Barriga de Aluguel
1 "Uma chance, uma salvação..."
Notas iniciais
Estava andando pelas ruas frias de inverno de Yucatán pensando na vida. Senti um frio percorrer uma parte do meu braço e só então percebi que ali, bem perto do cotovelo, havia aberto um pequeno, mas perceptível, buraco. Quando chegasse em casa teria que remendar senão ele aumentaria e eu passaria frio.
A vida nunca havia sido boa comigo, nem por um segundinho sequer. Sempre morei eu uma casa caindo aos pedaços com padrinhos pobres e miseráveis. Meus pais não me quiseram e eu nunca me peguei pensando tanto neles a ponto de odiá-los por terem feito isso e obviamente, também não os amo. Amo meus padrinhos.
Um vento forte soprou pela enorme praça e eu fui obrigada a parar e abraçar a mim mesma para que o frio não me atingisse tanto. Levantei minha cabeça calmamente enquanto a ventania ia se dissipando até não sobrar quase nada. Outro vento bateu rapidamente e junto a ele viram papéis que estavam jogados no chão pelo pessoal porco que fazia de tudo pra não enxergarem as latas de lixo debaixo de seus narizes.
Uma folha de jornal voou na minha direção e só parou quando colidiu com o meu rosto. Tirei-a rapidamente, um pouco desapontada e aproveitei para ver se havia algo de interessante nas notícias do dia. Para o meu azar, aquelas folhas só falavam sobre imóveis, mas felizmente continhas algumas coisas mais interessantes. Sentei em um banco e virei a página, já que no lado oposto continham ofertas de emprego e alguns anúncios. Estava mais do que na hora de arrumar um emprego e talvez aquele jornal me trouxesse boas oportunidades.
Precisavam de uma faxineira na cidade vizinha. Não ganharia muito lá.
Precisavam de caixas de supermercado e eu não conseguiria trabalhar naquilo por muito tempo.
Entregadora. Lavadora. Cozinheira. Atendente de marketing... Nada disso serviria para mim, não mesmo. Os anúncios não diziam grande coisa também. Um homem procurava alguém para comprar sua caminhonete, outra fazia propaganda da sua nova loja de roupas íntimas no centro da cidade. Nada que me interessasse...
Eu estava prestes a amassar o jornal quando um dos anúncios chamou minha atenção. Não era tão grande e chamava pouca atenção em meio às outras propagandas grandes, mas mesmo assim não era totalmente invisível. Tinha a foto de um homem, era jovem e até bastante bonito. Ele estava um tanto sério, mas mesmo assim continuei a observar. Comecei a ler o que tava escrito ao lado:
"O megaempresário Leonard Vargas está a procura de uma mulher que possa oferecer alguns meses de sua vida para dedicar-se a ser sua barriga de aluguel e ter o prazer de gerar o primogênito do empresário. As entrevistas serão feitas no dia 20 desse mesmo mês, às 14 horas. As candidatas devem se apresentar na sede de sua empresa L&V — Empresas Vargas — no centro de Mérida. Não serão tolerados atrasos!"
Meu coração acelerou e eu não entendi o porquê. Uma parte de mim dizia que esse trabalho era o certo a ser escolhido e com certeza eu não me arrependeria de usar uma parte mínima da minha vida para gerar outra. Era uma oportunidade ótima e eu tinha quase certeza que aquilo me faria bem. Não passou pela minha cabeça o quanto eu ganharia por aquele trabalho se eu fosse a escolhida mas algo me dizia que a quantia era alta e que, com total certeza, eu conseguiria ajudar a minha família. Eu estava contando com isso.
Rasguei as bordas do jornal e dobrei o anúncio para assim caber no pequeno bolso da calça. Segui até o ponto de ônibus mais próximo e contei as poucas moedas que eu tinha em mãos. Por sorte era a quantidade necessária para pagar a passagem e não sobraria nenhum centavo de troco. O tempo começou a esfriar mais e eu senti meu nariz congelando, o que me deu um pouco de desconforto mas ainda sim continuei parada esperando. Como já estava ficando tarde, demoraria para que alguma condução passasse. Mas em pouco menos de meia hora um ônibus passou e eu, felizmente, conseguiria voltar para casa ainda na hora do jantar.
