Bakumatsu

15 Matsumo Tokugawa


Notas iniciais
No capítulo anterior: "– Com você sentado na cadeira do imperador. - Completou Kenshin. – Não! Alguém muito mais popular... Alguém que já governou este país uma vez. Alguém que você ajudou a derrubar! Kenshin arregalou os olhos dourados de forma meio atordoada: – Não é possível... Ele está morto! – Você está errado de novo, Himura... Errado de novo..."

Kenshin fitou Saitoh com um olhar extremamente confuso. A notícia havia se espalhado rapidamente, e todos os guerreiros da revolução souberam da morte de Ieyasu Tokugawa e da queda do governo shogunal em questão de dias. Com a morte do shogun, Kenshin e os outros soldados do Ishin Shishi se auto-proclamaram vencedores e o Bakumatsu chegou ao fim. Se Ieyasu estava morto, como poderia re-ascender ao poder?

Saitoh observava Kenshin, absorto em seu próprios pensamentos, com um discreto sorriso no rosto. Kenshin sacudiu a cabeça negativamente e reergueu seu olhar gélido e calmo em direção à Saitoh.

– Ieyasu Tokugawa... O Shogun Tokugawa... Está morto! Não entendo como você unificará o governo na figura de um impostor, Saitoh... Não pode declarar uma pessoa morta para um cargo tão grande como o de Shogun. Seria muito mais esperto se auto-proclamar o imperador...

– Kenshin... Meu caro Kenshin... — Saitoh deu as costas ao ruivo e caminhou em direção a uma porta que se encontrava no outro canto da sala. Acima da mesma, Kenshin reconheceu um símbolo interessante, adornado em uma placa de metal dourado e em perfeito estado de conservação. — Ví com meus próprios olhos, o corpo sem vida de Ieyasu Tokugawa. Não é dele que estou falando... Estou falando de alguém igualmente influente. — Saitoh concluiu depois de se apoiar na parede, próximo à porta.

A placa dourada não saíra da cabeça de Kenshin desde que ele a encontrou suspensa sobre a porta. A imagem entalhada era idêntica ao selo que lacrava a carta encontrada sobre o corpo do conselheiro de Yamatsui, em Kyoto. A mesma espada com lâmina de cobra... Saitoh percebeu a fascinação de Kenshin pela imagem.

– É belo não é mesmo?? Este símbolo, eu quero dizer... A idéia foi minha, a execução da marca ficou à cargo do rapaz a quem irei lhe introduzir neste momento.

Dizendo isso, Saitoh puxou vagarosamente a porta de madeira, revelando uma outra sala muito grande. As paredes eram enfeitadas com espadas japonesas estilizadas. Algumas lâminas apresentavam imagens de cobras em alto relevo, outras possuíam a guarda e cabo enfeitados com pedras preciosas muito brilhantes. O chão de madeira estava impecavelmente encerado e conservado, demonstrando que aquele deveria ser um cômodo muito especial do templo. Ao fundo, quatro lamparinas iluminavam uma cadeira alta feita de carvalho e nela, assentado de maneira imponente, um jovem.

Saitoh adentrou à sala seguido por Kenshin que, de maneira meio desconfiada, mancou em direção ao "trono" erguido no fundo da sala. Conforme ia se aproximando do rapaz acomodado na enorme poltrona, Kenshin foi visualizando o mesmo de maneira mais detalhada.

O cabelo era raspado na frente e no topo, mas trazia uma longa trança negra que caía sobre os ombros e descia pelo peito, terminando próximo da cintura do rapaz. O corpo era magro, possuía alguns traços atléticos e era queimado do sol. Algumas manchas mais claras, resultantes de seguidas queimaduras solares, se espalhavam pelos ombros e braços do rapaz. O rosto magro e as orelhas grandes lembravam um outro homem que Kenshin vira uma única vez, quando tinha perto de seus onze anos de idade. O rapaz trajava apenas uma calça larga e surrada, deixando a mostra o tórax pouco trabalhado e a enorme tatuagem de cobra, que subia por seu tronco desde a linha da cintura. Na altura do peito do rapaz, a cobra abria a boca mostrando suas presas e parecendo querer engolir o coração do jovem.

Os olhos castanhos do rapaz se abriram lentamente quando Kenshin e Saitoh se aproximaram. Ele se levantou e desceu dois dos três degraus que o separavam do chão de madeira. Os degraus, de mármore fino, possuíam entalhes quase imperceptíveis. Rosas, sinos e, é claro, mais cobras. O rapaz desceu calmamente os dois degraus, parando ao último e sorrindo para Saitoh, que piscou calmamente:

– Senhor Tokugawa... Este é Kenshin Himura, o Hitokiri Battousai. — Disse Saitoh, colocando a mão direita sobre o ombro esquerdo de Kenshin.

– Senhor Himura. É um prazer conhecê-lo. Esperei por este dia minha vida inteira. O dia em que estaria frente-a-frente com um dos pivôs da queda do Shogunato. Suas poderosas e habilidosas investidas contra o Shogun se tornaram lenda por todos os lugares por onde passei. Battousai isto... Battousai aquilo... Ouví seu nome das bocas de muitas pessoas diferentes, senhor Himura. Até mesmo meu querido amigo Saitoh Hajime, que sabemos não ser um grande entusiasta de seus feitos, me contou coisas muito interessantes a seu respeito.

Kenshin fitou o garoto por alguns segundos, mudo como uma pedra. Depois olhou com o canto dos olhos para Saitoh, que retirou um cigarro do maço e caminhou calmamente até a porta do recinto, saindo sem uma única palavra e deixando Kenshin e o jovem, sozinhos, no enorme salão.

