Bardim.
1 Capítulo Único - Fan service.
Notas iniciais
Bardim é o nome da banda e foi uma sugestão do meu namorado, Daniel, que, em algum momento da vida, usaria a palavra "morcego" em árabe para o nome da sua banda (caso tivesse). O que eu fiz foi traduzir e inverter as letras, usando-as de trás pra frente.
O agradecimento é ao Dan, por sempre me inspirar, e à Salinaak, que me ajudou, me betou e apoiou a ideia todinha.
Muito obrigada!
Aproveita, chuchu! ♥
— Ei, Dan. Pensa rápido! – Beatriz acabara de arremessar uma garrafa de água para o cara que afinava sua guitarra em uma poltrona que ficava ao canto do camarim. Este, infelizmente, não foi tão rápido quanto necessário e recebeu uma pancada brusca no ombro esquerdo do objeto plástico.
— AI! TROUXA! Precisava mesmo disso? – Retrucou incrédulo. – Você é pequena, mas parece um jegue, de tão bruta.
— Eu disse pra pensar rápido. – Riu da lentidão do amigo enquanto pegava o recipiente que caíra no chão e sentou no braço da poltrona preta, ao lado do guitarrista. – Pronto pro show de hoje? – Ofereceu a sua própria garrafinha para um brinde, que foi prontamente correspondido.
— Ah, tranquilo. E você? Afinada? Aposto que não. – Daniel riu em resposta ao dedo do meio que recebeu.
Era sempre assim: eles se provocavam por horas sem parar. Horas. Mas no fim sempre acabavam rindo um do outro. Daniel e Beatriz eram grandes amigos e, por alguma peça do destino, faziam parte da mesma banda, a Bardim, composta também por Thiago, o baterista e Felipe, o baixista. Todos tinham por volta de 22 anos e estavam juntos desde a formação original, que aconteceu no colégio quando ainda tinham seus 16 anos, lá no ensino médio. Depois de anos de estrada, a Bardim já tinha certo prestígio e havia tocado em parcerias com algumas das maiores bandas do país. Eles eram bons. Talvez não fossem a Fresno, mas eram melhores que a Restart. Já era algo.
— Gente, 15 minutos para a entrada. Energia total. O público está louco lá fora. – Foram apressados por Melissa, a “moça do marketing”, que, apesar de carregar grande responsabilidade e trabalhar diretamente com o empresário, era só uma jovem da idade de todos ali, namorada de Thiago. Era meio maluco trabalhar em um ambiente tão familiar, onde todos eram muito próximos, mas sem dúvida era ótimo para os ânimos. Passavam mais tempo na estrada do que em casa, com suas famílias, por exemplo, então era ótimo estar com gente de confiança.
— Shostners! Vamos nessa, ent... – Thiago ia levantando e alongando os braços tatuados, quando foi interrompido por um ataque de riso do baixista, que lia algo no notebook, incrédulo. Todos olharam procurando alguma resposta.
— Vocês sabiam que a Bia e o Dan, aparentemente, são um casal? – Felipe ria da possibilidade. – E, aparentemente, praticam BDSM. E as pessoas escrevem sobre isso. E POSTAM NA INTERNET. – Não demorou muito pra que todos estivessem reunidos atrás do baixista, a fim de olhar tal atrocidade. — Olha só, tem até uma conta no Instagram sobre isso: @DantrizIsReal.
— Não é possível – Beatriz olhava aquilo desacreditada. Gente, que absurdo era esse, afinal? – Eu achei que as pessoas já estivessem cientes de que eu beijo mulheres.
— Errado. Você beija mulheres também. – Thiago retrucou, sendo apoiado pelos outros. – O que você acha sobre isso, Dan?
Até aquele momento, Daniel não tinha dito nem uma palavra porque basicamente nunca tinha pensado nisso como uma possibilidade porque...
— Bom, todo mundo sabe que a Bia beija todo mundo. Mas viu... – E lançou um olhar pervertido para a moça de cabelos roxos – Como a gente nunca pensou nisso mesmo? Vamo?
Todos ali riram dos dois. Riram mais quando perceberam que as bochechas de Bia estavam ganhando uma tonalidade mais rosada que o normal.
