Ballroom for ghosts
4 Até o Fundo do Rio
Notas iniciais
Desperto sentindo fortes náuseas. Meu estômago parece dar cambalhotas e sinto-me prestes a vomitar, mas quando o faço sinto apenas o gosto amargo do suco gástrico de um corpo que não se alimenta há dias.
Fecho os olhos com força, como se fosse melhorar. Então lembro-me de tudo, do batom antes de subir no palco, do homem estranho que encarava-me fixamente, da mão que puxou-me para aquela rua deserta e do desespero de não conseguir respirar.
O vento gelado faz meu torso arder, só então me dou conta que estou nua. Ergo a cabeça devagar, temendo o que meus olhos esperam. Sobre minha pele vejo desenhos feitos com sangue, meu sangue. Cortes por todo meu corpo formam símbolos abstratos e com o canto do olho vejo minhas roupas rasgadas e manchadas com o vermelho que brilha sob a luz do luar.
Então ouço um assovio baixo ao longe, reconheço a música que havia cantado mais cedo naquela noite. O assovio vai aumentando gradativamente e logo começo a ouvir também os passos que se aproximam mais e mais. Sinto-me arrepiar, temendo a morte que parece dançar tão próxima de mim. Tento virar para encarar meu raptor, mas as cordas estão tão apertadas que o mais leve movimento faz com que meu corpo estremeça com a dor. Sinto minha carne exposta em contato com o ar gelado da madrugada e quase perco os sentidos.
Seus dedos acariciam-me a cabeça, e em um puxão forte, ele prende todos meus fios em suas mãos. O grito rouco explode pra fora de mim, incontrolável e desafinado, mas não parece vir de mim, isso parece tudo um pesadelo. Um pesadelo muito ruim.
Ele recomeça a assoviar enquanto arrasta meu corpo pelos cabelos para perto do lago e eu tento protestar sem sucesso. Minha voz esconde-se em minha garganta, temendo tanto quanto eu o que me espera no final desse caminho. Quando ele para ao lado do barranco, consigo ver o chapéu preto que esconde suas feições. Ele ergue o rosto alguns centímetros e consigo ver o sorriso macabro se formando.
“Bon voyage, m'dame”
É o que ele sussurra no meu ouvido antes de jogar-me rio abaixo.
***
— Pobre moça. Morta tão jovem e de forma tão cruel.
— Tinha mais é que morrer mesmo! Não se deu o respeito! Imagina só, ficar andando pelas ruas essas horas da madrugada.
— Tinha tanto para viver ainda...
— Viu o estado do corpo dela?
Todos aqueles comentários enojavam-me. Tinha ódio e asco ao mesmo tempo da maldade dos comentários de algumas pessoas e de outras que falam coisas "boas", mas só queriam ter sua curiosidade saciada.
Todos acharam que ele era apenas mais uma vítima do Diabo Sedutor, mas eu sabia que não. As características da morte eram completamente diferentes, desleixadas e amadoras. O Diabo Sedutor era claramente um artista, um gênio. Nunca deixava um resquício sequer de si nos corpos que colocava de propósito em lugares específicos para que nós, da polícia, achássemos. Enquanto esse assassino, descuidadamente, deixou em sua vítima algo de si. Não muito, mas o suficiente para que o encontrássemos.
Duvidaram de minha opinião por dias e por dias perseguimos uma identidade falsa, e, quando finalmente o localizamos, o legista finalizou os exames concordando comigo. Definitivamente não era a mesma pessoa.
O Diabo Sedutor era extremamente perfeccionista, fazia cortes cirúrgicos e nunca deixava marcas nos corpos de suas vítimas. Ele deixava obras de arte, uma arte mórbida e sem igual. Enquanto o imitador se divertiu com um objeto afiado no corpo daquela pobre coitada que encontramos irreconhecível no fundo do lago.
Apesar de afirmar durante todo o interrogatório, sabíamos que ele mentia ao dizer que era o Diabo Sedutor. Mas era uma confissão e isso apenas atrapalharia ainda mais minha perseguição ao verdadeiro assassino serial.
— E agora, chefe? O Diabo Sedutor é como um fantasma! Não deixa rastros, não deixa marcas ou digitais, ele simplesmente faz parecer que não esteve lá! E para piorar esse idiota está confessando! Temos muito inimigos aqui que farão de tudo para atrasar nossa investigação.
— Não vai ser nada fácil. Ir atrás dele é mais difícil que ancorar um navio no espaço. Mas não podemos desistir! Enquanto conversamos ele já deve ter escolhido sua próxima vítima.
Mal sabíamos nós o quanto estávamos certos.
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