Bakumatsu

7 A Revolta de Zanza


Notas iniciais
No último Capítulo: "– Coloque isso. Logo chegaremos a nosso destino e tudo ficará suficientemente claro para você. Sano pegou o capuz atirado à ele por Aoshi e fitou-o firmemente. Aquele estranho adereço o fez imaginar para onde os três homens estariam indo. Percebeu que para chegar tão fundo nessa história quanto gostaria teria que se submeter às condições dos personagens que, aparentemente, regiam a orquestra da morte que com todas as atrocidades cometidas recentemente ia dando seus primeiros acordes. No momento em que sua cabeça foi envolvida pelo capuz, Sanosuke sentiu um cheiro muito forte e desagradável e rapidamente perdeu a consciência. Estava desmaiado e totalmente a mercê de Hiko e Aoshi, enquanto a carruagem continuava sua trajetória rumo ao desconhecido."

O vento batia forte e arrastava a porta do quarto de Hiko, que abria e fechava produzindo um barulho incômodo e periódico. O homem parecia não se importar com o som, pois permanecia parado em frente a janela observando a enorme planície que se estendia na parte de fora da casa onde estavam.

O vento balançava a copa das poucas árvores na planície de forma violenta e arrancava várias folha verdes e bonitas que começavam a bailar no ar e no chão, tamanha era a força com que o ar se movia. Toda aquela ventania havia afugentado os poucos animais que brincavam naquele tapete verde e que deveriam, e este era um pensamento bem racional, estar refugiados em suas tocas àquela hora da noite. A lua não se mostrava completamente mas iluminava, ainda que por detrás de algumas nuvens, toda a extensão daquele vale e retratava de forma coerente a solidão que habitava toda aquela região.

Há muito tempo Hiko não sentia uma sensação de calma e de leveza como sentia naquele momento. Por alguns segundos até se esqueceu de tudo que havia vivido nos últimos dias e até da morte trágica de Kenshin Himura, a quem considerava mais do que um filho. Estava aproveitando os poucos minutos de calmaria pois sabia que logo eles se acabariam e, muito provavelmente, não voltariam nunca mais.

O primeiro sinal de que esta calmaria estaria no fim foi a brusca parada nos ventos. Toda a ventania que trazia vida ao vale verde havia desaparecido e as nuvens que cobriam a lua pareciam ter ficado mais escuras e numerosas. O sinal claro de chuva deixava o coração de Seijuuro um pouco cauteloso. Durante a chuva, pouco se pode ouvir de tudo que se pode acontecer ao seu redor. E, dada a situação em que se encontravam, esta não era uma situação muito favorável. A chuva começou a cair de forma branda. Mais branda até do que a esperada por Hiko. A porta havia parado de ranger e ele, calmamente, voltou-se para ela.

Quando fixou seus olhos na porta, percebeu o segundo e definitivo sinal de que tudo voltaria a ser como havia sido nos ultimos dias. O segundo sinal havia parado a porta com suas mãos delicadas e brancas, impedindo-a de ranger com o vai-e-vem provocado pela ventania anterior.

Ela era uma das mulheres mais belas que Hiko já havia tido o prazer de encontrar em toda sua vida. Longas tranças de fios negros lhe pendiam sobre os ombros e deitavam-se entre seus seios fartos. Os olhos castanhos brilhavam e davam um ar todo especial à sua face uniforme. Nariz pequeno e arrebitado, uma boca pequenina e carnuda, a face rosada e as sardas levemente mais escuras completavam sua belíssima face. De estatura mediana, a garota possuía uma tez clara, talvez até pálida demais, e que dava um tom misterioso ao conjunto da obra. Hiko sorriu ao vê-la:

– Hiuna. Que bom lhe ver... — Disse-lhe sorrindo despretensiosamente.

– Senhor Hiko, é muito bom lhe ver também! — Ela sorriu devolta.

Hiko gostava muito da garota. Nunca havia perguntado de onde ela veio ou como começou a trabalhar para Aoshi, mas gostava muito de ficar junto com ela. Suas feições, sempre alegres, lhe transmitiam uma calma que não encontrava em nenhum outro lugar do mundo. Nutria pela jovem um sentimento paterno muito forte apesar de ficar pouco tempo naquele templo e de nunca ter tido uma conversa mais demorada com a jovem. Em geral, suas conversas se resumiam a apresentações e saudações. Ela havia sido designada pelo próprio Aoshi, assim que chegaram àquele templo, para cuidar de Sanosuke enquanto o mesmo estava desacordado. Vê-la alí só poderia significar uma coisa: Sanosuke havia finalmente despertado.

