Tudo estava silencioso, mas não na cabeça de Rafael.
Sua mente procurava possibilidades para o que estava acontecendo, para que criatura seria responsável pelo massacre do Arsenal de Dário. Como também estava perdida ao relento. O grupo andava calmamente, com todos distante dele, que liderava a caçada metros à frente. Sempre buscando seguir os rastros deixados pelo responsável, como também para averiguar a situação. Seus olhos e ouvidos atentos buscavam ruídos, grunhidos, rugidos ou o simples som de bater de asas. Mas apenas conseguia ouvir a conversa paralela do grupinho atrás de si.

O céu límpido sobre sua cabeça, com nuvens brancas deslizando sobre o azul lhe acalmava. O dia estava perfeito, e a ausência de nuvens carregadas ajudava. Sem trovoadas para atrapalhar sua percepção, ou céu escuro para atrapalhar sua visão. O ar que encheu seus pulmões era puro, limpo e revigorante. Não dá para culpá-lo por perder a atenção, se deixando levar pela bela natureza que o rodeia. Não é todo dia que alguém tem a possibilidade de vislumbra-la, ou mesmo de parar para senti-la.

Mas ele não devia estar fazendo isso.
Quando voltou a si, percebendo que tinha se demorado alguns segundos, ou minutos, nessa admiração ao céu, notou que havia deixado de olhar para baixo. Para os rastros que deveria seguir. Metros se passaram, e quando seus olhos voltaram para baixo, os rastros não mais estavam lá.

— Droga. — praguejou.

Virou-se para trás.
E ao virar, seus olhos encontraram algo diferente em um prédio paralelo a rua em que estavam. Através de uma janela, uma silhueta cintilante passava no escuro. Cintilava como uma pedra ônix. Ele conhecia esse cintilar. Ele viu criaturas dracônicas demais para reconhecer o cintilar da luz em escamas. Era um dragão! Era alguma espécie de dragão!

Droga! Merda! Merda! MERDAAAAAAAA!!!!

Sua mente inundou-se de pensamentos.
Em fronte a ele, estava seu grupo, caminhando tão casualmente em uma conversa produtiva. Mas logo ao prédio, ao seu lado, vinha um perigo. Ele não sabia o que fazer! Ele deseja alertar seus companheiros, mas como fazer isso sem alertar o perigo? Ele poderia correr até eles e avisar sorrateiramente, mas não daria tempo. Até ele chegar, a criatura já teria escapado do prédio e os encontrado. Poderia também fazer sinais, mas até perceberem e entenderem o que quer dizer, seria tarde demais. Fazer barulho talvez funcionasse, mas novamente teriam que entender rápido o suficiente, e tempo não é algo que ele tinha a sua disposição.

Ele não teve escolha.
Ele precisava gritar. E fora o que fez, iniciou sua corrida rumo ao grupo, e soltou a todos pulmões.

— CORRAM — gritou ele, correndo.

O grupo teve sua atenção roubada pelo grito de alerta, e sua atenção fora diretamente para o loiro que vinha correndo. Ele gesticulava, apontando para o prédio à direita do grupo.

— SAIAM DAÍ! — alertou. — TEM ALGO NAQUELE PRÉDIO!

E seu alerta fora bem recebido. O grupo imediatamente virou-se para o prédio. Tiveram a reação de procurar o perigo antes de começar a correr. Mas o que lhes faltava era tempo. Tempo esse que eles não tiveram sequer para processar o prédio, pois logo que este surgiu diante de seus olhos, um som estrondoso de uma pancada sobre metal lhes enchia o ouvido.

Clara e Daniel apenas sentiram uma brisa soprar sua pele e balançar os cabelos longos dela. E o grito cortado de Dave para lhes mostrar o que realmente tinha acontecido.

