Notas iniciais
A triologia Balto que estamos escrevendo é o tronco de um universo compartilhado de fanfics que passou por um reboot completo – o Clube Tour Mundial. Ela fala sobre os impactos causados pelo evento civilizatório na Terra e como os seres vivos procuraram se adaptar e defender seus próprios territórios, com suas histórias isoladas pelo espaço e pelo tempo entre si, mas todas contando a mesma história. Esse é o Ecoverse. Estivemos pensando talvez em fazer um spin-off de Balto, uma vez que agora ele é o personagem principal desse universo compartilhado. O que acham!?

No topo. Balto finalmente alcançou o mesmo nível de Terry. O ar ali era diferente. Eletricidade estática percorria o pelo dos dois, pequenos flashes surgindo no alto. O vento soprava em rajadas imprevisíveis.

Balto: Você não precisa fazer isso! Aniu ainda estaria com você. Os espíritos… você ainda teria orientação.

Os olhos de Terry brilhavam e o amuleto pulsou.

Terry: Eu não quero orientação.

Outra rajada violenta atingiu Balto. Ele se manteve virado e com o objetivo de continuar o ritual. Balto não resistiu, ele deixou seu corpo se inclinar na direção da queda e uma corrente o pegou, em vez de cair no vazio, ele foi lançado contra Terry. Colidiu com todo o peso do corpo, o que quebrou a sua concentração e o brilho nos olhos de Terry se apagaram de vez.

Terry: Como ousa…?

Ele chaqualhou Balto para o lado e avançou uma patada direta no rosto de Balto. Balto girou a cabeça com o impacto, mas revidou contra ele, sem muitas opções de como lutar. Patadas trocadas em sequência. Ombros colidindo. Presas raspando. Balto acertou o flanco de Terry. Terry tentou derrubá-lo pela perna, mas errou e Balto rebateu de novo. O vento então mudou e prendeu o corpo de Balto por um instante, quase o congelando no ar ou servindo com se alguém o prendesse em pleno movimento.

Terry aproveitou e desceu um golpe forte no peito com uma pata e uma cabeçada na mandíbula. A boca de Balto se fechou com violência, mordendo quase a própria língua. Terry pegou e o envolveu com uma das pernas, jogando parte de seu peso em cima dela e lançando Balto levemente para o lado. Balto arqueou o corpo, meio de pé, tentando recuperar o equilíbrio. Terry veio novamente: Cabeçada nas costelas, ecoando pelo corpo oco de Balto.

Aleu: PAI!

Um vento que antes atacava Mica mudou de direção e atingiu Aleu no rosto. Ela rolou para trás na plataforma. Mica tentou se erguer.

Mica: Balto!

Mas um dos espectros arranhou seu pelo.

Mica: AAAaaargh!

Fechou os olhos com a dor, de gelo afiado, a neve perfurou como estalactites se formando em sua carne. Ela gritou, não apenas de dor, mas da sensação de estar sendo perfurada por frio vivo.

Balto reagiu no instinto. Girou o corpo e projetou a cabeça contra a lateral da de Terry — direto na orelha. O impacto foi seco, com um estalo e sangue escuro começou a escorrer pela borda da orelha de Terry. Antes que ele recuperasse o equilíbrio, Balto desferiu patadas rápidas na região da cabeça, atingindo o olho, a base da orelha, raspando o supercílio. Então saltou para trás, escapando por centímetros de uma lâmina de vento que cortou o espaço onde ele estava. Terry ganiu, quase como um cão acuado. Balto franziu o cenho, estranho para qualquer lobo fazer tantos sons assim, juntos. Os olhos de Terry reacenderam — amarelos intensos. O amuleto brilhou verde.

Entre eles, um lobo espectral se materializou e avançou como um projétil, direto do rosto de Terry, que olhou para Balto e ativou seu poder. A entidade colidiu com o rosto de Balto e ele foi arremessado até a beirada, com um golpe quase à queima-roupa As patas traseiras escorregaram no gelo. Mas ele se segurou, músculos tremendo. Então algo bateu por baixo.

Miriam. Ela saltou das plataformas inferiores e atingiu as patas traseiras de Balto com o topo da cabeça. O impulso o lançou para cima novamente, de volta ao nível da luta. Ela, porém, caiu girando, quase dando uma cambalhota na neve.

Balto: Ainda pode haver diplomacia! Os espíritos podem coexistir! Eu posso falar com Aniu! Convencer ela e sem mortes… sem essa ideia de superioridade!