A viagem só durou vinte minutos mas foi o tempo perfeito para que eu pensasse e repensasse sobre correr ou não atrás daquele emprego. Perguntei-me mais de uma vez se eles não me aceitariam só porque eu não faço parte de uma agência ou porque não tinha muita experiência. Eu me dava bem com bebês mas aquilo não importava, por mais que eu quisesse. Eu não sabia como seria abrigar um bebê dentro de mim e depois dá-lo para outra pessoa e nunca mais o ver. Sim, seria algo muito difícil, doeria muito mas eu estaria dando felicidades à verdadeira família daquele serzinho e isso talvez pudesse me confortar um pouco. Uma grande parte de mim me incentivava a continuar mas uma minúscula partícula de medo ainda pairava sobre meus pensamentos. Será que eu conseguiria? Será que eu era capaz de trazer felicidade a alguém?
O ônibus parou no ponto que eu havia pedido para descer. A rua escura nunca havia me dado tanto medo como naquela noite. As casas pequenas e gastas tinhas a maioria de suas luzes apagadas como de costume.
Três criancinhas passaram correndo, pareciam se divertir enquanto brincavam no escuro. Andei mais um pouco e então percebi que havia uma menina sentada no meio-fio da calçada molhada. Aproximei-me dela e vi que a mesma se abraçava para conter um pouco do frio. Suas roupas rasgadas e sua maria-chiquinha desarrumada diziam bastante sobre ela. Pude perceber logo que se tratava de uma menina que tinha família mas, assim como eu, passava alguma necessidade.
Com cautela fui chegando mais perto e então vi que ela estava tremendo de frio. Ela ouviu meus passos e levantou apenas a cabeça para ver de quem se tratava. Seus lábios estavam roxos e seu queixo batia incessantemente. Eu sabia que ela estava naquele estado há muito tempo e uma comoção tomou conta de mim. Agachei até sua altura e tirei meu casaco e a envolvendo com ele em seguida. Seus olhinhos claros me observaram calmamente e um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. Estudei todo o seu rostinho e tirei a conclusão mais óbvia da minha vida: ela parecia um anjinho.
— Olá, posso saber o que faz na rua a essa hora? — Perguntei baixo e ela olhou para o chão.
— Eu não sei. Minha mamãe sumiu e eu tentei encontrar ela o dia todinho! — Ela deu uma pausa e olhou para mim novamente — Estou sozinha...
Eu não sabia o que responder a ela. Sua mãe podia ter fugido e a deixado ali passando fome e frio ou simplesmente ter sumido no mundo, o que não fazia muita diferença. Mil e uma coisas passaram pela minha cabeça sobre aquela menininha e meu coração apertou só de pensar sobre tudo o que ela estava passando.
— Qual o seu nome, anjinho? — Perguntei com cautela e ela ficou calada por um tempo até resolver responder.
— Meu nome? É Sofia.
— Que lindo nome. O meu é Violetta. — Ela me encarou receosa e eu sorri para tentar reconfortá-la.
Observei-a silenciosamente e constatei que já devia ter passado um bom tempo desde o sumiço de sua mãe. Seu rostinho estava sujo e suas sandálias, arrebentadas. Eu não sabia o que fazer com ela. Não podia deixar aquela garotinha na rua, ela estava quase congelando e provavelmente não comia nada há um bom tempo.
— Pode me dizer a sua idade?
— Tenho cinco anos. — Me espantei aos ouvir aquilo. Ela só tinha cinco anos e estava largada na rua daquele jeito.
Sem que eu pensasse direito, levantei-me e estiquei minha mão para que ela pegasse. Ela pareceu entender então a agarrou forte. Peguei-a no colo e segui pela estreita viela até minha casa. Meus padrinhos me matariam mas eu não estava nem aí, eu só queria poder fazer aquela menininha sorrir. Ela era uma estranha mas naquele momento, me parecia tão íntima que não deixei meus pensamentos amedrontadores tomarem conta da minha decisão de levar aquela garota de rua para minha casa.
Abri a porta num solavanco e corri para dentro. Minha madrinha pulou de susto da cadeira em que estava sentada, dando um berro de raiva. Sofia gemeu dentro do meu casaco e então minha tia Angie se aproximou. Tirei meu casaco de cima da menininha e ela me olhou surpresa e ainda um pouco assustada, ousou tocar em sua mãozinha.
— Quem é essa? Violetta, quem é essa menina?
— Tia, e-eu não sei, eu a encontrei quase congelando na rua vizinha... Ela disse que a mãe sumiu.
— E você achou que podia sair pegando criancinhas na rua para trazê-las para casa? Mal conseguimos nos alimentar direito...
— Tia, ela está muito mal! Deixe para me dar sermões depois e primeiro a ajude, por favor!
— Que discussão é essa? — Meu padrinho perguntou entrando na cozinha.
— Sua afilhada trouxe uma criança de rua para dentro de casa...
— Tia, ela está desacordada! — Gritei desesperada e minha tia correu para perto da lareira. — Sofia, acorde! Acorde!
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