Banheirados
1 Capítulo 1 - Privada
Era meio dia no estado de Passo-do-Pássaro quando um jovem rapaz chamado Armando Talheres Prato foi mandado para a sala da direção.
Ele foi posto para fora quinze minutos depois com dois baldes de tinta branca, um pincel grosso e um castigo: pintar as paredes do banheiro masculino.
Esse infeliz episódio aconteceu apenas três meses depois da saída de Armando do Instituto Batata-Doce e subsequente entrada no Colégio Municipal CAB, um lugar que ele provavelmente nem saberia que existia se não fosse pelo panfleto que a moça bêbada do supermercado deu para a sua mãe.
O tal do panfleto dizia o seguinte:
O Colégio Municipal CAB é uma escola legal e bacana que ensina somente aos jovens mais intelectuados do estado e do universo inteiro, também.
O lugar foi construído com muito amor e carinho pela família Ventilador em meados de agosto de 1969 com intuito de servir de sede para a Sociedade Secreta de Cheiração de Tinta e Cola e levava o nome de Cooperação dos Alunos Borradões de Passo-do-Pássaro, sendo mais comumente conhecida apenas pela sua abreviação, CAB.
Eventualmente, todos os membros da seita acabaram sendo presos e o estabelecimento foi então renovado pelo governo e transformada na escola particular tão linda e bela que todos nós agora amamos.
Cooperação dos Alunos Borradões...
Armando sabia que esse era o significado do acrônimo mas mesmo assim ele continuava sem entender porra nenhuma do que estava acontecendo. A única coisa de que tinha certeza era que a sua mãe ia ter um ataque quando ele voltasse para casa.
E falando na sua mãe, meia hora já se passou desde que o rapaz ligou pra ela avisando que iria chegar mais tarde em casa e até agora ele não havia conseguido terminar o trabalho.
A sua mãe definitivamente ia lhe matar depois disso.
O braço de Armando agora doía pra caralho, as suas roupas novas estavam manchadas de tinta branca, assim como seu cabelo, e o universo era um grande, maravilhoso rio de bosta.
Desnecessário dizer que Armando estava tendo um péssimo dia.
"Puta escola de merda..." Resmungou ele.
O Diretor também tinha sido bem claro quanto às regras do castigo: uma parede, foi o que o velho disse. Ele precisaria completar a pintura de pelo menos uma parede, terminada a tarefa, ele poderia ir embora de boas.
Mamão com açúcar, certo?
ERRADO.
A história do passado de Armando era muito trágica porque ele não virou o Johnny Bravo nem o He-Man quando fez quinze anos. Ao invés disso, ele continuou tendo o corpo de um moleque magro e fraco com bracinhos de macarrão que não tinha força nem para abrir a tampa de uma lata de leite em pó e por isso, aquele castigo era uma verdadeira tortura para o pobre garoto.
Como se isso não bastasse, ainda havia o resto da sentença.
Armando poderia ir embora depois daquele parede, sim, mas assim que voltasse para a escola no dia seguinte ele ainda teria que terminar a pintura do resto das paredes que estavam muito, mais muito sujas.
Armando resmungou e xingou aquele colégio de merda mais um pouco, se sentindo aborrecido e profundamente cansado.
Colégio de merda! Diretor de merda! Banheiro fedido de merda!
Ele estava aplicando a segunda camada de tinta por cima de uma mensagem feita com marcador preto que dizia "cu" quando um ruído alto surgiu do nada e quase o matou do coração.
Armando deu um gritinho e correu desesperado para o fundo do banheiro, que nem o covardão que ele era.
Caralho, os garotos do fundamental estavam certos... a loira do banheiro realmente existia e estava vindo matar ele.
O barulho retornou, se tornando cada vez mais alto e cartunesco, até parar completamente e então... uma mão apareceu de dentro da privada e empurrou a tampa para cima.
"Caralhos do céu, mano, é um fantasma!" Pensou ele. "É o capiroto!"
Mas não era o capiroto que saiu do vaso sanitário, e sim algo muito pior... uma garota!
