Bandana Vermelha
10 A Segunda Prova
Notas iniciais
Seus pés atingiam a areia com força, levantando nuvens de poeira atrás de si. Tentou ignorar os espinhos que perfuravam a sua pele e os arbustos secos que arranhavam os seus braços enquanto corria para a encosta ensolarada. Gritos a receberam no momento em que surgiu de frente para o mar.
Dois homens desferiam socos um contra o outro, bem onde a água encontrava a areia. Pareciam disputar o pequeno bote enquanto os outros competidores já estavam no meio do oceano, lutando contra as ondas. Asara ignorou-os completamente, mesmo vendo sangue se espalhar, e correu em direção a uma das embarcações.
Surpreendeu-se ao ver que não haviam mais remos. Os primeiros a sair haviam levado todos os outros, numa estratégia suja para tentar eliminá-los da competição. Correu rapidamente em direção ao outro. Nada. A menos que quisesse ficar flutuando nas águas agitadas, não conseguiria chegar a tempo sem ter pelo menos um remo.
Asara praguejou em voz alta. Não poderia ser eliminada por algo tão trivial. Não era justo. Deveria ter esperado desde o começo que trapaças aconteceriam e teve que admitir a si mesma que havia sido burra. Ao invés de esperar na praia como ordenou Skeller, ela havia, por impulso, ido verificar o que tinha acontecido na selva.
Respirou fundo. Sua única opção era nadar até o porto e a ideia a fez rir. Vou acabar morrendo afogada, pensou olhando em volta. Talvez se soltasse uma tábua do assento poderia usar como remo e aquilo lhe parecia melhor do que arriscar sua vida à toa. Foi em direção ao barco e forçou a madeira, provocando um rangido alto. Se pusesse mais força poderia arrancar os pregos. Contou até três antes de cerrar os dentes e puxar a madeira. Com um estrépito, a peça se soltou e ela respirou aliviada.
Empurrou o barco e, após algumas ondas, pulou dentro usando do remo improvisado para se impulsionar para frente. Tentou se estabilizar dentro da embarcação, segurando firme de um lado enquanto direcionava a proa com o pedaço de madeira. Precisava chegar até onde as águas pareciam mais calmas. Ali onde estava, as ondas eram agitadas e ameaçavam jogá-la contra as rochas que se erguiam aos montes.
Percebeu que aquilo não estava funcionando quando o bote quase virou e um turbilhão de água atingiu o seu rosto, encharcando o resto de seu corpo. Ela tentou olhar por sobre as ondas, mas a proa se ergueu e a jogou para trás, mandando o seu único remo para longe. Asara xingou, mais de medo do que de raiva. O mar parecia ter se virado contra si, como se fosse um outro competidor, conspirando para que não participasse mais do Torneio.
Olhou em volta. A frente o mar parecia calmo; atrás, os outros dois continuavam a lutar ferozmente, ignorando o real motivo de estarem ali; a sua direita, a cadeia de rochas parecia se aproximar cada vez mais. Não lhe restava mais opções. Quando pensou em pular e abandonar a prova, um grito rompeu por entre as águas.
Valete acenava do outro lado, observando de longe a garota lutando para permanecer na competição. Oferecia ajuda? Ou estava apenas zombando de si? Asara não sabia, mas a ideia de desistir enquanto ele observava a fez trincar os dentes. Ela desatou o lenço vermelho de seu rosto, respirando o ar puro, e o escondeu dentro das suas roupas. Olhou mais uma vez para a água antes de saltar num mergulho um tanto desajeitado.
A água a envolveu, gelada e quente ao mesmo tempo. Quanto mais fundo descia, mais frio sentia. Decidiu subir e nadar pela superfície, onde as ondas já haviam se acalmado o suficiente. Bateu os braços e pernas em movimentos que aprendera quando ainda morava com a mãe, num lago grande e calmo que ficava próximo a sua casa. Aquilo não era nada comparado a agitação do oceano.
Valete movimentou o barco em sua direção, numa tentativa de se aproximar. Asara temeu que ele tentasse empurrá-la para baixou com o remo, mas percebeu que ele estava apenas tentando ajudar.
— Vem, eu te puxo para cima. – Ele estendeu a mão para ela.
