Barreiras
4 Hanna/Leo - Broken Heart
Notas iniciais

https://www.youtube.com/watch?v=0lFxvwlM6Mc ==> Over Again, One Direction
Hanna
Viramos a cabeça ao mesmo tempo, procurando o céu, e constatamos o óbvio: o céu, antes claro, agora começava a receber as primeiras manchas do crepúsculo.
—Está na hora do jantar. Você devia ir comer, já passa muito tempo sem se alimentar. Seu corpo não pode aguentar isso — disse, me virando para Leo. Ele se virou para o meu lado.
A maioria das meninas do Acampamento não acha Leo bonito, mas eu achava. Ok, ok, ele não é um Leonardo de Caprio ou um Tom Cruise, e Jason também era mais bonito do que ele, mas eu realmente achava ele bonito. Leo tinha pele morena, cachos negros e olhos castanhos, como chocolate ao leite, reconfortantes. O nariz dele era afinado, e o sorriso luminoso. É, definitivamente bonito.
—Vamos descer então. — começamos a escalada ao contrário, e por mais que ele se oferecesse para me ajudar eu sempre recusava, eu não era de porcelana. No último galho, ao invés de descer pelo resto do tronco como qualquer pessoa normal, pulei diretamente pro chão. Leo sorriu pra mim.
—Parece ter muita experiência nisso.
—Vivo num país tropical, garoto. O que mais tem nesse tipo de clima são árvores para se escalar. — baguncei o cabelo dele e começamos a caminhar — Eu sempre gostei de fazer isso, sabe. Gosto de subir bem alto e sentir a brisa no rosto, ficar sozinha, mergulhada em pensamentos...
—Sozinha? — ele se colocou na minha frente e começou a andar de costas, sorrindo torto — Mesmo?
—Bem, talvez com você. Às vezes — disse fingindo pensar e ele me empurrou, quando saímos do bosque e ele foi pra direita, enquanto eu virava para a esquerda.
—Você não vai jantar? — ele perguntou confuso. Sorri.
—Não, Leo, quem precisa de comida aqui é você. Estou sem fome. — afirmei. Leo coçou a nuca.
—Deixa eu te levar até o seu chalé, então. — ele acendeu fogo em uma mão e pegou a minha com a outra.
Enquanto caminhávamos em direção à área comum, me deixei levar pelos meus pensamentos. Eu gostava de estar com Leo, gostava muito. Ele era um irmão pra mim, e eu estava impressionada em como havíamos nos tornado tão próximos em tão pouco tempo. Leo apertou minha mão.
—Fala, Corrêa.
—O que?
—O que o que?
—Ai, Leo! Você é irritante. — ele riu.
—Está entregue. — paramos em frente ao chalé de Atena, e eu me inclinei na direção dele, depois me lembrei que não era o costume local e recuei. — Por que você faz isso? Você também fez da primeira vez que nos vimos.
—Ah. Isso. — fiz um gesto impaciente com a mão — É só que lá de onde eu veio, é costume cumprimentar as pessoas com beijinhos na bochecha. Vão de um a três, dependendo da região. — Leo ficou surpreso por um momento, depois riu.
—Gostei desse costume. Eu poderia me acostumar com isso. — eu ri disso, e fiquei surpresa quando ele me beijou na bochecha. Ele não era muito baixo, nem precisava se esticar direito. — Até mais, Corrêa.
—De onde você tirou isso? Me chamar pelo sobrenome! — exclamei rindo. — Mas pode continuar, eu até que gostei. Até amanhã!
—Hasta mañana, chica! — ele respondeu em espanhol.
—Buenas noches, Leo! — desejei na mesma língua.
***
Os dias se passaram e as semanas também, e eu e Leo ficávamos cada vez mais próximos. Ficávamos por horas conversando sobre tudo, desde nossas vidas até as aventuras dos Sete da Profecia. Fiquei impressionada por ele ter praticamente o mesmo gosto musical que o meu, e ele adorou saber que eu tinha uma coleção de pedras semipreciosas e cristais.
No final de Outubro, muito depois do dia das crianças, recebi um presente do meu pai e do meu irmão: uma coleção de partituras de Bach, Vivaldi e Beethoven para violino. Sim, eu toco violino, até bem, modéstia à parte. Mandei uma carta para eles agradecendo imensamente o presente (me sentia agradecida de coração) e comecei a analisar as músicas. Algumas das minhas clássicas favoritas estavam ali. Quando vi a quinta sinfonia de Beethoven “Sinfonia do Destino”, não conti uma exclamação. Era simplesmente perfeita!
