Barriga de Aluguel
4 "Por um fio..."
Notas iniciais
— Está contratada! — Ele disse alto e em bom som e eu paralisei. Eu não estava acreditando no que tinha acabado de ouvir. Eu havia ganhado o emprego e Sofia não precisaria ir embora, meus tios não viveriam mais na miséria e eu finalmente poderia trazer felicidade de novo para aquela casa.
— O quê?! — Foi a única coisa que consegui falar naquele momento.
— Você me deixou curioso, sabia? Leve esse emprego como se fosse um desafio... Uma hora você vai ter que rir, Dear Violetta.
— E-Eu não sei como agradecer! — Disse e ele fez um sinal para que eu me sentasse à sua frente novamente e ainda um pouco assustada, cheguei mais perto e o encarei.
— Max, pegue a papelada — Ele pediu e o advogado foi procurar os papéis — Fecharemos tudo hoje, quero as autorizações e aquelas regrinhas que não estão inclusas nelas.
— Sim, senhor — Ele respondeu educadamente e depois de uns dois minutos voltou com tudo o que Leonard havia pedido — Aqui está, Sr. Vargas.
— Obrigado, Max — Ele espalhou os papéis na mesa e os virou para que eu pudesse ler — Bom, Violetta, aqui está tudo o que você precisa saber. Quero que esteja ciente de que terá que vir morar comigo durante a gestação, tudo bem pra você?
— Ahn? Ah, claro! — Ele me encarou sorridente e estendeu outro papel.
— Você vai assinar esse papel aqui que diz que está ciente de que o bebê é meu e que, caso você fique louca e queira roubá-lo, não conseguirá fugir com ele e não terá direito a nada que diz respeito a guarda e a responsabilidade dele — Ele disse calmamente e eu peguei a caneta para assinar. Feito isso ele me mostrou outro papel — Esse aqui diz respeito ao óvulo doado. Se você quiser doar o seu, terá que assinar esse papel aqui.
— Mas se eu doar meu óvulo, o bebê também será meu. Acho que não posso fazer isso... Acho que não posso entregar meu filho para outra pessoa.
— É uma pena, seu gene com certeza transformaria meu filho na criança mais linda do mundo, no mínimo! — Ele disse sorridente e eu continuei calada. A timidez não me deixava ser mais do que isso — Tudo bem, assine esse papel então. Ele diz que você vai carregar o meu filho ciente de que foi usado um óvulo de uma anônima, okay?
Olhei para os dois papéis à minha frente e parei para pensar um pouco. Se eu assinasse o primeiro e doasse o meu óvulo, a criança seria minha também mas eu seria obrigada a entregá-la quando nascesse e eu não queria isso, não mesmo. Se eu assinasse o segundo, eu carregaria uma criança "estranha" dentro de mim. Ela não se pareceria comigo, talvez nem tivesse o mesmo sangue que eu e seus olhos fossem mais claros ou mais escuros que os meus... Mas eu estava nesse emprego para isso: gerar uma criança que não tivesse nenhuma ligação comigo e que eu pudesse entregá-la depois de nove meses sem sentir dor nem remorso. Sim, eu assinaria a segunda opção.
— Pronto, por hoje é só, mas teremos mais amanhã no mesmo horário de hoje, tudo bem? — Assenti e ele levantou para me acompanhar até a porta.
Na entrada da empresa, estendi a mão para que ele apertasse mas ele a segurou e levou até a boca, depositando um beijo delicado. Senti minhas bochechas corarem e então me virei para ir embora sem que ele percebesse o meu estado. Corri comSofia até o ponto de ônibus do outro lado da rua e então pude respirar aliviada... Ou quase isso.
LEONARD VARGAS
Ela me intrigava. Era linda, delicada, tímida e não tinha medo de falar a verdade na cara de todos, por mais que doesse ou magoasse. Ela tinha alguma coisa diferente das tantas mulheres que entraram aqui hoje. Ela tinha uma ingenuidade que poucas pessoas da idade dela conseguiriam ter. Ela era forte, eu via isso em seus olhos. Mas que olhos... Ela era perfeita ao olhar de qualquer um.
— Olha lá a mãe do meu filho atravessando a rua — Disse brincalhão e Max deu uma risada abafada.
— Tantas mulheres melhores que ela. Mulheres com tanta experiência e profissionalismo passaram por lá, por que escolheu Violetta?
— Simples... Ela não é profissional e nem tem experiência nisso. Eu procurava uma mulher que não me fizesse pensar duas vezes em admiti-la nesse emprego e foi o que aconteceu com Violetta. Ela não faz ideia de como será daqui pra frente, como eu. Ela vai rir e acabar se emocionando ao sentir o bebê mexer pela primeira vez e eu vou gostar de ver isso. Nenhuma mulher que entrou na minha sala pareceu se importar com o ponto mais importante que é o meu filho, mas eu consegui ver algo diferente naquela garota. Ela me deixa intrigado de verdade, Max.
— É estranho vê-lo assim. Até uns dias atrás estava prestes a quebrar tudo o que estivesse à sua frente e agora, ri por qualquer coisa.