– Vamos, senhor Himura... Sentê-mo-nos!!

O rapaz desceu o último degrau e seguiu até uma mesa colocada a direita do lugar onde estava inicialmente. Kenshin o seguiu e sentou-se à mesa junto com ele. O jovem serviu-se de um pouco de sakê, depois serviu Kenshin e continuou:

– Você não me parece muito bem de saúde... Está pálido, e sua respiração é arritmada, indicando um estado de fadiga muito avançado. Saitoh me falou a respeito... Disse que o homem que lhe fizera isso, o tal de Aoshi, foi o mesmo homem que matou sua irmã, a bela Akira... Disse-me também que ou você ou ele fariam este homem pagar da maneira mais dolorosa e delicada possível. Eu gostava da jovem Akira... Uma pena ter sido assassinada tão brutalmente.

Kenshin ficou impressionado com a serenidade do rapaz. O garoto não possuía mais de dezoito anos, mas se pronunciava de uma maneira extremamente serena e pausada. Agia como um senhor adulto, e o impressionava com o olhar calmo. Sua voz era aveludada, e ele poderia facilmente dar lições de vida a alguém com o dobro de sua idade, tamanha eram sua austeridade e confiança. Battousai lembrou-se das palavras de Saitoh, ao ser recebido com um sorriso pelo jovem moreno.

– Saitoh lhe chamou de Tokugawa... De fato, você é realmente muito parecido com o Shogun, embora tenha o visto apenas uma vez a muito tempo atrás... Obviamente, você não é Ieyasu Tokugawa... Qual seu nome então??

O rapaz sorriu. Kenshin pregava seus olhos cor de âmbar nas feições do garoto que, de maneira polida e sem perder a calma que trazia em cada palavra, lhe respondeu:

– Meu nome, senhor Himura... é Matsumo Tokugawa... E eu sou filho de Ieyasu Tokugawa, o homem que você ajudou a derrubar.

Kenshin forçou seu maxilar inferior no superior, fazendo surgir uma dobra em sua face e franzindo-lhe a testa.

"Matsumo Tokugawa, filho de Ieyasu Tokugawa. Se ele tivesse nascido alguns meses depois da morte de seu pai, teria pelo menos uns... Vinte anos?!"

Certamente o rapaz não aparentava tudo isso, mas o próprio Kenshin havia conseguido perceber a semelhança entre os dois. Talvez o Shogun tivesse um filho com alguma de suas mulheres e esta criança havia passado pela investigação do governo Meiji, feita para que a dinastia dos Tokugawa tivesse fim com a morte de Ieyasu. Isso fazia todo o sentido possível. Os pensamentos de Kenshin foram obstruídos pelas palavras de Matsumo, que continuou a conversa com o Hitokiri:

– Sabe Himura... Não guardo rancor pelo que ajudou a fazer contra o meu pai. Nem poderia, pois não possuo carinho algum por ele... Minha mãe deitou-se com o Shogun apenas para pagar uma dívida da família dela, e eu nem conheci ele. Nunca fiz questão do nome Tokugawa, até Saitoh me encontrar...

Kenshin piscou seus olhos dourados e gélidos duas vezes, prestando atenção nas palavras do jovem Tokugawa.

– Venho sido instruído a muito tempo pelo Saitoh. Estudei bastante, viajei por aí... Estou a par dos planos dele há muito tempo, e concordo plenamente com as suas ideias, assim como sei que você também concorda. Não aprendi o caminho da espada, senhor Himura, mas absorvi bastante dos ideais dos espadachins. Mercadores, Senhores feudais aliados do governo, governantes dessa Era Meiji... Todos os que vivem alegremente por trás da lei que extingue os samurais... São todos fracos! Os samurais mudarão a história deste mundo, senhor Himura... Minha parte nas ações do senhor Hajime é simples: O governo será centralizado na figura do Shogun, mas quem governará de verdade serão os espadachins. Meu sobrenome será usado para dar força à revolução, apenas isto. Não sou inocente a ponto de pensar que Saitoh vai realmente me entregar o Japão, mas sei que ele não será tão forte sem mim, como não será sem você... Compreende o que estou tentando lhe dizer? Não me importo de ser uma marionete dos verdadeiros Senhores do Japão, desde que eu ganhe algo com isso. Eu participo, você participa... Assim, todos ganhamos alguma coisa. Chame de ganância, se preferir...

Kenshin fechou os olhos e abaixou a cabeça por alguns momentos. Talvez fizessem sentido, realmente, as palavras do jovem Tokugawa. Ele estava tentando lhe convencer a participar dos planos de guerra de Saitoh, certamente. Mas mesmo assim Kenshin podia ler, nos olhos do menino, que ele realmente acreditava na vitória, e que falava sério quanto a importância dele e de Kenshin no plano do lobo. Bebeu mais um pouco de sakê e depois dirigiu seu olhar para Matsumo:

– Você é esperto... — Kenshin calou por um segundo, levantando-se calmamente e caminhando na direção da saída. Depois, parando à porta, virou-se por um momento. — Não participo de qualquer revolução pelo dinheiro ou por um alto cargo no governo, e Saitoh sabe disso... Participarei, apenas por concordar com o fim que esta história deverá ter. Quero apenas que os espadachins tenham novamente seu lugar no Japão... E quero acertar algumas coisas com um certo homem, que vem me desafiando há bastante tempo...

Matsumo assentiu com a cabeça e com um enorme sorriso despretensioso, enquanto acompanhava com os olhos o ruivo que saía do cômodo. Ele sabia que o Hitokiri Battousai seria de extrema importância, na eminente reta final dos planos de Saitoh Hajime...

CONTINUA!!!

Notas finais
Não percam o próximo capítulo: O início do Golpe