Terry: Não me importa!

Terry rugiu. Outra rajada de vento atingiu Balto. Ele foi lançado para trás, ele agarrou Balto pela nuca. Os dentes cravaram de cima para baixo. Com um giro completo do corpo, Terry levantou Balto e o arremessou contra uma rocha menor da plataforma e impactou suas costas.

Balto: GAAH!

Abaixo, Jenna viu. Ela estava ferida — cortes no pelo, sangue misturado à neve. Corvos espectrais circulavam ao redor dela. Ela latiu, mas com força, cheia de coragem.

Terry avançou com as presas abertas para o pescoço de Balto. Balto virou a cabeça a tempo. Os dentes erraram a garganta, mas cravaram na perna dianteira. A pressão foi brutal. Balto gritou, depois ganiu, involuntariamente, enquanto o cérebro tentava lidar com a dor pulsante. Terry soltou, inspirou profundamente e soprou à queima-roupa na cara e peito de Balto, com um vento não apenas frio, mas gélido e abaixo de zero, com uma pressão quase kilobárica. Os músculos de Balto travaram, ele caiu para trás, com a cabeça arqueada para trás e deitada na rocha e patas viradas para baixo, ao longo do tórax, sua visão escureceu nas bordas.

Terry se aproximou.

Terry: A roda será quebrada.

Balto soltou um grunhido rouco e respirou com dor.

Balto: Eu não sei… o que fez você querer isso…

Balto: Mas não existe nada nesse caminho que leve à verdade. Eu já conheci lobos que tentaram ir contra a ordem natural … Encontraram apenas solidão. Estagnação. Falta de evolução.

Ele ergueu a cabeça, mesmo tremendo.

Balto: Que liberdade é essa que você diz?

Lá embaixo, Mica e Miriam resistiam. Seus pelos vermelhos estavam cobertos de gelo e cortes. Elas corriam contra rajadas violentas, atravessando espectros que se reconstruíam ao redor delas, se empurrando contra essas forças que se levantavam o tempo todo contra elas. Empurravam o próprio corpo contra o vento como se ele tivesse peso físico. Elas olhavam para cima sempre que podiam.

E Balto sabia. Sabia que parte delas queria que ele resolvesse como antigamente. Que encerrasse aquilo na força. Que esmagasse Terry e acabasse com a ameaça.

Balto: Ian… e os outros… acreditam nisso?

Balto perguntou, ainda caído, respirando com dificuldade.

Terry: Acreditam. Isso vai manter os lobos vivos. Nós prosperamos por milhares de anos… antes dos humanos nos dividirem. Antes de criarem os cães.

Balto ficou de pé.

Balto: Os cães surgiram para ajudar os humanos. No dia a dia. Não são melhores que eles na natureza.

Terry inclinou a cabeça.

Terry: Exatamente.

E disparou outro sopro congelante à queima-roupa. Mas dessa vez Balto antecipou. Ele se lançou para trás da pequena rocha com uma esquiva semelhante a um pulo misturado com mortal. Deixou o vento empurrá-lo alguns centímetros, já que a pedra era baixa e não defendia contra todo o golpe, ele fincou as garras na neve e se manteve baixo, mas foi empurrado um pouco. No instante seguinte, impulsionou o corpo para frente, por cima da pedra e direto em Terry e mirou em seu peito, mordendo o amuleto . Os dentes fecharam sobre o artefato. Terry reagiu no mesmo segundo — cravou as presas no pescoço de Balto. Sangue espirrou sobre o gelo, mas Balto não ligou, ele ajustou a mordida, em vez da pedra, mordeu o cordão e puxou. O fio se rompeu parcialmente. Mais um tranco e o cordão inteiro cedeu. O amuleto caiu no gelo.

Com força descomunal, girou Balto no chão e o lançou deslizando até a beirada da plataforma. Balto parou a centímetros da beirada.

Nas auroras acima, os rostos lupinos que antes se formavam começaram a se dissolver. As sombras se reorganizavam. Uma figura diferente emergia, com ramificações que lembravam galhadas de veado.

Balto abaixou a cabeça.

Terry: UGHAK!

Terry desceu um chute violento no estômago de Balto. O impacto empurrou o herói para fora da borda e ele ficou pendurado. Apenas as patas dianteiras segurando o gelo.

Aleu: Pai, não...

A batalha abaixo ainda fervia. Terry olhou ao redor e sentiu seu poder diminuir Seus olhos perderam intensidade. Ele virou a cabeça e viu o amuleto caído alguns metros atrás. Seus olhos se arregalaram.