E não era uma garota qualquer, também não. Ela era a colega de turma patricinha do Armando, o nome dela era Maria Jorginha mas todo mundo que a conhecia chamava ela apenas de Jorginha.
A garota se levantou da privada determinada, deu uma boa olhada ao redor e... comeu o cu do Armando.
Fim.
Brincadeira, brincadeira! O que realmente aconteceu foi o seguinte:
A garota se levantou determinada, e deu uma boa olhada ao redor. No rosto, ela tinha uma expressão sedutora que foi logo substituída por uma de desapontamento quando percebeu que não havia ninguém por perto.
Ela levantou uma sobrancelha, confusa, e coçou o queixo.
"Uê, quê isso? Os boys já foram tudo embora?" Começou ela. "Espera, que é banheiro é esse? Será que eu...?"
Jorginha continuou falando com si mesma, desatenta. Ela nem foi capaz de perceber o Armando, que estava logo atrás dela, mas Armando sim.
Armando percebeu que ela estava ali e então, é claro que ele deu um chilique.
"Mas que PORRA É ESSA?!" Gritou ele. "Como... como diabos você... como diabos você conseguiu?"
Jorginha deu um pulo de surpresa, mas logo se recompôs. "Ai, que susto, garoto! Quer me matar do coração?"
"EU? Te matar do coração? Você... você literalmente... você acabou de sair da privada!"
"Meu Deus, garoto! Super desnecessário esse seu barraco..." Disse ela, jogando o cabelo para trás. "Ok, então eu saí de dentro da privada, sim... qual o problema? A vida é assim, eu queria uma passagem pro banheiro e encontrei ela na tubulação, isso acontece as vezes."
"AS VEZES? Que porra é essa, esse... esse é o banheiro masculino, você não pode entrar aqui!"
"Ai, mas vocês homens sempre tem que problematizar tudo, não é? Tipo, pelo amor de Deus! Uma pessoa não pode mais apreciar a beleza masculina em paz? Sim, eu sou uma garota, sim, eu entro no banheiro masculino, nós existimos."
"QUÊ?!"
"Eu só queria ver uns caras se trocando, ok? Só isso! Mas geral se mandou antes que eu pudesse fazer qualquer coisa e agora eu tô aqui sozinha..."
Armando olhou para ela com cara de nojo. "Espera, você veio aqui ver os caras se trocando?"
"É, ué."
"E eles sabem disso?"
A sua pergunta foi respondida com barulhos de grilo.
"Jorginha, sua filha da mãe! Os caras sabem que tu tá espiando eles no banheiro?"
Jorginha fez cara de santa. "Ãhn... talvez?"
"Talvez?"
"Ok, não! Eles não sabem!"
"Puta que pariu..." Disse Armando, em voz baixa. "Você é louca, você é completamente louca..."
"Ai, não, que mal uso dessa palavra! Tipo, se for para me xingar de alguma coisa, pelo menos use um termo um pouco mais corretinho, tipo, sei lá... pervertida, tarada, safada, ou... depravada! Isso sim me descreve bem."
"Puta que pariu..." Por um momento, Armando contemplou um ato de auto-defenestração.
Ele agora estava sozinho num banheiro fedido com uma louca, quero dizer, com uma pervertida depravada que saiu de dentro do vaso sanitário, e o mais importante: ele ainda não havia terminado de pintar a PORRA DA PAREDE.
Ele precisava ter aquela parede pronta para ontem, ele não podia ficar perdendo tempo daquele jeito!
"Ah, quer saber? Foda-se, só foda-se! Eu tenho trabalho à fazer..." Armando mandou a Jorginha se foder, molhou o pincel na tinta e voltou ao castigo.
Inicialmente, a garota apenas mandou o dedo do meio para ele mas no fim ela acabou só assistindo ele pintar mesmo. Fazer o quê, era interessante!
"Ei, a propósito... qual é a da pintura?"
Armando não falou nada, ele estava ocupado demais para participar de conversinha mole, principalmente com Jorginha. Ela já havia lhe dado trauma o suficiente para uma vida inteira com as suas extravagâncias.
