Batalha Real - Matar ou Morrer!
24 Daqui até o fim
19 horas e 39 minutos de jogo...
Cícero estacionou o carro no limite da Arena, no quadrante A-7. Ele tirou a chave do carro e a guardou no bolso, a pistola repousava em sua coxa esquerda enquanto ele guardava a espingarda que estava no banco do carona na bolsa.
Ele olhava para aquelas grades à sua frente e pensava como estaria sua vida se não estivesse naquele jogo. Provavelmente estaria sendo feliz, ao menos mais do que estava no momento. A dúvida sobre participar ou não do jogo nunca fora uma dúvida para ele, não gostava de ter que participar, mas no fim só restaria um não é mesmo? Não seria idiota de se recusar a jogar, afinal, sua vida valia mais do que seus princípios.
Colocou a alça da bolsa no ombro e saiu do veículo, olhando atento para os lados e empunhando a pistola. Seu braço e ombro esquerdo estavam doendo muito, mas já havia se acostumado, ao menos os ferimentos pararam de sangrar. Ele atravessou a rua e subiu uma escada, até chegar na entrada de uma casa.
– Aconchegante... – Ele disse para si mesmo ao contemplar a sala de estar.
Desde que deixara a escola, ficou o tempo inteiro acordado, indo atrás dos outros participantes. Estava exausto, mas satisfeito por conseguir ter eliminado duas concorrentes. Se deitou no sofá da sala, deixou a bolsa ao seu lado no chão e ficou olhando para o teto, respirando fundo.
***
Cezar, Lucas e Kézia se encontravam no 5º andar do prédio residencial no quadrante D-5, os três haviam decidido que por enquanto era melhor se esconder em um prédio, isso dificultaria o trabalho de possíveis caçadores que estivessem percorrendo pela cidade às cegas atrás de uma vítima qualquer. Suas bolsas encontravam-se no chão da cozinha e suas armas estavam em cima da mesa. Um revólver, uma pistola e um arco. Cezar estava em pé, próximo à pia, deixara sua arma de choque e faca de trincheira dentro de sua bolsa, não queria que seus colegas descobrissem que ele já havia matado. Seu coração estava acelerado e suava frio, seus olhos correndo pela cozinha até a bolsa hora ou outra, torcendo para que nenhum dos dois resolvesse confiscá-la.
– Quantas horas de jogo se passaram? – Perguntou Lucas sentado à mesa, observando Kézia na cadeira do outro lado se afogando nas próprias lágrimas.
– Quase 20 horas... Daqui a pouco vai começar a escurecer... Horário de verão... – Cezar disse, tentando incrementar a conversa, mas olhando preocupado para Kézia.
– A gente tá fodido. – Lucas disse depois de uma longa pausa.
– Conta uma novidade. – Cezar disse, olhando com repreensão para o amigo.
– Nós vamos morrer. – Kézia finalmente disse. – E nem estou falando da boca pra fora... Vocês sabem, só resta um no final...
– A gente já conversou sobre isso! – Esbravejou Cezar.
– E mesmo que pudesse sobrar três... – Continuou Kézia – Acho que nenhum de nós teria coragem para matar ninguém. Teríamos?
– Você parecia bastante corajosa quando apontou a arma pro Lucas. – Cezar disse, perdendo a paciência.
– Nós estávamos assustados. – Lucas retrucou.
– TODO MUNDO TÁ! – Cezar ergueu a voz.
Kézia voltou a chorar, com a cabeça baixa de bruços sobre a mesa. Lucas ficou olhando para Cezar perplexo.
– Não foi por isso que fizemos essa aliança? – Cezar disse – Por medo? Por que precisamos uns dos outros para nos fortalecer? Para não nos sentirmos tão... Vulneráveis?
– Sim... É só que... A gente tá tão preocupado... Que acaba perdendo a cabeça. – Lucas disse.
Cezar caminhou até a sua bolsa e tirou de lá uma caneta, fechou o zíper da bolsa e se sentou junto à mesa.
