Batalha Da Lua

22 Relembrando o passado - Yui


Notas iniciais
Lembra que eu fiz um capítulo falando sobre o passado da Kaye, do Riki, do Katuo e da Chiharu? Bom, a Yui achou um tempinho e vai fazer um sobre a Hanako, a Sachiko e o Hiro.
Abraços, Mikachan.

Ponto de Vista — Hanako

Como eu fui ingênua... Eu era uma garota simples, vivia numa pequena vila de camponeses, não sabia nada sobre a crueldade humana. Na minha vila ajudávamos uns aos outros e eu imaginava que todas as pessoas eram gentis e bondosas. Assim que me tornei uma adolescente tudo começou a mudar. Os homens mais velhos me olhavam de uma forma que me constrangia e as mulheres fechavam o rosto para mim. Eu queria viver um lindo e grande amor e sabia que ali não encontraria o que estava procurando. Meus pais concordaram em me enviar a cidade para estudar e quem sabe ter uma vida melhor que a deles. Parti com o coração cheio de esperança e assim que cheguei na cidade grande fiquei encantada com tudo. No meu novo colégio nenhuma garota me tratava bem, todas faziam comentários maldosos sobre eu ser uma garota sem classe e não estar no mesmo nível delas, não havia garotos pois era uma escola apenas para meninas.

Eu sofria calada, até que um dia tivemos uma palestra na escola e um homem bem mais velho do que eu veio falar conosco sobre a importância de nossos estudos para o futuro do nosso país. Eu me sentei na fileira dos fundos, isolada de todas e no final da palestra, quando estava saindo alguém me chamou e ao olhar me deparei com aquele homem elegante e educado, ele me tratou muito bem e daquele dia em diante , sempre via ela na minha escola e ele me procurava e começou a me dar presentes e me elogiar, eu me sentia muito bem e nunca tinha ganhado tantos presentes e sido tratada daquela forma, comecei a me apaixonar por ele e a idade não importava para mim. Quando ele me beijou pela primeira vez me senti nas nuvens, me senti cono nos meus sonhos, até que tudo se transformou num verdadeiro pesadelo.

Ele me pediu para ir viajar com ele, pois, não aguentava mais ficar tanto tempo longe de mim, acreditei nele e ele até mesmo comprou um anel para mim e eu sai escondida do meu colégio e não avisei meus pais e ninguém sabia o que eu estava fazendo. Ele me esperou alguns quarteirões da mina escola, estava escuro, ele me tratou de uma forma seca e eu estranhei, mas, achei que ele devia estar cansado. Viajamos por toda aquela noite e eu nem imaginava para onde ele estava me levando, olhava o tempo todo para o meu anel e sonhava que estávamos indo nos casar . Pouco antes do sol nascer o carro parou, era um lugar muito feio e sombrio, um casarão antigo de pedras cinzas, muito diferente do que eu esperava. Ele desceu e abriu a porta para mim, tentei dar as mãos mas, ele foi logo em direção ao grande portão e então apareceu um homem muito estranho, ele era muito alto e forte, com uma tatuagem no pescoço, assustador, me encolhi de medo sem entender nada, vi os dois conversando e trocando um pacote com um aperto de mãos. Eles se viraram para minha direção e fui puxada para dentro, já estava com tanto medo que sentia tudo rodando ao meu redor, sorrindo para aquele homem ele disse as palavras que nunca mais sairiam da minha mente:

- A primeira vez será minha como combinado, depois você pode fazer o que quiser. Essa garota foi muito fácil de enganar, com toda essa beleza, iremos lucrar muito, não se preocupe a família dela é feita de uns ignorantes, podemos sumir com ela que ninguém irá notar. O chefe do pai dela me vendeu ela e conseguimos enganar a todos enviando ela para escola, nosso esquema é perfeito, em breve trarei outra, quantos idiotas existem nesse mundo! Essa ai é tão bobinha que achou mesmo que iriamos nos casar...

Eu queria acreditar que aquilo era minha imaginação me pregando uma peça, mas, nunca mais sai daquele lugar. Passei a ser um objeto ali, minha beleza se virou contra mim e aquele que eu amava me vendeu e me traiu de pior maneira possível, fui obrigada a dançar todas as noites para homens bêbados e mal cheirosos, não me sentia mais eu mesma, no começo chorava o tempo todo, tentei fugir e fui espancada muitas vezes. Com o tempo a tristeza se transformou em revolta e eu já não me permitia sentir nada, prometi a mim mesma que nunca mais amaria nenhum homem. Um dia me vingaria de cada um deles.

