Bailarina de Fogo
1 A poética da dança
Notas iniciais
— Você não me ama, está sendo negligente quando me diz isso. — Ele a olhou com amargura.
— Eu amo, mas isso nunca te basta. Está sendo infantil. — Ela dizia sem parar para olhá-lo, ajustava com nervosismo as fitas que prendiam sua sapatilha. — Eu deveria estar me concentrando, você precisa mesmo ter essa conversa agora?
— Como saberei se o que está dizendo é verdade? Prove! — Ele pediu em um tom de desespero.
— Provar? O que quer dizer com isso?
— Prove que me ama. Sacrificaria sua dança por mim, em nome do nosso amor? — E foi assim que ele conseguiu fazer com que ela o encarasse pela primeira vez durante a conversa.
O movimento de pessoas andando ao redor deles foi diminuindo, estavam todos muito ansiosos, e o nervosismo era palpável no ar.
— Amor? Se eu fizesse isso, Breno, não seria amor, seria suicídio. Eu nada seria sem isso tudo, sem a dança não me resta nada. Você está sendo ridículo. Que tipo de amor é esse? — Mia perguntou incrédula com o pedido dele.
As luzes começaram a piscar e a sirene do teatro soou indicando que o espetáculo começaria em breve. Breno não ousou respondê-la, sentiu-se infeliz pelo papel que estava prestando. Não queria ser um babaca, não queria estar ali tendo aquela conversa com ela, mas a ansiedade o dominou e seu lado possessivo falou mais alto.
— Olha só para tudo isso. — Ela indicou o ambiente a sua volta. — Se a dança fosse um elemento com certeza seria o fogo, os bailarinos seriam as chamas, em uma sincronia perfeita e eu, eu seria o combustível, porque tudo em mim se consome quando danço. — E ao dizer isso o deixou na coxia, sozinho.
O palco estava em total escuridão, à quietude da plateia criou um ar de tensão. O farfalhar das cortinas se abrindo anunciou que era chegada a hora. Os olhos atentos do rapaz buscavam na escuridão acompanhar a forma dela se movimentando até o centro do palco. Um feixe de luz baixo foi de encontro ao seu corpo, a respiração controlada mal entregava sua humanidade.
A música preencheu todos os espaços ao redor, seus movimentos eram lentos e graciosos. Sua estética parecia tão natural ali naquele momento, não havia ruptura entre o espaço físico e ela. Por mais que fosse tão pequena em contraste ao palco, eles se encaixavam em um todo; a música, os movimentos, o espaço, a luz entre as sombras, não havia distinção entre eles, eram todos somente um elemento, eram como uma grande engrenagem, em perfeito ajuste e ritmo, e a cada batida da música era como estar ali com eles, era como ser eles.
A velocidade de seus movimentos aumentava gradativamente em conjunto ao ritmo da música, havia distintos instrumentos os acompanhando, eram violinos e violoncelos, um piano, tambores e vozes. A melodia era inspiradora e fazia a alma querer chorar, não por tristeza, mas sim porque ia de encontro aos sentimentos mais primitivos do ser humano. Esse era o grande poder da música, despertava nos corações sentimentos que até então pareciam inexistentes e inexprimíveis.
Breno não precisava ser um dançarino para saber como ela estava se sentindo, seu corpo estava tomado por sentimentos puros e inexprimíveis, apenas por vê-la dançando, apenas por sentir cada nota emitida naquela melodia eletrizante. Ele entendeu o que ela quis dizer sobre a dança. Como fogo que era, a dança incendiou a todos que estavam ali, as chamas lamberam cada extremidade de seu ser, mas ela era o combustível e o estava consumindo, cada um de seus gestos, sua respiração ofegante, as batidas, os pensamentos, seus olhares, a tensão contida no ar. Entender tudo isso era impossível, as sensações beiravam a insanidade.
Concentrou-se em olhá-la com extrema atenção, reparando em cada mínimo detalhe. Acompanhou o desenho de cada linha de seu corpo, a elasticidade de cada um dos seus movimentos, a rigidez de seus membros quando flexionados e esticados, o peito acompanhando a respiração acelerada. Tocou com os olhos o contorno dos lábios semicerrados, seus olhos brilhavam com intensidade enquanto ela girava em sua pirueta infinita. Era frágil e delicada, mas detentora de uma força inimaginável e de uma sensualidade tão elegante.
Sua dança parecia mágica, era tão linda e incompreensível. Ele se perguntou se tudo isso sempre fizera parte da humanidade de cada um, a beleza dos movimentos ritmados, o encanto de cada passo sincronizado. Fisicamente deveria doer, era provável que seu corpo estivesse sendo levado ao limite, mas se não o fizesse sua alma estaria inquieta diante da impossibilidade de se libertar, e então ela brincava com sua dança, o palco era todo dela.
Ele entendeu que Mia era livre, que por trás de seu desapego, por trás de seu espírito libertino e sedutor, ela era inteira livre, e era isso que o fascinava cada vez mais. Breno aprendera a se expressar com as palavras, com seus versos e estrofes ele era a expressão moderna do homem, ele falava do mundo e de sua humanidade da forma como via, ele se comunicava com poesia, mas ela se expressava com o corpo, de tudo o que havia nela e de tudo o que era, ela era a própria poesia.
A música cessou, as luzes baixaram e no centro do palco ela encerrou sua apresentação. Por um momento houve silêncio total, e então o público rompeu em aplausos incessantes. Ela não era considerada a melhor do mundo, claro que não, ainda tinha muito que aprender e muito que praticar, mas ela tinha o principal. Ela tinha paixão, e isso a moveria até o fim, isso faria dela a melhor.
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