Barreiras
2 Leo - What about this girl?
Notas iniciais

https://www.youtube.com/watch?v=e-3qp4CbHvM– Diana, One Direction
Passaram-se alguns dias desde que eu havia tido aquela conversa com Hanna, e depois nós nos falamos mais um pouco, e ela ia conquistando minha simpatia aos poucos. Conversamos sobre a vida dela no país dela, e acabei descobrindo algumas coisas sobre Hanna: vivia com o pai, formado em engenharia mecânica (como a minha mãe) e com o irmão, que tinha 18 anos, era guitarrista e vocalista numa banda de rock.
Hanna era uma garota pouco sociável, passava a maior parte do tempo lendo e tinha só uma melhor amiga; também era apaixonada por música e amava muito a família dela. Por baixo daquela garota descolada havia uma menina tímida e sensível. Mas qualquer uma das faces era surpreendente.
De manhã o Acampamento não costumava estar muito agitado, já que todos ainda estavam sonolentos, mas naquele dia em especial vários campistas conversavam animadamente e corriam para a Arena. Cerquei um garoto de Hécate e perguntei o que estava acontecendo.
—É aquela garota nova, a tal Hanna! Parece que está lutando na Arena, e está vencendo todo mundo! — mal larguei ele, o menino saiu em disparada.
Eu ainda estava meio grogue, porque havia trabalhado até tarde, mas também comecei a correr. A Hanna estava deixando todos por aqui loucos, e eu precisava ver se o motivo era realmente grande.
Quando entrei no local, uma multidão de pessoas fazia um círculo, torcendo e assobiando. Arrumei um jeito de me espremer e ficar na frente. Hanna estava no meio do espaço aberto, lutando contra Will Solace, filho de Apolo. Apesar de estarmos em Setembro, o que significava que o clima estaria frio, as proteções mágicas garantiam um belo dia de sol, e ambos estavam suados e corados. Hanna tinha os cabelos e a blusa um pouco molhados, como se tivesse jogado água na própria cabeça. Os meninos assobiavam pra ela, e gritavam coisas sobre a blusa dela, que estava colada ao corpo. Isso fez meu sangue subir à cabeça, como eles podiam ser tão idiotas?
Mas ela parecia pouco ligar, continuava atacando Will, que só podia (mal) se defender. Por fim, Hanna fez uma finta, ele perdeu o equilíbrio e ela deu o golpe final. Will caiu com tudo no chão, mas não se importou: sorriu, aceitou a mão que Hanna oferecia a parabenizou pelo trabalho. Ela parecia bem contente, e fazia mesuras para a plateia, que estava agitada. Mas todos se calaram quando Percy entrou dentro do círculo.
—Seu nome é Hanna, não é? — ela assentiu — Prazer, meu nome é Percy Jackson.
—Eu sei. Annie me falou de você. Aliás, todos falaram. — ela deu um passo pra trás — É o herói de duas profecias, afinal.
—É o que dizem. — os olhos dele faiscavam — Você é muito boa com essa espada. Aceita um duelo?
Hanna deu um sorriso de lado e se posicionou. Percy fez o mesmo. Eles esperaram por um momento, até que Hanna fez um movimento rápido e atacou. Percy se defendeu, e eles começaram a duelar, às vezes atacando, às vezes se defendendo. Nenhum dos dois levava vantagem sobre o outro, até que Hanna deslizou o pé para trás e Percy começou a atacar com toda a força. Apesar de todos os esforços por parte de Hanna, Percy a venceu com seu golpe favorito: apoiando a parte chata de Contracorrente no punho da espada da menina, girou o pulso e fez a espada pular da mão dela e fincar no chão.
—Muito bem. — Percy aprovou, balançando a cabeça — Você ainda não tem muita técnica, é amadora. Mas o diamante bruto está aí, só precisa lapidar. Além disso, você pode tentar fazer um espada sob medida. Nem todas as armas do arsenal servem para todo mundo.
—Obrigada. Vou continuar treinando, e arranjarei uma espada melhor. — Hanna sorriu abertamente.
—Então lutaremos de novo.
A multidão começou a dispersar, e eu fui conversar com Hanna, mas Piper, Annabeth e Jason já estavam falando com ela, então desisti. Resolvi andar pelo Acampamento. Não precisava ir ao Bunker 9, meus projetos estavam em dia. Talvez eu devesse ir à aula de Luta contra Monstros, pra variar. Ou tentar a Parede de Escalada, ou mesmo Esgrima. Eu não podia me safar com meus inventos pra sempre, alguma hora eu teria que aprender a me defender com uma arma de verdade.