Terry: O que você fez?!

Lá embaixo, mesmo ferida, Mica viu o artefato. Trocou um olhar com Aleu e fez um sinal discreto com a cabeça. No topo, percebendo o movimento, Terry tomou uma decisão desesperada e se lançou contra Balto.

Balto encarou Terry nos olhos, um desconhecido que ele nunca viu, nunca conheceu, não sabia de seus demônios. Terry olhou de volta, com seus olhos amarelos naturais de lobo.

Terry: Sabe qual é o problema das lendas, Balto?

Ele deu um sorriso e uma risadinha sincera, se aproximando para falar bem perto dele.

Terry: É preciso estar morto para ser realmente uma lenda!

Ele empurrou Balto da beirada. Balto despencou apenas 2 metros até bater as costas em uma das plataformas de gelo. Terry arregalou os olhos e ficou surpreso, mas Mica e Miriam haviam empurrado uma delas na direção de Balto, era fácil manipular elas. Terry se voltou para o amuleto e pegou ele com a boca, quando começou a tentar amarrar de volta ao redor do seu pescoço, ele percebeu que o poder não voltava. Ele tentava derrubar de vez Balto com uma tromba de neve, mas sem sucesso.

Terry: O que está acontecendo!?

Ele olhou para Balto, se perguntando em alto e bom som.

Terry avançou, mas, no meio do salto, sentiu um impacto no peito. Um chute duplo. Duas patas atingindo-o com precisão. Ele foi lançado para trás, deslizando até quase a beirada oposta da plataforma. Quando ergueu a cabeça, viu Aleu. Ela se levantava com um sorriso enviesado, olhar astuto.

Terry: Você…?

Terry arregalou os olhos. Ele olhou ao redor, desesperado, procurando o artefato.

Aleu: Está procurando isso?

Ela ergueu levemente a pata. Pequenos fragmentos caíram no gelo. O amuleto estava destruído e em pedaços. Terry ficou paralisado.

Terry: Como… como você fez isso?!

Aleu inclinou a cabeça.

Aleu: Isso não é algo que se ensina.

Ela deu um pequeno passo à frente. Sua forma oscilou. Por um instante, seu contorno distorceu — como Nava fazia. Uma sobreposição de formas, energia e carne. Terry rugiu e investiu contra ela. Mas, no exato momento do contato, ela mudou de posição, ela mudou de forma. Ele atravessou o espaço onde ela estava. Terry despencou.

Seu grito ecoou pelo santuário. Ele bateu as costas na quina de uma plataforma, batendo nas quinas até cair até uma estrutura abaixo de Kodi. Parou ali, gemendo de dor, o corpo retorcido. No alto, Balto, Aleu, Mica e Miriam ergueram os olhos.

A figura colossal nas auroras — aquela silhueta com galhadas — começou a se dissipar. As luzes cessaram. O céu voltou ao normal, mas as plataformas vibraram.

Aleu: SAIAM! AGORA!

Ela saltou. No instante seguinte, a plataforma onde estava se partiu como vidro fino. Miriam puxou Balto pela lateral do corpo.

Miriam: Vamos!

Ela e Mica o guiaram para baixo, saltando de estrutura em estrutura enquanto tudo começava a despencar. Plataformas colidiam entre si. Kodi, vendo que não havia mais como subir, pulou para uma abaixo e dali direto para o gelo sólido. Terry, ainda atordoado, rolou para o lado segundos antes de uma quina de plataforma esmagar o ponto onde sua cabeça estivera.

O santuário inteiro começou a ruir. Rachaduras se espalharam pelas formações de gelo como teias. Os espectros se desfizeram em partículas de neve. As alcateias perceberam.

Jenna: Para a montanha! Corram!

Steele reuniu Muk e Luk e foram até Jenna, para acompanhar ela para fora. Niju acompanhava sua antiga alcateia, sob comandos firmes de Nuk e Yak.

Niju: RECUAAAAAAAAAAAAAR!

Aleu soltou um uivo. Balto reforçou, com chamados de retirada. Neve subiu em nuvens densas enquanto as plataformas finais colapsavam, os últimos a sair eram os cinco que haviam escalado até o topo.

Corriam com tudo desabando ao redor. Fragmentos de gelo despencavam. O chão tremia. Kodi já estava distante. Mica e Aleu saltaram para uma última extensão sólida. Balto vinha logo atrás. No momento em que preparou o salto final, Miriam sentiu o chão sob suas patas ceder.

