Bakumatsu
10 A Jovem Médica
Notas iniciais
A noite havia caído calma e carinhosamente sobre o vale que guarnecia o pequeno templo onde o Hitokiri ferido se recuperava.
Havia três ou quatro dias desde que Kenshin havia acordado de seu sono profundo e debilitante. Há pelo menos três dias estava acordado e ainda não havia sequer se levantado para ir ao banheiro. Sempre que ele ameaçava um movimento mais exaustivo era parado pela falta de força ou pelos braços da jovem moça que o velava, que lhe ralhava aos ouvidos dizendo que ele não deveria se esforçar nem um pouquinho com nada.
Ela era tão gentil com ele, e até agora ele não fizera nada para retribuir este favor. Tudo que Kenshin fazia era acatar as ordens da jovem e fazer o máximo que podia para poupar qualquer trabalho que ele pudesse vir a dar para a estonteante garota.
Naquela noite, porém, ele se sentia estranhamente fortificado. Fingiu adormecer como nos outros dias e quando ouviu o som da jovem garota indo embora de seu quarto e encostando a porta, pôs-se de pé com um único movimento.
Ele ainda não entendia como fora capaz de tamanha façanha, mas procurou apenas agradecer gentilmente aos deuses abaixando a cabeça e fechando os olhos. Depois vestiu-se com o kimono branco que estava sobre a mesa, finalmente parando o chatíssimo instrumento que havia sobre ela e que o perturbara durante tanto tempo com aquele tic-tac infernal. Andou desajeitadamente até a porta e apoiou-se nela, afim de recobrar um pouco da lucidez e firmar um pouco mais as suas pernas, já desacostumadas com os movimentos do andar do Hitokiri.
Estava decidido a sair daquele quarto e têr com a jovem moça que o tratara tão bem durante aquelas semanas em que ele passou desacordado e em estado de recuperação. Respirou fundo e abriu, vagarosamente, a pesada porta do quarto. Correu o olhar pelo longo corredor afim de descobrir onde a jovem garota estava.
A porta que dava para a rua estava entreaberta e ele se moveu em direção a mesma. Quando chegou ao seu destino, escorou-se no batente e observou a rua para descobrir se a garota estava naquele gelado e pouco convidativo breu noturno. E ela estava lá.
Estava parada perto de um altar brincando com um gatinho que, entre as passadas de ida e vinda por entre as pernas da jovem, miava e ronronava amigavelmente. Kenshin sorriu instintivamente. Fechou os olhos por dois ou três segundos enquanto decidia se voltava para a cama ou ia ter a esperada conversa com sua tutora. Foi desperto de seus pensamentos pela voz aveludada da menina:
– Senhor Himura... O senhor não deveria ter se levantado. Se acontecesse alguma coisa com o senhor, eu iria me culpar para sempre. O que o senhor está pensando?
Kenshin não podia crer em seus ouvidos. Em menos de três segundos a garota havia se aproximado tanto dele que sua voz parecia um sussurro dentro do ouvido do Battousai. Como ela havia feito aquilo sem que ele percebesse? Ele ainda estava, definitivamente, muito distante das habilidades razoáveis de um espadachim de seu nível. Se ela fosse um adversário com intenções de assassiná-lo, ele já estaria morto e não saberia, ao menos, a cor dos olhos de quem o matou.
– Kenshin... Meu nome é Kenshin. — Ele irrompeu, com a voz um pouco rouca. — A Senhorita não precisa ficar me chamando de senhor o tempo todo. Fazendo isso, apenas me relembra o quanto sou velho e entediante. Chame-me de Kenshin, ou 'você'... É muito menos embaraçoso e formal.
– Está bem Kenshin. Se prefere assim...
– Muito melhor, não concorda?
Kenshin abriu, finalmente, seus olhos de cor púrpura. Seu olhar gélido se fixou nos lindíssimos olhos castanhos da moça, que sorriu embaraçada. Seu sorriso deixava a face da jovem ainda mais bela e iluminada, e praticamente obrigou Kenshin a retribuir o cumprimento.
– Então, Kenshin. Porquê não vamos até a cozinha tomar um chá enquanto VOCÊ... — Ela fez questão de enfatizar o "você" — Me conta o que pretendia fazer na rua em uma hora do dia tão avançada??
Kenshin acenou com a cabeça, concordando com a proposta da moça. Seguiram até a cozinha calma e ritmadamente, devido a pequena dificuldade com que Kenshin caminhava.
