Bandana Vermelha

6 Um Encontro Inesperado


Notas iniciais
Boa leitura!

As explosões se aproximavam conforme descia de volta para a cidade. O homem que a guiava não era o mesmo de antes. Conseguia perceber seus passos apressados, como se estivesse carregando algo perigoso.

O primeiro encontro com Lorde Skeller havia sido rápido e bem mais tranquilo do que imaginara. O Torneio, até então, estava lhe parecendo uma versão sombria dos campeonatos da academia de luta. Era quase como se estivesse de volta aos ringues, prestes a lutar. Havia um nervosismo, é claro, mas era viciante.

O mandante parou abruptamente e largou a garota em um lugar qualquer, deixando-a sozinha, esperando novas ordens. Quando percebeu que ele já havia se mandado, Asara retirou a venda e encontrou-se no mesmo beco em que havia sido recrutada. Um traço de confusão surgiu em sua mente. Não tinha como ele saber o local exato em que o outro Sombra aparecera, tinha?

Ignorou os pensamentos e pulou para alcançar seu vestido, que permanecia intacto como na hora em que o deixou ali. Vestiu-o, vigiando a rua caso alguém aparecesse. Conseguia ouvir os fogos explodindo e desejou poder vê-los uma ultima vez antes que acabassem por completo. Ela correu para fora e alcançou a rua, descendo a passos largos.

O brilho das cores iluminava a encosta enquanto padrões disformes se alargavam pelas nuvens. Vermelho, amarelo, azul explodiam e arrancavam suspiros do povo espremido no porto. Asara olhou em volta a procura de rostos conhecido em meio a multidão e viu um grupo de colegas da academia reunidos em volta de um banco sujo de madeira. Correu para se juntar a eles.

Ninguém parecia ter notado a sua recente chegada, exceto Tayton que apareceu ao seu lado, tocando o seu braço.

— Onde você estava? — ele berrou próximo ao seu ouvido, tentando sobrepujar as explosões. — Te procurei a tarde inteira.

— Eu fui na sua casa de manhã. Foi visitar os pais?

— Sim, passada rápida. E você só apareceu agora, estava te observando descer a rua.

Asara quase inventou uma mentira de última hora mas Tayton sabia que estava participando do Torneio das Ruas, então podia lhe contar.

— Eu estava no recrutamento — ela sussurrou no seu ouvido. — Já estou dentro.

— Oh — ele suspirou. — Já lutaram?

— Ainda não, mas pode acontecer a qualquer hora.

— Como assim?

— Skeller não deu detalhes. Só disse para estarmos preparados o tempo todo.

— Que loucura — ele disse e uma mulher ao lado deles os encarou, como se estivesse escutado alguma coisa. Asara fechou a boca e olhou para Tayton.

— É melhor saírmos daqui — ele sugeriu. — Os fogos já vão acabar.

Ela concordou com a cabeça, apesar de ainda querer encontrar Liana. As ruas próximas ao porto logo, logo se transformariam em um baile onde as pessoas dançariam e cantariam a céu aberto até quase amanhecer. Sabia que a maioria dos que ficavam eram os mais loucos e alguns mendigos em busca de diversão e bebida de graça, então acompanhou Tayton rua acima.

— Já sabe o que vai acontecer daqui pra frente? — ele perguntou. — As outras fases do Torneio.

— Por enquanto, só sei da luta. O resto é mistério. Skeller foi muito rápido e direto, pensava que haveria algum tipo de cerimônia ou algo assim.

— Pra quê? Não há ninguém ali além de vocês.

— É, pode ser — ela disse, olhando para os becos ao lado. Não queria comentar mais sobre o Torneio, sabe lá quem poderia estar vigiando, ainda mais com o aviso de que a luta poderia acontecer a qualquer hora. Tinha certeza de que Skeller mandaria os seus homens vigiarem os Campeões.

— Pra onde quer ir?

— Eu não sei, aonde estão seus amigos?

— Provavelmente no Gancho enchendo a cara — ele supôs. — Não fica tão longe daqui, quer ir comigo?

O bar ficava para o lado oeste da cidade, em uma das ruas mais apinhadas da região. Se precisasse voltar para casa teria que correr.

— Vamos — ela aceitou o convite. Queria se divertir um pouco e esquecer da sensação de abandono que teve durante a tarde. Além do mais, precisava aproveitar dos poucos momentos que tinha antes que algum mandante de Skeller a levasse para a primeira prova.

Seguiram um pequeno fluxo de pessoas que iam em direção a rua dos bares e em menos de cinco minutos alcançaram o local. O Gancho ficava numa esquina e tomava boa parte da clientela por ali. Haviam alguns do lado de fora, sentados na calçada e compartilhando bebidas, e lá dentro mulheres dividiam a mesa com outros homens em um jogo de tabuleiro, apostando moedas de ouro e algumas jóias.

