Os ventos quase tropicais que arranham as janelas refinadas da casa de Joshua, a qual foi parte da herança de seus pais, agradam o rapaz. A mistura homogênea de calor e frio trazem ao rapaz uma sensação de conforto que apenas esse vento consegue proporcionar. Seus estímulos aguçam na presença de tal ar. Josh gosta de sentir em sua pele recheada de melanina o frescor que tal vento causa, por isso adora ficar na janela apenas sentindo essa única experiência.

Numa manhã usual, ele foi despertado com um amarelado clarão proveniente dos feixes solares, com os quais já acostumou-se. Esfregou os olhos lentamente, coçou seu raso cabelo escuro e pulou da cama. Arrumou sua cama, mesmo que a preguiça matinal seja tão pesada quanto uma bola de chumbo acorrentada em seus pés. Os lençóis brancos ficaram milimetricamente ajustados na cama, demonstrando sua organização, mesmo que tivesse uma pessoa para cuidar de sua casa. Parte desse hábito veio de sua infância, uma vez que, nessa época, ele foi educado pelos seus pais, quando eram classe média baixa, a arrumar a própria cama; os senhores Goldfarm enriqueceram, porém ele manteve a atitude rotineira.

Ainda de pijama, Josh desceu as escadas de madeira sem pressa, sentindo cada degrau com a sola de seus pés, enquanto observava a beleza do interior de sua casa, como usualmente fazia. No andar de baixo, recebeu uma recepção com fragmentos de maternidade vinda de Maria, uma funcionária que trabalhava com a família Goldfarm desde que moravam na casa humilde, por isso ela era considerada uma segunda mãe pelo jovem. Mesmo com anos de emprego, Maria ainda tinha seu inato bom humor. Educadamente, Josh retribuiu o bom dia. Na mesa, biscoitos e suco de laranja esperavam para serem devorados pelo rapaz, o qual agradeceu com um beijo rápido na cabeça da funcionária.

— Dormiu bem, Josh? — perguntou, sorridente.

— Sim, e a senhora? — ela respondeu positivamente.

Enquanto ele comia um biscoito de nata, ela varria o chão da exorbitante sala de estar, porém mantinham a conversa com rotineiras perguntas. Joshua percebia que era difícil para uma mulher de cinquenta e quatro anos cuidar de uma casa relativamente grande, por isso sentia-se um pouco culpado, todavia ela sempre afirmou que fazia isso porque gostava dele e de seus pais e não conseguiria se ver fazendo outra coisa. O rapaz bebeu um gole generoso do suco de laranja natural que apenas Maria sabia fazer tão bem. Mordeu outro biscoito e prosseguiu com a conversa:

— E o Peter? Como ele está?

— Ótimo, ele está adorando a escola. Ah, e obrigado por isso, foi muito generoso de sua parte.

— Que nada, é o mínimo que posso fazer, Maria. — ambos trocaram sorrisos de mãe e filho.

— E como está o namoro? — ela perguntou, com um olhar provocativo, porque sabia da timidez do rapaz, embora o mesmo ter um porte físico avantajado.

— Hehe. Está ótimo também, Bethany é muito boazinha. — suas bochechas ficaram queimando de vergonha, mas, para a sua sorte, a pele escura camuflava. Todavia, não significa que Maria não percebia, uma vez que já conhece perfeitamente o jovem Joshua.

— E quanto a viagem? Ainda está de pé?

— Creio que sim, até agora nenhum deles falou nada do contrário. — ele deu uma leve batida na mesa acidentalmente, devido ao nervosismo.

— Que bom. Espero que tenha ótimas férias com sua amada. — piscou sorrateiramente para ele, o qual agradeceu sem jeito.

Com o café da manhã finalizado, levou o prato, copo e talheres para a pia, como uma pequena ajuda. Aproveitando que estava na cozinha rodeada de azulejos de luxo, pegou a chave de seu carro, subiu para trocar de roupa, avisando que estava saindo para ir ao mercado, respondendo a pergunta de Maria. Após um aceno, ele saiu de casa.

