Barreiras Culturais
1 Capítulo 1 - Escolha impossível.
Meu nome é Fábio, sou um jovem de 24 anos, estudante de Relações Internacionais, e há exatos três meses desembarcava de um avião em um país do outro lado do mundo, onde ninguém falava meu idioma e poucos arriscavam o inglês. Foi com muito trabalho e dificuldades que consegui um intercâmbio para um país que não faz parte dos três principais destinos para alunos do sétimo período de Relações Internacionais, esse país se chama Coréia do Sul.
Mesmo depois de tanta insistência da agência responsável pelo intercâmbio para que eu escolhesse uma das três opções mais visitadas: Canadá, Estados Unidos e Austrália. Eu ignorei o aviso sobre a barreira do idioma, e segui com minha escolha. Fui para a Coréia do Sul, e foi neste lugar que conheci sentimentos que nunca tinha nem imaginado que seria capaz de sentir; dores que nunca pensei que eram possíveis sentir por tanto tempo sem que a morte chegasse para dar um fim nelas.
30 de Agosto de 2014, parti do Brasil com a Coréia do Sul como destino. Após me despedir dos poucos familiares que foram até o aeroporto para me ver partir, embarquei no avião com um sentimento de medo, não era medo da viagem e si, mas algo como uma mistura de ansiedade e incerteza, não tinha garantias de que conseguiria me comunicar, mesmo já tendo preparado um dicionário e o aplicativo no smartphone, que me ajudariam no básico. Antes de partir já tinha reservado a moradia, era um pequeno apartamento no centro de Seoul, que pertencia a um rapaz de 27 anos. Tinha combinado que ele me receberia no aeroporto, nada ocorreu diferente do planejado. Ele estava segurando uma placa com meu nome escrito. Acenei para ele, enquanto caminhava empurrando um carrinho de metal pintado de azul e vermelho, que continha minhas malas e mochila.
— Olá. (Disse ele em um tom tímido, abaixando a cabeça, aparentando seu nervosismo).
Ele é um típico Sul Coreano, cabelos pretos e lisos, tinha uma pequena franja que aparecia sempre que ele retirava o boné cinza esverdeado para arrumá-lo. Depois de algum tempo percebi que era uma mania que ele tinha de ficar arrumando o boné.
Neste primeiro dia ele usava uma camisa verde escuro de mangas compridas e uma calça jeans desbotada.
— Seu nome é Yoon Sung Yong, certo?
Ele permanecia de cabeça baixa, mas respondeu de forma tímida.
— Sim.
— Vamos pegar um táxi ou vamos de transporte coletivo? (Perguntei).
Ele não entendeu direito, tive que fazer gestos com as mãos e falar de forma lenta para que compreendesse. Fomos para a saída do aeroporto e pegamos um táxi.
Sung Yong me ajudou a colocar as malas no táxi e sem falar quase nada seguimos para o local que ele havia informado ao taxista em coreano. Após alguns minutos chegamos em uma rua muito estreita, onde apenas um carro passaria por vez. O carro parou em frente a um prédio simples com um pequeno portão de metal. Descemos do carro e após retirarmos as malas, fui em direção ao taxista para pagar a corrida. Sung Yong fez um gesto de que não precisava, ele insistiu em pagar o táxi.
Subimos de escada até o 4º andar, apartamento 402. Sung Yong abriu uma tampa plástica que revelou uma fechadura digital. Digitou os números 369 e a porta destrancou. Ele me indicou a porta para que entrasse, na hora fui sem pensar muito e acabei deixando as malas que eu trazia no lado de fora. Ao entrar me deparei com vários tênis e chinelos na área mais baixa, esta área fica na sala, um pouco antes do ambiente em si. Com o pouco que sei da cultura asiática, retirei meus tênis antes de entrar. Logo que entrei percebi que Sung Yong dormia na sala, porque em um canto próximo da TV tinham alguns cobertores enrolados e algumas roupas empilhadas no sofá. Olhei em direção a porta porque tinha lembrado das malas, para minha surpresa o rapaz magro de 1 metro e 80 centímetros, estava carregando as duas malas como se fossem almofadas.
