante, também me mostraram que possuem poderes de cura!
— Mas e você? Nos conta mais sobre você! — Ela não iria me soltar daquele quarto até que minha cabeça rolasse pelo chão.
Timidamente, contei minhas experiências mais importantes e especiais, talvez com a esperança de ser reconhecido por elas, de me sentir um pouco especial. Mas eu cai como um patinho. Sentia que conforme transformava minhas preciosas experiências em palavras, elas perdessem o valor, se tornassem parte desse mundo lógico, e sumissem do meu coração. Sentia como se estivesse perdendo tudo... E para finalizar, que tipo de reconhecimento foi esse que eu recebi?
— Uau, que incrível! Você será de grande ajuda para nós!
Por que eu não consegui ficar feliz com isso? Eu sorri como um bobo, mas no fundo, queria chorar. Uma grande ajuda? É apenas sobre isso que eu me resumo? Sou apenas um degrau para vocês alcançarem as estrelas? É, acho que no fim, tudo oque eu fiz hoje só te ajudou a brilhar ainda mais. Eu só existo para te auto-promover. É como se Deus tivesse me dado esse papel injusto em prol da sua existência.
Após decapitada a minha cabeça, recebi uma mensagem do Daru perguntando onde eu estava. Já havia passado uma hora que eu estava ali dentro, mas pra mim tinha parecido uma eternidade. Era a hora de sair, e Suguha também já estava satisfeita. O inferno havia acabado e eu só queria ir dormir e esquecer tudo isso.
Mas eu me esqueci... Que o conceito de inferno, é o de não ter fim! Ao abrirmos a porta, demos de cara com ninguém menos do que o Guimel!
— Eai. — Disse com uma expressão travessa que me causou medo genuíno. — O papo tava bom hein.
Fiquei petrificado. Será que ele havia ouvido tudo? Olhei para as garotas logo atrás de mim, mas elas não pareciam espantadas. Rikka não parecia preocupada, apenas surpresa e curiosa. Já Suguha, demonstrava um semblante indecifrável, eu captava uma mistura de resignação e obstinação, ao mesmo tempo que ela parecia se divertir, também parecia mais mansa e inofensiva, como se o cara a nossa frente tirasse todas as certezas dela e as substituísse por duvidas sobre tudo.
— Você veio muito cedo. Não combinamos que seria as 20 horas? — Proferiu Suguha, de maneira levemente receosa.
— Eu não vim para aquilo. Fiquei sabendo que o novato tinha sumido sem dizer pra onde iria, e ouvindo vozes aqui dentro, imaginei que ele estaria aqui. Mas a conversa estava boa então decidi ficar ouvindo. — Ele falava com uma naturalidade e presença preguiçosamente confiante.
— Você não presta... — Ela bufou de maneira cansada. — Acho melhor levar ele logo então. E imagino que você vai manter sua neutralidade, certo? Afinal, nosso trato cobre isso.
— Contanto que você me pague, daijobu. — Ele vocalizava o mesmo tom divertido e ousado que ela usou comigo antes. Mas mais importante do que isso, foi que eu pude ver... Os olhos dele haviam brilhado mais intensamente do que uma galáxia.
Nessa hora eu entendi... Guimel era como ela, ou até mesmo mais forte que ela. Era totalmente diferente o tipo de interação entre aqueles dois, em relação a interação que ela teve comigo. Isso rasgou meu peito, porque eu entendi que nem mesmo o privilégio de ser o único a ter entrado no quarto delas eu tinha. Guimel já estava ocupando esse espaço.
— Vamos lá, novato. Você não vai querer que fiquem sabendo disso. — Ele enlaçou o braço sob meu pescoço, me coagindo pra fora do quarto enquanto sorria simpaticamente.
Esse era o fim daquela noite, eu cruzei a porta arrastado pelo Aventu-Guerreiro Guimel, e ao olhar brevemente para trás, vi Suguha fechando a porta lentamente, com a Rikka acenando ao fundo, e por mais que aquele lugar tivesse sido como o inferno pra mim, eu não conseguia deixar de desejar voltar pra lá. Visto do lado de fora, aquele inferno era o céu, e ver os portões do céu se fechando, foi doloroso.
— E então... O que achou delas? — Perguntou Guimel, retirando o braço de cima do meu ombro.
— Elas são incríveis. Rikka é um anjinho, e Suguha tem as melhores intenções. — Respondi placidamente, relaxando após tudo ter acabado.
Eu havia entendido a situação. Guimel estava sabendo do problema das duas, e provavelmente estava chantageando elas. Eu ainda não sabia o que ele estaria fazendo no quarto delas as 20 horas, mas se elas estão pagando ele por manter o segredo, não dá pra confiar que ele não vá me chantagear também. E tudo isso ficou ainda mais claro, quando ele me respondeu.
— De boas intenções, o inferno está cheio. — Proferiu despreocupadamente. — Nós ainda não estamos no céu.
Sim, todos nós, ainda estamos no inferno. Por mais que essa seja a tripulação da esperança, nenhum de nós está livre do inferno que é viver nesse mundo. Mesmo eu poderia ser julgado como tendo boas intenções com a Rikka... Mesmo eu queria ter vencido a Suguha naquela batalha de realidades. Guimel reconhece isso, e como o guerreiro que é, assume sua postura de predador e escala a montanha de corpos mortos de todos os inimigos que ousam cruzar seu caminho.
E foi a partir daí que minha nova jornada dentro da Tripulação Da Esperança de fato começou. Foi a partir daí que meus olhos acenderam uma pequena fagulha, uma fagulha que nasceu quando enfrentei a realidade da Suguha, e mesmo que eu tenha perdido, me lembrei da frase que ouvi em Blue Lock: É apenas ao experienciar a derrota completa, que podemos evoluir!
Sim, eu sou grato por ter perdido. Eu sou grato por ter conhecido pessoas tão incríveis. Eu vou auto afirmar cada pedacinho da minha realidade, e vou superar todos vocês!
“Suguha acha que retirou tudo de mim e que frustrou minha vontade de sair daquele quarto com algo que eu não tinha, mas ela está errada!”
“Eu entrei naquele quarto como um homem tímido e sem nenhuma intensidade. Mas saí de lá tendo conhecido um lado meu totalmente novo. E esse simples fato, garante a minha vitória!”
“Oh, acho que entendi...”
Nesse momento, eu olhei para o Guimel, sem saber que no fundo dos meus olhos residia uma chama vermelha, da cor do sangue envenenado que eu havia sugado do pescoço da Sacerdotisa da nossa Nave.
— Eu vou superar essa realidade infernal. E qualquer outra que cruzar o meu caminho! — Proferi sorrindo com confiança.
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