Barco Da Depressão
3 Capítulo 3 - Betty, a maltratada
Notas iniciais
Esse capítulo conta a história de Betty, a mulher sensível e com um passado doloroso.
Todos conversavam animadamente enquanto esperavam que Doce aparecesse. Assim que ouviram o doce som das ondas ao fundo daquela melodia triste, sentiram uma onda de ansiedade tomar conta deles. Estavam ansiosos pela próxima reunião.
Doce apareceu, vindo das sombras, segurando uma garrafa de vinho, os olhos um pouco desfocados. “Bem vindos á 3ª viagem do barco da depressão!” Ele se sentou numa cadeira e ficou olhando para todos, enquanto todos o olhavam estranhamente.
“O que foi?” Ele perguntou, e depois, tomou um gole direto do gargalo.
“Não sabia que você bebia.” Comentou Charlie. “Ah” Doce respondeu, “Você não faz ideia. Muito bem, a gente agora vai seguir o projeto que eu falei na primeira reunião. Quem se voluntaria a contar sua história hoje?”.
Como seria normal, ninguém se manifestou. “Olha, eu não quero pressionar ninguém” Doce começou “Mas se eu ter de escolher alguém, eu vou. Isso faz parte do objetivo do grupo. Vocês se abrirem pros outros.” Ele olhou para Betty, que parecia bem mais abatida que os outros, e sugeriu “...Betty?”
Assim como Charlie, ela suspirou e começou:
“O que eu tenho que contar?” Doce então respondeu, paciente e com um quê de entusiasmo na voz “O que você quiser. Sem pressões.”
“Bem... É difícil, eu não sei fazer isso.” Doce então tomou mais um gole do vinho e falou “O que te motivou a vir pra cá, Betty?”. A mulher respondeu “Minhas questões pessoais.” “Que seriam...?” Charlie interrompeu e disse “Fala logo, Elisabeth.”
Ela suspirou novamente, e ficou vários instantes quieta, tentando tomar fôlego, ou então achar palavras. Então, engoliu em seco, e começou:
“Eu conheci um homem... O nome dele era Franklin. Um cara bem legal, eu tinha gostado muito dele. Nós começamos a namorar, e eu fiquei grávida. Eu tinha gostado bastante disso, mas ele não. Éramos forçados a nos casar.” Ela parou pra pensar mais um pouco, aquelas palavras tinham muito mais peso do que aparentavam. “Então ele começou a ficar muito rude. Reclamava, mandava e até batia em mim como se eu fosse um fantoche, mesmo eu fazendo de tudo para agradá-lo. Um dia estávamos na casa da minha irmã com alguns casais amigos. Ele e alguns outros homens saíram para beber num bar, e quando ele voltou, estava muito alterado” Ela parecia prestes a chorar. Devia ser uma mulher de personalidade frágil. “Nós discutimos, e ele me jogou no chão, e chutou minha barriga, e foi embora.”.
“E o que aconteceu?” Hanz perguntou, os olhos arregalados, cheios de ansiedade e curiosidade, prestando a máxima atenção nas palavras da senhora.
“O bebê morreu. Eu entrei em depressão nesse dia.” Doce interrompeu “Ah, então não faz muito tempo.” Ela respondeu, sua face vermelha “Faz 5 anos. Mas eu não terminei de contar.
“Minha irmã me fez ficar na casa dela até eu me sentir bem o suficiente para voltar pra casa. Eu fui um dia passear num parque. As crianças que brincavam agravavam ainda mais o meu estado. Então um homem se aproximou de mim. Eu estava chorando.
Ele tinha cabelos pretos e olhos azuis, e era alto, e bem atlético, com um ar charmoso. Me perguntou por que estava chorando. Eu estranhei porque ele era um estranho, mas com o tempo eu me abri o suficiente. Ele me fez sentir melhor, e me levou para a casa da minha irmã. Nós continuamos a nos encontrar, e quando me dei conta, estávamos casados. Acho que foi o melhor casamento que eu tive. Dai nós tivemos um menininho. A melhor coisa que aconteceu na minha vida.”.
“Se me permite perguntar: Se está tão feliz assim, por que veio até aqui?” Charlie perguntou, incomodado com algo. Hanz se virou para ele e fez um “SSSSHHH!”, calando-o e se virando de volta para Betty, para continuar a escutar a história.
“Mas... Meu marido também tinha problemas cardíacos. Há alguns meses atrás, estávamos indo fazer um pique nique num parque, com nosso filho, de 3 anos. Meu marido sofreu um ataque...” Nessa hora, ela se jogou no corpo de Hanz, que a abraçou, e ela começou a chorar, sendo que as próximas sentenças foram entre soluços sentidos. “Ele foi para o hospital... Não resistiu nem uma semana... Ele era especial, a coisa que me mantinha feliz...”
Nessa hora, Charlie se levantou, e protestou, sua voz fina esganiçada e ofendida “Ora! E você acha que seu caso é mais digno que o meu porque são amores diferentes? Sua puta hipócrita, acha que seu amor é mais puro porque é ‘normal’. Eu aposto que é uma cristã fanática, se falou que era forçada a se casar. E...” Doce o interrompeu, num tom educado, um pouco mais alto para poder deixar sua voz mais alta do que a dele “EI! Dá pra parar de gritar essas coisas?!”
A sala ficou em silêncio, sendo interrompida apenas pelos soluços de Betty e pela trilha sonora que estava sempre presente, e parecia até ter diminuído seu volume, para ajudar no clima.
Hanz foi quem falou primeiro, com sua voz inocente e um pouco infantil demais para sua idade “Charlie, se você continuar xingando ela assim, não vai adiantar de nada. Ela sofreu a mesma coisa que você está sofrendo, e ela é muito mais sensível que você. Se não precisasse de ajuda, não ia estar aqui. C-certo?” Ele olhou para Doce, que estava sentado, com um dos cotovelos apoiados na perna, apertando os olhos “Anh?” O homem levantou a cabeça. “Certo, certíssimo, não tem desculpa o que você fez, Charlie, todo mundo aqui está sofrendo.”
Para surpresa de todos, Charlie estava chorando, mudamente, a cara apertada contra as mãos. Dava para perceber o quanto ele estava magoado pelos preconceitos e injustiças que sofria.
E a sala ficou assim por um longo período de tempo, com soluços cortantes de um lado e suspiros penosos do outro.
“Então é isso?” Eis perguntou “Todo mudo vai ficar chorando por aqui?” Doce olhou para ela e respondeu “Nem todo mundo está chorando aqui, Eis, você não está, o Hanz não está, a Mari não está...”
“Mas você está. Isso é metade de nós, o que é quase todo mundo.” Ela tinha argumentos razoáveis. Espantados com essa frase, todos olharam para Doce, e perceberam que seus olhos estavam um pouco vermelhos, e ele estava corado, como se estivesse se recuperando de um bom tempo de choro.
Nem todas as viagens são boas, afinal.
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