– O senhor Sagara já acordou. O mestre Aoshi requisita sua presença no salão principal. — Disse a garota polidamente e com o mesmo sorriso no rosto.

Hiko sorriu ainda mais ao receber tão boa notícia da adorável jovem e partiu para o destino ao qual sua presença fora solicitada.

O Salão principal era iluminado apenas por uma lamparina colocada sobre uma mesa central com lugar para quatro pessoas. As paredes não possuíam qualquer tipo de adorno mas a sala estava perfeitamente limpa e bem conservada. Sentados à mesa, Aoshi e Sanosuke pareciam ansiosos para encontrar Hiko e para dar início àquela importantíssima conversa. Hiko entrou, curvou-se cordialmente cumprimentando os dois e sentou-se para que pudessem começar o diálogo.

– E então Aoshi, vai me dizer o motivo de todo este mistério em relação a localização deste templo onde estamos? — Começou Sanosuke.

Sanosuke parecia bem mais calmo do que quando havia entrado na carruagem. Talvez durante o tempo desacordado tivesse assimilado melhor a ideia da morte de Kenshin e limpado um pouco de sua mente para as novas informações que estariam para vir. Precisava estar alerta e não deveria deixar suas emoções interferirem, muito embora tenha sido motivado por elas a aceitar o convite de Aoshi Shinomori para estar ali, naquele momento.

– Sanosuke Sagara. — Aoshi começou. — Você deve entender minha posição quando digo que não posso revelar a alguém que não faz parte da revolução, a localização ou origem de meus recursos e bases. Não é mesmo? — Questionou Aoshi.

– Revolução, Organização, Bases... Tenho ouvido muitos destes conceitos recentemente. Confesso não ter a mínima idéia sobre o que você está dizendo. Vou repetir a minha pergunta: Por que o mistério sobre a localização do templo? — Questionou novamente Sanosuke que, desta vez, parecia um pouco mais alterado.

– Este templo não faz parte de nossos recursos, Sanosuke... — Interrompeu Hiko. — A idéia de Aoshi foi simplesmente para proteger um reduto particular que ele não gostaria que fosse descoberto por você, ou por qualquer outro. Compreende?

– A proposta que temos a lhe fazer pode vir a ser recusada. Porém, ela precisa ser escutada por completo e não pode ser interferida por ninguém. O templo Hinaay é um ótimo lugar para lhe fazer esta proposta.

Sanosuke assentiu com a cabeça, ainda digerindo calmamente cada uma das palavras de Aoshi para não cometer nenhum tipo de engano.

– A Era Meiji está no fim Sanosuke. O patético governo Meiji não possue o braço forte que é necessário para guiar uma nação superior como a nação japonesa. A Era Tokugawa não era perfeita, disso eu sei, mas não dava abertura para que nenhum poder estrangeiro viesse dar palpite sobre o que devemos ou não devemos fazer. Ninguém tem o direito de dizer quais leis devemos ou não instaurar. Tiraram nosso direito de defesa Sanosuke. — Apartir deste ponto, Aoshi passou a discursar com um misto de raiva e tristeza no olhar e na voz. — A lei que proíbe o uso de espadas acabou com todo o nosso poder bélico. Nós tínhamos a capacidade de comandar o mundo, e hoje não passamos de meras marionetes dos governos estrangeiros. Qualquer navio de qualquer país entra em nossos portos e encarde nossa cultura milenar com seus lixos.

Sanosuke ouvia cada palavra com imparcialidade. ele, aparentemente, não possuía o mesmo nacionalismo extremista de Aoshi. Ele nem ao menos sabia de onde havia aparecido todo esse sentimento no espadachim. Não estava ali para ouvir devaneios de um louco sobre a cultura japonesa ou sobre o governo Meiji mas, aparentemente, Aoshi ainda não havia percebido isso. Hiko permanecia imóvel enquanto Aoshi continuava.