Tayton seguiu para dentro, onde encontrou os seus amigos sentados em uma mesa repleta de copos e garrafas escuras. Asara os cumprimentou e reconheceu o cara que havia a recebido pela manhã. Ela se sentou próximo a eles e Tayton entrou na conversa, enchendo um copo para si e para ela. Só aceitou porque estava com sede devido a caminhada que havia feito; não costumava beber Sangue-de-Pêssego.

Os garotos comentavam sobre a última luta do torneio e Asara lhes respondia quando perguntavam sobre Touro. "Sim, ele é forte mesmo", "Não passa de um saco de pancadas", "Aquilo foi pura técnica, nada de sorte". Ela dizia, provocando risos entre eles. Já que não estavam a levando a sério ela riu junto, espirrando um pouco de bebida em seus rostos.

Asara se levantou um tempo depois e foi em direção a um corredor estreito. Precisava aliviar a bexiga e os reservados ficavam do lado de fora, dentro de um beco. Usou uma das cabines de madeira disponível. Quando saiu, uma sombra se moveu na sua frente, indo em direção ao corredor e bloqueando sua passagem.

A escuridão era quase completa, mas a luz das lanternas que vinham de dentro do bar delineavam a silhueta do que parecia ser um homem. Ela o vira momentos antes, quando estava de frente para Lorde Skeller. Era Valete.

— Que sorte a minha te encontrar aqui — disse ele em um tom zombeteiro.

— Quis antecipar a luta? — ela ousou provocar, mesmo sentindo o sangue correr em suas veias e o suor deslizando sobre a palma das mãos. Estava nervosa, mas não podia demonstrar. Não fazia ideia que o homem estava ali, nem que seria possível o encontrar nas ruas da cidade. O mundo parecia um local pequeno ás vezes.

— Na verdade, eu não sabia que viria para cá. Foi uma coincidência infeliz, não acha? Encontrar o oponente minutos depois do recrutamento. — Ele riu, como se tivesse acabado de contar uma piada. — Fiquei apenas te observando e durante o tempo que ficou sentada eu comecei a ter ideias.

— Que tipo de ideias?

— Eu posso negociar com você agora, pra que me deixe vencer a luta e sair ilesa disso tudo. É bem simples — ele dizia, dando passos lentos em sua direção. — Mas caso não queria a minha proposta, posso acabar com você agora mesmo. Não demoro pra fazer isso, eu prometo.

Asara riu com desdém.

— Acha mesmo que vou desistir tão fácil?

— Imaginei que não. Vou ter que partir pro jeito difícil. — O homem deslizou uma adaga de dentro da sua calça. Ela brilhava a luz da noite, como uma lua crescente. Não era uma luta justa, ela estava desarmada e estava usando aquele vestido longo idiota. Até retirasse aquilo e encontrasse uma arma, o homem já estaria em cima de si, atacando-a. Sua visão parecia encurvar, devido a bebida. Aquele cenário não podia ser pior.

O homem avançou, agora a passos largos e pesados. Teria que atrasá-lo até poder alcançar a porta e encontrar Tayton de volta. Poderiam lutar contra ou até mesmo fugir. Mas atravessá-lo e chegar ao outro lado parecia uma tarefa impossível.

Valete já estava ao seu lado, tentando alcançar o seu ombro. Ela empurrou sua mão e levantou o joelho, atingindo-o na cintura. De reação, ele levantou o braço que segurava a adaga. No mesmo momento, ela se abaixou e descreveu um giro no chão, impedindo que a lâmina atingisse o seu rosto.

Levantou aos tropeços, pisando diversas vezes na barra do vestido. Havia uma garrafa vazia num canto da parede e Asara a alcançou antes que o homem se desse conta. Ele voltou a avançar com estocadas e ela se livrou de todas, levantando a garrafa e atingindo-o na nuca em uma explosão de vidro quebrado. O susto pareceu ser maior do que a dor. Não houve sangue. Ela recuou segurando o gargalo em pedaços afiados. Ainda era uma arma.

O homem se virou, não percebendo uma sombra furtiva que pulava os telhados acima de si como um pássaro negro. Asara vislumbrou o rastro de escuridão que já havia desaparecido. A garota suspirou um pouco alto demais. Tinha certeza de quem era, logo permaneceu parada. Esperou Valete vir pra cima, respirando pesadamente. A luta e a bebida não estavam lhe fazendo nada bem e não iria se surpreender se acabasse vomitando ali mesmo.

— É uma espertinha, não é? — ele grunhiu, exibindo os dentes trincados. — Quero ver se vai sobreviver quando estivermos na luta de verdade.

— Não vai ter luta de verdade porque vou acabar com você agora mesmo — ela cuspiu as palavras, sentindo o suor escorrer da raiz dos seus cabelos curtos até a nuca. Aquilo fez o homem retesar e girar a lâmina uma ou duas vezes antes de partir para cima novamente, dessa vez mais rápido.

