Banheirados
2 Capítulo 2 - Recreio
Cláudio Neves adormeceu em cima da sua escrivaninha e acordou com o lado esquerdo de seu rosto todo vermelho. Seu celular, que ainda estava preso em sua mão, lhe informou que eram seis da manhã de uma sexta-feira.
Ele então se levantou da cadeira, perguntando a si mesmo se queria ir pra escola hoje. A resposta, como sempre, era não, nunca.
Como qualquer garoto adolescente da vida, Cláudio odiava a sua escola com uma paixão ardente, mas ao mesmo tempo ele também sabia que, infelizmente, suas ações tinham consequências.
Ele havia ficado em casa a semana inteira, matando aula e isso não era bom. Principalmente para um repetente como ele.
O garoto refletiu um pouco. Ele bem que poderia ter usado o seu tempo melhor, talvez se tivesse trabalhado nos seus projetos em vez de passar quatro dias jogando tetris, mas não. A procrastinação levou a melhor dessa vez.
Pensar nisso fez com que ele se sentisse culpado. Esses projetos eram os seus bebês: A fanfic que ele estava escrevendo em que a Mônica largava o Cebolinha e a Magali virava jurada do Hells Kitchen, a sua auto-biografia, o seu texto dissertativo-argumentativo de cem páginas sobre o Colégio Municipal CAB e porque ele era uma bosta e a pesquisa que começara naquele mesmo ano sobre a maldita Gangue dos Cobras.
Todos, absolutamente todos eles eram importantes para Cláudio, mas nos últimos meses parecia que ele simplesmente não tivera inspiração para continuar a escrever...
Cláudio ficou triste por um momento, então disse "Ah, foda-se!" e foi procurar uma calça para vestir.
Cheio de má vontade, ele colocou o uniforme, tomou café da manhã, deu tchau para a sua avó, pegou a sua bicicleta MUITO FODA do Ben 10 que ganhou de aniversário cinco anos atrás e foi andando com ela até a escola, mas ele resmungou o caminho inteiro porque, se tem uma coisa que ele odeia... é o Colégio Municipal CAB.
"Pelo menos o Armando vai estar lá." Ele pensou. O que era bom, pois Armando era o melhor cara do mundo e eles iriam poder passar as aulas conversando em vez de estudar.
Cláudio só tinha um único amigo e esse amigo também era o seu melhor amigo, apesar deles só terem se conhecido uma semana atrás. Isso para alguns pode parecer pouco, mas todo mundo que estuda no CAB sabe que uma semana, em anos de estudante, equivale a aproximadamente... tempo pra porra, o que significa, cientificamente falando, que a amizade deles era válida.
Esse pensamento deixou Cláudio feliz, porque Armando era demais e fazia muito tempo que ele não tinha um amigo de verdade desde aquele lance com o Charleto anos atrás, porém, Armando também era, acima de tudo, um novato. Se os dois fossem ser amigos pra valer, Cláudio eventualmente teria que explicar algumas coisas importantes sobre aquele colégio terrível, para que Armando não acabasse se metendo em uma furada logo no segundo mês...
Armando Talheres Prato adormeceu no meio da aula e entrou num sono profundo.
Ele estava no meio de uma batalha lendária de rap contra MC Barney, o dinossauro e a sua trupe de Oompa Loompas funkeiros quando uma estranha voz apareceu, interrompendo a sua fantasia.
Ela chamou o seu nome.
"Armando." Mas Armando não queria ouvir.
"Ah, que foi? QUE FOI?" Reclamou ele. "Não vê que eu tô ocupado agora?"
"Armando." Repetiu a voz. "Acorda, Armando!"
"Vai embora, voz maldita! Me deixa em paz!" Disse Armando, tapando os ouvidos. "Eu não quero acordar..."
"Acorda, Armando, acorda!"
"Eu não quero!" Insistiu ele. "Não quero, não quero!"
"ARMANDO, SEU SACO DE BOSTA! ACORDA, FILHO DA PUTA."
Armando acordou com um grito. "QUE FOI?! QUE FOI?!"
Ele olhou ao redor e percebeu que a sala de aula estava vazia. O quadro negro à sua frente mostrava as correções de exercícios que ele não fizera, cálculos e contas escritos em caneta azul e vermelha, a sua carteira cheia de rabiscos estava molhada e do seu lado estava, dois alunos. Um era o seu amigo Cláudio e a outra era uma colega de turma.