Miriam: Ah!

Ela caiu para trás. Um vazio se abrindo abaixo dela. Duas mordidas firmes seguraram suas patas dianteiras. Aleu de um lado. Balto do outro. Eles puxaram com força. Miriam foi erguida de volta ao gelo firme. Ela se jogou contra Mica e a abraçou, ofegante.

Toda a montanha se desfez em fragmentos em direção ao chão.

A dor de Balto não passou despercebida.

Quando o grupo finalmente alcançou terreno firme, Steele e Niju se aproximaram. Balto tentou firmar a pata no chão, mas ela cedeu. Niju abaixou-se, examinando com cuidado.

Niju: Isso não é só um corte…

Apalpou com mais precisão. Balto fechou os olhos por um segundo.

Niju: Está quebrada.

Steele manteve o olhar sério. Antes que pudessem dizer mais, ouviram um riso rouco.

Terry: Não é só isso que vai ficar quebrado.

Todos o encararam. Ele sustentou o olhar, furioso, respirando pesado.

Terry: Isso ainda não acabou. Eu vou voltar! E vou terminar o que comecei.

Ian e Tosica trocaram um olhar. Agora viam claramente. Ele não era divindade. Era só alguém que acreditou demais no próprio mito. Terry virou-se e começou a correr, foi para o Norte, desapareceu na neve. O grupo de Ian percebeu que estava cercado por lobos e cães.

Ian ergueu a cabeça.

Ian: Recuar!

Os seus começaram a se afastar.

Ian: Nossa fé não acabou! Um dia os lobos dominarão o Alasca como devem!

Ele gritou de longe. Niju soltou um riso nasalado.

Niju: Lobos já têm o lugar deles. Ninguém vai tirar isso.

Alguns lobos olharam para ele, surpresos, antigos companheiros inclusos. Steele ergueu uma sobrancelha.

Niju percebeu os olhares.

Niju: O quê? Eu só estou dizendo que é ridículo achar que alguém precisa “reinar supremo”. Isso é… exagerado.

Ele limpou a garganta e se afastou, fingindo normalidade. Balto, ainda apoiado em Steele, virou o rosto. Jenna se aproximou e encostou a ponta do focinho no dele, um gesto simples, suave e sem palavras. Kodi veio de um lado e Aleu do outro. A família se fechou em torno dele.

Epílogo.

O retorno a Nome foi silencioso. A cidade estava um pouco destruída.

Tempestades e nevascas haviam passado enquanto estavam fora. Telhados danificados. Estruturas cobertas por camadas grossas de gelo. Cercas quebradas.

Balto caminhava mancando. Boris estava nas costas de Muk, tremendo, espirrando e reclamando do frio que havia tomado.

Boris: Eu prefiro desertos. Ou lareiras. Ou qualquer coisa que não envolva gelo entrando nas minhas penas…

Stella mantinha as asas fechadas contra o próprio corpo, exausta. Todos estavam, cansados.

O cansaço pesava sobre todos. No meio do silêncio quebrado apenas pelo vento distante, Jenna murmurou.

Jenna: Rosy…

Kodi pensou no próprio dono. Muk e Luk trocaram um olhar. Todos, inevitavelmente, olharam para Balto. Aleu olhou para eles.

O peito subiu e desceu devagar. Ela observou cada rosto: A mãe, o pai, Kodiak, tio Boris, Muk, Luk, Stella… aquela família que sempre existiria — mas que nunca a prenderia.

Balto falou primeiro.

Balto: Você pode ficar mais um pouco.

Havia esperança na voz.

Mas Jenna interveio, suave e firme.

Jenna: O destino dela cruzou o nosso de novo… e isso já é um presente.—Mas o lugar dela é na natureza. Liderando. Se transformando.

Ela olhou para a filha com ternura. Aleu sustentou o olhar da mãe. Sabia que era verdade. Eles se abraçaram — um círculo apertado. Kodi juntou-se. Muk e Luk também. Até os gansos entraram no meio.

Stella: Cuidado com as minhas penas!

Boris fungou alto.

Luk: São lágrimas viris! Muito nobres!

Aleu se afastou alguns passos. Ergueu a cabeça e soltou um uivo. Yak vibrou imediatamente, os lobos responderam em uníssono. O som ecoou pelo gelo e pelas montanhas. Steele aproximou-se dela.

Steele: Está aceitando inscrições no grupo?

Aleu inclinou a cabeça.

Aleu: O quê?

Steele: Passei tempo demais sozinho. Acho que meu lugar não é mais na civilização.