— Vou levar para o quarto. (Sun Yong falou de forma difícil de entender).
— Tudo bem, mas deixa eu te ajudar. (Falei, enquanto pegava uma das malas que ele segurava).
Após deixar as malas no chão do quarto, Sung Yong arrumou o boné novamente, aumentando ainda mais meus questionamentos se aquilo era uma mania que ele tinha. Abri a mochila que carregava comigo o tempo todo e retirei o dinheiro para pagar os três primeiros meses de moradia. O valor combinado era de 800,00 dólares para cada mês, entreguei o dinheiro e como gesto de agradecimento ele se curvou na minha frente antes e depois de pegar o dinheiro. Sung Yong saiu do quarto e fechou a porta, reparei que a cama estava coberta por um lençol bege e não tinha nenhum travesseiro, apenas um cobertor marrom dobrado. Enquanto pendurava algumas roupas no cabideiro que seria usado como guarda-roupas, ouvi o barulho da porta fechando e a melodia que a fechadura tocava sempre que trancava a porta. Sung Yong tinha saído. Pensei que talvez ele estivesse aguardando o recebimento do dinheiro para pagar alguma coisa.
O relógio marcava 20:52, mas para mim parecia uma manhã. Por volta de 01h da madrugada, estava assistindo TV e avisando aos familiares que tudo tinha ocorrido como planejei. Ouvi a melodia tocar e sabia que Sung Yong tinha voltado, ele trazia consigo duas sacolas pretas e uma branca. Nas sacolas pretas tinham duas vasilhas com ramen e na sacola branca duas garrafas de Coca-Cola. Ele foi até a cozinha, que fazia parte da sala, bem estilo cozinha americana, e trouxe utensílios para que pudéssemos comer. Ainda estávamos tímidos enquanto comíamos sentados perto da TV, Sung Yong estava digitando mensagens para alguém no smartphone.
— Obrigado. Estava muito bom o ramen. (Falei, enquanto retirava as coisas da mesinha que fica de frente para a TV).
— Comprei ramen, porque é a comida asiática mais comum, não queria te assustar com algo muito picante. (Ele disse com dificuldades em um inglês muito carregado).
Depois de jogar fora os recipientes e as garrafas vazias, Sung Yong se direcionou ao banheiro levando uma toalha e uma camisa branca com um short de tecido leve. Após alguns minutos, eu já estava saindo do quarto levando uma toalha e minhas roupas de dormir, sentei na poltrona para esperar o rapaz mais velho sair do banheiro. Não demorou muito e ele saiu secando o cabelo com a toalha e logo depois pendurando-a perto da janela da sala.
— Vou tomar banho agora, (Eu disse indo em direção ao banheiro).
— Espere. Leve este sabonete novo. (Ele me disse enquanto apanhava o sabonete em uma sacola grande que estava pendurada perto da janela).
Peguei o sabonete e fui para o banheiro. Após o banho, vi que Sung Yong estava enrolado no cobertor e assistindo TV. Me espantei quando vi que ele estava usando o boné.
— Você não deveria usar o boné com o cabelo molhado. (Falei como se fosse a mãe dele).
Sung Yong me olhou, retirou o boné e virou para o lado se ajeitando para dormir.
Fui para o meu quarto, mesmo com o jet lag me atrapalhando, consegui pegar no sono.
Na manhã seguinte ao sair do quarto vi Sung Yong saindo com uma pequena mochila e o smartphone na mão. Quando me viu ele voltou e me cumprimentou se curvando, fiz o mesmo institivamente.
— Sung Yong você vai sair? (Perguntei de forma tímida).
— Vou. Trabalho hoje o dia todo. Sou VJ em uma emissora de TV, e hoje é dia de gravação.