A colega de turma, uma garota baixa de cabelos verdes, estava segurando um megafone.
"Viu?" Disse ela. "Eu falei que isso ia fazer ele acordar."
"Em nenhum momento eu duvidei de você, Cate." Respondeu Cláudio, irritado. "Eu só disse que parecia radical demais."
"Por isso que funcionou!" Cate sorriu, orgulhosa de si mesma. "De nada, Cláudio."
Cláudio revirou os olhos pra ela.
"Bem, parece que o meu trabalho aqui acabou." Disse Cate, indo embora. "Se precisarem de mim, estarei na cantina comendo coxinha."
Armando piscou, cansado e levemente assustado. "Caramba, por quanto tempo eu dormi?"
"Duas horas." Disse Cláudio. "As professoras tentaram te acordar quatro vezes mas você só continuou dormindo e babando na mesa. Teve gente que falou que você tinha morrido."
"Não se preocupe." Disse Armando, se levantando. "Eu não morri... só não dormi direito ontem à noite. Uma... colega me convidou pra uma festa e quando voltei pra casa já eram três da manhã."
O amigo fez uma cara de safado. "Uma colega? Quem você engravidou ontem à noite, Armandinho?"
"QUÊ? EU NÃO... ah, muito engraçado, Cláudio!"
Cláudio riu da cara dele.
O que aconteceu foi que Jorginha convidou Armando pra ir na balada com ela e seu namorado motoqueiro como pedido de desculpas por não ter ajudado ele a terminar de pintar as paredes do banheiro.
Armando primeiro recusou, dizendo que nem no inferno ele sairia com ela depois do que ela o fez passar. Então Jorginha disse que iam tocar Lady Gaga lá, e ele aceitou.
Ele teve que sair de casa escondido, mas aceitou, porque Armando era FODA assim.
"Mas sério, quem foi? Ela é da turma?"
Armando não queria que as pessoas achassem que ele era amigo de Maria Jorginha, a pervertida do banheiro masculino, por isso ele apenas respondeu:
"Não é ninguém importante, só uma colega, mesmo."
Mas Cláudio não parecia convencido. "Seeeeei."
"Quê isso, Cláudio?"
"Nada, nada..." Ele riu.
Dessa vez foi Armando quem revirou os olhos. "Está bem, então... podemos ir pro recreio agora?"
"Bora!"
O pátio do Colégio CAB era bem grande, porém não grande o suficiente para não lotar durante os intervalos. As turmas eram muitas e, por isso, para qualquer canto que você pudesse olhar, haviam panelinhas.
Sentadas na escada pro ginásio estavam as funkeiras. Elas dançavam, falavam alto e faziam cara feia para as kpopeiras.
As kpopeiras riam, conversavam sobre seus idols e faziam cara feia para as funkeiras.
Sentados nos bancos do pátio, estavam os garotos fortões do time de basquete. Ele contavam vantagem e falam animadamente sobre esportes e suas tatuagens.
"Eu fiz essa ontem." Disse um deles. Ele mostrou o braço musculoso para os outros, onde se via a frase: Pão de Queijo Forever.
"Fiz a tatuagem em inglês. Significa pão de queijo pra sempre."
Os amigos dele bateram palmas, impressionados.
Pertos deles também havia um grupo pequeno de alunos falando sobre homestuck, mas ninguém queria saber deles porque homestuck é uma droga.
"Eu fiquei doente na segunda então faltei, mas aí eu acordei bem no dia seguinte e fiquei tipo 'Eu vou pra escola ou fico em casa jogando tetris?', aí eu disse 'FODA-SE A ESCOLA, vou jogar tetris'... aí eu passei três dias jogando tetris."
"Cláudio, você é o tipo de homem que eu quero ser quando crescer."
"Armando, eu sou tipo... um ano mais velho que você... ah, mas deixa pra lá, me fala uma coisa. O que exatamente eu perdi nesses quatro dias?"
"Hmmm... deixa eu ver..."
"A professora de química ficou com ranço da professora de biologia de novo por causa daquela vez que ela roubou o namorado dela na faculdade, o tio da cantina brigou com a Nico porque ela o colocou no tiktok dela sem permissão, o diretor ficou puto comigo e me fez pintar as paredes do banheiro e o Flavinho fez aniversário."
"Espera, o quê?"
"O pessoal cantou parabéns pra ele e tudo mais. Foi uma pena você não ter vindo, o bolo tava muito bom."