Uma porta fora arremessada, vindo do prédio, que acertara em cheio o corpo de Dave e por sorte não atingiu os dois próximos a ele. A força da porta fora tamanha que arrastou o corpo já sem vida dele, até que ficasse preso contra um carro. A porta atravessando seu corpo e quase partindo-o ao meio.

Dave estava morto, e eles sequer conseguiram gritar. Seus olhos buscavam entender o acontecido, e após ver o fim trágico de seu companheiro, mesmo que não adorado, procuraram a resposta para aquilo e seus olhos a encontraram. Era uma criatura, saída das trevas daquele prédio. Seu porte era grande, robusto. Com um pouco mais de três metros de altura. Um corpo coberto por escamas de um tom verde cinzento, eram escamas bem escuras em contraste com as em um tom de cinza mais claro, que cobria seu peitoral e papo, assim como a palma de suas mãos. Por que sim, a enorme criatura possuía braços, pernas, cinco dedos em suas mãos e um pescoço. A visão de um dragão antropomorfo iria chocar para sempre aquelas almas.

Mas eles sequer puderam prestar tanta atenção no corpo daquela fera, sua atenção rapidamente focou-se nos olhos da criatura. Eram vermelhos, um rubro sangue que parecia ver através de sua carne. Através de seus ossos, de seu sangue, encarando suas almas como um predador encara sua presa. Mas nem isso eles eram. Pelo menos não hoje. Com seus passos pesados, a fera virava-se e iniciava uma caminhada rumo ao seu próprio destino, ignorando-os.

Por algum motivo, a criatura em seu tamanho singelo, comparado ao dragão que viram anteriormente, conseguia amedrontar seus corações de uma forma que o rugido daqueles dragões não foram capazes. Clara sentiu um calor escorrer por suas pernas. Era urina que havia escapado, fora o medo de presenciar uma coisa nova. Uma coisa que não estavam preparados. Tanya caiu de joelhos, queria gritar mas sua voz não saía. Sentiu-se muda quando pela primeira vez queria gritar com todos seus pulmões. Doug paralisou, mas fora o único que rompeu o silêncio.

— O-O-Olhos... — o medo estava em sua voz, gaguejando descontroladamente. — ... v-v-ve-vermelhos. O OLHOS VERMELHOS!

Ele gritou em transe, perdido no próprio medo. A lenda, a lenda estava viva. Tudo aquilo que lhe aterrorizou na infância estava bem diante de seus olhos. E talvez só ele fez aquela ligação, ou talvez o único que conseguiu pensar.

Rafael não sabia o que fazer, viu perfeitamente a morte de Dave, como a criatura revelando-se da penumbra e travou. Pela primeira vez em anos, ele sentiu o genuíno medo. O medo lhe correu a espinha e travou suas pernas. Seu peito apertou e o ar parecia não encontrar o caminho para seus pulmões. O choque, o medo, o pavor. E ele não era o único, todo o grupo estava assim. Principalmente Daniel, que chocado com a morte do irmão, não sabia como reagir. Mas fora o grito de Doug que despertou todos do horror. E talvez eles devessem ter permanecido nele por mais tempo.

Desperto, Daniel ensandecido avançou contra a criatura. Retirou da mochila o revolver que usara outrora para ferir um dragão, e tentou disparar contra o corpanzil daquele ser bípede. Mas não importava quantas vezes apertava o gatilho, nada acontecia. E gritando ele o jogou contra a criatura, que ignorou. Se aproximou dela e a golpeou com sua machadinha, usando seu único braço bom para tal. Talvez pela sua falta de força ou de precisão, ou pela resistência de suas escamas, mas o choque da lâmina contra as escamas terminou mal para a machadinha. Ela trincou, e sequer o arranhou.

Se ele queria a atenção da besta, conseguiu.
Ela virou-se para ele e alcançou sua cabeça com uma das mãos. Sua mão era enorme, fora capaz de agarrar perfeitamente, com o polegar cortando em sua testa e os outros dedos em sua nuca.