Acabei vencendo a parede de escalada no nível máximo (quando se é a prova de fogo, o que é um pouco de lava?) e tentei um pouco de Esgrima para Iniciantes, com Travis e Connor e até que não fui muito mal. Por trabalhar muito nas forjas, meus braços tinham bastante força, eu só precisava melhorar meu equilíbrio e técnicas.
Caminhava em direção ao chalé 9, pra capotar na cama de tanto cansaço, quando algo dentro no chalé de Atena chamou minha atenção. A construção em si estava normal, um projeto arquitetônico que misturava a Grécia antiga com a Nova York moderna, mas alguém lá dentro fazia muito barulho. Abri a porta sem bater e encontrei Hanna travando uma batalha contra várias caixas de papelão. Ela ergueu os olhos.
—O problema de ser filha de Atena, é que não consigo viver sem meus livros. — ela explicou — O resto deles chegou hoje.
—Quer ajuda? Você parece ter bastante trabalho aqui. — perguntei, já mexendo em algumas caixas. A maioria tinha roupas, e duas estavam até a tampa de livros. Achei também um laptop, que apoiei na mesinha de cabeceira dela. —Pra quê tantos livros? E o laptop? Aqui não tem internet, você sabe.
Hanna corou de vergonha, nas maçãs das bochechas e na ponta do nariz, ficando parecida com aquelas menininhas fofas de animes japoneses.
—Ao que parece, eu gosto mais livros do que a maioria dos filhos de Atena... Eu não sei, eu simplesmente amo ler. Não consigo viver sem. E quanto ao notebook — ela me corrigiu — eu escrevo um pouco... digo, muito. É outra paixão minha.
—Você parece realmente gostar muito disso. — disse sorrindo, enquanto arrumava alguns livros dela em uma prateleira — Sei bem como é. Se eu ficasse sem mexer em algum projeto meu, por muito tempo...
—...não conseguiria fazer mais nada. — ela completou suavemente. Eu a encarei, mas ela simplesmente continuou organizando as roupas no baú. Depois de pouco tempo, tínhamos organizado tudo. — Obrigada, Leo. — ela me agradeceu.
—De onde você é? — perguntei de novo. Ela riu.
—Não vai desistir mesmo, não é?
—Nunca.
—Vai pro seu chalé, Valdez. Você precisa de um banho. — ela me empurrou pra fora, negando com a cabeça.
—Ok, mas eu ainda descubro a resposta! — gritei.
—Vai sonhando! — ela gritou em resposta, e eu fui pro meu chalé. Disse o comando certo pra minha cama, que desceu até o quarto privativo, então apaguei.
Sonhei com o meu pai, o que me deixou surpreso. Estávamos na oficina dele, e como sempre ele ficava andando sem rumo, naquele passo manco dele.
—Hum... Oi... Pai. — percebi que ele estava esperando eu falar alguma coisa — Tá... Tudo bem? Algum problema, do tipo o mundo vai acabar de novo?
—Não, rapaz, nenhum problema desse tipo. — ele finalmente se sentou em um banco de três pernas, uma versão menor de Buford.
—Então... Os romanos querem atacar a gente de novo? Ou os egípcios decidiram que somos uma ameaça e eles que vão nos atacar? Ou talvez, espera! Talvez ambas as coisas! — tentei colocar um pouco de humor, porque Hefesto parecia preocupado. Ou poderia só ser a cara meio torta dele.
—Não, não rapaz! Por incrível que pareça, está tudo em perfeita ordem. — ele pensou por um momento, e suspirou. — Eu queria conversar com você sobre a Hanna.
—Hã... — eu estava tão surpreso que mal conseguia raciocinar.
—Ela é uma boa garota. Esperta. Inteligente. — ele começou a mexer em algumas engrenagens. — Bom, o que acontece é... A Hanna pode ser jovem, mas já passou por muita coisa na vida. Você percebeu. — ele agora segurava uma miniatura de um fusca nas mãos. Com dificuldade, ele colocou o carrinho no chão, que saiu em disparada. — Só... Tome cuidado com ela. Eu conheço a família dela, e não gostaria que algo ruim acontecesse com ela. Não a magoe... Quero dizer, sei que acabaram de se conhecer, mas não faça nada que... Raios, você entendeu! Cuide dela, como se fosse sua irmã.
