Badlands

7 Capítulo Sete


Notas iniciais
Eu sei que demorei, mas espero que gostem desse, mesmo. Boa leitura! P.S.: Obrigada, do fundo do meu coração à Helly que me deu um super apoio! Obrigada mesmo, sem você o capítulo levaria mais um mês!

Nico foi embora antes do anoitecer e levou com ele os olhares divertidos e os sorrisos sedutores, levou as mãos habilidosas e todas as sensações que trouxe consigo. Não trocamos telefone, e-mail ou perfil em redes socais – não que eu precisasse disso.

E eu não ganhei nenhum beijo. É claro que ganhei várias outras coisas, – muito boas, se quer mesmo saber – mas o fato de não ganhar um beijo sequer soou quase como um desafio que eu nunca mais poderia vencer, porque não vou quebrar tão cedo minha regra de casos de uma noite e aparentemente Nico também não.

Vou sentir falta de flertar com ele.

Suspirei, me enrolando às cobertas. Caras vêm e vão, assim como as noites, e ao final de todas elas eu continuo sozinha.

(...)

Conforme a semana passava eu me perguntava porque não pedia demissão. Me perguntava mesmo, de verdade. Precisava respirar muito fundo para não estrangular meu chefe – ou stalkear Nico, que não havia dado nenhum sinal de vida no twitter desde aquela tarde.

Eu conseguia sentir a linha tênue que separava o mundo real da insanidade e eu tinha certeza que estava caindo de cabeça. Durante aquela semana, Jason me visitou algumas vezes, assim como Leo, mesmo que eu quisesse ficar sozinha dentro do quarto olhando para o teto e pensando sobre o nada.

Não posso dizer que não me sinto agradecida, mas as vezes eu simplesmente desejava que o chão se abrisse e engolisse ambos antes que eu conseguisse falar “pipoca”.

A rotina me engolia de uma forma que eu não conseguia controlar e eu já estava me deixando levar por ela. A cabeça cheia durante o dia afastava todos os demônios que vinham à noite me assustar.

Hoje estou num happy hour sem saber bem o que me trouxe até aqui. Tomo um gole de licor enquanto observo Leo e Phoebe se aproximando apesar da chuva de outono.

— Posso saber o que nos levou à essa reunião extraordinária? – Elevei um pouco minha voz para que eles conseguissem ouvir, mesmo ao longe.

Leo sorria orgulhoso enquanto colocava uma folha à minha frente que exibia um enorme C+ no topo da página.

— Passei em Legislação. Sabe como é, sou bom em fazer coisas, não em seguir regras, então é bem surpreendente.

Phoebe revirou os olhos, sentando ao meu lado.

— Você também não é lá muito bom em fazer coisas.

— Ah, você gosta das coisas que eu faço.

Ela retrucou alguma coisa que eu já não prestava atenção enquanto levantava a sobrancelha e alternava o olhar entre ambos.

— Por que vocês não podem ficar cinco minutos em um mesmo lugar sem provocação? Só... Sentindo a calma da vida. Essa vibração tranquila. O silêncio. Apenas curtam a calma da vida.

Leo olhou em volta e me encarou.

— Que calma Thalia? A música desse pub está quase explodindo meus tímpanos.

— Isso é calma para mim, oras.

— Vou pegar uma cerveja. Quer alguma coisa ruiva?

— Pode ser o mesmo.

Leo se afastou enquanto Phoebe se ajeitava na banqueta.

— Então. Você sumiu essa semana! Achei que depois daquelas duas festas íamos passar a semana toda juntas! A gente podia ter sei lá, ido fazer compras, ou ido tomar um sorvete!

— Pelo menos eu reservei a sexta-feira para vocês, não reclama.

— Nossa, que bicho te mordeu? Eu estava brincando!

Suspirei esfregando o rosto.

— Desculpe. Eu acho que estou estressada. E cansada.

Phoebe prendeu o cabelo longo em um rabo de cavalo e deu de ombros.

— Tudo bem, eu entendo. Quer dizer, eu podia ter ido fazer uma visita, mas esperei você dar um sinal de vida.

— Eu não estava no clima, não tem problema.

Ela apoiou o rosto na mão enquanto me encarava e fez uma careta.

— Mas estava no clima para receber Leo e Jason. Eu já sei de tudo queridinha, não adianta esconder.