"Ei, ei, garoto novo!" Perguntou Jorginha, novamente. "Por que você está pintando?"
Ele continuou quieto.
"Ei!" Perguntou Jorginha. "Por que você está pintando?"
"Ei!" Perguntou Jorginha. "Por que você está pintando?"
"Ei!" Perguntou Jorginha. "Por que você está pintando?"
"Ei!" Perguntou Jorginha. "Por que você está pintando?"
"EI!" PERGUNTOU JORGINHA. "POR QUE VOCÊ ESTÁ PINTANDO?"
"POR QUE VOCÊ QUER SABER, DESGRAÇA?" Perguntou Armando, emputecido.
"Ah, sei lá... curiosidade, né?" Ela começou, se fazendo de inocente. "E também, quero dizer, já que só tem nós dois aqui, bem que dava para a gente bater um papo."
"Adoraria, mas não quero."
"Ah, vamos?" Insistiu Jorginha. "Só um pouquinho, por favooor? Eu tô morrendo de tédio e o meu boy só vem me buscar mais tarde."
"O seu o quê?"
A garota abriu um grande sorriso.
"O meu boy, o meu boyfriend..." Respondeu ela. "O nome dele é Romildo e ele é, tipo, perfeito. Pensa naquele cara do The Vampire Diaries só que mais gato, esse é o Romildo. Ele é moreno, alto, musculoso... um homão da PORRA."
"Ok, calma, me explica isso direito... se você tem um namorado, por que raios você fica vindo aqui ver os caras se trocando, então?"
"PORQUE HOMENS SÃO UMA DELÍCIA!" Gritou Jorginha, semi-feral.
"Ok, essa conversa está ficando estranha, vamos mudar de assunto..."
"Por que você está pintando as paredes do banheiro?"
Armando suspirou, frustrado. Ele já deveria saber que não conseguiria fugir da pergunta por muito tempo.
"Olha, sem ofensas mas... essa é meio que uma longa história e eu realmente não acho que você vai querer ouvir..."
"É claro que eu vou! Conte a sua história para mim, garoto, e eu prometo que vou ficar quietinha."
"O meu nome é Armando."
"Conte a sua história para mim, Armando."
"Ah, Deus..." Resmungou ele, esfregando os olhos. "Está bem, acho que eu posso falar e pintar ao mesmo tempo. Então, o que houve foi tipo assim..."
Armando limpou a garganta. "Era o último, ãhn... o último tempo de português e eu tava lá no meu canto, rabiscando na carteira porque, sei lá... eu gosto. Mas então eu tava fazendo isso quando uma moça apareceu e veio falar com a professora dizendo que o diretor tava me chamando e eu tinha que ir pra sala dele..."
"Armando, eu já sei disso, eu tava na sala quando aconteceu."
"Achei que você tinha dito que ia ficar quietinha."
"Ain, tá bem, desculpa." Disse Jorginha. "Pode continuar."
"Então, como eu estava dizendo antes de alguém me interromper..."
Jorginha revirou os olhos.
(O FABULOSO FLASHBACK DO PASSADO SE INICIA)
Armando está sentado na poltrona felpuda da grande e misteriosa sala da direção do Colégio CAB.
Tudo ao redor dele, inclusive ele mesmo, se encontra em preto e branco, porque esse é um flashback do passado e flashbacks do passado são em preto e branco.
O homem na mesa à sua frente o observa com um olhar irritado. Ele tem cabelos brancos, olhos pequenos e um bafo forte de cigarro.
O nome completo desse homem é Arthur Antônio Ariano Alberto Alberico Ventilador mas, dentro da escola, ele é mais conhecido como:
Diretor Ventilador, o Cuzão.
"ARMANDO TALHERES PRATO." Anuncia Ventilador, com sua voz grave. "VOCÊ FOI CHAMADO AQUI PARA RESPONDER ÀS ACUSAÇÕES FEITAS CONTRA VOCÊ E A SEUS CRIMES COMETIDOS ENQUANTO DENTRO DESTA INSTITUIÇÃO."
"Quê?"
"VOCÊ ESTÁ SENDO ACUSADO DE VANDALISMO."