— Já te contei que serei pai? — Perguntei e ele gargalhou me acompanhando até meu escritório.
VIOLETTA CASTILLO
Abri a porta de casa e vi tia Angie em frente ao fogão, preparando algum tipo de sopa. O cheiro estava tão bom que meu estômago imediatamente roncou, me avisando que era hora de jantar. Entrei calmamente e pedi que Sofia fosse brincar na sala para que eu pudesse conversar.
— Oi, meu amor — Ela deu um beijo em minha bochecha e foi lavar as mãos — Como foi na entrevista?
— Bom, tia...
— Você não conseguiu, não foi? — Ela perguntou e eu arregalei os olhos.
— Tia, eu fui a escolhida! — Disse baixo e um largo sorriso brotou em seu rosto. Um sorriso que eu raramente a via dar.
— Oh, céus! — Ela exclamou animada —Isso é ótimo, Vilu! Eu sabia que você era capaz. E então, me conte como foi...
— Foi um pouco assustador. Eu e Leonard somos totalmente opostos em quase tudo e isso dificultou um pouco mas eu consegui. Eu vou gerar o filho de Leonard Vargas!
— Você o quê? — Meu tio apareceu na cozinha com um semblante surpreso.
— Você não contou a ele? — Perguntei e tia Angie negou.
— Pensei que você gostaria de contar, Violetta.
— Ehr, tio, sabe aquele emprego que eu mencionei naquela manhã? Estavam à procura de uma mulher para ser barriga de aluguel do empresário Leonard Vargas e eu me candidatei. Bom, eu consegui!
— Meu Deus, mas como não me contou antes que era isso? Se você está fazendo isso porque sente que é sua obrigação trabalhar de qualquer forma, pode parar.
— Não é isso, tio. Eu queria esse emprego e eu não vejo problemas nele.
— Tudo bem, se é isso que você quer...
— É o que eu quero, tio Pablo — Disse por fim e ele sorriu vindo me abraçar — Mais uma coisinha... Eu vou ter que ir morara na casa dele.
— Eu imaginei que isso iria acontecer — Tia Angie disse se aproximando — E quando vai?
— Eu não sei, ele deve me falar amanhã.
— Eu vou sentir tanta saudade, meu amor! —Ela me abraçou apertado e tio Pablo se juntou.
— Eu também — Ele riu e eu dei um beijo em cada um — Mas eu prometo vir visitar vocês quando puder, tudo bem?
— Promessa é dívida, hein! — Ela sorriu meiga — Agora, chame a Sofia para jantar, por favor.
O jantar acabou sendo muito divertido. Eu não sabia que arrumar um emprego de barriga de aluguel os deixaria tão felizes e animados. A conversa fluía bem e até piadas rolavam entre uma garfada e outra. Eu realmente não estava reconhecendo essa família...
...
— Bom, Violetta, quero que se mude para minha casa o mais rápido possível para que assim possamos começar logo com isso.
— Sim, Leonard — Assenti e ele entregou um documento.
— Assine aqui — Ele mostrou onde um devia assinar —Esse papel vai para a clínica onde você fará a fertilização.
— Tudo bem.
— Semana que vem iremos lá. Já escolhi o óvulo que será usado e até semana que vem tudo já estará pronto.
— Eu queria novamente agradecer por me escolher para o emprego, Senhor. Acho que eu estaria perdida sem ele.
— Eu é que agradeço por se candidatar. Sem uma barriga de aluguel que valesse a pena como você eu também estaria perdido. Finalmente vou realizar meu sonho de ser pai e você vai realizá-lo comigo! — Ele disse feliz e pude ver seus olhos brilharem. Era isso que eu queria fazer as pessoas sentirem... Felicidade.
— Para dizer a verdade, eu não me candidatei para ser barriga de aluguel apenas pelo dinheiro, mas por isso também — Apontei para ele mas Leonard pareceu não entender — Levar a alegria para as pessoas. Eu não sei... Traz um conforto, sabe? Deixar as pessoas felizes graças a você ou graças a sua ajuda. Eu gosto de sentir isso... Me faz tentar sempre ser uma pessoa melhor e sempre querer ajudar a colocar um sorriso no rosto de alguém.
Ele me encarava sorrindo mas não dizia nada. Ele deu um riso abafado e virou a cadeira para o lado, coçando a nuca. Voltou a me encarar e por um longo tempo apenas trocamos olhares. Ele se aproximou mais de sua mesa e chegou bem perto de mim, ainda sorrindo. Aquela aproximação me deixava um pouco desconfortável. Ele era meu chefe e eu estava ali apenas para gerar um filho dele, não para que algo mais acontecesse. Não que eu não quisesse porque um homem daqueles não se encontra em qualquer lugar, mas seria algo estranho.
— Você é perfeita demais... Acho que não vou aguentar tanta ingenuidade e bondade vindo de uma pessoa só — Ele sorriu e piscou para mim antes de se levantar e ir em direção a porta — Amanhã, por volta de meio dia um carro passará na sua casa para te buscar. Malas prontas até lá, tudo bem?
— Sim, senhor.
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