Bailarina
5 Pourriture
Notas iniciais
''Quando contou-me aquilo,senti como se rasgasse ao meio.Meu coração galopava furiosamente dentro do peito,como se quisesse expandir-se e ocupar o vazio q sentia em todo o corpo.Repentinamente sentia a pressão baixar e os membros à vácuo.Uma fraqueza tomou conta dos meus movimentos e tudo o que eu podia fazer era encarar,vagamente,a estante à minha frente.Segurava o telefone no ouvido e escutava meus pensamentos badalarem alto no cérebro.As idéias bagunçadas,as lembranças misturadas e a esperanças morrendo.Mas eu tinha de ser forte.Tinha de dar uma resposta humorada e feliz pela conquista de meu interlocutor.
Mas como doía tal revelação !
Ao fim da ligação,coloquei o fone no gancho e,sem perceber,derramei uma lágrima e mais outra,e outra,e outra...mais e mais,que rolavam pela face apática que o espelho lateral refletia.Entre o embaralhamento das cartas do destino na minha mente,às vezes,flashes de apresentações me apareciam.Entre uma refleão e outra sobre as palavras recentemente ouvidas , uma imagem dos ensaios me vinha à mente.E era sempre a parte em que o príncipe abandona o cisne por outra jovem.Os passos da dança misturavam-se com as conversas,longas e proveitosas conversas,aliás.As palavras doces...os olhares furtivos...A atenção.A excitação perante uma novidade...o quase beijo...E tudo foi pulsando na mente.Como se retraísse para um só ponto.
Ao mesmo tempo que parecia vazia,tinha a nítida sensação de que explodiria a qualquer momento...
10,9,8,7...Entre devaneios até a contagem regressiva aparecia,como em uma propaganda,entremostrando os números e as cenas do que aconteceria em breve.
Sentia-me despojada d'alma(talvez fosse isso que me desse a sensação de vazio) e lotada de emoções negras e fortes.Entupida de informação desnecessária e palpitando para os segundos finais...
Por um instante cheguei a fechar os olhos e esperar que ela viesse...mas não veio.Eu não me entregaria de modo sórdido,mas se viesse...Não resistiria.Não relutaria.Dela seria.Receberia seu beijo gálido,daria um último suspiro e cerraria para sempre as minhas palavras.
Encaixotada num baú.Era assim que minha paixão,meu amor pelo viver e comoção estavam.Encaixotados no fundo do sótão,naquela área onde nunca se vai,pelo acúmulo de quinquilharias no caminho.
Estava em cacos de vidro.Mas não abaixei-me para catá-los e deles viver como fizera de outra vez.Simplesmente passei por cima,ouvindo,nos recônditos da dor,aqueles cacos estilhaçarem-se mais ainda e lá ficarem,para que um vento os levasse.
Ao longo do tempo fui percebendo que a dor não se ia.Ficava ali,martelando.Tirando minhas noites de sono,então sentia vontade de voltar lá atrás e pisar com mais força nos caquinhos...mas alguém os havia varrido para debaixo do carpete e eu não conseguia achá-los novamente.
Por dias não comi,não bebi,não vivi.Não como protesto,mas por falta de motivo.Preparava uma boa refeição,mas a fome não vinha com o cheiro.Comprava um suco,refrigerante...tomava chá ou café...mas o sabor não apetecia o paladar nem saciava a sede de amargura que predominava a garganta.De repente a vida tornou-se monótona...sem fio,fibra ou cor,ao contrário:as coisas tornaram-se cinzas.Uma copa de árvore extremamente verde escura assumia o tom pálido e opaco de um cadáver.
Os dias passavam-se longos,as noites mais ainda.Os sonhos,quando vinham após horas revirando-me de um lado e outro na cama,remetiam-me a momentos passados,à devaneios de que um dia houvesse futuro...Aos poucos fui enlouquecendo.Entrando em conflito com minha conciência.Cegando-me pela infelicidade clichê de amar descorrespondidamente.
A cada vez que via seu sorriso estampado apaixonadamente no rosto,a vontade que tinha era de voar no pescoço e contar toda a verdade que consumia-me a minha vida aos poucos.A verdade que fazia meu peito definhar silenciosamente.A verdade que,se fosse dita,não seria dita!Seria gritada!Demonstrada!Alardeada aos quatro ventos !
Mas ela não deixava.Não dava espaço.Eu também não daria!Mas havia chegado primeiro e achava injusta(para comigo)sua existẽncia mórbida e decrépita.De nada me servia seu sotaque,seus olhos de petróleo ou seu cabelo dourado,se toda aquela falsa amizade era somente demarcação de território.
Fui burra!Confesso.Enquanto ardia em chamas angustiosas e sofimento,flagelação auto-inflita,a Terra não parou de girar.Os cientistas não desistiram de procurar a cura para o câncer(da sociedade).Os trabalhadores não deixaram de marcar seu ponto nem os alunos pararam de frequentar seus coolégios conservadores!Enfim...o mundo não parou.Nem o tempo ou a vida.Mas eu parei.Dei um ''stop'' na minha vida e tentei rebobinar.Às vezes sentava-me na praça,em horas diferentes,mas não conseguia me distrair com o velho passatempo.Não podia observar por muito tempo alguém que logo reconhecia um traço e voltava para causa exausta,esgotada.
Continuei a ensaiar,para a peça irônica,mas os movimentos não possuiam delicadeza mais,eram automáticos e a cada vez que fitava o grande espelho do salão,ainda que despropositadamente,toda a concentração esvaia-se pelas extremidades e tinha de começar tudo de novo.Já não havia mais sorriso.Gargalhada.Olhar doce ou qualquer expressão que denotasse agrado.Só,simplesmente só,terror.''
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