Badlands

10 Capítulo Dez


Notas iniciais
OI OI GENTE Queria dizeer que eu não consegui cumprir o desafio, mas irei tentar novamente ano que vem! Parabéns a quem conseguiu, e um agradecimento especial a Helly e a Sorvete que me encheram o saco até eu postar, amo vocês!

Jason não levou muito tempo para chegar, e como uma criança que é impedida de brincar, tentei reprimir uma careta quando ele disse que era hora de ir, e confesso que isso me deixou surpresa. Eu não percebi o momento em que eu havia gostado da companhia deles.

— Por quê? Ela não é um bebê, eu posso levar ela mais tarde.

Nico tinha o braço ao redor dos meus ombros, enquanto conversávamos com Will, Percy, Hazel e Frank. É óbvio que isso não passou despercebido aos olhos do meu irmão.

— Você pode largar ela por uns cinco minutos? Nós precisamos ir em um lugar.

Franzi o cenho.

— Precisamos?

— Precisamos. Diga adeus aos seus amigos e vamos logo cara-de-pinheiro.

Abri a boca, surpresa. Jason era terminantemente proibido de me chamar assim.

— Você é um homem morto Jason. – Murmurei enquanto me desvencilhava de Nico e ia até a saída, mas me virei para os “amigos” na mesa. – Adeus, foi ótimo. – Mas espero que não me convidem para a próxima.

Eles sorriram e acenaram enquanto Jason me levava pelo braço.

— Jason. Porque você...

— Você e Nico estão saindo?

Levantei uma sobrancelha conforme atravessávamos a casa.

— Isso é... Ciúmes?

Jason fez um bico enquanto abria a porta da frente, me dando passagem.

— Talvez.

— De mim, ou dele?

Ele apenas revirou os olhos e rumou até o carro.

— Afinal, onde nós precisamos ir?

Fechei a porta e notei a ausência de Piper. Ela já estaria em casa?

— Precisamos ir ao hospital. – Ele conferiu o relógio de pulso e ligou o carro. – E se não corrermos, não vamos chegar a tempo.

Arregalei os olhos.

— O que? Ver quem?

— Valdez.

(...)

— Seu elfo demoníaco! – Gritei enquanto entrava no quarto. – Quem te deu o direito de entrar em um coma alcoólico? De me deixar preocupada?

Leo apenas apertou a cabeça e fechou os olhos, devolvendo um copo para Piper.

— Eu já estou acordado. Já foi. Pra que gritar desse jeito? Ninguém te avisou que isso aqui é um hospital e que você precisa respeitar regras?

Eu não sabia se jogava alguma coisa na cabeça dele, socava ou abraçava.

— Você bebeu tanto assim? Valdez, se você não aguentava deveria parar. Você não sabe a hora de parar?

Ele sorriu e revirou os olhos.

— Você sabe que não tem muita moral para falar, não sabe?

Fiz uma careta.

— É, mas não sou eu que estou recebendo glicose intravenosa em uma cama de hospital. Estou muito bem, obrigada, nada que alguns analgésicos não resolvam.

Apertei minhas têmporas e me virei. Jason estava apoiado na parede de braços cruzados, parecendo irritado. Não consegui deixar de pensar no que Nico disse, em como Leo era inconsequente e em como isso acabou fazendo-os se afastar. Eu nunca tivera a oportunidade de perguntar à Jason o que ele achava daquilo, mas não podia negar a tendência à atos suicidas do meu amigo.

Leo e Jason sempre foram amigos, na verdade, eu conheci Leo por intermédio dele há muito tempo. Eles foram para um mesmo internato no ensino médio, apesar de Leo estar alguns anos à frente, eles acabaram ficando amigos.

Suspirei e me voltei para Leo.

— Quem te trouxe? Phoebe? – Ele assentiu e encarou o teto. – E onde ela está?

— Eu vim ficar no lugar dela. – Foi Piper quem respondeu. – Ela ainda não havia ido dormir desde que internaram Leo. Ele só acordou hoje.

Arregalei os olhos. Ela ficou dois dias sem dormir? E não me ligou? Tentei não me sentir magoada com o fato dela não ter dito nada, mas consigo imaginar claramente a voz dela na minha mente: “Não queria te deixar mais preocupada quando você tem tantos problemas”. Como se eu fosse frágil e pudesse quebrar a qualquer segundo. Uma inútil.