Você não sabe de tudo queridinha.

— Eu também não estava no clima. Eles invadiram minha casa, não tive muita opção. Vimos um filme e só.

Leo chegou com as cervejas e sentou na terceira banqueta.

— Soube que você conheceu Will.

— As fofocas correm mesmo entre vocês, não é? Minha nossa.

Tomei outro gole de licor enquanto refletia naquela tarde na casa da minha família. Ela ainda era uma bagunça no meu peito.

Peguei meu celular e resisti ao impulso de atualizar o twitter, apenas vendo as horas.

— Eu sei de tudo o que acontece nessa cidade, super-choque. Nada escapa do Valdômetro.

Revirei os olhos sorrindo.

— Estou cansada.

— Você está sempre cansada.

— Eu queria dormir.

— Quando você não quer?

Encarei os dois.

— Isso é o que? Um complô contra mim?

— Desculpe Thals, – Phoebe levantou as mãos – mas tem sido difícil te tirar de casa. Você só quer saber de trabalhar e trabalhar...

— E trabalhar e trabalhar... – Leo completou por ela.

— Eu preciso do salário para viver! E para pagar as compras que fiz para você.

— Eu já disse que não precisava daquilo tudo.

— Eu quis dar. Sem devoluções.

Leo já tinha tomado metade da cerveja quando me encarou.

— Leo, estou com fome. Pede alguma coisa, uma pizza, batata, sei lá.

— Eu sou o que? Sua empregada agora? – Mas ele já levantava indo até o balcão.

Phoebe seguia Leo com os olhos antes de tomar outro gole da cerveja.

Uma ideia louca juntamente com uma sensação esquisita está se apoderando de mim, como se eu estivesse por fora de alguma coisa importante.

Semicerrei os olhos e encarei Phoebe.

— Aconteceu alguma coisa que eu não fiquei sabendo?

Ela engasgou e me encarou.

— Oi? Tipo o que?

— Tipo não sei, por que você se assustou?

— Tipo por que esse interrogatório agora?

— Por que você está tão na defensiva? Tipo.

— Eu não estou na defensiva!

— Claro que está! O que aconteceu? – Ela apenas tomou outro gole de cerveja e não disse nada. – Quer saber? Espera aí. Valdez! – Gritei – O que...

Phoebe pulou, tapando minha boca com a mão. Por sorte, Leo não virou para nós. O barulho do pub estava sendo um álibi para essa amiga traíra.

— Eu estava bêbada, ok? Foi um momento de fraqueza.

Franzi meu rosto, sem entender.

— Você o que? Do que você está falando?

O rosto dela se contorceu para uma expressão de culpa enquanto ela voltava a encarrar Leo. Arregalei os olhos enquanto minha boca voltava a ser coberta pela mão de Phoebe, e a compreensão caia na minha cabeça como uma barra de ferro.

Tentei falar alguma coisa, mas não consegui.

A mãe dela desceu lentamente enquanto ela tomava outro gole de cerveja, virando toda a garrafa.

— Eu não acredito nisso! E ninguém ia me dizer nada? Vocês se beijaram?

Ela encarou o teto como se quisesse se enfiar em um buraco.

— Também.

— Como assim “também”?

— Ah. Você sabe. – Ela girou o rosto e fez um gesto com a cabeça.

— Como assim “você sabe”? Vocês... – Ela assentiu. – Ai meu Deus!

— Quieta!

Eu estou em choque.

— Como isso aconteceu?

Ela me encarou quase que rindo, quase chorando.

— Você sabe como aconteceu.

Revirei os olhos.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Quer saber? – Ela escondeu o rosto com as mãos. – Foi só uma vez e nunca mais vai se repetir, deixa isso pra lá.

— Por quê?

— Por que o que?

— Por que nunca vai se repetir?

Ela arregalou os olhos.

— Como assim? Nós somos amigos. É esquisito.

— Isso não impediu vocês de fazerem outras coisas.

Ela roubou minha garrafa de licor e colocou mais em meu copo, tomando um gole dele.

— Quer saber? Você é ridícula.

E num timing perfeito, Leo voltou à mesa.

— Só estão fazendo quatro queijos hoje. Quem é ridícula?

— Thalia é ridícula.

Sorri como se ela não estivesse dizendo nada.