"Mas eu não fiz nada..." Começa ele.
"SILÊNCIO, MEU JOVEM! NÓS RECEBEMOS EVIDÊNCIAS QUE COMPROVAM A SUA PARTICIPAÇÃO NA VANDALIZAÇÃO DO BANHEIRO MASCULINO DO PRIMEIRO ANDAR. VOCÊ FOI DENUNCIADO POR UM ESTUDANTE ANÔNIMO."
"Quem?"
"MEU JOVEM, EU NÃO POSSO TE DIZER UMA COISA DESSAS. O ANONIMATO FUNCIONA ASSIM."
Diretor Ventilador, o Cuzão; dá uma forte tossida e pega três fotos de dentro da sua gaveta, empurrando elas na direção de Armando.
"RECONHECE ESSES RABISCOS?" Ele pergunta, com um ar sério.
Armando analisa as fotos por um momento.
"Isso não significa nada!" retruca ele, indignado. "Me diga UMA coisa aqui que prove que eu seja culpado!"
"QUE TAL... ESSA?" Ventilador aponta para a primeira foto, onde se vê escrito de caneta preta: ARMANDO ESTEVE AQUI.
"Qualquer um poderia ter feito isso."
"COM A SUA CALIGRAFIA?" pergunta ele.
"Eu... eu escrevo com letra bastão! E todo mundo sabe que ela é muito fácil de ser copiada, então você não pode usar essa foto contra mim."
"E QUANTO A ESSA?" Ventilador aponta para a segunda foto, onde se vê o desenho de um pênis de dois metros de altura com a legenda: TAMANHO APROXIMADO DA PICA DO ARMANDO
Armando sorri. "Devem ter sido os meus admiradores, eu tenho vários..."
Ventilador resmunga algo ininteligível.
"E QUE TAL... ESSA AQUI?" Ele aponta para a terceira e última foto, onde se vê escrito: LADY GAGA + ARMANDO = AMOR VERDADEIRO
Um coração torto envolve a frase.
"Hm, bem... como você sabe que não foi a Lady Gaga quem escreveu isso?"
(Silêncio.)
Diretor Ventilador, o cuzão; levanta uma sobrancelha, confuso, e coça o queixo. Em seu rosto há um quadro de dúvida.
Durante um momento que parece uma eternidade, ele realmente parece considerar a possibilidade, mas então...
"A LADY GAGA NÃO PODERIA TER ENTRADO NO BANHEIRO MASCULINO PORQUE ELA É MENINA!"
"Espera, o quê?!"
"ISSO SIGNIFICA QUE QUEM FEZ ESSA E AS OUTRAS PICHAÇÕES... FOI VOCÊ, ARMANDO TALHERES PRATO!"
"Merda." diz Armando.
(O FABULOSO FLASHBACK DO PASSADO TERMINA)
Jorginha ouviu a história inteira com uma expressão estranha no rosto.
"E aí ele ficou um tempão falando alto sobre como eu sou um bosta e que eu teria que pintar toda a merda que eu fiz nas paredes do banheiro, senão eu seria expulso da escola."
"... que ridículo esse diretor, hein?" Ela disse, finalmente. "Você faz alguma ideia de quem pode ter dedurado?"
"É claro que não!" Reclamou Armando. "Isso aconteceu literalmente hoje!"
"Ok, se você diz... mas olha pelo lado bom, agora metade da parede já se foi."
Ela tinha razão, a parede estava quase terminada. Infelizmente, Armando não via as coisas do mesmo jeito.
"Ah, grandes coisas!" Replicou ele. "Ainda falta o RESTO!"
Jorginha revirou os olhos, novamente. "Ai, Armando, que mimimi... se você quiser ajuda é só pedir, sabe? Eu posso te dar uma mãozinha."
O olho do garoto chegou a brilhar.
"Sério?" Perguntou ele. "Você vai me ajudar?"
"Claro."
"Então me ajuda, por favor me ajuda, eu não aguento mais pintar essa porra! Eu não aguento mais! Olha a minha mão, Jorginha, ela está roxa!"