— Você está mesmo bem?

Leo sorriu e abanou a mão.

— Com a rainha da beleza cuidando de mim, como não ficar?

— Eu vou ficar aqui o tempo todo. – Jason murmurou do fundo do quarto.

— Certo, o Superman loiro vai ficar por aqui também, mas vai ser divertido.

Neguei com a cabeça quando a porta foi aberta e uma enfermeira entrou.

— Desculpem, mas o horário de visitas acabou. Os dois acompanhantes do paciente podem ficar, mas alguém terá que ir embora.

Suspirei, sentindo que eu havia sobrado no cálculo enquanto a enfermeira saia.

— Vem maninha, eu vou te levar pra casa. – Jason passou o braço pelos meus ombros e me puxou para perto. – Eu volto daqui a pouco, Valdez, não cometa nenhuma loucura.

— Estou preso nessa cama, não poderia nem se quisesse.

— Eu não tenho tanta certeza. – Resmunguei.

— O quê? Eu ganhei atestado para a faculdade e o trabalho por dois dias, estou no paraíso!

Neguei com a cabeça sorrindo enquanto saíamos do quarto. Esses garotos ainda vão me matar.

(...)

Assim que fechei a porta do apartamento troquei minhas roupas por um pijama e me enrosquei nas cobertas.

Eu só queria dormir, mas o sono não aparecia, talvez por ainda ser de tarde, ou talvez pela quantidade de pensamentos rondando minha mente.

Depois de algumas horas apenas encarando o teto, encontrei forças para levantar, lembrando do licor que começara a dividir com Nico no outro dia e o trouxe para minha cama, bebendo direto da garrafa.

Segurei-a firme entre meus dedos, tendo ela como a única certeza do mundo a minha volta.

Era... Horrível.

Agora que estava em casa, sozinha e em silêncio, após tantas coisas acontecendo nos últimos dias, eu consegui sentir o peso do mundo nas minhas costas. Vinha e me sufocava, trazendo-me para baixo com mais e mais força. Era um cansaço difícil de explicar, como se o simples fato de sorrir e tentar me divertir sugasse toda a minha energia de vida.

Era difícil respirar. Difícil manter os olhos abertos. Difícil viver. Difícil. Difícil.

Tudo começava a dissipar lentamente.

Tomei outro gole da bebida, tentando focar nas coisas à minha volta antes que perdesse completamente o controle.

— Respire Thalia, respire.

Larguei a garrafa e agarrei meus cabelos, sem me importar se ela poderia ou não derramar e molhar tudo.

Encolhi meu corpo, trazendo minhas pernas para junto de mim, balançando para frente e para trás.

— Não surte, não surte, não surte.

Eu queria gritar, queria chorar.

Gritei.

Chorei.

Gritei.

Chorei.

Bebi todo o licor que restara, quebrei a garrafa contra o guarda-roupa.

Todo gira, gira, gira, gira sem parar e eu não consigo ver as cores do mundo.

Preciso de ajuda.

Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro. Socorro.

Eu já não sabia se era apenas uma voz na minha cabeça, ou se saia pela minha boca.

Seu pai não te ama.

Não. Não. Não. Não.

Sua mãe se matou porque não te amava também.

Não. Não. Não. Não.

Seu irmão não foi atrás de você todos esses anos porque você é só um peso.

Não. Não. Não. Não.

Agarrei meu cabelo com mais força, sentindo alguns fios se soltarem da minha cabeça. Os gritos que eu estava ouvindo eram meus?

Você acha que Nico vai ficar? Por quanto tempo? Até ele perceber o que você representa e ir embora, porque você vai ser só um peso para ele também.

Não. Não. Não. Não.

— É mentira! – Gritei para o vazio à minha frente. – Não acredito em você! – Respirei fundo, vendo meu reflexo na janela, encarando meu rosto borrado. – Eu não acredito em você.

Joguei meus travesseiros contra a janela, sem surtir efeito.

Tentei me mover, mas minhas pernas estavam presas nas cobertas, fazendo com que eu me enrolasse ainda mais.

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Socorro. Socorro. Eu preciso sair daqui. Preciso sair. Estou presa. Não consigo respirar.