— Não tem problema Valdez, eu gosto dessa. – Phoebe me encarava como se quisesse me estrangular. Sorri internamente. Aquilo podia ser divertido.

(...)

— Proocurando Neeeeeeeeemo. – Gritei, enquanto ria.

— Oooonde é que ele taaaaaa? – Valdez me seguia enquanto tentava tomar mais um gole de cerveja.

— Quero saber como chegar laaaaaaa!

Phoebe dirigia, já que era a única em condições para aquilo e eu já não sabia bem o que estava fazendo.

Leo e eu improvisávamos no baleiês e nos abraçávamos no banco de trás.

— Vocês são péssimos nisso. Não mereço. Deus. Eu não mereço. Por quê? Isso é punição por beber demais em uma noite e fazer besteira? Eu sou jovem e estou sujeita a erros, Deus. Isso é punição demais. Eu não recebo bem o suficiente para ser chofer deles, pelo menos, não da versão bêbada deles. Por favor, me livre desse castigo.

— Phoeeeebe, para de reclamar querida. Ei! – Exclamei quando ela não virou o carro em direção ao meu apartamento. – Minha casa é pra lá. Pra onde você vai?

Ela acelerou um pouco mais e talvez tenha me respondido, mas não tenho certeza, porque tudo começou a correr e eu fechei os olhos contra o estofado do carro.

Quando meus olhos voltaram a abrir, eu ouvia mais vozes, mas Leo dormia ao meu lado.

— Eu não quis deixar ela sozinha no apartamento assim, desculpa a hora.

— Tudo bem. – A voz sonolenta de Jason soou fora do carro e logo a porta ao meu lado foi aberta. – Obrigado por trazer ela. Você dá conta dele?

— Claro querido. Já lidei com coisas piores. Até mais.

Alguém me pegou no colo e forcei meus olhos a se abrirem.

— Tudo bem Thals. Você pode dormir. A gente conversa depois.

Me aconcheguei um pouco mais perto de Jason e suspirei.

— A gente conversa depois. – Repeti, ou acho que repeti, mas cai no sono logo em seguida.

Só acordei quando senti algo no meu rosto.

Era gelado e molhado.

Água.

Meu cérebro demorou alguns segundo a mais do que o necessário para pular e sentar direito.

— Meu Deus do céu o que foi isso?

Jason deu um pulo ao meu lado, me fazendo lembrar de como havia chego até ali, meu cérebro levando alguns segundos para processar tudo. Olhei ao redor e ainda estava escuro, me indicando que ainda não havia amanhecido. Sentia o sofá molhado abaixo de mim e estremeci.

Quando olhei para a pessoa que tinha um copo na mão, não soube como reagir.

— O que você faz aqui? – A voz dele soou distante como sempre.

— Pai! – Foi Jason quem se manifestou. – Por que fez isso? Ela só veio dormir aqui!

Zeus sorriu de modo maldoso e apontou para mim.

— Depois de encher a cara? Aposto que sim. Isso aqui não é hospital ou centro de recuperação. Limpa essa bagunça e vai embora. E você, suba para o seu quarto.

Depois disso, ele apenas virou as costas e foi em direção às escadas.

Meu corpo todo tremia.

Dos pés à cabeça.

Eu apenas olhei para Jason que encarava nosso pai, chocado. Acho que ele era jovem demais para lembrar das nossas antigas discussões, mas agora aqui estava ele, presenciando tudo o que eu tentei evitar durante os seis anos. Tudo o que eu não quis que ele visse e soubesse que me fez ir para longe. E eu falhei miseravelmente.

— Por que você faz isso? – Jason respirava de uma forma que eu não considero normal. Forcei minha mente ainda lenta a se aproximar dele. – Por que você trata ela dessa forma? O que ela fez pra você? Eu não consigo entender! Por que você é assim?

Jason já levantava indo atrás dele, mas apenas o puxei pela mão.

— Jason. Não. Por favor. Deixa.

— Thalia... Ele não pode te tratar assim, ele...

Meus olhos começaram a se encher de água e eu ainda tremia. Jason pareceu notar, porque parou de lutar contra mim.

— Tudo bem irmãozinho. – Ofeguei, tentando manter a postura. – Eu estou bem. Eu vou ficar bem. Vou embora para não te causar problemas. Limpa isso pra mim?

