Barely Legal
2 The Grouch
Notas iniciais
Acordei no outro dia com umas porradas na porta. Argh, eu podia enrolar mais uns minutos.
- Amanda! — gritou mamãe — Acorda, Adrienne já chegou pra te buscar.
Quem? Abri os olhos assim que tomei conhecimento do que tava acontecendo.
- Argh, já estou levantando! — falei me virando de má vontade — calma...
- AMANDA!
- Já to em pé — gritei, me levantando.
Vesti a primeira roupa que encontrei na bagunça da minha gaveta, e desci pra encontrar minha mãe e Adrienne divagando sobre a nova geração que troca a noite pelo dia com esse negócio de ficar a madrugada toda ligado no computador.
- Pronto — falei desviando o enredo da conversa.
- Podemos ir? — perguntou Adrienne.
Acenti enquanto caminhávamos até a porta, garantindo a mamãe que eu tomaria cuidado e tudo mais. Quase tomei um susto quando saimos porta a fora. Que carrão! Ela devia ser casada com um CEO milionário ou algo assim. Assim que sentei no banco do carro minhas nádegas relaxaram. Que couro macio, que cheiro delicioso. Eu poderia fácilmente dormir aqui o resto da minha vida. Passamos o caminho em um silêncio confortável, com Adrienne divagando de vez em quando sobre o trânsito ou as crianças. Até que chegamos em um paredão de esquina, com tinha um enorme portão prateado que dava para uma passarela arborizada que parecia seguir todo o caminho até a casa. "Casa", na verdade era uma mansão, quase uma extravagancia presidencial. Adrienne era casada com o Jay-Z, cheguei a conclusão.
- Chegamos — disse estacionando.
- Nossa — falei ainda boquiaberta — sua casa é... fantástica!
- Obrigada — respondeu desconcertadamente. Me surpreendi com a modestia dela, quer dizer, ela devia ouvir isso o tempo inteiro — Quer conhecer a casa?
- Claro — na verdade estava bastante curiosa para saber como era um casarão daqueles por dentro.
A casa era até bastante simples por dentro. Quer dizer, não tinha móveis banhados a ouro ou animais empalhados de duzentos anos. Era uma casa confortável e espaçosa. Depois de uma turnê pela casa, me lembrei do meu próposito ali.
- E os meninos? — perguntei ansiosa para saber no que eu estava me metendo.
- Ah, devem estar lá fora jogando com o pai — respondeu olhando pela janela da cozinha — Você deve estar morrendo de fome, coitada. Não teve nem tempo de tomar café! Deixe eu preparar alguma coisa pra vocês.
Quando Adrienne já estava colocando a mesa ouvi a porta se abrindo e uma voz quase angelical resmungando:
- Ah não! — disse a voz fininha relutante — Panquecas de novo não. Quero Cocoa Krispies.
- Que calor dos infernos — falou uma segunda voz, que parecia ser de um homem.
Senti a sua voz se aproximando enquanto eu tentava entender como se enfiava detergente na máquina de lavar pratos. O homem passou por trás de mim para alcançar uma garrafa de água na geladeira, e me virei para encontrar um rosto incrivelmente familiar. Na verdade estava bastante surpresa que o homem da casa não era um gordo careca cheirando a John Walker, e sim um homem que aparentava uns trinta anos se desconsiderasse algumas rugas e linhas de expressão. Bem bonito na real, e extremamente familiar. Não pude me conter.
- Eu te conheço de algum lugar? — perguntei à ele tentando parecer casual, enquanto ele se debruçava sobre o balcão de mármore da cozinha.
Ele não respondeu. Pensei em repetir a pergunta mas achei melhor apenas fingir que não tinha dito nada e voltei a colocar os pratos dentro da máquina.
- Provavelmente não — respondeu ele em tom seco, sem nem ao menos se dar o trabalho de virar.
- Ok — respondi retribuindo a hostilidade.
Não falei quase nada durante todo o café da manhã, apenas acentia e concordava. Adrienne apresentou o homem emburrado como Billie Joe, que outra vez ignorou completamente minha presença. Quando ela disse que meu nome era Amanda sua expressão clareou ligeiramente, mas logo voltou sua atenção para o enorme prato de panquecas a sua frente.
Menos de uma hora depois Adrienne já estava colocando as maletinhas estofadas dentro da mala do carro.
- Se comportem! — falou abraçando Joey e Jakob simultaneamente — Vou ligar todo dia e se vocês aprontarem eu juro que eu quebro todos os video-games dessa casa. E mudo a senha do wi-fi.
- Argh, como eu vou passar uma semana sem você? — disse Billie Joe enquanto batia a mala do carro.
- Deixe de chororô, você passa o ano todo pelo mundo e eu fico aqui sozinha — respondeu enquanto o beijava e batia a porta do motorista.
Depois que o carro de Adrienne sumiu na esquina, todos voltamos para dentro em um silêncio constrangedor. Como eu ia ficar aqui desse jeito? Quando todo mundo subiu, eu não sabia se os acompanhava ou ficava lá embaixo. Estava me sentindo uma intrusa. Me sentei no sofá e esperei alguma coisa acontecer. Fiquei ali até que um dos meninos apareceu de cabelo molhado e cheiro de xampu infantil e me obrigou a passar o resto da manhã jogando video-game com eles. Já era quase uma hora da tarde e Billie Joe ainda não tinha descido. Que estranho. Será que ele só estava esperando eu ir embora pra descer? Ele foi tão hostil. Ele deve me odiar afinal de contas eu...
- Você vai fazer o almoço? — interrompeu uma samba-canção azul à dois metros de distância do meu rosto. Olhei para cima só para encontrar Billie joe me fitando com a testa franzida.
- Eu não sei cozinhar ... — falei tentando disfarçar a garfe que tinha acabado de cometer — Mas eu posso tentar... Se o gosto de vocês não for muito refinado.
- Eu não sei cozinhar também. Eu achei que você que ia cozinhar — falou virando de costas para inspecionar um dos livros que estava sobre a mesinha de cabeceira — Faz qualquer coisa.
Me levantei tensa e ao mesmo tempo aliviada de ter alguma coisa pra fazer. Como eu vou me virar pra encher a pança dessa gente podre de rica?
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