Quando pensava que não poderia haver nada pior que aquilo, estava fechada em meu quarto e uma mulher entrou com uma faca na mão, ela começou a me xingar e disse que eu havia enganado o marido dela e agora iria aprender uma lição, ela cortou meu rosto e só não me matou, pois, foi impedida, eu estava sangrando e no fundo estava feliz, não queria mais ser bonita, odiava meu rosto, então no meio da confusão eu caminhei até uma janela aberta e me atirei de mais de 8 andares. Minha morte foi minha fuga e agora estou pronta para usar minha arma mais poderosa e cada homem que se aproximar de mim será morto! Minha sede de vingança nunca será aplacada. Somente a morte daqueles que me traíram e me usaram iria aplacar minha dor, mas, eles estão mortos e infelizmente não pelas minhas mãos.

Ponto de Vista — Sachiko

Em meio a essa imensidão de neve e gelo, meus pensamentos se voltam para meu passado, não conheci a compaixão e nem amor e carinho. Minhas primeiras memórias são da minha vida num orfanato escuro e frio. Não entendia poque nenhuma família me adotava, via muitas crianças sendo escolhidas e com o tempo já nem esperava mais por essa ilusão, me calei e guardei minha dor em silêncio. Um dia a comida começou a ficar escassa, não apareciam mais famílias e ninguém mais era adotado, muitos de nós decidimos fugir e não fomos impedidos. Havia ruína e caos nas ruas, comércios destruídos, carros pegando fogo, um cenário de guerra. Em meio aos escombros, encontrei um filhote da cachorro com a pata ferida, ele olhava para mim e estava triste, mas não chorava, me senti ligada a ele e o retirei dos escombros e entrei numa farmácia, consegui umas bandagens e apenas isso, mas cuidei dele que aos poucos se recuperou. Minha jornada em busca de abrigo e comida começou, sentia fome o tempo todo, mas nunca me senti tão livre e pela primeira vez tinha um amigo que estava sempre comigo e cuidava de mim. A medida que a fome se alastrava, as pessoas se tornaram cruéis e não se viam mais sorrisos e gentilezas, famílias foram mortas por um pedaço de pão e eu me escondia testemunhando toda aquela maldade.

Estava muito magra e me sentia doente, sabia que meu único amigo estava doente também. Já havia tentado encontrar ajuda, mas ninguém se importava comigo e fechavam as portas para mim. Com minhas ultimas forças tentei obter ajuda para Kawaii e recebi olhares furiosos, até que percebi quando alguns deles queriam se alimentar dele e até mesmo de mim, corri muito e nunca mais me aproximei de ninguém esperando encontrar ajuda.

No meu ultimo dia de vida, encontrei um abrigo subterrâneo e fui expulsa, praticamente chutada para fora, então com o clima extremamente gelado perdi meu amigo e morri com muita dor e muito frio.

Uma lágrima escorre em meu rosto e quando olho para o outro lado do lago e vejo Hiro, sinto-me confusa a seu respeito, não acredito na bondade das pessoas, nunca tive carinho, mas, ele tem cuidado de mim e está, até mesmo agora que estamos separados, cuidando de mim. Acho que é melhor assim, não quero sentir nada por ele e nem por ninguém.

Ponto de Vista — Hiro

Olhando para Sachiko tão longe e me sentindo impotente meus pesadelos voltaram a me atormentar. Sentia meu corpo quente e estava muito frio, me perdi em meio a meus tormentos.

Meu pai era uma pessoa muito amável e sempre ajudava todos que precisassem, ele tinha uma empresa e quando as coisas começaram a se deteriorar no setor financeiro mundial, ele estava alerta e começamos a estocar água e mantimentos em nosso porão, além de medicamentos e armas. Eu aprendi a manusear algumas armas e sentia cada dia meus pais mais e mais aflitos com o que estava por vir, mas, eles não deixavam eu e meus irmão nos sentirmos desprotegidos.

Um dia meu pai disse que a empresa havia fechado as portas e devíamos nos preparar para cuidarmos uns dos outros, era meu dever cuidar de meus irmão mais novos e eu entendia isso.

O cenário mudou completamente, havia fome ao nosso redor, violência e saques. Minha família se abrigou no porão e não saímos por semanas, mas meu pai se sentia culpado por ter comida armazenada sabendo que tantos morriam de fome. Um dia ele decidiu sair e me levou junto, vimos nossa vizinhança destruída por vandalismo, nossa casa estava depredada e vimos corpos nas ruas, lágrimas caíram de nossos olhos e entendemos que nunca mais viveríamos como antes. Voltamos para o abrigo e não falamos nada para minha mãe e meus irmãos.