"Meu Deus, homem, fica calmo!"
Jorginha pegou o pincel, porém, no segundo que ela encostou o filamento de seda na tinta, a dupla foi surpreendida pelo barulho abafado de conversa e passos vindo na direção deles.
"IH, CARAMBA! FERROU!" Jorginha entrou em pânico no mesmo instante e saiu correndo pra dentro de um dos reservados, que nem a covardona que ela era. Ela entrou, fechou a porta e se trancou completamente.
"Tem gente vindo! Rápido, se esconde, tem gente vindo!"
"Por que? Quem... quem...?" Armando olhou para ela e depois para a porta da entrada, sentindo o coração acelerar a medida que o barulho crescia.
Quem poderia ser? Ainda estava muito cedo para as aulas da tarde...
Mas quem estava indo para o banheiro masculino do primeiro andar não eram os alunos da tarde, e sim os valentões do segundo ano da manhã. Como Armando só tinha começado a estudar naquele colégio há pouco tempo, ele ainda não sabia direito quem eles eram, ou da reputação que tinham.
O resto da escola, entretanto, os conhecia muito bem. Eles eram a infame...
Gangue dos Cobras.
"Mas tu é um merda mesmo hein, Klozvaldo? Puta que pariu mano, como é que tu vai e esquece o celular na escola DE NOVO?"
"Cara, a culpa não é minha se eu não consigo lembrar das coisas! Quero dizer, eu sei que eu tava no banheiro da última vez que mexi nele mas..."
"E por que que tu fica trazendo o celular pro banheiro pra início de conversa? Não é como se você não tivesse nada melhor pra fazer, então... "
"AH, MANO... você sabe. Eu tava vendo uns vídeos naquele site que você me mostrou, mas eu não podia fazer isso na sala de aula porque se o professor me pegasse eu ia ser suspenso outra vez e tal..."
"Espera, QUÊ? Tu tava assistindo pornozão na privada?!"
"Ué? Qual o problema?"
"Ah, mano... e se ele cai lá dentro? O que você faz?"
"Aí eu limpo com papel higiênico e ele fica perfeito de novo."
"Klozvaldo, você me dá nojo..."
"Ei, olha! Tem um garoto pintando o banheiro."
"O QUÊ?! Ele tá pintando o nosso banheiro? Esse garoto quer morrer? Espera aí que eu vou..."
"Não, não, espera! Calma! Vamos falar com ele primeiro, talvez ele tenha visto o celular."
"Isso! Vai falar com ele, Klozvaldo."
"Eu, não..."
"COMO ASSIM EU NÃO? O CELULAR É SEU, PORRA!"
"É, mas de repente me bateu uma vergonha... vai você, Valderiko!"
"Eu não, tá louco?!"
"Carai, mas cês GOSTAM de perder tempo, hein? Vamo logo todo mundo de uma vez, vamo acabar com isso, porque eu não tô AGUENTANDO MAIS, SEU BANDO DE MERDAS."
"AU! AU! AU!"
Cinco garotos entraram no banheiro, um após o outro.
O primeiro e o segundo que chegaram eram dois gêmeos. Eles usavam casacos de estampa xadrez e tinham a mesma cara de idiota.
O terceiro que chegou tinha cabelo curto e feições atraentes. Ele vestia uma camisa por cima do uniforme verde da escola com uma legenda que dizia: OMO SEXO UAU.
O quarto era um garoto ridiculamente alto que tinha corpo de homem e a cabeça de um cachorro dachshund, porque, caso você não tenha percebido, essa é uma história zoada pra caralho, então é claro que existe um cachorro antropomórfico.
O quinto e o último que apareceu era um cara baixo e feio que aparentava ser o mais velho do grupo. Além disso, ele também tinha cabelo espetado e uma expressão similar ao que uma pessoa tem quando descobre que acidentalmente compartilhou a sua escova de dentes com o pai durante a vida inteira.
"AÊ, MANÉ! O negócio é o seguinte; o meu mano Klozvaldo esqueceu o celular idiota dele na escola, tu saberia, por acaso, se ele tá aqui?" Ele perguntou de um jeito grosso e agressivo para Armando, que começou a suar de nervoso.