Rapidamente achei meu violino no meio da “bagunça organizada” que era o chalé de Atena, afinei de ouvido mesmo e comecei a tocar. Era uma versão mais simples, modificada para ser tocada apenas por uma voz, mas não perdia a beleza. Deixei por me levar por mais algumas músicas, passando por “3º Minueto” de Bach, seguindo para “Primavera” de Vivaldi e chegando a clássica nona sinfonia, “Óde à Alegria”. Estava tão imersa nas notas que Jason teve que bater no meu ombro pra chamar minha atenção.
—Deuses, Jason! — dei um pulo involuntário — Não faça mais isso! Quase me matou.
—Você toca muito bem — ele elogiou, sorrindo — mas eu trago más notícias.
Enquanto guardava o instrumento, comecei a agradecer mas as palavras morreram em minha garganta ao perceber o tom de sua voz.
—O que houve Jason? — perguntei suavemente. Ele balançou a cabeça e cerrou os punhos.
—Foi aquela... Calypso. — ele parecia estar com muita raiva — Ela me mandou uma Mensagem de Íris agora à pouco. Ela pretende terminar com o Leo. Quis me avisar para confortá-lo depois. — seus olhos azuis estavam faiscando, e fiquei com medo de que ele explodisse o teto.
—Ahhhhh, merda. Mas por quê...? — o olhar de Jason me disse tudo: ela havia arrumado um outro cara — Ooooohhhh, aquela.... Filha de Hera! Isso vai partir o coração dele! — só de pensar nisso eu ficava de coração partido.
—Vim aqui pra te pedir pra me ajudar. Pra ajudar ele. Você sabe o quanto ele gosta dela... Mas vocês são muito próximos, então pensei que... — o interrompi rapidamente.
—Claro que o ajudarei! Vou tentar fazê-lo esquecê-la. De alguma forma. — fiz uma pausa — E mesmo se não fossemos próximos, eu não iria confortá-lo, iria é dar uns bons pescotapas naquela falsa! Desculpe, meu nível está baixando. — respirei fundo. Eu era uma filha de Atena, meus sentimentos não podiam me levar daquela forma — A essa altura ela já deve ter falado com ela. Porque você não vai atrás dele e já começa a conversar? Afinal, vocês já se conhecem a mais tempo.
—Sim, claro. Obrigado. — ele parecia mais calmo e aliviado. Ia saindo do chalé quando se virou de repente. — Não que eu queira te influenciar, mas... Você com certeza daria uma namorada melhor pra ele.
—Por favor, não fale bobagens! — bufei, rimos, e ele foi embora.
“Não dê falsas esperanças a garotinhas de catorze anos”, era o que eu queria dizer, “elas já estão muito preocupadas em não começaram a gostar dos melhores amigos compromissados. Bem, não mais compromissados”. Ao pensar nisso automaticamente já me senti mal e bani aquelas ideias da minha cabeça. De uma forma ou de outra, não seria machucada novamente, e era errado pensar daquela maneira.
À tarde, os campistas foram dispensados de suas atividades normais porque Zeus resolvera fazer chover um pouco no Acampamento. Enquanto a maioria reclamava, eu achei muito bom: não ficava quente a ponto de derreter, não tão frio ao ponto de querer me mudar para o Hades, ou seja, perfeito para ler um bom livro tomando chocolate quente! Naquela época do ano, poucos campistas ficavam no Acampamento. Annabeth, apesar de ter ficado um pouco a mais para me receber, já tinha ido embora. Os meus irmãos que ficaram estavam no chalé de Apolo, onde estava ocorrendo um campeonato de jogos de tabuleiro (hã?) e que muitos semideuses iriam (hã?²).
Quando a chuva ficou mais forte e eu estava quase terminando Eldest (Ciclo a Herança), alguém bateu na porta do chalé. Me enrolei num cobertor e fui atender. Encontrei Leo, encharcado pela chuva e sem o habitual brilho nos olhos.
—Hey, Corrêa. — ele deu um sorriso triste. — Desculpa te incomodar, eu sei que estou encharcado, mas... Posso entrar?
—Ah, deuses. Claro, entra, Leo. — eu estava meio nervosa, tentara formular um plano à tarde, mas nada bom o suficiente me veio à cabeça e agora ele estava ali na minha frente e eu não sabia o que ia falar. Me concentrei nas prioridades. Tirei meu cobertor e joguei nos ombros dele. — Toma, senão vai ficar resfriado. Vou fazer um chocolate quente pra você.
