Bailes
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Bailes. Ella odiava bailes.
A anágua do vestido vermelho de seda que usava pinicava suas pernas mas não era pior que o espartilho que não a deixava respirar direito. O salão — lotado em plena alta temporada londrina — estava abafado e claustrofóbico como usual.
Era uma boa moça, de uma boa família. Mas Ella gostava de pensar que era uma boa moça independente da boa família. Bom, pelo menos se esforçava pra ser.
Cumpria todas as lições que a preceptora passava, seguia todas as ordens da mãe e ali estava ela, embonecada e com (tentando) sorrir para estranhos com os quais ela não se importava nem um pouco. Não era culpa dela se não conseguia chegar ao mesmo nível de naturalidade afetada das outras debutantes no salão.
O pai a olhava torto. Mas o que ela poderia fazer? Sorria há tanto tempo que as bochechas já doíam, não podia ser responsabilizada pelo fato de não ter um sorriso bonito ou que seus olhos e cabelos fossem castanhos exatamente do mesmo tom, ao invés dos lindos tons de olhos azuis com cabelos loiros das meninas que os cercavam. (E se a mãe a olhasse reprovadora mais uma vez 'por não se destacar', iria dar um chilique digno de uma dama da noite! Os sapatos que usava pra parecer mais alta durante toda a estação já haviam triturado cada dedinho de seus pés! Como podia ter culpa por ser baixinha?!)
Ella se esforçava. Fazia tudo que era mandada. Mesmo sabendo que não ia dar em absolutamente nada. Nenhum dos pretendentes olharia pra ela, não importasse o que vestisse, nunca superaria as belas filhas da sociedade com as quais disputava marido (que aliás, ela nem queria). Ella disse isso milhares de vezes e foi ignorada em todas. E ainda assim, estava ali, sorrindo dentro daquele forno feito de tecido e renda como se tivesse amando cada minuto.
Bailes. Ella odiava bailes. Só podia pedir aos Céus que nenhum visconde se sentisse especialmente caridoso para tirá-la para uma valsa. Tinha certeza que não seria capaz de dar dois passos sem tropeçar naqueles saltos infernais. Se isso acontecesse, teria que inventar uma boa desculpa pra recusar.
Mas é claro que, sendo quem era, Ella sabia que sua sorte sempre podia piorar. Porque para um visconde seria possível inventar uma desculpa e fugir da dança, mas ela tinha que ser convidada por um duque. Justo um maldito duque, ao qual como seu superior na hierarquia, seria desonroso negar qualquer pedido. Então, Ella seria a boa moça e dançaria com o bastardo.
Só não entendia porque o 'dito-cujo' foi convidar justo ela pra primeira valsa. (Ella não sabia o que 'dito-cujo' significava direito mas a mãe sempre usava o termo pra se referir a pessoas que não gostava e naquele momento, Ella não gostava do duque. Fez uma nota mental de descobrir alguns palavrões com o irmão George). Bom, o dito-cujo do duque podia ter lhe feito o favor de chamar alguma das outras debutante que claramente iriam "a-do-rar" dançar com ele e deixá-la no canto em paz.
Não que ela não entendesse o porquê das outras debutantes querer dançar com ele. O duque era um dos melhores partidos do recinto não só por sua fortuna e posição mas também pelo seus ombros largos e porte alto que vestia muito bem a casaca verde-garrafa que realçava seus olhos castanhos, claros o suficientes para serem confundidos com algum tom mais próximo do cinza.
Sem ter muita opção, Ella fez uma reverência perfeita, aceitou a mão que o duque lhe oferecia e encontrou os tais olhos castanho-acinzentados dele.
E o mundo parou.
Ella sentiu algo que nem sequer sabia explicar. Um calor que subia do centro do seu corpo até às faces. Uma falta de ar que não tinha nada a ver com o espartilho apertado na cintura. De fato, um desconforto tão grande em cada pequeno pedaço de seu corpo que não sabia como agir, o que falar. Só sabia que queria que aquela sensação durasse para sempre.
"Estou completamente louca!", pensou. Respirou fundo tentando recuperar a razão e se viu já no meio do salão, posicionada para começar a valsa, ainda segurando a mão do duque. Mão essa que foi acompanhada por outra em sua cintura e todo o calor do corpo do duque no seu no instante que os primeiros acordes soaram. A sensação voltou com ainda mais força e Ella sabia que estava definitivamente perdida quando ele se inclinou e falou com voz calma, "senhorita Ella, gostaria de perguntar se concordaria em dançar todas as valsas da noite comigo" e ela concordou porque naquele momento ela soube que faria qualquer coisa que aquela voz pedisse, mesmo que não fosse algo que uma boa moça faria...
Bailes. Talvez, só talvez, Ella não odiasse bailes tanto assim.
Fale com o autor