"Não, não. Antes disso."
"O diretor ficou puto comigo e me fez pintar as paredes do banheiro?"
"O diretor?"
"Sim, foi horrível."
"Você está me dizendo..." Começou Cláudio. "Que Ventilador, o cuzão, ficou puto contigo e te fez pintar as paredes do banheiro?"
"Sim."
"Ok, você vai ter que me explicar essa história aí direito."
"Ah, cara, o meu braço dói só de lembrar."
Armando então deu a ele uma versão resumida do que aconteceu.
"Caraaaaa, alguém deve ter odiar mesmo." Disse Cláudio, finalmente. "Por que o Ventilador tá meio que foda-se pra todo mundo nessa escola."
"Quê?"
"Ah, Armando, ele tá muito foda-se pra escola, tipo, cem por cento foda-se. Pro caralho com o sistema educacional." Explicou Cláudio. "Você sabe com que frequência ele participa dos assuntos da escola? NUNCA. A coordenadora Passarinho que faz todas as tarefas dele por ele, porque ele simplesmente NÃO GOSTA DE TRABALHAR."
"Vai ver ele trabalha quando a gente não tá prestando atenção..."
"Não, ele tá pouco se fudendo pra escola, Armando. Tudo o que ele faz aqui é falar alto, fumar, ficar rodando na cadeira giratória dele e ser um cuzão com as pessoas. Só isso. Então pra alguém ter conseguido chamar a atenção dele dessa forma pra um problema da escola ela deve ter insistido pra caramba."
"Ele disse que tinham tirado fotos..."
"EXATAMENTE. Alguém tirou fotos do banheiro. Fotos do banheiro. Quem faz isso?! Essa pessoa provavelmente deve ter tentado de tudo pra chegar nesse nível de desespero. Ela deve ter tentado falar com o Diretor antes, também, mas como ele é cuzão e nunca houve ninguém, ela desistiu e foi procurar por provas materiais. O diretor, então, deve ter visto nisso tudo uma oportunidade pra ser cuzão e entrou no esquema."
"Mas quem me odiaria tanto assim pra fazer uma coisa dessas?" Perguntou Armando. "Eu sou um anjinho."
Cláudio sorriu. "É claro que você é, mas esse é o Colégio CAB, então pode ter sido qualquer um. É por isso que eu odeio essa escola, só tem gente maluca aqui. O meu palpite é que deve ter sido uma pessoa muito certinha ou algo assim, tipo, sei lá, um maníaco por limpeza..."
"Ou um fotógrafo."
"É, sei lá... como eu disse, tem muita gente esquisita aqui." Disse Cláudio, bebendo o último gole da sua coca-cola de dois litros que havia comprado na cantina. "Mudando de assunto: de repente me deu vontade de ir ao banheiro..."
Ele então se levantou, entregando a garrafa para Armando. "Cuide bem da minha coca enquanto eu não volto."
"Beleza."
Ele voltou cinco segundos depois com uma expressão de pânico no rosto.
"ARMANDO, ESTÃO FAZENDO FILA NO BANHEIRO!"
"É isso que dá venderem coca-cola de dois litros pros alunos."
"Armando, agora não é hora de criticar o código de conduta da cantina. Eu preciso ir ao banheiro, rápido!"
"Calma, homem. Se o de cima está ocupado, a gente vai no daqui."
"Armando, pelo amor de Deus." Disse Cláudio, frustrado. "Ninguém usa o banheiro do primeiro andar."
"EXATAMENTE." Armando pegou o amigo pelo braço e saiu andando.
"Não, espera, você não entende..."
Mas ele não teve tempo para explicar por que exatamente ninguém ia pro banheiro do primeiro andar porque Armando muito rapidamente o arrastou lá para dentro.
"Armando, você não entende..."
E eles deram de cara com os Cobras.
"Ah..." Disse Armando. "Agora entendi..."
"EI, QUE INVASÃO DE PRIVACIDADE É ESSA?" Gritou Charleto. "NÃO SABEM QUE ESSE BANHEIRO É PROPRIEDADE DOS COBRAS?"
Todos os cinco membros estavam fumando. Na verdade, o banheiro estava tão cheio de fumaça que, de repente, Armando percebeu o que Cláudio quis dizer quando ele falou que o diretor estava pouco se fodendo para a escola.
"Olha, Charleto!" Disse Klozvaldo. "É o moleque da tinta!"