Asara só abaixou e girou para o lado no momento em que a sombra no telhado deslizou dos céus e atingiu o homem nas costas, arrastando o seu rosto no chão de pedra. Ele desmaiou no mesmo momento; os braços amoleceram e a faca caiu de sua mão.

— Bone. — Asara suspirou e sorriu, levantando aos tropeços.

O amigo Bandoleiro lhe sorriu volta. Ele usava uma máscara de pano preta sobre os olhos e uma capa que o confundia com as sombras da noite. A mesma roupa que usava quando Asara fazia parte do grupo. O garoto havia mudado muito desde a última vez que ela o viu mas os seus traços marcantes continuavam lá. Os cabelos escuros, a pele clara e o seu corpo esguio que lembrava um pedaço de osso. Mas não era por isso que ganhara o apelido, e sim por ter caído da Torre do Sino e quebrado uma porção deles. Asara ainda lembrava de quando lhe contara aquela história.

— Você apareceu no momento certo.

— Estou sempre alerta, garota. Sabe como as coisas são comigo.

Ela realmente sabia. O garoto e o resto do grupo passavam a noite acordados, saltando sobre os telhados. Quando não tinham o que saquear, procuravam encrencas com os seus inimigos. Fora sorte ele ter aparecido ali, mas Bone gostava de se mostrar um Bandoleiro sempre atento.

— É bom te ver de novo — ela admitiu, dando um abraço no amigo. — Onde estão os outros?

— Bell está com Katsu e Kev no cemitério, cismam que há algum tesouro enterrado ali perto. Já avisei que é perca de tempo, mas você sabe como eles são.

Asara sorriu ao lembrar de Bell, o garoto gorducho que sempre lhe trazia doces quando os outros estavam longe do esconderijo. Ela sabia que o pai dele trabalhava junto a Noberto na padaria, mas ele gostava de se exibir dizendo que saqueava-os de outra cozinha.

Bone agachou ao lado de Valete e continuou:

— Laini veio comigo, estavamos vendo os fogos e decidimos passar por aqui para tentar pegar bebidas de graça. — alcançou a adaga entre os dedos grandes do homem e análisou enquanto se levantava. — É uma bela porcaria. Quem é esse cara?

Disse, soltando a lâmina sobre o corpo moribundo.

— O meu oponente no Torneio.

— Quer dizer então que já está dentro? — Bone ergueu uma sobrancelha, encostando-se na parede.

— Sim, começou hoje.

— E ele já estava te caçando?

— Foi pura sorte ele ter me encontrado. Queria acabar comigo antes da luta de verdade acontecer.

— Bem típico. Tome cuidado com essa gente. São tão loucos quanto você pelo dinheiro.

— Já percebi. — Ela respondeu, sentindo o enjôo lhe perfurar o estômago. Cerrou os olhos, tentando se livrar da dor, e esboçou um sorriso. — Obrigado pela ajuda.

— Sempre alerta, sabe como é, né? Estou sempre alerta.

— Sei sim — concordou. Esse era um de seus lemas.

— Tenho que ir.

— Eu também — ela deu um último abraço. — Aparece mais vezes.

— Só se você aparecer também. — Ele acenou e saiu pelo beco, indo em direção a rua.

Asara recuperou o fôlego, limpando o suor da testa. Precisava se livrar daquele vestido e daquele cheiro de sujeira. Voltou para o bar e explicou o máximo que podia para Tayton, sem dar detalhes.

— Eu preciso ir para casa — ela disse, engolindo em seco.

— Vou com você — Tayton via os sinais de luta, e apressou-se ao levantar e sair com ela. Quando chegaram na rua, ela já se explicava.

— Valete estava aqui. É o meu primeiro oponente e ele já queria me impedir de lutar.

— O quê? Ele te atacou?

— Sim, estava tentando me furar com uma adaga.

— Oh, meu Deus, Asara. — Levou as mãos a cabeça e exibiu um semblante assombrado. — Olha com quem se meteu.

— Eu sei, não esperava que fizessem isso.

— Já é considerada tão ameaçadora assim? — supôs, olhando de relance para Asara, que parecia estar focando em algo a sua frente. — Tenha cuidado com o que fala, você sabe que nunca acaba ali no Torneio. Os inimigos que faz podem te perseguir pro resto da vida.

— Eu sei, Tayton — respondeu, um pouco irritada.

— Não disse nada que o enfrentasse, não é? Tentou pelo menos não lutar?

— É claro que sim, né — mentiu, lembrando-se do que havia dito. "Vou acabar com você agora mesmo". Seu estômago embrulhou outra vez. O Torneio mal havia começado e já tinha criado inimigos mortais. Se quisesse ganhar o prêmio, precisaria derrotar Valete antes que ele fizesse o mesmo consigo. E tinha quase certeza de que o homem a encontraria antes que a luta começasse oficialmente.