—Espera, como assim você conhece a família dela? — tentei obter alguma informação, mas as imagens já estavam ficando turvas.
—Até mais, rapaz.
Acordei de sobressalto, com o som da concha anunciando o almoço. Saí reclamando do meu pai, de como ele podia ser mais específico. Eu estava intrigado. Os deuses não podiam ter muito contato com seus próprios filhos, quanto mais com os filhos de outro deus, então como Hefesto poderia conhecer a família de Hanna? Uma ideia começou a se formar na minha mente... Mas não, era muito cedo para especulações.
Cheguei no topo da montanha onde ficava o refeitório e fui surpreendido por Calypso, que exibia uma expressão preocupada.
—O que aconteceu?
—Houve uma emergência no monte Tam... Minhas irmãs estão brigando com meu pai, e eu tenho que ir lá resolver. — ela estava se referindo às meias-irmãs, as Hespérides, e ao pai Atlas — Leo... Sinto muito, não vou poder trabalhar com você por bastante tempo... Semanas, talvez meses. Você sabe como essas discussões de imortais são. — ela parecia desolada.
—Sem problemas. — menti — Pode resolver seus problemas familiares com calma. Eu... Me viro aqui. — ela me deu um beijo de despedida e partiu.
Eu poderia ter ficado o almoço todo reclamando a falta da minha namorada e do atraso dos meus projetos, mas acabou que a mesa de Hefesto tinha uma convidada ilustre: aparentemente Jake havia pedido a ajuda de Hanna para os cálculos de um motor mágico (embora eu tenha certeza de que ele só queria uma oportunidade pra convidá-la pra sair). Meu almoço foi basicamente discutir sobre o motor com Hanna e meus irmãos. Isso só foi permitido graças a uma regra nova, em que as mesas de Hefesto e Atena podiam se misturar, mas somente se fosse para discutirem projetos.
Depois do almoço, contei a Quíron a saída de Calypso, e disse a ele que precisaria de um outro ajudante. Fiquei tentado a contar o sonho com meu pai, mas não achei de grande importância. Ele acariciou o cavanhaque, e assentiu.
—Convoque uma reunião com os chalés de Atena e Hefesto, e peça a alguém que te ajude. — concluiu ele.
Chamei todos na sala de jogos, e alguns logo se prontificaram.
—Eu tenho muito tempo livre, Leo. Podia te ajudar bastante. — Nyssa se ofereceu.
—Bom, eu não tenho tanto tempo livre, mas se você precisasse, claro que eu ajudaria. — Annabeth me disse, sorrindo levemente.
—Eu também não ligo de ajudar. — Maicon, de Atena, disse dando de ombros.
—Bom, eu até ajudaria mas... Foi mal cara, estou ocupado com outras coisas. — Jake se justificou, encarando Hanna, que exibia um olhar torto e nariz franzido, claramente incomodada.
Não sei porque fiz isso, talvez porque já estava cansado da atitude babaca dele, talvez porque essa tal de Hanna Corrêa parecesse uma boa ajudante, fiz minha escolha.
—Obrigada pessoal, mas... Hanna, eu estava pensando em você. Topa? — disse sorrindo, e ela, que estava com os braços cruzados e séria, rapidamente perdeu a pose.
—Você está falando sério? Digo, não prefere que seja alguém mais experiente ou... — eu não falei nada, só neguei com a cabeça, ainda sorrindo. — Está bem, eu aceito!
Ela sorriu, parecendo surpresa, e Jake me fuzilou com os olhos.
—Obrigada pessoal, estão dispensados. — disse, e todos voltaram à suas atividades normais.
***
De noite estava fazendo um calor dos infernos. Eu rolava de um lado pro outro e não conseguia dormir de jeito algum. Já tinha chutado cobertas e roupas pra fora da cama, ficando só de cuecas, e mesmo assim nada. Estava tão abafado que eu imaginava se o lago não tinha evaporado.
“O lago”, me dei conta, “até que não é má ideia”. Devia estar mais fresco lá perto, e quem sabe meu sono chegaria eu poderia dormir ao menos um pouco. Vesti um short e uma camiseta, e tentei não fazer barulho ao sair, rezando para que as harpias não me encontrassem.
Quando cheguei perto do lago, vi que era uma área muita aberta. Combinado à luminosidade da lua crescente, me pegariam antes que eu pudesse soletrar “calor”. Pra minha sorte, uma parte do bosque chegava até a margem esquerda, e era fechada o suficiente para me esconder, mas sem tapar minha visão do resto do Acampamento, então eu poderia ficar atento caso alguma harpia viesse fazer ronda.