Joshua adorava ouvir o barulho do carro quando apertava o botão de destrancar na chave. Segurou firme para abrir, aproveitando o calor da porta cor de prata e entrou em seguida, ajeitando seu corpo no banco bege. Colocou a chave e ligou o carro, agradecendo mentalmente pelo presente de seus pais; o ar condicionado do automóvel ligou e expeliu seus gélidos ventos, diferentes do que a natureza proporcionava. Manteve sua mania de deixar o condicionador de ar ligado enquanto a janela estava aberta e iniciou a viagem até o supermercado.

Foram rápidos, porém relaxantes, minutos de viagem. Josh gostava do calor do sol contrapondo-se com os ventos natural e artificial misturados, sensação que apenas uma viagem de carro proporcionava. Desligou o carro e entrou no mercado. Escolheu uma cesta vermelha, como de costume, e iniciou as compras. Essas não demoraram muito, uma vez que ele era bem direto no que iria comprar. Em questão de poucos minutos, já estava na fila do caixa, a qual estava um pouco longa.

Enquanto esperava, movimentava seus olhos castanhos pelo espaço, buscando distrair-se com alguma coisa, porém seu celular começou a tocar. Rapidamente, atendeu ao telefone, revelando ser sua namorada Bethany.

— Alô?

— Oi, querido. Onde está? — perguntou a delicada moça.

— Fazendo compras... Por quê?

— Ah, nada, é que eu e meus pais decidimos que amanhã será um bom dia para viajar. O que acha? De acordo? — ela sabia que aceitaria, mas perguntou só para ter a satisfação de ouvir uma resposta positiva.

— Uh, okay. Pode ser. Quer que eu compre algum lanche agora?

— Sim, mas se não for muito incômodo.

O rapaz olhou para a fila e percebeu que faltavam apenas duas pessoas para sua vez, mas para agradar Bethany, aceitou. Desligou o celular com um beijo e retirou-se da fila desajeitado, esbarrando em algumas pessoas e desculpando-se em seguida. Quando esbarrou em uma senhora branca de quarenta e poucos anos, ela não segurou a língua:

— Preto mal-educado... Não sei por que está aqui...

Devido a altura que ela disse, apenas Josh e algumas pessoas, que não falaram nada, ouviram. O jovem sentiu-se magoado com o arranhão verbal, mas para evitar problemas, ignorou como sempre. Ele pegou os itens, como lanches e bebidas, e foi até uma outra fila, para evitar a senhora. Mesmo essa estando maior, preferia esperar alguns minutos a mais do que compartilhar a fila com uma mulher agressiva. Ainda que estivesse em uma diferente, a mesma senhora continuou olhando para ele com repulsa. Após treze minutos, foi atendido e pagou as compras com cartão. A senhora já havia saído, mas ele ainda sentia o peso do olhar dela.

Sentou-se no banco, não tão animado quanto antes, ajeitou sua jaqueta jeans e ligou o carro. Fez o mesmo caminho de sempre e voltou a sua casa, ainda pensativo. Chegando em casa, descarregou os produtos do porta-malas rapidamente devido à força que tinha em seus braços. Entrou em casa para guardar e voltou para fechar o bagageiro. Percebendo a mudança de humor em Joshua, decidiu guardar os produtos na despensa como forma de consolo, além de fazer um cafuné leve na cabeça dele. Josh subiu as escadas e deitou-se na cama de seu quarto, iniciando uma conversa com Bethany por um aplicativo de mensagens. Ele falou do comentário da senhora, o que deixou Beth irritada e sem entender o motivo de pessoas da mesma cor que ela insistirem nessa ideia idiota. Após consolo e conselhos vindos dela, ele tocou no assunto da viagem. Beth disse que pegariam a estrada pela manhã do dia seguinte e que deveria busca-la por volta das nove da manhã. Ele concordou e perguntou do estado da casa de praia, obtendo como resposta apenas elogios. Aquilo deu ânimo ao rapaz, o qual convidou a moça para saírem em um encontro; Beth gostou da ideia e sugeriu visitarem o aquário naquele instante. Joshua não recusou, elogiando a sugestão e pediu para irem ao shopping em seguida, uma vez que lá ele sentia-se tranquilo, além de que poderiam comer algo e ir ao cinema. Com os planos feitos, os dois arrumaram-se.