— Isso não pode estar acontecendo. – Bia acabou sacudindo a cabeça a fim de espantar as possibilidades que insistiam em tomar conta dos seus pensamentos. Se ela fosse abrir o coração e ponderar com sinceridade, admitiria que ao longo dos anos, já havia fantasiado com o amigo, mas eram tão parceiros que absolutamente não parecia certo. Nem justo. Não era uma possibilidade, por mais que Daniel fosse, de longe, um dos caras mais doces que já havia tido a chance de conhecer. Por fim, depois de um longo suspiro de indignação forçada, acabou por questionar. – Mas e esse BDSM, gente? Até que não é uma má ideia, acho. – E riu alto olhando de canto para Daniel, levando todo mundo no embalo das risadas. Depois de muito rirem ao ler alguns trechos, decidiram focar no show e entrar no palco. Havia um grande número de pessoas esperando para ver a Bardim em ação.
Já estavam na quinta música e a apresentação ia muitíssimo bem. A casa estava cheia e o público estava cheio de energia, sempre dispostos a gritar as letras o mais alto possível quando a vocalista pedia. Todo incentivo era como uma bomba para o pessoal que levava o show como uma festa. O álbum novo mantinha a essência do rock’n’roll que os membros da banda adoravam, mas sintetizadores foram adicionados, dando um ar eletrônico e dançante para as músicas, o que trouxe ainda mais gente para os shows, aumentando ainda mais o público.
Desde que subira ao palco, Bia não conseguia tirar aquele troço da cabeça. Ela sabia o que eram as fanfics, inclusive passara a adolescência toda lendo e escrevendo sobre bandas internacionais das quais tanto gostava, mas particularmente nunca tinha visto essa produção sobre bandas nacionais... Muito menos com ela sendo personagem. Muito menos sobre ela beijando seu melhor amigo. Entre uma música e outra, teve uma ideia que poderia ser, no fim das contas, um tiro no pé, mas, depois de muito pensar, decidiu que testar não seria uma má ideia. Olhou para o seu lado direito, onde Daniel se dedicava lindamente a um solo de guitarra. Apontando para o amigo e instigando o público, chegou mais perto aguardando sua hora de entrar com o vocal. Realmente, existia algo nele que a provocava. Principalmente quando estavam em cima do palco. Ele, que sempre era tão divertido e tranquilo, se transformava nos shows assumindo uma postura totalmente diferente. Se tornava autoritário e seguro de cada acorde. Em momentos de concentração, mordia o lábio inferior de um jeito que poderia levar qualquer moça à loucura (e ela sabia disso porque em todo solo, as meninas da primeira fila perdiam a linha. Se ele mordia o lábio, os gritos aumentavam e os flashes começavam, vindos de muitos e muitos celulares da plateia). Era isso então. Se escreviam sobre isso, então o teriam. Foi chegando mais perto do guitarrista no ritmo da música enquanto entoava o refrão mais uma vez. Ele olhou sem muito entender enquanto ela avançava um pouco mais e, ao fim do refrão, ela já estava posicionada atrás do amigo. Ele, aparentemente, tinha entendido a brincadeira, porque ria um riso gostoso, jogando a cabeça pra trás.
— Sério? – Falou por sobre os ombros. O som de sua voz foi imediatamente abafado pelo ruído externo, mas ela acenou que sim ao ler os seus lábios. Riu e começou a cantar a ponte, dando a volta em torno de seu corpo e rebolando com as batidas da música. Passou uma das mãos pelas suas costas e, ao fim da estrofe, depositou um beijo demorado em seu pescoço, terminando a dança e voltando ao centro do cenário. A plateia enlouqueceu com o gesto pouco inocente que, normalmente, não seria visto em qualquer show deles. Os outros integrantes riam enquanto finalizavam a música.
Dan pareceu achar a proposta interessante e, vez ou outra, fazia graça seguindo a vocalista pelo palco, que ria da brincadeira e acabava por cantar alguns versos mais pertinho. Toda hora que esse momento de interação acontecia, o público pirava. Então era isso. Aparentemente o tal do Dantriz era real e as pessoas esperavam por isso. Que loucura.
**
— Ok, o que foi aquilo? – Thiago precisou perguntar, enquanto todos estavam reunidos em um bar qualquer, logo após o show. Até então, ninguém ali tinha dado muita bola pra o contato dos dois, mas Thiago percebeu uma certa diferença desde que haviam deixado a casa noturna onde ocorrera o concerto.
Bia deu um longo gole no chopp de vinho e deu de ombros.
— Fan service, caraio. Cês nunca viram, não?