Ele saiu antes que pudesse dizer alguma coisa. Depois de ir ao banheiro, fiquei sentado na sala me questionando sobre o que seria um VJ. Na hora até pensei que ele apresentava algum programa, pois é assim que algumas emissoras brasileiras chamam seus apresentadores, mas na verdade, VJ é como são chamados os cameramans por lá.
Passei o dia dentro de casa assistindo TV, mesmo sem entender nada que eles falavam, mas me divertia com os programas musicais que passavam o dia todo e em vários canais. Saí apenas uma vez para comprar o ramen na loja que fica na outra rua. Usei o aplicativo do smartphone e consegui fazer com que a senhora que me atendeu, compreendesse o que queria. O dia passou e por volta das 23 horas Sung Yong voltou, tinha a aparência de quem tinha corrido uma maratona, usava uma blusa azul e bermuda jeans, sempre com seu boné.
Ele trouxe quatro sacolas, desta vez ele comprou algo que parecia ensopado de galinha com legumes e alguns pedaços de frango frito que vieram com um molho de cor amarela muito gostoso. Após terminar de comer, Sung Yong levantou e foi lavar as louças que tínhamos acabado de sujar.
— Sung Yong, pode deixar que eu lavo, você deve estar cansado. (Falei indo em direção a ele).
— Sung Yong-hyung. (Ele falou).
— Como? (Perguntei de maneira estranha).
— Quando um homem fala com outro mais velho, em forma de respeito colocasse o “hyung” após o nome. (Ele explicou de forma embaralhada).
— Ah, entendi. Devo usar o “hyung” quando falo com pessoas mais velhas.
— Não com pessoas, apenas com homens mais velhos. Com mulheres mais velhas, usamos “noona”. Deve ser usado apenas com conhecidos. (Sung Yong me explicou).
Fiz o sinal de “Ok” com as mãos, algo que tinha visto as pessoas fazendo na TV.
Não pude deixar de reparar em uma mancha vermelha no braço de Sung Yong, apontei e lhe perguntei porque estava assim. Ele me disse que tinha carregado uma câmera e uma mochila com equipamentos, na gravação do programa. Pelo tamanho e forma de como a marca estava no braço dele, pude imaginar que a câmera e os equipamentos eram pesados, talvez por isso ele tenha conseguido carregar minhas malas sozinho, ele está acostumado a levar coisas pesadas de um lado para o outro.
Já tinha tomado banho, fui para o meu quarto e fiquei lá por bastante tempo, antes de dormir precisava escrever meu diário de intercâmbio, devo enviar um texto para o professor responsável toda semana. Ouvi a melodia da porta tocar, já era mais de meia noite, abri a porta do meu quarto e vi que Sung Yong-hyung estava abrindo a porta para que outro rapaz entrasse, ele aparentava ter a mesma idade que ele, usava um boné vermelho, casaco preto e calça jeans comum, ele pendurou o casaco, estava usando uma camisa de tecido fino na cor cinza. Eles estavam na sala, eu fui na cozinha para tomar água, enquanto lavava o copo, Sung Yong-hyung e seu amigo vieram na minha direção.
— Fábio. Este é Choi Yoon Sang, trabalhamos juntos, ele também é VJ. (Sung Yong-hyung falou apontando para o rapaz).
Yoon Sang era um pouco mais alto, encorpado e tinha a pele um pouco mais escura que Sung Yong-hyung. Cumprimentei Yoon Sang me curvando, ele fez a mesma coisa e voltaram para a sala, onde eles abriram as sacolas que Yoon Sang tinha trazido. Pela aparência das garrafas, tinha certeza de que eram cervejas e alguma outra bebida incolor. Voltei para o quarto e comecei a digitar as anotações que já tinha feito para enviar ao professor da faculdade por e-mail. Do quarto dava para ouvir os amigos conversando e rindo, enquanto na TV passava algum esporte.
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