Se Banheirados fosse um daqueles filmes de adolescente da Netflix, aquele cara seria perfeito para fazer o papel de delinquente que enfia a cabeça dos nerds no vaso sanitário.
Armando engoliu seco, pensando cuidadosamente em algo para dizer. Se ele se atrapalhasse, a chance de acabar apanhando do cara é grande, e se descobrirem que tem uma garota ali com eles... aí fodeu, cara.
Aí fodeu...
"Ah, q-quero dizer, bem... eu não vi nada, quero dizer, não tem nada aqui mas se você quiser você pode... você pode passar na se-secretaria porque eles... eles... eles tem uma caixa de, é... achados e perdidos e você pode, tipo, você pode procurar lá." Ele falou tudo tão depressa que as palavras voaram de sua boca.
"QUÊ QUE CÊ DISSE???" Gritou o baixinho, ficando vermelho.
"Desculpa, desculpa!" Repetiu Armando. "Desculpa, eu falo meio rápido, as vezes... o que eu quis dizer, na verdade, foi que eu não vi, tipo, eu não vi nenhum cê-cê-celular aqui no banheiro, mas talvez ele esteja na secretaria, porque... porque eles tem uma caixa de achados e perdidos, então eles devem, devem ter levado o celular pra lá mas, q-quero dizer..."
"EU NÃO TÔ ENTENDENDO PORRA NENHUMA DO QUE VOCÊ TÁ FALANDO, ME RESPONDE CARALHO!" Ele então agarrou Armando pelos ombros e começou a sacudir ele pra cima e pra baixo com seus braços de gorila. "ME RESPONDE, AGORA!"
"Charleto, sua anta! Para com isso!" Reclamou o cara da camiseta esquisita, parecendo desesperado. "Você não ouviu o que ele disse? Alguém levou o celular pro achados e perdidos!"
Puft!
Charleto largou o Armando no chão. "AH, TÁ! KLOZVALDO, VALDERIKO... VÃO LÁ BUSCAR A PORRA DO TRECO!"
Seguindo o comando, os dois irmãos saíram correndo.
Apesar disso, o cara da camiseta ainda não parecia satisfeito. "Por que você tem que ser tão babaca o tempo todo? Caramba, cara! O garoto só estava tentando te ajudar e você trata ele desse jeito..."
"Ah, cala a boca, Lima!" Disse Charleto. "Só porque cê faz parte da gangue não significa que eu tenho que ficar ouvindo as suas merdas. Esse muleque tem sorte deu não ter metido um bom soco na cara dele."
Lima apenas suspirou e foi ajudar Armando a se levantar. Ele era tão forte quanto Charleto, mas a sua personalidade parecia ser o completo oposto da do outro.
"Me desculpa por isso." Murmurou ele. "O Charleto é uma pessoa... difícil."
"Nãunn tem problemaa..." Disse Armando, vendo estrelinhas.
"Estou falando sério, obrigado por ajudar a gente." Ele continuou. "Ah, espera... eu ainda não perguntei o seu nome, não é?" Mas Armando não teve tempo de responder.
"Grrrrr... AU! AU! AU! AU! AU!" o garoto que, até aquele momento, estivera parado observando a cena, começou a latir.
E aí é que o Armando se fodeu de verdade, porque isso em cachorrês, significa: esse banheiro tem cheiro de tinta... e está fazendo o meu nariz coçar!
"ATCHUUUUUUU!"
"SAÚDE!" Disse Charleto.
"Saúde!" Disse Lima.
"Saúde!" Disse Jorginha
"EI, ESPERA AI?!"
"DA ONDE VEIO ESSA VOZ?" Gritou Charleto. "ISSO É VOZ DE MENINA, EU OUVI VOZ DE MENINA?"
"ARUUUU..." Uivou ele, o que em cachorrês significa: isso definitivamente foi uma menina!
"OLHA AQUELA PORTA FECHADA ALI!"
Os dois foram correndo bater na cabine da Jorginha.