Sentei numa raiz grossa e coloquei as pernas na água, deixando que ela me refrescasse. Fiquei ali por alguns minutos, somente pensando, até que percebi que não estava sozinho. Alguém vinha se esgueirando pela margem do lago, quase entrando no bosque, e de repente parou. Olhou para os lados, se certificando de que não havia ninguém o seguindo, e baixou o capuz. Apesar de não ver o rosto direito, percebi que era uma menina, pelo cabelo comprido. Ela tirou o agasalho e a calça, ficando só de biquíni, e por alguma razão me repreendi por assistir isso. Depois me dei conta que, tecnicamente, não estava fazendo nada de errado. A menina então deu um salto de ponta na água do lago, quase sem fazer barulho.
Ela nadou um pouco, depois começou a boiar, olhando pra céu, aparentemente perdida em pensamentos. Ri baixinho, pensando em quem seria a doida que arriscaria vir ao lago só pra nadar, a essa hora. Se bem que eu também estava me arriscando. Ela me ouviu rindo e rapidamente mergulhou. Praguejei e a procurei pela água, pensando se ela havia me visto e se iria me delatar. Só percebi que ela vinha na minha direção quando ela emergiu da água na minha frente e se esticou para tampar minha boca.
—Shhh... Leo, cale a boca, quer que as harpias venham aqui? — Hanna me reprendeu. Quando me recuperei do susto, ela tirou a mão do meu rosto e voltou o resto do corpo pra dentro d’água, deixando somente os olhos de fora, duas contas brilhantes flutuando na superfície.
—O que você está fazendo aqui? — perguntei, encarando seus ombros submersos. Não enxerguei alças, então supus que era um biquíni tomara-que-caia. Depois me senti um idiota, por que raios eu estava reparando nisso? — Foi o calor?
—Sim, mas também ainda não me acostumei com o fuso horário. — ela veio a superfície para me responder — Eu amo nadar, sabe... Preferia ter ido pra praia, mas não queria ficar grudenta de sal.
Sorri com a simplicidade da resposta, e a chamei para se sentar do meu lado. Ela aceitou e fiz uma fogueira, para que ela não ficasse com frio.
—Por que você me escolheu? Havia outras pessoas mais qualificadas, ou que você tinha mais afinidade... — ela perguntou sem me olhar nos olhos.
—Você é qualificada, tem jeito pra isso. E eu quero te conhecer melhor. Quero ver a verdadeira Hanna Corrêa, por baixo dessas barreiras. – soltei sem querer, revelando meus pensamentos. Maldito ar noturno.
—Barreiras existem para proteger pessoas... Mas... Por alguma razão confio em você. Talvez eu possa abdicar das minhas barreiras por uma noite. — ela me deu um sorriso triste, e pensei no que meu pai havia me dito, sobre ela já ter sofrido, e fiquei com raiva. Uma menina da idade dela devia estar se divertindo por aí, não construindo barreiras em torno de si. Mas éramos meio-sangues, e regras normais não se aplicavam em nós. — Bem, é uma honra trabalhar com você. As histórias que eu ouvi... Você é tipo, super inteligente! Eu nem sei o que dizer, você tem, tipo, os poderes mais fodas que eu já vi!
Ela estava sorrindo, e eu fiquei surpreso por ela ter tanto respeito por mim. Ela realmente parecia uma irmã mais nova fascinada pelo irmão mais velho, a apesar das diferenças de idade não serem tão grandes assim, decidi que ela seria minha irmãzinha dali em diante. E não tinha nada a ver com o pedido do meu pai.
—Ora, ora, parece que ganhei uma fã! — comentei, tentando fazê-la rir, e consegui — E ela usa palavras difíceis! Só a Hazel fala “abdicar”, e ela é do século passado!
—Ora, não fale dela assim! É descortês! — ela retrucou com ênfase proposital, e nós rimos. Parecia que os oito anos de curso valeram a pena.
Conversamos a noite toda, ela me contando o que ela gostava de fazer, alguns sonhos, pouco do país. Contei pra ela sobre a minha mãe, e sobre a Guerra dos Gigantes também. Nos despedimos quando estava prestes a amanhecer, e eu estava com a sensação de que ganhava uma boa amiga.
As barreiras estavam ruindo.
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