Educadamente, Josh foi até a casa de sua namorada, um tanto nervoso, devido à sua vergonha de dialogar com os pais dela. Por mais que eles apóiem o relacionamento inter racial, havia algo que o fazia não se sentir confortável o suficiente. Estava elegante, de jaqueta, camisa branca e calça jeans, além estar perfumado com o cheiro que Bethany tanto gostava. Ansioso, ele apertou a campainha. Do lado de dentro, o som ecoou pela casa inteira e chamou a atenção da moça, a qual estava na sala com sua mãe. Ambas dirigiram-se à porta e receberam o jovem com sorrisos; o da senhora Onioman não era tão confortável de se ver, diferente o de Bethany, o qual tinha ternura e paixão. Essa deu um abraço no namorado, enquanto a mãe apenas sorria; embora desconfortável, ele cumprimentou:

— Olha, senhora Sarah. Tudo bem? — estendeu a mão para ela, mas essa ficou estática por uns instantes, até que apertou a mão de volta.

— Tudo, rapaz. E com você? — ainda sorria, quase robótica.

— De boa... Bem, eu e Bethany vamos sair para passear, está sabendo disso, não é? — não conseguia esconder o nervosismo.

— Sim. Aproveite o encontro, filha. — aproximou-se dela e beijou-a.

— Obrigada, mãe. Tchau! — ela acenou para mãe, recebendo um outro aceno de volta.

— Tchau, senhora... — meio sem jeito, acenou, porém Sarah balançou a mão devagar e fechou a porta lentamente.

Após a cena estranha, Joshua decidiu ignorar aquilo e entrou no carro com sua namorada. No fim das contas, tiveram uma tarde maravilhosa, aproveitando o Aquário, comendo bem em um fast food e assistindo a um filme de suspense gratificante.

Anoiteceu, Joshua levou-a até a casa dos pais dela. Ela tocou a campainha, atraindo a atenção de seu pai, Stephan, o qual a recebeu do mesmo jeito que Sarah: com um sorriso intimidador.

— Olá, Beth! Como foi o dia? — perguntou, como se estivesse em sua programação mental.

— Muito bom! Joshua é mesmo maravilhoso! — o comentário deixou o namorado envergonhado.

— Legal. Gosto de você, Joshua, é um rapaz educado e talentoso, creio que conseguirá formar-se em medicina e ser um excelente doutor.

— Obrigado... Bom, eu vou indo... — Josh não gostava de passar muito tempo com a presença daquele casal.

— Ah, já vai, amor? Fique mais, minha mãe fez jantar! — ela respondeu sem nem mesmo perguntar se sua mãe tinha feito realmente.

— Obrigado, mas não... Não estou com fome. Tchau, docinho. Tchau, senhor Onioman... — desajeitado, andou até o carro, um pouco “duro", como se estivesse marchando, devido ao nervosismo.

Dirigiu até sua casa, a qual não era tão distante da casa de seus sogros. A estrada aparentava estar mais escura que o normal, mas ele acreditou ser apenas efeito de sua miopia. Ao entrar em casa, Maria educadamente disse:

— Boa noite, pequeno. Como foi o passeio? Aproveitou bem?

— Sim, sim. Foi bem legal, eu só não gostei de ir até a casa dos pais da Beth...

— Imagino, despedir-se da namorada deve ser ruim.

— Não é bem isso... Os pais dela me dão arrepios.

Passaram mais alguns minutos conversando, até que a fome revelou seus indícios. Notando isso, Maria ofereceu um sanduíche, misto quente que ele tanto gostava, o qual faria rapidamente. Enquanto ela preparava a refeição carinhosamente, Josh mexia no celular, checando suas redes sociais. Sem perceber, o sanduíche já estava na mesa de jantar, bem a sua frente, então agradeceu e começou a saborear. Mastigava cada mordida, sentindo o gosto do pão no ponto perfeito, do queijo derretido e do presunto quente. Bebeu suco de laranja novamente, mas por opção; demorou quinze minutos para acabar com a janta bem preparada e voltou ao seu quarto, sem esquecer de agradecê-la.

Ligou o computador para jogar um jogo online, desfrutando da internet que tinha. No fim da noite, vestiu o pijama e deitou-se para dormir, todavia não adormeceu cedo, pois sofria de insônia. Às duas da manhã, Joshua estava dormindo, enrolado nos lençóis para driblar o frio de seu quarto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.