Barco Da Depressão
2 Capítulo 2 -Charlie, o exilado
Notas iniciais
No dia seguinte, todos retornaram. Após os mesmos cinco minutos de espera, a música começava a tocar, e sempre com as mesmas ondas ao fundo, que davam uma sensação de segurança. Os cinco participantes conversavam baixinho, já que estabeleceram uma relação desde o encontro anterior.
"Atenção!" Doce chamou, de algum lugar nas sombras "O Barco da Depressão está prestes a zarpar! Por favor se acomodem em seus lugares!" Sabendo o que fazer, todos se acomodaram e aguardaram.
Após alguns instantes, Doce simplesmente pulou por cima de uma cadeira de ficou no meio do círculo, com sua cara animada de sempre.
Porém, seu sobretudo enganchou na cadeira, fazendo com que ela caísse. Ele soltou um "Ehw!" e arrumou a cadeira. O grupo então deu algumas risadinhas, e ele se sentou, sorrindo para eles.
"Parecem mais animadinhos hoje! Então, como eu tinha falado, quem quer começar?"
Todos ficaram em silêncio.
"Ah, o que é isso? Desse jeito eu vou precisar escolher alguém, e eu tenho certeza que ninguém quer isso, certo?"
"Então fale sobre você." Sugeriu Charlie, sentado agora uma cadeira de distância de Elisabeth.
"Sobre mim? Ah..." Doce olhou para trás, parecendo encabulado "Eu não gosto de falar de mim. Fala sobre você, então, Charlie. O que você faz, do que você gosta, o que acontece, sua história... Vai."
Charlie suspirou e começou:
“Meu pai era rico. Só que ele era muito desastrado, e por causa disso, os pais dele o expulsaram de casa. Depois que o pai dele morreu, não muito tempo depois, ele ficou com a herança, e passou a pular de hotéis em hotéis porque ele não conseguia uma moradia fixa nunca. Dai ele conheceu e se casou com a minha mãe.”
“Eles eram tipo mochileiros? Que legal.” Marianne acrescentou, parecendo não muito animada.
“Mochileiros! São umas pessoas tão interessantes! Eu já fui um...” Comentou, casualmente, Doce.
“Como assim, já foi um?” Betty perguntou, interessada e desconfiada. ”Ah, ora...” Doce pareceu se atrapalhar por um momento, mas fez um barulho e um gesto de descaso e respondeu “Pfft, essa reunião não é sobre mim, é sobre o Charlie. Pode continuar, por favor?” Ele perguntou, fitando os olhos claros do homem.
“Claro... Quando a minha mãe descobriu que estava grávida ela ficou desesperada, disse para o meu pai que se ele não arranjasse alguma casa logo ela iria abandonar ele assim que eu nascesse. Algumas semanas antes de eu nascer, meu pai encontrou-se com um amigo de infância, que era muito mais rico do que o meu pai inicialmente era, que precisava de um caseiro para a casa que ele tinha naquela cidade. Depois de um pouco de conversa, os meus pais se mudaram para lá. Minha mãe morreu quando eu tinha 11 anos.”
“Meus pêsames.” Eis murmurou, do canto que estava.
“O que te motivou” Doce mudou de assunto “a frequentar o Barco da Depressão, Charlie?”
“Meu marido está internado, com um problema no coração.” Charlie hesitou antes de responder.
“Você é homossexual?” Betty perguntou diretamente para Charlie, parecendo intrigada.”
“Sou. Algum problema?” Ele respondeu. Lentamente, Betty se levantou e se sentou afastada de Charlie, numa cadeira perto de Eis. Isso deixou todos num silêncio constrangedor. Até a música pareceu diminuir seu volume. Doce piscou duas ou três vezes, digerindo a ação de Betty, e então acrescentou, delicadamente, porém sério, “Isso foi bem indelicado, Betty.” A mulher abaixou a cabeça, contemplando o tapete.
Doce suspirou e voltou a falar com Charlie, visivelmente afetado pela ação da mulher. “E vocês dois eram muito ligados?”
“Muito. Trabalhávamos juntos.” Doce continuou a fazer perguntas. “E eu posso concluir que sem ele você não é nada, certo?”
Charlie assegurou com um gesto da cabeça, e voltou a falar. “Ele era especial. Me completava. Eu me sinto muito sozinho sem ele. Não me deixam ficar com ele direto no hospital porque somos homossexuais, e eu realmente não vejo o por que disso, as pessoas” ele olhou rapidamente para Betty, mas voltou a focar seus olhos em Doce, que continuava sério “tem uma ideia distorcida do que nós somos. Somos um casal comum. Só isso”
Todos ficaram em silêncio por alguns momentos, ouvindo a música e as ondas que se repetiam infinitamente. Então, como se acordasse todos de um transe, Doce estalou os dedos e se levantou:
“Certo, a Betty me deu uma ideia, uma ideia genial. Olhem só: O que vocês tem que fazer é... Conversar. Mas não uma conversa normal, como se você chegasse e conversasse sobre o tempo, ou as notícias, ou o tempo, ou culinária, ou esportes, ou tempo, mas sim uma conversa para saber o que o outro tem de diferente ou de igual. Você tem que aceitar o ponto de vista ou as diferenças do seu par. Você não pode em nenhum momento desistir de conversar, apesar de poder ficar sem assunto por algum tempo.” Hanz já se virava para Charlie, quando Doce voltou a falar “Não, espera ai, Hanz, eu vou escolher as suas duplas... Hm... Vamos ver...”
Ele olhou para cada um dos rostos, como se passasse a confiança de seu corpo para o deles, e em seguida, completou sua frase, apontando para as pessoas enquanto mencionava seus nomes: “Hanz, você vai conversar com a Eis, a Betty vai logicamente conversar com o Charlie e a pequena Mari vai conversar comigo” Ele deu um sorriso encorajador para a garotinha, e continuou “Fiquem a vontade, sentem onde quiserem e como quiserem, vamos lá!” Dizendo isso, ele se aproximou e se sentou ao lado da garota, iniciando uma conversa com ela.
Os outro quatro integrantes do grupo apenas trocaram de lugar e começaram a conversar.
E assim se deu a segunda reunião do Barco da Depressão.
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