— Agora ela vai negar que ‘tá apaixonada por mim, assim não dá. E a nossa história? – Daniel fingiu uma expressão triste, fazendo os amigos rirem.
— Não, é sério! Fãs piram nessa história de ver os seus ídolos se pegando. Talvez eu lesse umas fanfics sobre o vocalista e o guitarrista do Tokio Hotel... De monte. – E escondeu o rosto, logo depois de gargalhar alto.
— Espera, mas eles não são... – Melissa pareceu desconfiada, pegando a informação no ar.
— Gêmeos. Sim.
— Ahhhhhhhh, cara... Que afetada. – Felipe deu um tapa de leve na cabeça da amiga, dando mais um trago no cigarro, que se encontrava na outra mão. Todos concordaram que, realmente, não era legal.
— Bicho, que nojo. – Thiago concordou, seguido de Daniel e Melissa.
— Coisas que a gente preferia não ouvir, né?
— Ew.
**
A noite tinha passado tranquila. Ficaram no bar até quando aguentaram e voltaram ao hotel para dormir. O dia seguinte seria conturbado, já que existia uma reunião de equipe durante a manhã e tarde para acerto de detalhes de relações públicas e publicidade, e, mais a noitinha, haveria uma participação da banda em um talk show ao vivo. Todos se distribuíram em seus devidos quartos, alguns tomando um banho, outros só se jogando na cama do jeito que chegaram.
— Cara, o que foi aquilo? – Beatriz se perguntava sozinha no quarto, enquanto secava os cabelos roxos em uma toalha. Estava absorta em pensamentos estranhos desde que flertou com a possibilidade de encenar tudo aquilo, mas nunca havia chegado a perguntar ao seu amigo o que ele achava sobre isso. Não queria, de forma alguma usá-lo como fantoche pra qualquer coisa, nem que fosse para gerar mídia para a Bardim. Pegou o celular que carregava na mesa de cabeceira ao lado da cama, abriu o aplicativo de conversa e tocou onde se lia “Daniel Alves”.
No outro quarto, um rap qualquer tocava nos alto falantes do quarto enquanto Daniel tomava um banho demorado. Também não entendia muito bem o que tinha acontecido, mas não tinha sido de todo mal, afinal. Riu fraco ao lembrar da menina que estudara com ele no colegial. Yasmim era uma amiga com quem Daniel tinha uma certa química. Eram amigos, mas os momentos onde estavam muito próximos ou em silêncio eram um tanto quanto tensos. Aquilo que tinha acontecido no palco se aproximava disso, realmente. Só que com alguém, digamos, mais encorpado e menos ingênuo, talvez. Se enrolou na toalha decidido de que tudo aquilo era só coisa da sua cabeça, já que a Bia sempre fora uma grande amiga e sempre teve esse jeitão decidido de fazer as coisas. Deitou na cama de toalha mesmo e, com o celular na mão, acessou os comentários do evento do show daquele dia, disponíveis no Facebook. A rede social pipocava de comentários sobre aquele tal de Dantriz.
“Que nome idiota, cara”
Sobre aquilo, só havia uma unanimidade: todos diziam que os dois tinham química. Algumas fãs mais novas afirmavam com toda certeza que sempre souberam que os dois eram um casal. Algumas escreviam “CASEM LOGO!”. Achando graça da necessidade das pessoas se apoiarem em algum casal, qualquer que fosse, abriu o aplicativo de bate-papo e não precisou abrir a janela da amiga para perceber que ela digitava algo. Aguardou alguns segundos até que a mensagem chegasse.
“Está acordado?”
“Estou deitado. Está tudo bem?”
“Você está coisado também?”
Ele riu um pouco da pergunta.
“Não, eu acho. Por que?”
“Estou indo até aí.”
Não deu muito tempo de procurar por uma roupa, até porque os quartos eram lado a lado, então apenas colocou uma samba canção qualquer e esperou que a amiga batesse na porta, abrindo assim que aconteceu, dando espaço pra que ela entrasse. Bia estava usando um pijama qualquer, que era bem equivalente a nada: uma blusinha de alças e um shorts de tecido fino. Seus cabelos estavam molhados e soltos. Ela olhava preocupada para o amigo, que fechou a porta e foi se sentar ao seu lado na cama, cobrindo-se rapidamente com um lençol.
— O que? – Ela perguntou desconfiada.