Meu pai acreditava que após um tempo de fúria e saques as pessoas iriam procurar uma solução e a violência terminaria, com nossos suprimentos esgotando, ele começou a sair todos os dias em busca de alimento, mas eu sabia que ele estava tentando encontrar alguma ajuda ou uma saída para nosso futuro.

Após uns meses de muita privação de alimentos, viajamos para nossa antiga casa no campo, a viagem foi infernal, não podíamos parar o carro por medo de sermos mortos e saqueados.

Nossa casa estava intacta, já que estava localizada numa área muito afastada. Achávamos que poderíamos recomeçar e plantávamos algumas frutas e legumes, comíamos pouco, mas nos sentíamos bem e seguros. Meus irmãos até voltaram a brincar e sorrir. Meu pai fazia planos para um dia reabrir seus negócios e ajudar as pessoas.

Uma noite fomos surpreendidos por alguns adolescentes se aproximando de nossa casa, eram muito magros e carregavam armas. Meu pai me mandou me esconder com meus irmãos e minha mãe, eu deveria cuidar deles, ele então verificaria tudo. Após umas horas meu pai retornou com aquele grupo e para meu espanto disse que estava tudo bem e que eles precisavam da nossa ajuda e que era nosso dever acolher os jovens que tinham perdido suas famílias e estavam morrendo de fome.

Eu tive uma breve discussão com ele por tomar essa decisão, não confiava naqueles estranhos, sentia que algo estava errado, eles usavam armas e olhavam para minha família e para nossa casa de uma maneira que me fazia sentir náuseas. Mas, não adiantou, eles ficaram em nossa casa por alguns dias. Algumas vezes eu os flagrava tentando roubar alguns objetos da casa, e eles sussurravam de forma estranha. Minha irmã tinha medo deles e meu irmão também, minha mãe sempre agia estranha quando passava perto daquelas pessoas e eu sabia que algo não estava normal. Apesar do comportamento imprudente e imprevisível daquele grupo, eles respeitavam meu pai e não se atreviam a demonstrar comportamento suspeito perto dele. Um dia, eles agradeceram com a maior educação e disseram que iam embora. Minha família concordou e eu sei que minha mãe e meus irmãos ficaram bem aliviados. Umas semanas após a retirada do tal grupo, meu pai disse que ia sair para procurar suprimentos e que minha mãe iria junto. Eles confiaram a mim a posição de responsável pelos meus irmãos. Inseguro e preocupado vi os dois partirem até que após algumas horas aquele grupo voltou a nossa casa. Eles estavam armados, eu corri o mais depressa que pude, peguei uma arma e escondi meus irmãos. Eles entraram derrubando a porta e gritando , eu levantei minha arma e atirei num deles, o tiro acertou sua barriga e ele começou a berrar. os outros enlouquecidos começaram a atirar, entrei em uma luta corporal com alguns deles, mas eles estavam em maior numero e me bateram forte na cabeça, eu perdi meus sentidos e desmaiei, quando voltei a mim, estava amarrado a uma árvore e via meus irmãos em frente, eles estavam sangrando e chorando, implorando para que eles parassem, mas, eles me obrigaram a olhar enquanto matavam meus pequenos e frágeis irmãos, naquele momento me senti o maior incapaz e a dor era tão grande que achei que iria morrer. Queria gritar, mas, eles me amordaçaram e começaram a me espancar. Foi quando meus pais foram levados amarrados para minha frente, eles estavam mortos.

Aqueles assassinos começaram a zombar da inocência de meu pai e da minha tentativa inútil de lutar com eles, disseram que na verdade, tinham matado seus pais e toda sua família e que seriam os novos reis de um novo mundo que estavam criando.

Fui torturado cruelmente, mas, a pior dor era olhar meus irmãos e meus pais mortos, dentro de mim a dor me matou muito antes deles me darem o golpe fatal.

Não consigo suportar essas lembranças, sinto meu peito rasgando e a dor me sufoca. Olho para Sachiko e nela encontro alivio em meio a isso tudo. Não entendo porque estou novamente vivo, não acho que mereço estar aqui. No momento que olhei para Sachiko encontrei a minha razão de sobreviver, mas, será que poderei cuidar dela, só sei que morrerei antes que alguém a machuque, isso com certeza. Minha vida aqui só vale se for para mantê-la salvo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.