Ele olhou de relance para Jenna. Boris piscou repetidamente. Kodi pareceu dividido.

Kodi: Você vai ficar bem?

Steele sorriu de canto.

Steele: Meu antigo dono nunca cuidou muito bem de mim. A natureza… foi a melhor dona que já tive.

Aleu observou por um segundo.

Aleu: Você é bem-vindo.

Ela fez uma pausa.

Aleu: Talvez mais um também…

Olhou para Niju. Ele imediatamente olhou para os lados.

Niju: Eu? Ah… não pensei muito nisso…Mas… ficar um tempo na natureza. Sem sentir que Nava está me observando o tempo todo…

Ele coçou o pescoço e respirou fundo.

Niju: Eu gostei do que Steele fez. Quero tentar isso também. Ficar mais forte. Do meu jeito.

Aleu sorriu.

Aleu: Então venha quando estiver pronto.

Jenna aproximou-se de Steele.

Jenna: Tome cuidado.

Ele abriu um sorriso exageradamente confiante, enquanto andava até a alcatéia.

Steele: O orgulho eu joguei para os gatos.

E deu um sorriso mega-orgulhoso para a ex-namorada. Jenna revirou os olhos. Steele e Balto trocaram um olhar, de respeito.

Aleu olhou para todos.

Aleu: O que estão esperando?

E disparou rumo ao Oeste do Alasca, sendo a primeira a sair correndo. Os lobos correram com ela, uivando no caminho. Balto observou até que ela se tornasse parte da paisagem branca.

Balto: Espero vê-la de novo.

Ele disse baixinho. Jenna encostou-se nele.

Jenna: Parece que o impossível não é mais tão difícil de encontrar.

Boris começou a chorar abertamente.

Boris: Eles crescem tão rápido…

E usou as penas de Stella para assoar o bico.

Stella: EI!

Ela protestou, indignada. Muk e Luk riram. Niju partiu sem muito alarde. Mica e Miriam permaneceram em silêncio até que a poeira emocional começasse a baixar.

Balto aproximou-se delas.

Balto: Vocês não querem… uma nova alcateia?

Miriam trocou um olhar com a irmã.

Miriam: Talvez ainda cruzemos com Aleu de novo. E talvez, nesse dia, a gente se junte a ela.

Mica completou.

Mica: Mas, por enquanto… talvez a gente precise sentir o que é liberdade.

Balto inclinou a cabeça.

Balto: Liberdade?

Mica: Nós fomos chamadas por Aniu. Para reunir você e Aleu. Era nossa função. Nosso chamado.

Mica respirou fundo.

Miriam: Agora não sentimos mais nada. Não sentimos a Grande Loba. Não sentimos direção. Só… silêncio.

Miriam sorriu levemente.

Miriam: E isso é novo para nós. Pela primeira vez, podemos escolher.

Balto absorveu aquilo. Não havia tristeza nelas. Havia curiosidade.

Balto: Então vocês vão…?

Mica: Viver. Como Steele decidiu viver. Como Niju está tentando viver.

Ela se aproximou um pouco mais.

Mica; Quando todos começam a crescer… chega um ponto em que tudo muda ao mesmo tempo. E você é forçado a entender o todo. A dimensão completa desse “novo”. Só assim ele faz sentido.

Miriam assentiu.

Miriam: Nós perdemos nosso clã. Nossa função. Nosso papel. Agora queremos entender o que isso significa.

Mica olhou firme para Balto.

Mica: Talvez você também devesse tentar. Ver a vida como níveis de aprendizado. Sempre crescendo. Sempre expandindo.

Balto abaixou a cabeça. Não como derrota. Mas como quem escuta algo que reconhece como verdadeiro

Balto: Boa sorte… às duas. E obrigado... por me reunir com a minha filha.

Elas sorriram e partiram, sem olhar para trás.

Kodi e Jenna já caminhavam em direção a Nome quando perceberam que Balto não estava ao lado deles. Ele permanecia parado. Sozinho. Observando o horizonte onde todos haviam se dispersado.

Kodi: Pai?

Ele demorou um segundo para responder. Como se estivesse emergindo de um lugar muito profundo. Algo dentro dele havia se reorganizado. Tudo fazia sentido. E, ao mesmo tempo, nada era mais como antes.

Algumas semanas se passaram. A cidade ainda se reconstruía. A neve cobria marcas.