— SOCORR — seu pedido de ajuda fora cortado por um som característico. Como o estilhaçar do vidro de uma janela.

Os dedos grossos da besta amassaram o crânio de Daniel, espirrando sangue e massa encefálica pelo seu braço e chão. O corpo dele caía sem vida, batendo pesado contra o chão de concreto. E fora quando a besta abriu sua boca, e os dentes enfileirados deram espaço para um rugido que atingiu o grupo como um martelo. Todos entenderam o porque do medo incomum. Todos eles entenderam o medo que seus antepassados sentiram quando viram um dragão pela primeira vez. Era a sensação de impotência, de fraqueza. Sentiram-se verdadeiros coelhos encarando um leão. Era a morte certa. Um predador que não estavam preparados, e não poderiam! Após a grande guerra cresceu o sentimento de poder dentro de cada um deles, em cada um dos humanos. Que agora podiam enfrentar os dragões, eles não eram mais coelhos.

Eles precisavam correr. Precisavam alertar dessa nova ameaça, mas não conseguiam mover as pernas, elas estavam pesadas como se fossem de concreto. E graças ao Daniel, a criatura os percebeu. O Leão iria caçá-los como coelhos fujões, e sequer tinham forças pra correr.

Quando a besta deu seu primeiro passo rumo ao que restou do grupo, Clara, Doug e Tanya, Rafael impôs sua vontade como líder e avançou para defendê-los. Mas seu corpo lhe traiu. Ele tentou golpear o peito da fera com sua enorme espada, mas a força não estava em seus braços e sim em suas pernas. Seu corpo implorava para que ele corresse e não lutasse. E o resultado fora óbvio. A fera segurou a lâmina metálica e a quebrou com um simples movimento. Ela era forte demais, eles não tinham a menor chance, talvez nem um dragão tivesse chance. Ele ia morrer.

Seu corpo fora agarrado pelas mãos firmes da besta, e a dor inundou seus sentidos quando os dentes desta cravaram em sua clavícula. Sentiu seus ossos quebrarem com a mordida e o sangue jorrar dentro de seu corpo. O hálito dela estava tão próximo, e a sensação áspera das escamas roçando em seu pescoço foram as últimas coisas que seu corpo sentiu. A criatura recuou, trazendo consigo carne e ossos do corpo de Rafael, e ela sequer se deu o trabalho de mastigar. Apenas cuspiu fora. Ele não era uma caça, era apenas um pequeno animal no caminho.

E nos últimos momentos de vida, enquanto seu corpo tombava contra o concreto. Ele lembrou de suas aspirações, seus desejos. De cada momento de sua vida, de quando perdeu seus pais, seu irmão. Quando viu sua namorada ser devorada. Lembrou do início da missão, lembrou dos mortos no Arsenal do Dário. Ele entendeu por que estavam todos mortos, não tiveram chance. Lembrou de Clara sugerindo que voltassem, e lembrou de sua atitude egoísta ao ignorar seu apelo. Todos iriam morrer, e a culpa era dele. Esse fora o peso sobre seus ombros quando o último suspiro de vida escapou por seus lábios.

Os passos da criatura seguiram, e o simples som deles aterrorizaram o trio sobrevivente. Ele vinha em sua direção, e eles não tinham a menor condição de correr, de gritar. Clara estava em choque, suas calças manchadas por urina, fezes, ela não era a única que tivera o corpo traindo. Mas naquele momento esse desconforto já não era importante. Ela tremia, tremia de medo, tremia sabendo que morreria, que os dois ao seu lado morreriam, e que ela precisava fazer algo a respeito. Mas ver todos morrendo tão rapidamente, ela tinha mesmo chances de fazer algo? Ou morreria como os outros? Ela precisava tentar.

— Doug! Tanya! Corram! Vocês precisam fugir, precisam avisar os outros! — ela pedia, quase gritando para que eles ouvissem.