– Me deem suas mãos. – Cezar pediu
– O que você vai fazer? – Lucas pediu estendendo a mão.
– Um sinal – Disse Cezar desenhando na mão de Lucas.
– Que sinal? – Kézia perguntou estendendo a mão quando Cezar terminou de rabiscar a mão de Lucas.
– Isso é um V? – Lucas perguntou olhando para a sua mão mão enquanto Cezar terminava de desenhar na mão de Kézia.
– Não é um V...- Cezar disse – Isso funciona em conjunto... – Agora desenhando em sua própria mão.
– Ainda não entendi... – Kézia olhou confusa.
– Estendam suas mãos... — Cezar disse, juntando as mãos dos colegas junto à sua.
– Isso é um... – Lucas olhou compreendo.
– Um triângulo! – Cezar completou – Somos um time não? Um trio... Como um triângulo, só existe com três pontas, e três lados que se completam.
Os três contemplaram o desenho que se formou com a aproximação de suas mãos.
– Somos nós três! – Cezar continuou – Juntos! Daqui até o fim...
***
Gustavo estava na cozinha de um apartamento no prédio do quadrante G-6, preparando um omelete na frigideira. Havia dormido um bom tempo depois de passar a noite caçando os outros participantes e acabara perdendo um ou dois anúncios, mas nada que fizessse muita diferença, não iria ficar se escondendo por aí para cair em uma Zona de Perigo. Torcia para que mais participantes tivessem sido eliminados, afinal quanto menos concorrência melhor. Se sentia completamente descansado e disposto para mais uma noite de caça, levara sorte de receber uma boa arma, um fuzil.
Ele olhava para o fuzil e se perguntava se a arma que recebera influenciou em sua decisão de participar do jogo, mas acreditava que não, afinal, quem quisesse vencer de verdade acabaria arrumando um jeito. E no momento em que seu nome foi chamado e achara aquele fuzil em sua bolsa, ele sabia que aquilo era um sinal, um sinal de que estava destinado a lutar para vencer, que iria sair daquela vivo, que faria todos aqueles que algum dia duvidaram de sua capacidade se calarem. Terminou de cozinhar o omelete e o colocou em um prato, se sentou à mesa serviu-se, imaginando nas próximas horas em que voltaria para a sua caçada.
***
Helia acabara de sair da Loja de roupas do quadrante I-9 e agora caminhava pela Avenida com cautela. Alguns metros à sua frente, ela avistou um corpo caído no chão, era como se o seu mundo tivesse caído, suas pernas ficaram fracas e sentiu um frio percorrer-lhe o corpo. Sem perceber, lágrimas já caíam do seu rosto, prevendo o inevitável. Se aproximou do corpo caído de barriga para o chão e reconheceu Tainá. Sem nem conferir se havia alguém por perto, caiu de joelhos ao lado da colega morta e não conseguiu segurar as lágrimas.
– Tainá... — Helia disse soluçando — Eu sinto muito... Isso foi horrível... Sei que nunca nos falamos muito, mas... Não posso mentir... Eu sinto muito.
Helia se levantou e caminhou até a entrada de uma Loja, onde havia alguns vasos com flores. Arrancou algumas flores brancas de um vaso e voltou até Tainá.
– Me perdoe... — Helia continuou — Eu sei que... Você... Merece muito mais que isso...
Helia virou o corpo da colega e repousou as flores em seu peito
– Você merece muito mais... Eu sinto muito... Eu não queria que as coisas fossem assim... Eu queria que... As coisas fossem melhores... Eu sinto muito... Você foi uma pessoa tão boa, mas fomos todos colocados nessa situação... Você não merecia isso... Eu quero que saiba que... A sua vida... Sua existência, não foi em vão! Ela foi importante, e ainda é para mim. Você vale a pena Tainá! Foi muito bom ter conhecido você... Do coração... Eu sinto muito.
Sobreviventes: 18 e contando...
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