Lima sorriu, o que tinha menos haver com ele ter aparecido e mais por estar completamente chapado. "Você é o Armando, não é?"
"Não, mano." Disse Valderiko, rindo. "O nome dele é moleque da tinta, agora."
Todos os Cobras riram, exceto Charleto.
"Armando da tinta, Armando da tinta!"
"Au! Au! Au!"
Cláudio parecia que estava falando mal.
"OK, QUEM DISSE QUE ELE PODIA ENTRAR AQUI?" Começou Charleto.
"Ah, qual é, mano?" Disse Lima. "Ele é o ARMANDO DA TINTA, lembra? Ele ajudou a gente a encontrar o celular do Klozvaldo. Ele pode ficar no banheiro com a gente, não pode Charleto?"
"E ESSE OUTRO MOLEQUE AÍ?"
"...meu nome é Cláudio."
"Ah..." Resmungou Charleto, reconhecendo-o. "Vai embora daqui antes que eu quebre a sua espinha."
"Deixa ele!" Pediu Armando. "Ele é meu amigo."
"Poxa, Charleto! Você fazer o garoto se mijar bem na nossa frente?"
"AH, ESTÁ BEM, ESTÁ BEM, MAS SEJAM RÁPIDOS."
Cláudio fez uma cara estranha e correu até o mictório mais próximo. Os Cobras continuaram tentando puxar conversa, exceto Charleto. Charleto ficou apenas resmungando pra si mesmo.
"Tu caprichou mesmo nessas paredes hein, Armandinho?"
"Nem parece mais que é banheiro de escola."
"Ficou muito top, mano! Gostei, gostei!"
Armando agradeceu e riu de nervoso, porque os Cobras eram estranhos pra caramba. Enquanto isso, Cláudio lavava as mãos na única pia que ainda funcionava daquele banheiro quebrado.
"Pronto, terminei." Disse Cláudio, finalmente. "Vamos embora, Armando."
“ISSO, VÃO EMBORA, SENÃO EU VOU QUEBRAR TODOS OS OSSOS DOS SEUS PÉS!”
"Voltem mais tarde pra gente conversar!" Disse Lima, alegremente.
"Ãhn..."
"ARMANDO." Repetiu ele, com a voz aguda. "VAMOS EMBORA."
Os dois garotos foram embora. Cláudio esperou até eles estarem bem distantes do banheiro pra ficar completamente histérico.
"ARMANDO, OS COBRAS GOSTAM DE VOCÊ?"
"Gostar é uma palavra forte." Respondeu Armando, sem graça. "Eu prefiro dizer que eles... sabem da minha existência."
"ARMANDO, VOCÊ NÃO ENTENDE O QUE ESTÁ ACONTECENDO!"
"Cláudio, homem! Respira..."
"Quando isso aconteceu?"
Armando deu de ombros. "Eles apareceram ali quando eu tava pintando as paredes do banheiro. Um deles tinha perdido o celular então eu disse pra eles procurarem no achados e perdidos... literalmente nada de mais..."
"Caralho, Armando!" Disse Cláudio "E você ainda não sabe quem eles são?!"
"Sim... quero dizer... ok, talvez não. Eu sei que chamam eles de a Gangue dos Cobras, mas é só isso, mesmo..."
"Ah, quer saber? Não tem problema! Na verdade, é ótimo que isso tenha acontecido, porque eu estou no meio de um trabalho de pesquisa..."
"Quê?"
"Eu estou fazendo um trabalho de pesquisa sobre a Gangue dos Cobras, Armando. E você vai me ajudar."
"Eu vou?"
"Calma, espera um momento." Cláudio começou a mexer no bolso da calça. "Acho que eu tenho ele salvo no meu pendrive. Me diga, Armando... quanto falta pro recreio acabar?"
"É... alguns minutos?"
"PERFEITO." Gritou Cláudio. "PARA A SALA DE PROJEÇÃO."
Eles não foram para a sala de projeção.
"Pensando bem." Disse ele. "Seis minutos não é tempo suficiente pra eu apresentar a minha pesquisa. Melhor fazer isso depois da aula."
"Não dava pra você ter chegado à essa conclusão sem ter que gritar antes?" Armando provavelmente estava surdo de um ouvido, agora. Perto dele, uma monitora que certamente deveria estar tomando conta das turmas acordou com um pulo.
“Não.” Cláudio sorriu enquanto o sinal começava a tocar.
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