Barreiras
7 Hanna - It´s Time
Notas iniciais
It's Time, Imagine Dragons ======> https://www.youtube.com/watch?v=sENM2wA_FTg
É estranho o que a dor faz com o seu corpo. Ela vai aumentando, aumentando, aumentando, até você pensar que não aguenta mais, e de repente para. Às vezes a gente fica flutuando no escuro, sem sentir nada, sem pensar. Em outras, pensamos até demais, vemos coisas onde não existem nada.
Fui despertada da minha dor pelo som de dedilhados no violão. Abri os olhos devagar e tentei me sentar, mas estava tão fraca que desisti e desabei na cama de novo. O violão parou por um momento e recomeçou.
—Não devia fazer tanto esforço. Você sabe que está doente. — alguém com uma voz suave, mas forte, me alertou.
—Oi, André. — cumprimentei, olhando para o teto. Fiquei feliz por saber que ele tinha vindo me ver no hospital de novo, mas ao mesmo tempo triste, por saber que não éramos mais tão amigos quanto antes.
Ouvi o som de passos se aproximando e o rosto de André. Ele era moreninho, tinha o cabelo castanho claro e, o mais impressionante, olhos violeta. Dediquei alguns instantes para admirá-los, já que, como sempre, poderia ser a última vez. Normalmente ele teria sorrido e feito alguma piada, mas rapidamente ele desviou o olhar e me ajudou a sentar. Com pressa, ele voltou a se sentar violão e ficou tocando o tema de “Piratas do Caribe”. Conti um suspiro.
—Alguma novidade na escola? — perguntei o velho clichê.
—Ana Clara saiu.
—Ah, que pena. Eu gostava dela.
Silêncio (a não ser pelo violão).
Percebendo que não ganharia mais do que isso, fechei os olhos e comecei a viajar na música. Era bem estranho, num momento eu estava pensando na vida e no outro eu começava a compor entre as notas e transformar a melodia em outra.
—...você não ouviu nada do que disse, não é? — André chamou minha atenção. Me desculpei e ele suspirou. — Eu disse que a gente tá precisando conversar.
Ah, malditas palavras. Sempre que alguém diz isso, algo ruim está para vir.
—Fala. — disse com o coração acelerado.
—A gente... A gente tá muito estranho. Eu não sei o que aconteceu, mas você nem fala mais comigo. Quer dizer, teve aquela confusão toda e tal, mas não era motivo pra você ficar com raiva de mim. E além disso, minha namorada continua se sentindo muito mal por sua causa, então... Acho que a gente devia parar de se ver. — a cada palavra, a voz dele abaixava cada vez mais, de forma que a última fora praticamente um sussurro. — Se um dia as coisas se acalmarem...
Meus ouvidos estalaram. A fúria rugia na minha mente. O jeito como ela falava fazia parecer que eu é que me distanciei, que eu que havia provocado a namorada dele, que era tudo culpa minha. Eu queria gritar com André, socá-lo, mandá-lo para o Inferno, mas me segurei.
—A gente é amigo desde o maternal. A gente combinou várias vezes de viajar quando ficássemos mais velhos. Já fizemos tanta coisa juntos que seu celular tem mais fotos minhas do que de todos os seus amigos. A gente podia muito bem superar essa “crise” — fiz aspas com os dedos — Mas se você quer assim... Se você quer trocar uma amizade verdadeira por esse relacionamento instável... Pode ir. Você não deveria acreditar nesses rumores... Eu te trato de um jeito diferente dos outros meninos sim, eu sou carinhosa com pessoas que amo, porque você é mais que um amigo, um irmão. Ou era... Se lembre que eu não vou estar aqui quando você não tiver mais ninguém, André. — olhei-o fixamente por alguns instantes, absorvendo cada detalhe. Virei o rosto e encarei a janela. — Saia do quarto, por favor. Não quero ser uma última opção.
Podia sentir seu olhar queimando meu rosto, mas não olhei para ele. Então, a passos lentos, ele saiu. Esperei dramaticamente dez segundos então deixei as lágrimas rolarem, me encolhi na coberta e chorei como nunca. A única vez em que eu tinha chorado tanto foi quando um grande amigo da minha família morreu.
Dizem que a dor de ser ignorado é tão forte como uma dor física. Tenho certeza de que a dor da perda também. Fiquei repassando na minha cabeça toda a confusão que rolou por causa da namorada dele: os ciúmes sem sentido, as fofocas, minhas amigas se virando contra mim, o afastamento dele. Só por causa que a gente era muito íntimo, éramos como irmãos e ela pensou que nós dois estivéssemos tendo alguma coisa, ou sei lá... Ninguém entendia nossa amizade. Ninguém sabe o que é viver um na casa do outro, compartilhar segredos e viver aventuras juntos desde os três anos.
Estava quase parando de chorar quando pensei “E agora, isso nunca mais vai se repetir”, então desabei de novo. Escutei passos no corredor e imediatamente parei de chorar e tentei me aprumar. Não queria que ninguém me visse chorar e aparentemente André não merecia minha tristeza (embora antes eu achasse que sim).
—...no último episódio você tem que abaixar o som, sério, é muito assustador! Eu quase morri! — Augusto entrou no quarto enquanto conversava com Sandra e Marcus os seguia.
—Deixa de ser medroso, eu já assisti e não tem nada demais! — Sandra retrucou e meu irmão riu.