— Me diga você, jeguezinha. Foi você que veio até aqui. – Riu um pouco, sendo acompanhado pela amiga, que logo desatou a falar.
— É que o que aconteceu hoje... Eu não queria que você achasse que eu te usei pra conseguir mídia. Eu sei que é meio estranho, é estranho pra mim também. Eu só fiz aquilo como um teste, mas agora eu acho que pode ter sido um grande erro porque a gente sabe que...
— Olha, acho que as pessoas não acham que tenha sido um erro. – Disse despreocupado, entregando o celular para que ela pudesse ver os comentários que tinha lido há pouco.
Bia pegou o aparelho e começou a rolar a tela, lendo as postagens por cima. Assustou-se.
— Eita. Parece que a gente deu o que falar, realmente. – Pensou um pouco. — Mas eu queria mesmo pedir desculpas. Não devia ter feito aquilo sem antes te consultar.
— Tá louco? Não precisa pedir desculpas. No fim todo mundo gostou. Tá tudo certo, Bea.
Ela não parecia satisfeita. Ainda se sentia culpada, mesmo sabendo que talvez não houvesse motivo pra isso. – Sério?
— Sério. Vem cá. – Se encostou na cabeceira da cama, chamando a baixinha para um abraço, que atendeu prontamente, se encaixando no peito do guitarrista, que logo a envolveu com os braços, dando-lhe um beijinho na testa. – Relaxa, tá?
— Tá certo... – Pensou por alguns segundos e logo emendou – Todo mundo gostou mesmo? Tipo, todo mundo? Até você?
— Até eu, por que?
— Dan, eu acho que deu ruim aqui. – Levantou a cabeça a fim de olhar para o rosto dele. Percebendo a barba bem-feita, os óculos que usava desde sempre, o sorriso agora sem aparelho e os olhos pequenininhos de sono. Tinha gostado muito da dinâmica dos dois e, talvez devesse admitir que, naquele momento, queria beijá-lo. O motivo era incerto, podia ser pelo carinho que ele sempre tivera com ela desde a época do colegial ou pelo monte de risada que sempre davam. Também podia ser pela atenção e pela disponibilidade de sempre ouvir o que a moça tinha pra falar. Podia ser pelo jogo, que eles tinham e sempre acabavam fazendo o outro perder. Podia ser também pelas voltas que o seu estômago dava quando ele aparecia. Também poderia ser pela necessidade que ela tinha de estar sempre por perto, puxando assunto. Ou podia ser pelos muitos copos de chopp de vinho. Ou pior: podia ser pela junção de tudo isso.
— É agora que você vai dizer que está apaixonada? Porque no bar você negou. – Dan riu debochado, passando o braço pela cintura da moça, fazendo cócegas, arrancando gargalhadas altas.
— AI, PARA! PARA! Eu tô rindo, mas não tô feliz! – Afastou as mãos dele de si, olhando com olhos de quem sorri. – Amanhã a gente vê isso aí da paixão. Até agora não sei de nada... – Virou-se e sentou nas coxas do cara a sua frente, deixando uma perna de cada lado do seu corpo. Sentiu que duas mãos carinhosas subiam sem graça para a sua cintura, sorriu com o gesto e sentiu que até ali, tudo bem. Olhou com ternura para o amigo. Por todos esses anos, amou-o como um parceiro e até mesmo um irmão muito próximo. Ela podia acabar com a amizade dos dois arriscando daquele jeito, e a possibilidade não a deixava nada satisfeita. Era uma relação de anos que estava em jogo. – Mas eu gostaria muito de fazer mais esse teste hoje, se você concordar.
Ele piscou duas vezes processando a informação e, quando se deu por si, ela havia avançado com uma das mãos em sua nuca e depositado um beijo em seus lábios. Não sabia que sentimentos havia ali, mas no começo havia notas de fraternidade, o que não durou muito, logo dando espaço a uma grande carga de desejo. Ele envolveu sua cintura em um abraço, puxando-a pra mais perto, colando seus corpos.
Era isso. Se era fan service ou não, ela sentia que era ali onde deveria estar. Amanhã veriam o que poderiam fazer sobre isso. Naquele momento, sua única prioridade era estar ali pra ele porque ao fim da noite, a certeza que restava é que estava, sim, apaixonada. Apaixonada pelo seu melhor amigo.
Como ela se sentia sobre isso?
Radiante.
Dele.
Pelo tempo que for.
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