Notas iniciais
Olá, após um bom tempo sem escrever, eis que encontro (ou reencontro) uma plataforma que nos motiva a escrever.
Espero que os amigos gostem. Se possível, deixem aquele comentário maroto. rsrs

Abraço.

Daniel não parava de tossir. Abriu a porta do carona, curvou o corpo para baixo e tossiu ruidosamente até que finalmente escarrou sangue. Júlio se irritava com tudo aquilo. Virou o rosto para o lado e aumentou o volume do rádio para que não tivesse que ver ou ouvir o branquelo colocando um pedaço do pulmão para fora. Foi a vez de Daniel se irritar.

–O que há negão? Por acaso estou te incomodando? — Enquanto dizia isso, limpava do queixo o resto de sangue com um lenço atirado pelo homem negro que dirigia o carro. Júlio o encarou por um minuto, primeiro com uma expressão de nojo, mas logo um sorriso cínico despontou no canto da boca.

–Claro que não meu caro – respondeu simplesmente – Não sou que estou colocando a porra do meu sangue para fora pela boca não é mesmo? Você deveria largar essa porcaria de cigarro. Essa merda vai acabar te matando. – Agora era Daniel quem sorria.

– Vai acabar me matando não é? Vamos, ligue essa merda. Já estou melhor.

–Se você diz – Júlio de partida no monza preto. O carro saiu vagarosamente da frente do prédio onde Daniel morava, ou se escondia, como Júlio dizia – Sabe, nós temos que dar um jeito nessa merda – começou a dizer de forma impaciente – Não dá para eu ficar vindo aqui nesse buraco te buscar toda vez que tivermos um serviço. Não sou teu motorista.

–Claro que não – respondeu, sorrindo – Mas desempenha muito bem o papel não é mesmo?

– Estou falando sério. Essa porra tem que mudar.

– De acordo! Ou quase. Acontece que ainda não tenho grana para comprar um carro. Você sabe, seu querido chefe ainda não me pagou...

– Que se foda! – o interrompeu abruptamente – Comece então a pegar a porra de um ônibus.

– Claro. E o Lúcio vai gostar de saber que um dos seus sai para fazer um serviço de ônibus.

– É... Isso é... –disse Júlio — Lúcio gosta que sua gente ande com estilo não é mesmo?

– Eu suponho que sim... – Daniel conteve-se para não rir. O carro de Júlio era bem cuidado, sem dúvida. Mas estiloso? Ora, era um Monza. – E se o patrão quer assim...a gente faz e pronto. Não é mesmo? Eu não não quero, e sei que você também não quer, que o seu amigo Daniel aqui seja jogado debaixo de um trem, não é mesmo? – Daniel deu um sorrisinho malicioso. Júlio lhe deu uma olhada e retribuiu o sorriso.

– Mas ora vejam só se não temos um filho da mãe antenado aqui. E isso com apenas um mês na família. Como ficou sabendo dessa porra?

– Ouvi uns seguranças lá da boate falando a respeito….

– Ora aqueles putos! Em vez de trabalharem ficam a porra do dia inteiro fofocando como garotinhas...

– Que se fodam eles. Vamos lá, eu sei que você está por dentro da história. Ele jogou mesmo o cara debaixo do trem?

– Jogou nada garoto! Um mês inteiro comigo e você não aprendeu nada? Ele é o chefe! Ele é Lúcio. Ele não faz. Ele manda fazer! – Daniel o encarou pensativo por um momento, e então arregalou os olhos, como se tivesse se dado conta de algo.

– Puta merda!– Exclamou surpreso – Foi você! – Júlio gargalhou alto antes de responder.

– Sim seu merdinha. Mas não fiz sozinho. Lucas era um moleque ainda, é verdade. Mas era forte. Deu trabalho para cacete. Deitou alguns antes de cair. Mas eramos muitos.

– Fala sério…. Mas diz aí, não te deu remorso matar o cara?

– Remorso? Remorso por causa de que? Ta de sacanagem? Estou por aí a tempo demais para sentir remorso por uma besteira dessas.

– Sim. Mas o moleque era dos nossos não? Estive com ele poucas vezes…. Você sabe, eu sou novo. Mas ele já fez alguns serviços com você não é?

– Fez! Diabos! Se fez. O garoto era bom. E era bacana também. Sem falar na delícia que é a irmã dele. Eu to comendo – acrescentou com um sorriso – Mas essa é uma boa pergunta. Essa porra, essa merda toda – disse fazendo um gesto com a mão direita, sem tirar a outra do volante – Isso é tudo um negócio. Amigos, amigos, você sabe, negócios a parte.

– Você não me mataria não é negão? – Mais uma vez Júlio gargalhou alto.

– Pode apostar essa sua bunda branca que sim garoto. Mataria com toda a certeza. É você fazer uma cagada bem grande, uma daquelas que lambuzam toda tampa do vaso de merda sabe? Daquelas que deixariam o Lúcio puto da vida contigo, a ponto de querer você fora da jogada. Se ele me mandasse... Eu faria.

– Não fala sério.

– Jesus! E como eu falo. Sua vida não vale mais do que a minha, boneca. E você também me mataria se o Lúcio mandasse. E se você fosse esperto o suficiente. Considere essa uma lição do seu amigo Júlio aqui.