Eu já chorava e soluçava quando finalmente consegui me separar das cobertas e sair da cama, caindo de bunda no chão.

Minhas unhas afundaram no tapete, machucando meus dedos.

Levantei, indo até a janela e fechei as cortinas. Não conseguia me ver. Não agora. Dei alguns passos para trás e abracei meu corpo. Preciso ir ao banheiro.

Joguei água na minha cara, tentando afastar os calafrios e as vozes na minha cabeça.

Mas meus demônios nunca me abandonam, eles nunca vão embora, as vozes nunca se calam.

Procurei pelo controle do meu aparelho de som e liguei a música no máximo, sem me importar com meus vizinhos, há muito eles haviam parado de ligar para mim. Acho que as vezes eles fingem que eu nem mesmo existo. Não que eu tenha ficado triste com isso, claro.

Por mais alto que o volume estivesse, eu ainda conseguia ouvir tudo dentro da minha mente.

Voltei ao banheiro e entrei em baixo da água fria sem nem mesmo tirar o pijama. Ofeguei.

Minha pele se arrepiou no instante em que a água penetrou os tecidos atingindo meu corpo. Estou tremendo. Estou assustada. Estou perdida. Tão, tão, tão perdida.

Tirei minhas roupas e deixei a água correr o quanto quisesse. Correndo e correndo pelo meu corpo, até ficar insuportável respirar.

Sai do chuveiro e encarei o espaço vazio acima da pia onde antes ficava um espelho e agora só contava com fragmentos dele. Vendo minha imagem quebrada na parede. Vendo quem realmente sou.

Encarei a lateral de minhas mãos, ainda podendo ver as pequenas linhas brancas que resultaram da experiência de quebrar todos os espelhos da casa. Alguns dias era simplesmente insuportável me encarar.

Abri o armário da pia e busquei pela pequena caixa, colocando-a em cima da bancada.

Abri-a e encarei seu interior, por mais que tivesse prometido a mim mesma que nunca mais faria aquilo.

Tão, tão, tão fácil.

Um pequeno corte bem colocado e adeus. Adeus dor, adeus sofrimento, adeus tristeza, adeus memórias. Adeus. Adeus. Adeus.

Encarei meu reflexo em um dos pequenos fragmentos restantes. Meu lábio tremia. Meu olho estava vermelho.

Levei minha mão tremulante até a lâmina, mas ao sentir o metal gelado, recuei.

Eu estou perdendo a porra da minha mente?

Me encolhi contra o chão frio do banheiro.

Eu só queria que tudo isso acabasse. Eu só queria o fim. O fim. O fim.

A pequena caixa azul estava caída aos meus pés, próxima da lâmina.

Covarde, não serve nem para isso?

Agarrei meu cabelo, ofegando.

Tentei levantar, meus pés contra o piso gelado se moviam rapidamente até meu guarda roupa.

Comecei a tirar tudo lá de dentro.

— Onde está, onde está, onde está?

Quando quase todas as roupas, caixas, sapatos e o que mais eu tenho chegaram ao chão, eu encontrei.

Era pequena, rasgada nas laterais e amassada.

A foto exibia a mim, por volta dos oito anos, com as pontas do cabelo pintadas de azul, eu segurava Jason, que sorria sem alguns dentes e com um curativo sobre a boca. Meu pai estava de pé, serio, atrás de nós. E também tinha ela. Minha mãe.

Eu não sabia exatamente o que acontecera.

No início ela era boa e gentil, cuidando de mim e meu irmão, mas logo perdeu a cabeça. Bebia e fumava sem parar, até... O fim.

Tropecei em direção a minha cama e me encolhi com a foto contra mim.

Desculpe te decepcionar mamãe. Me sinto tão sozinha. Por que você teve que ir?

E então eu chorei, chorei agarrada a foto até dormir.

Acordei com meu telefone tocando histérico.

Abri um olho, depois o outro. Sentei lentamente e olhei ao redor.

— Que diabos aconteceu aqui? E... Aí, minha cabeça.

Meu apartamento havia se transformado da personificação do caos, sem dúvida alguma.

Busquei meu telefone entre as cobertas e percebi que eu tinha um número sem fim de ligações perdidas do meu chefe.