Suas mãos pegaram o arco, a flecha e preparava para atacar. Mas sua atenção não estava na besta, e sim nos garotos. Doug despertara do transe, do choque, e tentara fazer o mesmo com Tanya. Eles precisavam se salvar.

Ele chacoalhava a garota, que aos poucos voltava seus olhos para ele e então começava a reagir.

— Tanya! Acorda! Rápido, a gente precisa fugir! — ele suplicava com voz chorosa.

— D-Doug... — ela ainda estava confusa.

E a realidade lhe bateu como um martelo. Quando tentava entender o que estava acontecendo, um líquido quente lhes molhou a face. Era sangue. Mas sangue de quem? A resposta foi óbvia. Olharam para o lado e viram o corpo de Clara, rasgado caído ao chão. E apenas subiram um pouco o olhar para encontrar os olhos vermelhos daquela criatura. Ele estava os encarando. Como se esperasse uma ação, uma reação que lhe desse alguma resposta. E ela veio quando Doug se colocou a frente de Tanya, com os braços abertos. Estava protegendo-a.

E algo surpreendeu a dupla. A besta recuou. Ainda os encarava, mas não atacou. E isso confundiu a mente deles. E ela ficou ali, os olhando.

A dupla pôde ver melhor o corpo dele, daquele monstro. Havia algo em suas escamas. Havia uma segunda tonalidade, ainda mais escura, que parecia desenhada sobre seu corpo. Eram disformes, formavam desenhos e símbolos que Doug não compreendia. Mas Tanya conseguia distinguir um ou outro. E isso a deixou nervosa. Suas mãos foram até seus braços, puxaram suas mangas longas, e encarou sua pele. Seus braços possuíam o mesmo padrão. As mesmas marcas. Desenhadas em negro sobre sua pele, como uma tatuagem. Era a marca da maldição. Pelo menos era como ela chamava. Aquelas marcas fizeram dela órfão.

— Você... — ela sussurrou.

— Tanya? — perguntou Doug.

— Essas marcas... — ela se levantou, ainda com as pernas tremendo de medo. — Você... você consegue me entender?

A besta a encarou. E com as íris cortadas, ele inspecionou a garota que mostrava alguma coragem.

— Eu entender. — sua voz ecoou como um rugido bestial no ouvido dos dois. E eles não sabiam se tinham mais medo ou alívio por ela ser capaz de falar.

— Você... o que são essas marcas? — ela perguntou, apontando para o corpanzil da criatura.

— Não importar. — ele era duro em sua forma de falar.

— Você tem nome? — perguntou Doug, ainda tentando se manter entre Tanya e o monstro.

— Eu ser chamado Balaur. — ele respondeu e tombou a cabeça. Parecia um animal curioso, encarando os dois. — Vocês saber onde estar pedra? — perguntou por fim.

— Pedra? Que pedra? — Tanya perguntou, confusa. — Essas marcas! O que são elas? — insistiu.

Balaur pareceu desapontado ao receber aquela resposta. Sua respiração bestial escapou em um suspiro longo e pesado. Ele virou de costas e abandonou o casal.

O garoto respirou aliviado com a partida de Balaur, enquanto Tanya estava frustrada com a falta de respostas. Eles permaneceram ali, parados por alguns minutos até conseguirem se recompor. Lágrimas juntavam-se com o suor, e o cheiro dos mortos misturava-se com o cheiro de urina e fezes. Seus companheiros estavam mortos e eles sequer tiveram tempo para chorar por eles. Pelo menos por Clara, que era a única ali que os dois tinham afeição.

— Por que ele não nos matou? — perguntou ela, ainda confusa.

— Não sei. — ele torceu os lábios, pensando numa resposta. — Fomos os únicos que não tentaram atacar ele.

— Será? — Tanya recostou a cabeça no ombro de Doug.

— Talvez. — ele respondeu, beijando os cabelos dela. — Vem, temos um longo caminho até a base.