"QUEM TÁ AÍ?! QUEM TÁ AÍ?! APARECE, DEMÔNIO!"
"GRRRRRRR..."
"Calma, esperem!" Disse Armando, em pânico. "Isso... isso é apenas um mau entendido!"
"EI!" Gritou Lima, de repente. "VOCÊS QUEREM PARAR?"
Surpresos, os dois imediatamente se viraram para ele.
"O QUE FOI AGORA, LIMA?!" Perguntou Charleto com uma voz alta, intimidadora e cheia de cólera que conseguiria inibir qualquer homem, ou pelo menos qualquer homem que não fosse Lima.
"O que foi? O QUE FOI? Você está aqui berrando no meu ouvido, fazendo o maior espetáculo e depois ainda vem falar comigo assim, como se eu fosse o vilão da história? Como se eu fosse o inconveniente por interromper o seu teatrinho!" Ele falou, sem demonstrar o menor sinal de medo ou abatimento.. "Ah, chega, CHEGA! ACABOU! Todo mundo vai parar de gritar nesse exato momento e eu vou dizer porquê."
Armando se manteve no mais absoluto silêncio, apenas observando a cena que se desenvolvia diante dos seus olhos.
"Primeiro de tudo: A gente só voltou pra cá pra procurar o celular do Klozvaldo. Não pra brigar, não pra gritar com as pessoas que estão tentando usar o banheiro, não! A gente veio aqui procurar o celular do Klozvaldo."
"É, mas esse é o nosso banheiro! Nosso! Ninguém tem direito de usar ele além da gente."
"É, mas isso não é o importante agora, Charleto! Você pode reclamar com ele DEPOIS, eu não ligo, mas agora você vai prestar atenção no que eu estou dizendo."
"Mas..."
"MAS NADA! ISSO NÃO É IMPORTANTE AGORA!"
"MAS..."
"SEGUNDO: Charleto, você precisa ficar pelo menos uma semana sem fazer nada pra coordenadora Passarinho não chamar a sua mãe pra escola de novo, então para de ficar inventando novidade! Você também, Rosnaldo! Para com isso!"
Rosnaldo choraminga mas Lima não se comove. Ele quase parece um pai falando, como se aqueles dois adolescentes fossem, na verdade, as suas crianças mal criadas.
"E a última coisa: por que raios você acha que tem uma garota aqui dentro? Por causa da voz? Não dá pra saber o gênero de uma pessoa pela voz."
Isso só serviu para deixar Charleto ainda mais puto.
"Como assim não dá pra saber o gênero duma pessoa pelo voz? DÁ SIM! Tem uma garota no banheiro masculino — o nosso banheiro — nesse exato momento, espiando a gente e eu vou bater na cara dela até ela quebrar!"
Lima não considerou nada do que ele disse. "Ah, claro. Você acha, você acredita, que tem uma garota no banheiro. E aquela vez que você saiu por aí falando pra todo mundo que acreditava ter visto a loira do banheiro gemendo e no final era só um cara batendo punheta? Você já parou pra pensar que essa garota que você tanto odeia pode ser simplesmente uma criança ou, sei lá, um garoto que se perdeu ou que não sabia que esse é o seu..."
"O nosso banheiro."
Lima apertou os lábios, que se tornaram finos como papel. "... que não sabia que esse é o nosso banheiro particular, e crianças também tem a voz mais aguda, sabia? Elas tem a voz mais aguda, independente de serem meninos ou meninas. Você sabia disso? Você já parou pra pensar nisso? NÃO, é claro que não, porque você só pensa em si mesmo!"
Charleto abriu a boca, como se fosse começar a falar algo, mas então a fechou logo depois. Ele e Rosnaldo olharam um para o outro, depois para Lima, depois para a porta da cabine. Depois de volta para Lima e Lima olha de volta pra eles, de braços cruzados.
"Mas, mas... mas então... quero dizer... ele tá aqui até agora dentro do banheiro! Significa que ele... que ele tá escondendo alguma coisa da gente."
Jorginha aproveitou esse momento para soltar um longo e sonoro pum, o que fez Armando ter que se controlar muito para não cair na gargalhada.