— Droga, droga.

Fechei os olhos e apertei minha cabeça.

O que eu faço agora?

Sentei na cama e notei que não estava vestindo nada, meus travesseiros jogados no chão, junto com quase todas as minhas coisas. Ok. Vamos pensar.

Peguei meu telefone e disquei o número já tão conhecido.

Depois do terceiro toque uma secretária de voz doce atendeu.

— Bom dia, escritório do Dr. Apolo, quem gostaria?

Suspirei.

— Olá Artie. Pode passar pro Apolo? É a Thalia.

— Ah, claro, espera só um segundinho.

Assenti, ignorando o fato de ela não poder enxergar o gesto.

Apolo era meu... Meio-irmão. Ele nasceu antes de meu pai se casar com minha mãe e só fui descobrir sua existência poucos anos atrás, depois de sair de casa.

— Aconteceu alguma coisa? Você está bem?

— Estou bem Apolo. – Apertei minha cabeça e levantei, buscando uma aspirina. – Quer dizer... Não muito. Você podia me conseguir um atestado? Só uns três dias. Não tenho me sentindo muito bem ultimamente.

Aconteceu alguma coisa? – Ele repetiu, parecendo mais preocupado.

— Eu só não estou me sentindo bem. Sério. Faz esse favor por mim.

Ele suspirou do outro lado da linha.

Tudo bem. Me prometa que vai se cuidar.

Respirei aliviada.

— Obrigada. Pode pedir pra Artie enviar pra Alice?

Claro e...

Mal deixei Apolo terminar e o interrompi, agradecendo e desligando logo em seguida.

Tomei um banho e voltei para minha cama.

Se vou ter uma folga de três dias, melhor eu aproveitar bem.

(...)

— Thalia! Thalia! Abra essa porta, eu sei que você está ai!

Pulei na cama, assustada, ouvindo batidas altas na porta.

Apertei minha cabeça e a cobri com a coberta, encolhendo meu corpo. Talvez se eu ficasse em silêncio, fossem embora.

— Eu avisei seu Bob, pode abrir, vai que ela está desmaiada lá dentro? – Abri meus olhos com força. Chamaram o zelador?

Pulei da cama buscando algo para vestir, enquanto ouvia o zelador mexendo no molho de chaves. Eu mal tinha tido tempo para enfiar o blusão quando a porta se abriu.

Phoebe irrompeu no apartamento, como um furacão, mas estancou no mesmo lugar.

— Ah. – Levei a mão ao peito. – É só você. Fiquei assustada.

Ela se virou para o Bob e o dispensou educadamente enquanto fechada a porta. Quando se virou para mim eu podia jurar que vi sangue em seus olhos.

— Assustada? – Ela falou com uma voz inesperadamente calma. – Você ficou assustada? Você? Thalia! Nós quase morremos! O que você pensou sumindo assim? Durante dias? – Ela se aproximou, me segurando pelos ombros e me chacoalhando. – Você não apareceu na empresa, não atendia o telefone, não saia de casa... Eu só consegui convencer eles a abrirem a porta pra mim agora! Você está machucada? Doente? – Ela puxou meus braços, analisando-os, depois segurou minha cabeça, virando-a para um lado e outro.

Phoebe me largou e levou as mãos ao cabelo, prendendo-o no alto da cabeça. Reparei no casaco dela. Devia estar ficando frio lá fora.

— Mas o que aconteceu aqui? Um furacão passou na sua casa? Por que está tudo no chão? E você, não vai falar nada?

— Você quer que eu diga o que? Posso voltar a dormir?

Me virei, tentando voltar para minha cama, mas ela me puxou novamente.

— Nada disso. – Ela torceu o nariz e puxou uma mecha do meu cabelo. – Você não tem tomado banho? Ou... Comeu alguma coisa?

Neguei.

— Posso voltar a dormir agora?

Puxei meu braço e caminhei até minha cama, sentei, ajeitando todas as cobertas à minha volta. Eu sentia um grande vazio.

Phoebe estava parada lá, me olhando como se não acreditasse.

— O que você está querendo Thalia? Se matar? É isso?

Encarei-a longamente antes de puxar as cobertas sobre a minha cabeça e deitar.

— Não dá pra matar alguém que já morreu por dentro Phoebe.