—Não precisa, estou bem. — ele respondeu surpreso (talvez eu não demonstrasse minha preocupação com ele muitas vezes). Da mini cozinha do chalé (que na verdade era só uma bancada com coisas pra fazer todo tipo de bebida quente) respondi:
—Deixa de ser bobo, não vai dar trabalho nenhum. — acabei fazendo um café pra mim também. Sentia que precisaria de algo forte pra clarear minha mente. — Toma.
Quando ele pegou a caneca, nossos dedos se esbarraram, e os dele estavam gelados. Passei pela minha cabeça inúmeros palavrões na minha língua materna. Por quanto tempo aquele doido teria andado na chuva? Esqueça o resfriado, ele iria ter uma hipotermia! Me sentei ao lado dele no beliche, enquanto ele bebia o chocolate, sem falar nada. Após alguns goles no meu café, escutei Leo dar um soluço e percebi que ele chorava discretamente.
—Ah, Leo... — meio hesitante, já que ele não era muito fã de contato físico, passei um braço ao redor de seus ombros. Quando senti que ele não iria me afastar, coloquei nossas canecas na mesa de cabeceira e o abracei de verdade, trazendo sua cabeça pro meu ombro. — Vai ficar tudo bem. Eu prometo.
—E-Eu não entendo. Porque ela faria isso. Eu pensei... Pensei que estivéssemos felizes juntos! — ela já havia parado de chorar, mas ainda soluçava um pouco. — Que ótimo. A primeira vez que tenho uma namorada de verdade, e ela me troca por outro.
Não respondi nada, simplesmente o abracei mais forte. Então ele me contou como tinha sido a conversa.
***
Leo
—Foi bem curta, pra falar a verdade. Eu estava no Bunker 9, e ela me chamou numa Mensagem de Íris. Disse que... — senti um nó na garganta — Que sentia muito, mas já não gostava mais de mim, desse jeito. Que poderíamos ser amigos. Eu falei que tudo bem, que esperava que ela fosse feliz. Só depois a ficha caiu...
Quanto mais eu falava, mais eu me acalmava. Não valia a pena chorar por coisas desse tipo. Bem, claro que eu estava de coração partido, mas haviam motivos melhores para se chorar.
—Posso falar o que eu acho? Com sinceridade? — Hanna perguntou, e eu assenti, afundando minha cabeça em seus cabelos. Eles tinham um cheiro bom, de xampu de pêssego. Hanna se afastou e limpou o traço de algumas lágrimas das minhas bochechas. — Acho que ela começou a gostar de você pelo simples fato de você ter sido o primeiro a gostar dela de volta. Mas agora ela está conhecendo o resto do mundo e conhecendo novas pessoas... Não é mais só vocês dois. Ah, isso ficou uma droga! Mas, entendeu o que quero dizer?
Fiquei um pouco surpreso com a atitude dela. Hanna não costumava ser tão carinhosa, mas eu gostei de saber que ela se importava comigo. Eu também gostava muito dela.
—Não, eu... Entendi o que você quer dizer. De qualquer forma, eu ainda vou ficar triste por um tempo. Mas tenho certeza que você e Jason vão me ajudar! — tentei sorrir.
—Hey, eu que devia tentar te animar! — ela riu — Pode ter certeza, nós dois, e todos os outros também, estamos aqui pra tudo o que você precisar! — eu ri, agradecido.
Não sei o que me deu naquela hora. Talvez eu estivesse um pouco carente demais, ou confuso. O fato é que eu me inclinei na direção de Hanna e a beijei.
Na verdade foi mais um encostar de lábios, e Hanna também não deixou durar muito tempo. Quase de imediato, ela me afastou delicadamente. “Maravilha”, pensei, “Agora que eu fiz essa bobagem, ela nunca mais vai falar comigo. O que diabos eu tinha na cabeça?!”. Estava a meio caminho de uma desculpa, arrependido, quando ela sorriu.
—Wow, nada de amizade colorida! — ela riu, perceptivelmente disfarçando o nervosismo. — Leo, não faça bobagens. Você está confuso, ok? Anda, vou te levar pro seu chalé. — ela se levantou e me puxou.
—Ok. E foi mal. — disse, desviando o olhar.
—Nada mal pra um primeiro beijo. — ela murmurou na língua natal dela, por isso não compreendi exatamente.
—O quê?
—Ah, eu só disse pra você não esquentar com isso. Não foi nada demais. — ela começou a andar de costas, como eu mesmo fazia às vezes. — Corrida até o chalé nove?
—Só se for agora! — eu respondi, e disparamos.
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