— Não quero a sua ajuda.
— Mas precisa se quiser continuar. – Ele insistiu balançando o braço. – Vem logo, Bandana. Não seja tola.
— Está cometendo um erro – ela o alertou, agarrando o seu pulso e se puxando para cima.
— Cala a boca e rema. Estamos atrasados. – Ele entregou um remo para a garota, que o recebeu com uma expressão fechada. Ótimo, pensou. Agora sou refém dos seus favores. Queria xingá-lo por ter oferecido ajuda, mas se não fosse por ele, já estaria fora da competição. Só pode estar me sabotando, tenho certeza, sua mente insistia.
Remaram em silêncio até estarem a poucos metros do porto, onde outros pequenos botes já estavam vazios e competidores nadavam furiosos em direção aos navios gigantes. Valete se levantou, largando o remo ao seu lado.
— Sem mais ajuda a partir de agora – ele disse, retirando a camisa e largando-a no colo de Asara. — Que o melhor vença.
Ele deu um sorriso de leve antes de mergulhar, deixando-a sozinha no pequeno barco. Queria esmurrá-lo. Não era pra ser assim, não deveria estar sendo gentil com ela e ela não deveria pensar confiar em outra pessoa a não ser a si mesma. Soltou os remos, sentindo os braços queimarem.
A ideia de nadar outra vez e saquear um dos navios parecia absurda.
Vamos lá, ela se forçou a levantar. Você consegue.
Estava tão fraca que podia se ver desmaiando num convés.
Já estou molhada mesmo, disse a si mesma.
Nadando em direção a morte, era isso que estava fazendo.
Eu consigo.
Respirou fundo antes de mergulhar na água outra vez.
Estava a menos de cem metros dos navios. Observou além da balaustrada, procurando por membros da embarcação. Não viu ninguém, mas ainda assim cuidou em nadar escondida sob as sombras dos cascos, temendo ser vista das janelas dos prédios.
Asara conseguiu ver um dos competidores nadar até as escadas que levavam ao deque do porto, numa tentativa de acessar as embarcações por uma rota comumente usada pelos próprios marinheiros. Parecia esperto agir como se trabalhasse ali, mas ela sabia que o homem estava entrando em encrenca. Ser visto ali não era uma opção.
Nadou até um dos braços do deque principal, observando o movimento ao fim da enorme ponte de madeira. Alguns homens pareciam estar perambulando por ali, sem ideia do que estava acontecendo. Asara aproveitou do momento em que olharam para longe e se puxou para cima, rolando em direção ao barco de Vikrum. Atravessou a viga de madeira enquanto cobria o rosto com a sua bandana.
Andou pelo convés, procurando um meio de acessar o interior. O som de seus passos era mascarado pelas ondas que batiam no casco, provocando um balanço leve. Tentou entrar por uma porta escura, com detalhes entalhados e pintados de verde musgo, mas nada. Ele não seria tão burro como da última vez, pensou. Correu até o alçapão no meio do deque, mas um grande cadeado já anunciava que estava fechado. Asara revirou os olhos. Só lhe restava uma última opção.
Foi até a proa, procurando pela entrada secreta. Vikrum nunca havia lhe contado, mas ela espiou enquanto ele ensinava Paco como usá-la. Era logo abaixo de uma das velas, uma pequena abertura entre as vigas. Só precisava espremer os dedos pela passagem e puxar uma corda. Com um clique, o tampo de madeira escorregou para dentro, abrindo caminho. Ela sorriu e entrou rapidamente.
A escuridão tomou conta de si enquanto ia até o baú em que Vikrum mantinha suas pequenas joias. Seria o suficiente para agradar Skeller e fácil de esconder se precisasse fugir. Carregar um rolo de tapete não era uma opção, apesar de serem as peças mais valiosas que ele tinha ali.
Aproximou-se da caixa de metal só para descobrir que estava trancada com um grande cadeado. Ela trincou os dentes. É claro que não seria tão fácil. Precisava lembrar a si mesmo que estava roubando e não realizando uma tarefa comum. Tentou pensar em outra coisa.