– As regras sempre foram ditadas pelos mais fortes. O mais forte sobreviverá, o fraco perecerá sob muito sofrimento. Esta é a única lei que não pode ser contradita. Todas as outras leis, são o que os fortes querem que elas sejam. Pois bem: eu sou um dos fortes! — Exclamou, curvando-se levemente para frente e franzindo a testa. — Eu ditarei as regras daqui pra frente. O governo Meiji jamais teve o poder em suas mãos. Nossas vidas eram muito melhores quando ainda tínhamos o poder da espada. Quando nos tiraram isso, acabaram com nossas vidas.

– Aonde você quer chegar com isso Aoshi? Faça logo sua proposta! — Bradou Sanosuke, ainda mais alterado.

– Reuni uma força com alguns dos melhores espadachins do Japão. — Aoshi retrucou, muito mais calmo e pausado. — Hiko sugeriu seu nome e o de Kenshin quando eu disse que precisava de mais alguns homens. Mas acabamos chegando tarde demais. Tenho certeza de que o Shinsengumi está envolvido no assassinado de Himura, e eu garanto que Saitoh vai pagar por ter feito isso.

"Saitoh"

Esse era o nome que Sano conhecia e que ligava Kenshin ao Shinsengumi. Ele era parte do grupo militar que lutava durante o Bakumatsu para defender o governo Tokugawa das garras dos militantes revolucionários. Durante o Bakumatsu, batalhou contra Kenshin e foi parcialmente derrotado. Ele nunca havia desistido de matar Kenshin, mesmo depois que o Bakumatsu havia terminado. Ele era ainda mais fanático que Aoshi e passava por cima de qualquer um com muito mais violência e crueldade do que o homem sentado em sua frente. Ele havia matado Kenshin! Sanosuke rangia os dentes, Aoshi quis se aproveitar dessa raiva:

– Você deve utilizar esta raiva, Sagara... — Insinuou, crispando levemente o olhar. Depois de uma breve pausa, continuou — Correndo paralela a nossa organização, existe uma outra, que se denomina Hebi Kaizen e que é liderada por Saitoh Hajime, o assassino de Kenshin Himura! Tanto o plano deles quanto o nosso consiste em desaparecer com todos os governantes importantes do pútrido governo Meiji para que eles fiquem sem poder de decisão durante a guerra civil.

– Guerra civil?? — Questionou, confuso, Sanosuke.

– Sim, Guerra Civil! Instalaremos o caos no Japão e, quando tudo estiver destruído pela guerra, tomaremos o poder e guiaremos o Japão para o caminho certo. Para retornar ao caminho certo...

"Saitoh"

O nome não saída do pensamento de Sanosuke. Guerra civil japonesa, guerra mundial, nada disso importava desde que ele tivesse uma chance de se acertar com Saitoh. O futuro do Japão já não era importante naquele momento.

"A Tropa Sekiho lutou tanto para ajudar a revolução e veja o que eles ganharam... O Ishin Shishi lutou para proteger todos os políticos do governo Meiji, e veja o que aconteceu com Kenshin..."

Esses pensamentos enchiam a mente de Sanosuke que não conseguia pensar em uma única boa mudança trazida pelo governo moderno. Aoshi tinha razão: não valia a pena continuar com uma administração fraca e que só trazia dor e sofrimento a todos aqueles que calejaram suas mãos para que eles viessem ao poder.

Os olhos de Sano ardiam de raiva como nunca. Hiko olhou apreensivo para o amigo. Ao contrário de Sano, ele havia aceitado participar da nova revolução guiado muito mais pela razão do que pela paixão. Podia não concordar com os meios, mas os fins justificavam. Não apreciava a violência que teria de ser utilizada mas não via outra maneira de mudar a situação. Sanosuke Finalmente deu sua palavra final:

– Ok Aoshi. Aceito seus termos. — Arrematou, enquanto se levantava degavar. — Empresto os punhos do Zanza e em troca recebo Saitoh todo para mim. Ele vai se arrepender por ter sido tão covarde com Kenshin e Kaoru!

Aoshi sorriu afirmativamente. O Zanza seria uma enorme contribuição para sua causa. Levantou-se também e pousou os braços sobre os ombros de Sanosuke, comentando:

– Vamos Zanza... Eu tenho um presente para você...

CONTINUA!!!

Notas finais
Não percam o próximo capítulo: O Retorno do Espadachim Lendário