Bailarina
2 Le banc de parc
Notas iniciais
Paris
Eu costumava observar do alto de uma janela,uma bela jovem esbelta e esguia,de cabelos castanho-claro cortados milimétricamente à altura do queixo.Seus olhos puxavam todo o mistério da terra em seu tom marrom puro e mágico.Ela sentava-se sempre no mesmo banco da praça calma e sombreada do bairro.Sempre no mesmo horário,após o almoço.Sempre na mesma ponta.Trazia a cada dia,diferentes coisas para eu observar em anonimato.Um sorriso.Uma leitura.Um olhar.Uma amiga.Às vezes não trazia nada.Só sentava-se lá e observava pelo buraco da fechadura as outras pessoas,como se fosse uma intrusa em suas vidas.Interessava-se por crianças brincando com as babás.Insetinhos subindo pelas árvores e folhas.Senhores mais velhos que ainda tentavam galantear apaixonadamente suas velhas esposas,como se fossem jovens visçosas...
Na única vez em que me decidi a deixar de olhá-la de longe para aproximar-me e contemplar não apeas sua imagem,mas sua voz,seus pensamentos,seu coração...ela apresentava uma expressão triste e angustiada.
-Je peux m'asseoir ? -Meio minuto transcorreu até que ela me respondesse.Estava tão absorta em sua profundeza de alma que não me percebera aproximar.
-Oui. -Fitaram-me turva e embaçadamente seus dois olhos amadeirados.Sua mente parecia em choque.Tentando desembaralhar os pensamentos que haviam se confundido quando a interceptei.Sentei-me.Na extremidade oposta à dela no banco.Olhei o céu.Suspirei.E novamente para ela.Delineei cada traço seu em minha mente.Notando que voltara à sua meditação anterior,olhando fixamente para o chão,os joelhos unidos,os pés afastados.Recurvada,com os cotovelos apoiados nas coxas.O rosto entre as mãos.
-Je suis Paule.Paule D'Lancrex.
-Oui. -Ela respondeu sem olhar-me.Ainda egoísticamente perturbada por idéias trágicas.
-Et vous ? -Imperdoável de minha parte.Mas estava curioso por saber cada coisa dela.
-Je suis Eleonor.
-Eleonor... ?
-Cygneblanc.
-Intéressant .-Realmente muito interessante.Ou irônico,dependendo do ponto de vista ou do humor que você tiver.Mas EU não sabia que realmente era interessante.Ou mais do que o que eu achava.Perguntei-lhe porque estava triste.E ela respondeu,dessa vez,olhando-me fixamente nos meus próprios olhos.
-Je ne suis pas triste. Je suis confus et effrayés. — ''Por que confusa?Por que alarmada? ''
Ela nunca me respondeu.Eu nunca perguntei.Apenas nevantou-se sem olhar para trás.Sem olhar para o que havia me deixado.Sem olhar,nunca,para o que havia passado.Acontecido.Sofrido.
Após sua partida notei um caderno que devia ter estado entre nós durante todo o tempo de nossa curta conversação.Considerei-me seu herdeiro,após esperar até o fim da tarde que ela retornasse e buscasse.
Passou-se uma semana e,todos os dias,sempre ao mesmo horário eu descia as escadas escuras do meu prédio,seguia a rua e virava à esquina.Sentava-me no banco onde havia sentado no primeiro dia e esperava sua chegada.Ela nunca voltou.Não poderia.Estava impedida.Trancada onde nenhuma alma deveria estar.
No fim do último dia,ainda sem desistir de voltar nos dias seguintes,decidi invadir sua privacidade e conhecê-la.O caderno que havia deixado,ainda não fora aberto.Considerando-me seu herdeiro,decidi,enfim,aceitar o que me era de direito.Era um brochurão médio,de capa preta e com apenas uma inscrição na capa,onde costuma-se colocar o nome do senhorio.A inscrição era irônica,mas humorada.Tracejada em uma fina letra,delicadamente enfeitada.
« Seuls les intelligents peuvent voir. »
Só os inteligentes podem ver,não?Então era uma pista para seu coração.Abri-o.Continha uma pena branca,com a ponta afiada.As páginas estavam em branco,mas apresentavam uso e manuseio constante.Algumas enrugadas como se houvessem se molhado e secado.Em algumas páginas haviam inscrições à caneta,sempre preta,mas não passavam de datas e anotações cotidianas,como um horário no dentista,um encontro marcado com o irmão.Os nomes de algumas melhores amigas...Dois nomes masculinos enfeitavam o alte de algumas outras páginas,sempre juntos e com um x no meio.Após a metade do caderno apareciam novos nomes.Nomes de mulheres.Ou de uma só,em várias línguas,como pude perceber mais tarde.
Claro que não demorei a descobrir como ela havia escrito aquele livro.Tinta invisível.Gotas doces de limão e lágrimas amargas.
Eu li diante do fogo.Descobri um tesouro.Uma confissão de crimes.Um amor eterno.Uma dor incrível de um coração espatifado.Uma decisão árdua.descobri Eleonor Cygneblanc.
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