Vasculhou os arredores a procura de algo largado por ai. Encontrou alguns pedaços retorcidos de metal, agulhas grandes e bolas de poeira. Nada. Não havia nada de valioso por ali. Deveria ter tentado os navios estrangeiros, com certeza iriam deixar algo aqui ou ali exposto. Ela quase se levantou para sair quando viu um brilho meio azulado atrás de um caixote de madeira.
Empurrou a caixa para o lado com esforço e alcançou o que parecia ser um cabo de prata preso entre a madeira. Quando puxou descobriu não ser uma adaga como pensou, e sim um espelho de mão todo cravejado com pequenas pedrinhas que não pareciam ter valor algum. Ela quase largou o objeto ali de volta; preferia não levar nada do que perder tempo mostrando aquilo para Skeller. Mas antes que pudesse pensar em outra alternativa, um som a fez retesar.
Tiros. Secos e distantes, anunciando perigo iminente.
Asara se adiantou para a pequena passagem. Precisava sair dali, e rápido. Alcançou o deque novamente e guardou o pequeno espelho entre as suas roupas. Era o melhor que havia conseguido e não havia mais tempo.
Não pensou duas vezes antes de saltar sobre a balaustrada e se jogar de volta para as águas. Ela já sabia para onde poderia fugir, mas precisava atravessar todos os navios e ir em direção a parede de pedra logo abaixo das margens do porto. Mergulhou, passando sob um veleiro alongado, e emergiu do outro lado ouvindo passos acima de si. Botas batendo contra a madeira. Abaixou-se quando uma sombra ameaçou aparecer e voltou para a escuridão gelada, segurando o fôlego que ainda restava.
Surgiu do outro lado e dessa vez ouviu gritos. Um homem fora atingido, ela tinha certeza. O caos já havia sido instaurado e logo, logo os cidadãos iriam para saber o que diabos estava acontecendo ali durante a manhã. E a guarda seria acionada depois disso. Asara não queria descobrir o que iria acontecer depois que eles chegassem então respirou fundo e mergulhou. Precisava atravessar tudo antes de voltar para a superfície.
Ela se impulsionou e nadou com toda a força que tinha para chegar do outro lado. Fios brancos surgiam ao seu redor conforme avançava. Não sabia se estavam atirando contra ela ou contra alguém próximo.
Tentou continuar firme e ignorar o seu coração acelerado, mas quando um corpo afundou na sua frente e o sangue espalhou pela água turva, ela voltou a superfície. Sua cabeça girava e os tiros ainda ecoavam, lançando nuvens de fumaça e respingos d’água. O homem que tentava atingi-la estava logo atrás de si, no convés do navio. Tinha que continuar nadando se quisesse permanecer viva.
Já conseguia ver os dutos que despejavam o esgoto, o local em que alguns Bandoleiros usavam quando queriam se esconder. Era pra lá que estava indo. Estava muito próximo, quando sentiu algo quente em seu braço. Um rasgo vermelho se abria em sua pele, provocando-lhe um enjoo instantâneo.
Precisava sair do campo de visão dos atiradores antes de tentar se puxar para um dos dutos, então mergulhou, sentindo o sal arder a sua pele exposta. Nadou em direção a parede. Estava quase lá, precisava somente de alguns metros antes de se esconder atrás da pedra. Seus olhos, sua pele, tudo em si parecia fervente, como se tivesse atingido um estado de ebulição. Mesmo com tanta água ao seu redor ainda sentia a garganta seca. Precisava respirar.
Asara voltou a superfície, já escondida e segura.
— Peguem os ladrões – gritavam ao longe. Os tiros haviam cessado dando lugar a berros de dor e outros de ordem. A guarda chegaria a qualquer momento, mas a ideia de se levantar e sair dali era insana. A dor tomava conta de si e pontos escuros surgiram em sua visão como se estivesse de volta a caverna de Skeller. O cheiro metálico de sangue lhe dava arrepios. Estava se perdendo, voltando a completa escuridão de seus sonhos.
— Acorde — ela ouvia, distante. — Asara, encontramos você.
Não havia forças para se agarrar a voz.
— Está morrendo...
— Você está salva.
— Pegue as pernas dela, vamos levá-la para casa — dizia uma outra voz, tão igual a primeira que a deixou confusa. Só conseguia abrir os lábios secos e manchados de sangue, implorando:
— Me ajude.
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