Mas dentro de Balto…Havia algo diferente. Ele nunca se sentira tão deslocado. Jenna havia encarado a natureza de frente. Kodi tinha visto o lado selvagem da própria linhagem. Aleu agora liderava. Steele partira. Niju enfrentava seus medos. Mica e Miriam buscavam significado. Todos estavam em movimento.

E ele? Balto caminhava pelas ruas de Nome como alguém entre dois mundos outra vez. Não rejeitado. Mas também não inteiro. Havia uma inquietação nele. Uma vibração antiga, parecida com os dias em que sonhava com totens e gelo, quando Aleu ainda era pequena. Ele não falava sobre isso, mas sentia, como se um novo ciclo estivesse começando.

Numa noite silenciosa, quando o vento soprava leve entre as estruturas ainda danificadas de Nome, Balto procurou Boris. O ganso estava empoleirado, tentando organizar as próprias penas depois de mais um dia frio.

Balto: Boris…

Balto começou, hesitante.

Balto: Você já sentiu como se a missão não tivesse acabado? Como se ainda houvesse… algo errado?

Boris piscou, segurando a vassoura.

Boris: Errado como? Tipo peixe estragado errado? Ou errado místico e dramático, que é mais a sua especialidade?

Balto soltou um meio sorriso.

Balto: Durante a luta… eu senti coisas. Algo maior do que Terry. Como se aquilo não fosse só aquilo...

Boris inclinou a cabeça.

Boris: Olha… eu sou um ganso simples. Sobrevivo, reclamo, faço discursos inspiradores quando necessário. Jenna provavelmente diria para você descansar. Kodi… talvez entenda melhor essa inquietação.

E Kodi entendeu quando o pai explicou tudo. Os dois caminharam pela borda congelada da cidade.

Kodi: Você está preocupado com Terry.

Disse Kodi, direto. Balto não negou.

Balto: Eu já deixei rivais irem antes... mas Terry… é diferente.

Kodi assentiu.

Kodi: Ele não só lutou contra você. Ele mexeu com coisas que a gente não entende. Nós vimos coisas estranhas. Mas talvez o que ele fez tenha sido mais profundo que um ritual falho.

Balto lembrou da figura nas auroras. Das galhadas.

Kodi continuou.

Kodi: Pode haver mais magia no Alasca do que imaginamos. E se houver… Terry pode procurar outra fonte. Outro poder.

Balto respirou fundo. A pata ainda enfaixada doía, mas ele falou como se fosse natural.

Balto: Eu preciso ir.

A palavra saiu pesada. Melancólica. Kodi olhou para o pai por um longo momento.

Kodi: Atrás dele? Eu sei.

Balto: Você sabe?

Kodi: Também concordo que senti algo estranho... não era nada natural.

Ele entrou em casa e voltou com algo nas mandíbulas. Um cachecol ruivo. Semelhante ao que Jenna dera a Balto em sua primeira grande missão. Kodi colocou-o ao redor do pescoço do pai.

Kodi: Você conhece o Norte melhor do que qualquer um em Nome. Se alguém pode descobrir o que Terry está fazendo… é você.

Balto tocou o focinho no do filho.

Balto: Vou apenas reconhecer a área. Ver se ele realmente desistiu dessa loucura de “supremacia”.

Kodi assentiu.

Kodi: Eu aviso a mamãe.

Antes de partir, Balto foi até o barco onde sua família descansava. Boris percebeu imediatamente. Ela não tentou impedir, apenas se aproximou quando ele falou com os outros.

Boris: Sozinho?

Balto: Preciso confirmar que isso acabou.

Ela encostou a testa na dele, de Boris.

Boris. Então volte.

Ele encostou a asa ao redor da nuca de Balto e ele sorriu. Sem discursos.

Boris: Vá! Confirme que nenhum lunático místico pretende destruir o equilíbrio natural. Depois volte para que possamos ter uma vida tranquila e sem apocalipses, por favor.

Ele deu de costas e saiu andando, falando bem dramático. Stella ajeitou as asas.

Stella: E dessa vez, tente não quebrar mais nada. Incluindo você.

Balto sorriu. Então se virou e correu. A pata doía ainda, mas não ligava. O vento do Norte o recebia. Mas o coração estava firme. Enquanto sua silhueta desaparecia na vastidão branca, ficava claro: A batalha havia terminado. A guerra, talvez. Mas a jornada de Balto... a lenda... estava apenas começando. Ela não é apenas sobre vencer. É sobre entender. O Sol estava se pondo. E mais um capítulo de sua saga se encerrava —

Com outro começando no horizonte gelado.

FIM...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.