—Augusto é a pessoa mais medrosa da Terra! Ele não pode sair de casa no Halloween, se assusta com as fantasias! — meu irmão e Sandra gargalharam, enquanto Augusto emburrava.
—Nana discorda, não é? — ele perguntou se virando para mim, me chamando pelo apelido (ridículo, mas fofo) que criara.
—Sei não... Acho que concordo com eles! — respondi entrando na brincadeira. — Como conseguiram entrar todos juntos?
—Seu irmão jogou charme pra cima da enfermeira — Augusto respondeu piscando.
—Blasfêmia! — Marcus gritou — Quero dizer... Isso é um exagero... Ok, é verdade.
Todos rimos com vontade. Sandra se sentou na beirada da minha cama, Augusto de esparramou no sofá e Marcus se apoiou na janela. Nós conversamos um pouco sobre as notícias recentes dos jornais, como eu estava e sobre as estreias dos cinemas. Augusto falou que, quando me recuperasse, ele me levaria para ver algum da Marvel e Marcus o ameaçou de dar em cima de mim. Em determinado momento meu irmão e Sandra foram tomar café e Augusto se deitou do meu lado na cama.
—Esses dois ainda vão se casar. — ele comentou.
—Sinceramente, ainda não sei como não estão juntos! — demos um sorriso cúmplice. Não consegui conter um suspiro. Embora eles estivessem me distraindo, se eu parasse um momento para pensar, pensaria em André.
—Nana... Eu não quero te magoar, mas André conversou comigo há alguns dias... — ah, André... Ainda por cima tem que comentar com outras pessoas?? — Ele foi um idiota. Total. E a namorada dele exagerou também. Eu até gosto dela, mas não precisava fazer cena. Enfim, como você está? — ele se virou para mim, mas eu continuei olhando para o teto.
—Triste. Magoada. Puta da vida. Escolha qualquer um. Acho que vou guardar rancor para sempre. — eu guardava rancor por qualquer coisa.
—Se quiser, posso dar um soco nele. — ele disse com uma cara séria.
—Seria bom. — respondi no mesmo tom.
Acabamos os dois rindo e ele me abraçou de lado.
—Não se preocupe irmãzinha. Sei que você vai achar outra pessoa pra ser seu melhor amigo. Tipo eu!
—Mas você já é um irmão! Tá um patamar acima!
Eu me sentia muito bem com Augusto. Ele esteve presente na minha vida desde que me lembrava, desde que eu era um bebê. Meu irmão Marcus é três anos mais velho do que eu e é amigo do Augusto desde o maternal, aliás, melhor amigo, então Augusto sempre estava lá em casa e por consequências crescemos juntos (apesar de ele me tratar como uma criancinha de seis anos). Nos tornamos irmãos que moram em casas separadas. Ok, tá certo que quando eu tinha lá meus treze anos eu sentia borboletas no estômago sempre que o via e tinha vontade de dar um soco na cara dele e sair correndo, mas isso passou e as coisas voltaram ao normal (eu acho).
Continuamos a conversar e os dois pombinhos voltaram.
—Marcus, quando é que você vai parar de enrolar a Sandra e pedir ela em namoro? — Augusto perguntou brincando, mas percebemos que eles estavam de mãos dadas e erguemos as sobrancelhas. — Ok, acho que a brincadeira foi tarde demais.
Rapidamente eles soltaram as mãos e se olharam envergonhados.
—Por que vocês dois não vão lá pra fora... Só um minutinho? Eu quero conversar uma coisa com a Nana — Marcus pediu.
—Ok, vamos lá Sandy. — Gus disse e os dois saíram.
Marcus suspirou e eu dei espaço na cama para que ele se sentasse.
—Vocês dois estão namorando sério, não estão? — perguntei contendo alegria pelo meu irmão.
—Sim, estamos. — ele me analisou — Tudo bem pra você?
—Mas... Claro que está tudo bem! — respondi chocada — Por que não estaria? E mesmo que não estivesse... Não é sua felicidade que conta?
—Bom, sim... Quero dizer, não! O quê? Que merda eu estou falando... — ele sempre foi péssimo com palavras, assim como eu — Enfim, é que eu não queria que você se sentisse abandonada. Sei que já teve seus problemas com namoradas ciumentas...
—Mas que merda, todo mundo sabe... — resmunguei.
—...mas quero que saiba que não vai ter esse problema conosco. Você e a Sandy são amigas, e eu nunca abandonaria você por uma garota. Você é minha irmãzinha, está bem.
—Está bem. — respondi sorrindo de lado — Mas eu não estava preocupada. Sei disso. E, de qualquer forma, eu sempre vou ter o Gus pra te dar um soco.
—Ah, o Gus... Vamos ter uma conversinha mais tarde... Sobre NÃO dar em cima da irmã dos outros!
—Ah, para de bobagem! Ele me trata como uma irmã mais nova!
Marcus me olhou torto, como quem diz ah-mas-você-é-tão-inocente e foi até a porta chamar os amigos para se despedirem de mim. Beijei cada bochecha de cada um e eles deixaram para mim conselhos e desejos de melhoras.
Depois, exausta, me deitei de novo e a melodia favorita de André, “BitterSweet Symphony” preencheu minha cabeça e comecei a dedilhar nas cobertas. Uma lágrima escorrei dos meus olhos fechados. E, apesar da tristeza, enquanto o sono me envolvia, nunca havia me sentido mais em paz.
É bom ter pessoas te amando independente de seu mundo ter desabado.
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