O ruivo sentou-se calmamente e ficou fitando a garota, que começava a preparar um chá de ervas que já estava semi-esquematizado em um bule de porcelana. Ele não sabia o que falar, tinha tantas perguntas para fazer a ela que nem sabia por onde começar. Decidiu começar com o simples:
– A Senhorita já sabe o meu nome, mas ainda não sei o seu... Gostaria de saber seu nome, de onde vem ou o que faz sozinha num templo tão retirado como este.
– É Akira... Meu nome é Akira, e vivo neste templo desde que nasci... Aqui eu trabalho prestando serviços médicos aos soldados do homem que lhe salvou da morte naquele dojo em Kyoto.
Kenshin franziu levemente a testa, afinando um pouco o olhar.
– Este homem... Não pretende se identificar, não é mesmo? — Questionou, bebendo um pouco do chá que a moça havia lhe entregado em uma xícara.
– Ele prefere que você esteja plenamente recuperado antes de vir conversar com você. De fato, a notícia de seu despertar já deve ter chegado até ele e logo você irá vê-lo aqui mesmo, neste templo.
– Por que um homem largaria um assassino como eu com alguém como você, sozinhos, em um templo afastado de tudo? — Perguntou Kenshin, após outro longo gole de chá.
– Acho que meu irmão confia em mim. Mas confia muito mais em você. Apesar de eu nunca ouvir um único elogio para a sua pessoa vindo dele... — Ela fez uma pausa para beber um pouco de seu chá e depois continuou. — Hum... Tenho que lhe dizer que, de todos os soldados feridos que já passaram por estes quartos, você foi o que chegou mais perto do outro mundo. Ainda não entendo como não morreu após perder tanto sangue. Meu irmão é muito inteligente, mas confesso não entender o porquê ele lhe trouxe direto para cá sem antes parar o sangramento de seu ombro. Só sei que nunca ví alguém tão pálido em toda a minha vida...
Ela sorriu amigávelmente. Desta vez Kenshin não lhe retribuiu o agrado. Estava perigosamente perdido em seus pensamentos.
"Irmão... Quem será o irmão de Akira? Porque ele me salvou da morte em Kyoto? Porque me trazer diretamente para cá??"
"Devo estar muito longe... Perto do mar, pois sinto uma brisa de cheiro diferente... Porque alguém que quisesse ajudar um moribundo o faria viajar centenas de quilômetros para receber atendimento médico? Seja quem for... O irmão dessa jovem garota deve ter alguma relação com os espadachins em Kyoto e todo aquele sangue que foi derramado por lá..."
"Battousai! É bom você se recuperar logo... Isto não está cheirando nada bem..."
Os maxilares de Kenshin se pressionavam violentamente de tempos em tempos, deixando a jovem Akira apreensiva sobre os pensamentos que ocupavam a mente do homem. Seus olhos frios se fixaram em um ponto aleatório na singela mesa que se estendia em frente a eles dois e dali não se moviam sequer um milímetro. Ele estava totalmente perdido em seus pensamentos e ela podia sentir isso. Ela conhecia a fama do Hitokiri Battousai e sabia que ele não era nem um pouco burro, não demoraria muito para ligar os fatos e descobrir a identidade de seu irmão, então resolveu logo lhe contar.
– Himura... — Kenshin desprendeu seu olhar e arrastou-o lentamente até a face dela. — Acho que existe algo que você precisa saber... Vai ser melhor não descobrir por sí...
Kenshin se ergueu violentamente da mesa, parando de pé em menos de 1 segundo. Fez sinal para a garota fazer o mesmo e deu dois passos rápidos para trás, em direção à saída da cozinha. Seus olhos estavam mais sérios que antes e caminhavam por toda a cozinha veloz e atenciosamente. O coração de Akira estava batendo forte e veloz e a menina não fazia ideia de o que acontecera com o Hitokiri a ponto de colocá-lo em estado de alerta tão repentinamente. Kenshin rangia os dentes demonstrando certa dor ou desconforto. A garota conhecia melhor do que ninguém as condições físicas em que Kenshin se encontrava naquele momento. Naquele exato instante, ela conhecia os limites do corpo do Battousai melhor do que ele próprio. Por esse motivo, estava muito preocupada.
Kenshin virou-se e encostou a porta, fazendo sinal para que a jovem médica fizesse silêncio e ele pudesse descobrir o que estava acontecendo no exterior da casa. Ainda sem entender o que havia acontecido, Akira pôs-se se cócoras próxima a mesa no centro da cozinha. Kenshin, que continuava a correr o olhar por entre as frestas na parte superior das paredes da cozinha, calmamente lhe dirigiu a palavra:
– Akira... Espada... Eu preciso de uma espada! Temos visitas...
CONTINUA!!!
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