Apontei para a água espalhada pela sala, sem me importar com a água nas minhas roupas, no meu cabelo e no meu rosto.

— Não Thalia, eu quero que você fique aqui.

Jason levantou as mãos, tentando me abraçar, mas eu apenas às abaixei, segurando-as entre as minhas. Neguei com a minha cabeça.

— Não Jason. É melhor eu ir. É melhor mesmo. Faz assim, aparece lá em casa depois. Se acalma e limpa isso por mim, tudo bem? Eu amo você, não esqueça disso.

Conferi se meu celular estava no bolso e sai da casa antes que Jason pudesse reagir. Não sei o que pode acontecer agora entre eles, mas prefiro não pensar sobre. O céu começava a clarear no horizonte e eu ofeguei conforme caminhava.

Preciso ser forte.

Preciso ser forte.

Preciso ser forte.

Não chore.

Não chore.

Não chore.

Estou desmoronando.

Estou desmoronando.

Estou desmoronando.

O caminho da casa de Jason até a primeira loja de conveniências foi longo e solitário. Minha cabeça era preenchida com todas as vozes que me diziam tudo o que eu não queria ouvir.

Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca. Culpada. Egoísta. Sozinha. Abandonada. Fraca.

Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca. Fraca.

Meu corpo cambaleava pela rua quando entrei na loja vazia.

Andei até a seção de bebidas e peguei uma garrafa de licor, indo até o caixa.

Achei uma última nota de vinte dólares no meu bolso e entreguei ao balconista. Ele me encarava em um misto de medo e pena.

— Acho que você vai precisar disso.

Ele me estendeu uma sacola de papel e eu apenas assenti com a cabeça, saindo da loja.

— Moça! O seu tro...

Mas eu já estava longe demais para me preocupar com aquilo.

Destampei a garrafa e dei um longo gole.

Quão fácil seria me livrar de tudo? Acabar com tudo? Fazer tudo... Desaparecer?

A garrafa em minha mão era tão pesada quanto minha mente, me puxando mais e mais para baixo até o fundo do poço.

Caminhei até o primeiro metrô que encontrei e me apoiei em uma das barras.

Algumas pessoas já começavam a lotar as estações, já era hora de alguns trabalharem.

Minha cabeça pendia de um lado para o outro conforme eu tomava mais alguns goles da garrafa enrolada em papel.

Levantei minha cabeça e encarei meu reflexo fragmentado nos vidros.

Roupas molhadas, cabelo molhado, maquiagem preta escorrendo pelo rosto também molhado, tanto por lágrimas quanto por água.

E eu queria tanto morrer. Tanto. Tanto. Tanto. Tanto. Tanto. Mais do que qualquer coisa.

— Mamãe, aquela moça está bem?

Uma garotinha à três bancos de distância apontava para mim enquanto a mãe dela puxava o braço da menina, exigindo silêncio.

Ela não era a única a cochichar sobre mim. E também não era a primeira.

Quem sabe fosse a última?

Talvez. Talvez. Talvez.

Abaixei meu corpo e me encolhi. Minhas mãos apertavam minha cabeça enquanto algumas pessoas se afastavam e mães traziam os filhos para mais perto.

Isso não é um sonho.

Eu não posso acordar.

Isso não é um sonho.

Não é um sonho.

Não é um sonho.

É a minha realidade.

Meus dedos apertavam meu cabelo com força. Com mais força do que o necessário. Mais força do que eu gostaria. Até doer mais do que meu peito.

Minha respiração fluía com dificuldade.

Suprimo meus sentimentos. Fiz isso por toda a minha vida. Eu estou bem. Eu estou bem.

Encarei o chão do metrô enquanto ele seguia por horas e horas à fio.

Não estou bem.

E estou sozinha.

Você sabia que: A Bipolaridade é intercalação entre surtos de mania e depressão em um ritmo fora do comum, podendo ter oscilações de dias/semanas/meses.

Um episódio depressivo pode deixar uma pessoa incapaz de sair da cama ou ir até o trabalho; um episódio maníaco pode fazer uma pessoa ficar sem dormir durante várias noites e dias ou gastar um dinheiro que, de fato, ela não tem ou não desejaria desperdiçar.

Notas finais
Vocês gostam dessas curiosidades sobre bipolaridade ou nem? huahauah Obrigada por não desistirem de mim, beijos!