– Ok – disse, fingindo não dar atenção, mas estranhamente desconfortável internamente com a lição. Mesmo por trás do sorriso cínico rotineiro de Júlio, Daniel percebeu a seriedade com que o companheiro pronunciara aquelas palavras – Mas diz aí o que moleque fez para ter merecido ir parar debaixo do trem.

– Ah, essa é a questão – disse – É até engraçado, se você quer saber….

– Diz aí!

– Bem talvez não seja engraçado. Não definitivamente não é. É meio trágico. Uma puta sacanagem na minha opinião.

­– Você vai me contar ou não?

– Não vejo por que não garoto novo. Mas só se você pedir com educação. – Daniel semi cerrou os olhos azuis, pensativo. Júlio obviamente sentia prazer em provocar o novato.

– Por favor, me conte a porra da história! – Júlio sorriu.

– Que é isso rapaz? Você não tem orgulho? Um pouco de orgulho lhe faria bem.

– Não, não faria. Não nesse trabalho. E quanto a história?

– É não te faria bem mesmo. Bem, Lucas morreu porque beijou a mão da mulher do patrão.

Um segundo de silêncio.

– Como assim? – quis saber, perplexo.

– O que quer dizer com ‘como assim’? É simples, ele beijou a mão da primeira-dama e foi parar debaixo do trem.

– Porra! Que merda. Por uma besteira dessas?

– Pois é garoto. Que fique de lição (estou lhe dando muitas lições hoje não é mesmo?), ninguém toca na fêmea do patrão.

O carro parou. Havia chegado a seu destino. Daniel olhou para casa em frente da qual pararam. Era um lixo muito pior do que o lugar onde morava.

– Então é aqui?

– É aqui. Está ciente da situação?

– Sim. Bandidinhos de merda vendendo porcarias para crianças no território do Lúcio. Tem uma “Cozinha” no porão. É entrar, matar e queimar.

– Perfeito. Vai dar conta? Não vai começar a botar a porra dos pulmões para fora e melar a coisa toda? – disse Júlio. A primeira vista poderia parecer apenas mais uma implicância, mas Daniel o encarou e percebeu que ele estava sério.

– Não. Não se preocupe! – Daniel puxou o ar com o nariz com força, como que para confirmar para si mesmo que seus pulmões estavam bons – Sim. Não vai dar merda. Mas eu pensei que eles fossem se recuperar mais rápido.

– Câncer não se recupera assim.

– Eu sei. Mas você sabe, na nossa condição eu não sei bem o que esperar.

– Ninguém nunca sabe. – Júlio abriu a porta e saiu do carro. Daniel o seguiu. Caminharam devagar pelo jardim, se dirigindo à porta da casa.

– Mas até que dá pra entender – Júlio o olhou – Você sabe, o lance do trem. Parece até razoável, se você pensar bem.

– RAZOÁVEL? Alguém beija a mão da sua mulher e você o joga debaixo do trem?

– Bem… Um beijo na mão pode significar muitas coisas.

Júlio parou de andar e mais uma vez o encarou.

– E o que é que a porra de um beijo na mão pode querer dizer? Foi uma puta sacanagem! Eu não me importo de ter que matar alguém, mas que seja por um bom motivo, pelo amor de Deus!

– Está dizendo que não tem nada demais um cara beijar a mão de uma mulher?

– Porra! Claro que não! Eu beijo a mão da minha avó. ‘Bença vó!’. Smack. Um beijo na mão. Me ensinaram assim. É respeito!


– Ora, você está misturando tudo. Beijar a vó é uma coisa…. Mas uma mulher? Uma que você quer comer? É diferente.

– Uma mulher que você quer comer? Chega desse assunto. Não repita essa frase nunca mais a respeito de você sabe quem. Essa maldita conversa não existiu. Estamos claros? – Daniel não se deu por satisfeito.

– Você beijaria a mão de um homem?

Júlio parecia realmente irritado.

– Ora, qual é? Não tem maldade não é mesmo? – insistiu o novato.

– Vamos em frente – e recomeçaram a andar.

– Ora, qual é? Esse negócio, você tem que admitir, parece coisa de gangster não é? Você beijaria a mão de Lúcio? ‘A sua benção padrinho’!

– Cale-se garoto! Eu tenho um limite para idiotices e matraquices. Além disso, nós já chegamos – disse, parando em frente à porta – Está pronto?

– Se estou! – confirmou, olhando para lua cheia acima deles.

– Então vamos lá – Caninos despontaram dos dois. Com um poderoso chute Júlio derrubou a porta. Três bos tinhas armados com semiautomáticas esperavam por eles. Traficantes de merda vendendo lixo para crianças no território de Lúcio. Uma saraivada de tiros atingiu aos dois companheiros. Isso não os parou. Sangue derramado, ossos quebrados e alguns membros dilacerados. Mais bandidos surgiram do segundo andar, alarmados pelo tiroteio e pelos gritos de desespero. Tanto melhor para Júlio e Daniel. Era uma noite linda. Ideal para uma matança.

Notas finais
Então, o que acharam? Mais informações a respeito de Daniel no próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.