"Tem mais alguma coisa que você gostaria de me dizer, Charleto?" Perguntou Lima, mantendo a sua expressão firme.
Com o rosto mais vermelho que um pimentão, Charleto desviou o olhar para o chão, a raiva borbulhando no seu peito, e a sua boca agressivamente fechada.
"AÊ, CHARLETO!" O silêncio desconfortável foi quebrado pelo retorno de Klozvaldo e Valderiko, que falavam alegremente. "VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR, A GENTE FOI NO ACHADOS E PERDIDOS E O CELULAR TAVA LÁ MESMO! QUE LOUCO, NÉ? Eeeeeeeeeepaaa, que clima estranho... o que aconteceu?"
Essa foi a gota d'água para ele.
"AAAHH! VÃO SE FUDER, VÃO SE FUDEEEEER! NÃO ACONTECEU PORRA NENHUMA, OK? ANDA, ANDA, ANDA! TODO MUNDO, FORA DAQUI!" Ele se virou para Armando. "E VOCÊ! SE EU TE ENCONTRAR COM O SEU AMIGUINHO FEDIDO AQUI NOVAMENTE, EU VOU MATAR OS DOIS DE SOCO, OUVIU BEM? E VOCÊS!"
Ele então se virou para o resto dos Cobras. "DA PRÓXIMA VEZ QUE ALGUM DE VOCÊS IDIOTAS ESQUECER QUALQUER COISA NESSE BANHEIRO, EU VOU ARRANCAR ELA DO ACHADOS E PERDIDOS E ENFIAR NO MEIO DO CU DE TODO MUNDO! AGORA VÃO EMBORA, VÃO EMBORA SEUS MERDAS!"
Assim, tão rápido e subitamente quando apareceram, a Gangue dos Cobras foi embora, deixando Armando e Jorginha sozinhos. Os dois suspiraram de alívio.
"Armando, eu acho..." Começou ela, saindo devagar para fora do reservado. "Eu acho que a gente quase morreu, hoje..."
"O que diabos acabou de acontecer?"
"A Gangue dos Cobras, eles são a Gangue dos Cobras." Disse Jorginha com a voz fraca. "E eles tratam esse banheiro como se fosse só deles. Ninguém pode entrar ou ficar aí, só os Cobras. Apenas os Cobras."
"Caralho..."
"Mas... mas então, quero dizer... o que a gente faz agora?"
Armando deu um chilique.
"AGORA FAREMOS PORRA NENHUMA! VOCÊ VAI ME AJUDAR A TERMINAR ESSA MALDITA PAREDE, JORGINHA, PORQUE EU NÃO TÔ AGUENTANDO, EU NÃO TÔ AGUENTANDO MAIS! OLHA TODA ESSA MERDA EM QUE EU ME METI POR SUA CAUSA, VOCÊ É MALUCA!"
Jorginha revirou os olhos. "Sem necessidade isso, muito rude... mas tá bem, eu vou te ajudar."
Armando xingou mais um pouco, se sentindo exausto.
Ele se perguntou por que a sua vida era tão extremamente caótica o tempo todo, e o que ele havia feito para merecer tal destino. Teriam sido os seus pecados? Aquela vez que ele escreveu ARMANDO ESTEVE AQUI na cadeira da igreja? Ou a vez em que comeu todas as amostras grátis da moça do supermercado? Ele não sabia, mas antes que pudesse chegar a uma resposta, um alto ronco se ouviu da janela.
Era barulho de moto.
"JORGINHA!" Gritou uma voz masculina. "CADÊ VOCÊ, MEU AMOR?"
Jorginha deu uma risadinha. "Ih, acho que o Romildo chegou. Tchau, Armandinho!"
"Você só pode estar de brincadeira!" Grasnou Armando.
Ele então mandou a Jorginha se foder uma última vez e decidiu cometer um crime de ódio com os baldes de tinta. A garota só riu da cara dele e escapou, deixando-o sozinho para terminar o trabalho.
"Esse realmente está sendo um péssimo dia." Ele concluiu, enquanto a tinta se espalhava pelo chão do banheiro.
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