Basement
1 Basement
Notas iniciais
No meio do verão elas tomavam chá.
Observavam o vai e vem do vento, e o movimento frenético das folhas envelhecidas que caiam involuntariamente na grama molhada do jardim. O chá estava frio, assim como o tempo.
O clima sempre era frio, não importa o quando o sol insistisse em aparecer. Raios brilhantes e finos pendiam sobre os olhos negros de uma, enquanto a outra começara a rir de qualquer coisa sem lógica. Quando a loucura toma conta de você, não tem mais volta.
Sem que as nuvens fossem embora, o céu exibia o seu azul nada habitual na região, afinal que diabos de tempo era aquele. Qual era a graça de discutir o tempo?
Qual a graça de viver tão intensamente, e tão tristemente?
O álcool das festas não preenchia mais o vazio, ela deveria ter corrido mais por entre as florestas e bebido menos, era certeza. E que diabos a sua amiga planejava com todas aquelas risadas vazias?
Suas mãos queriam enroscar-se no pescoço ossudo da outra para que nem mais um som irritante saísse daquelas cordas vocais.
Ela deveria ter corrido mais!
E ela correu.
Deixou que o seu vestido balançasse instantaneamente.
– Quem você pensa que é?
Alguém gritou do meio da floresta.
– Quem está ai?
– Quem você pensa que é?
– Eu penso que sou alguém.
– Ser alguém não é ser ninguém.
Ela olhou em volta. Não havia mais nenhuma outra pessoa além dela. E também nenhum animal nem monstro. Deveria ser uma daquelas peças que faltavam no seu juízo falando mais alto.
Ela continuou correndo, só que mais lentamente, sem pressa.
– Quem você pensa que é?
A voz gritou novamente.
– Eu já disse que penso que sou alguém.
– Alguém não é ninguém. Estais só, outra vez?
– Sim.
– Cadê a outra?
– Eu a deixei!
– Qual o motivo?
– Ela ri de coisas sem graça.
E continuou correndo. Dessa vez mais alegremente, sem temores. A voz que provavelmente vinha da sua cabeça parara de dialogar.
E ela viu flores de todas as cores, amarelas, vermelhas, turquesas e verde lodo. Todas flores, flores eram todas.
– Quem você pensa que é?
– Essa pergunta outra vez?
– Eu quero que você saiba a resposta.
– E como você sabe que eu não sei?
– Ora, eu não venho da sua cabeça?
Aquilo a deixou confusa. Ela queria correr mais, adentrar na floresta sem olhar para trás. Até que se perdeu.
O topo das árvores impedia a luz de entrar. Vento se agitava mais e mais. Iria chover.
– Como eu saio daqui?
– Não é possível deixar a escuridão.
– É claro que é possível, se eu entrei, eu saio.
– Quem você pensa que é?
– Eu não sei!
– Quem você pensa que é?
– Uma louca talvez!
– Quem você pensa que é?
As perguntas repetidas a deixavam com dor de cabeça. Ela gritou no topo dos seus pulmões, buscando força e ar. Ajuda e respostas. Até que encontrou uma saída.
– Dessa vez não vai doer. — disse-lhe uma voz diferente — saia da floresta. A outra já está bem melhor.
– Mas, ela gritou.
– Ela sabia quem ela era.
– O que ela era?
Era uma sala tão úmida e escura.
– Louca, o que mais?
As lágrimas cairão, ela sabia que iria doer. Dentro da sua alma as coisas começavam a arder. Ela poderia ter sido tudo que deveria ter sido. Agora, nem sã ela era mais.
E em meio a sua confusão, e ao perigo eminente, uma voz conhecida falou:
– Agora você sabe quem você é.
– E quem eu sou? — sussurrou
– Você é ninguém.
Fale com o autor