Ballroom for ghosts
2 Matar é uma Arte
Notas iniciais
Vi em seus olhos o que havia procurado durante toda a vida: a paixão pela arte. Não o falso fascínio pelo lixo que vendem aos tolos como Arte Contemporânea, mas o amor pela genuína arte que nos foi dada por Deus. Sinto meus lábios estremecerem, mas não existe em mim a vontade de sorrir, apesar dessa grande ironia. Estes mesmos olhos apaixonados significavam agora o meu fim.
Tornei-me a tela e meu sangue a tinta. A brisa pincela em mim os retoques finais desse sádico quadro e a vida que escorre de mim a cada segundo faz-me sentir cada vez mais como uma escultura de pedra, gélida e cinza. No entanto, logo serei uma obra de arte caída no esquecimento, oculta sob musgo e terra para nunca ser descoberta.
Ouço o estalar dos galhos, quando ele se aproxima do meu corpo caído sobre as folhas secas do velho carvalho, e luto comigo mesma. Preciso acordar, preciso fugir, mas meus olhos parecem pesar cada vez mais e me rendo à dor lancinante perdendo os sentidos.
Desperto com o doce e áspero toque do diabo. Fui tola em crer que naquele dia perfeito nada daria errado. Agora sou uma mera mosca presa nas teias dessa aranha sedutora e ardilosa que fez de mim sua nova fonte de prazer. Sinto ele dançando sob o luar carregando-me em seus braços quentes como uma pequena boneca, frágil e incapaz de reagir. Sua alegria em minha dor é insuportável. As lágrimas escorrem de meus olhos, finalizando a composição desse obscuro cenário. Em minha mente despeço-me de tudo e rendo-me finalmente.
Encontraste na morte o que precisava para prosseguir vivendo. A arte ressurgiu em sua vida que desmoronava e perdeu-se para sempre da minha.
Lixo e arte. Vida e morte. Tudo é uma mera questão de perspectiva.
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