Badland
3 A Mudança
Quando Amelia chegou à sua nova casa, seu primeiro sentimento foi de estranheza. Estranhou a casa, estranhou a vizinhança, estranhou os vizinhos. Estranhou as janelas, a porta, a varanda e o gramado. Estranho o céu e o canto dos pássaros. Estranhou o cachorro que veio ao gramado procurar por um bom toalete.
Estranhou tudo.
Estranhou bastante.
Não gostou de nada.
—Tudo será melhor. — dissera sua mãe, sem olhá-la. Parecia que dizia isso mais para si mesma do que para a filha. Amelia ouvira isso sem muita animação, pois estava muito distraída com Nelson para se importar com qualquer outra coisa. Sentada no banco de trás e tendo seu porquinho da índia aninhado em seus braços, ela olhava pela janela do carro e pensava em como seria bom se o fim do mundo viesse naquele momento. Faria uma baita bagunça, mas ao menos impediria que aquele Ford-de-bigode chegasse ao seu destino. Mas ele chegou. E agora ela tinha que descer...
Amelia encolheu-se no fundo do carro. Não chegou necessariamente ao chão, continuava sentada no banco, mas encolheu-se o suficiente para que não fosse vista através do vidro. A mãe saiu do carro, deu a volta no veículo e parou ao lado da porta de Amelia. Abriu-a, dando passagem e olhando Amelia de uma forma que significava apenas uma coisa.
“Saia daí.”
Amelia baixou a cabeça. Escorregou feito uma lesma sobre o banco, saindo do carro e pondo-se de pé, olhando a casa de telhado torto, porta escura e janelas tristes. Sua nova casa.
Nelson se remexeu em seu colo. Ele soltava um barulhinho arrulhoso típico de porquinhos da índia, e tentava enfiar a cabecinha ainda mais fundo no colo da dona. Amelia juntou as sobrancelhas. Talvez ele estivesse com frio.
—Tudo será melhor. — a mãe repetiu. Amelia não acreditou. Não imaginava por que mudar de casar melhoraria as coisas. Mudaria as coisas, isso sim. Mas mudar não é propriamente sinônimo de melhorar.
A mãe começou a andar. Ela era uma mulher alta e esguia, de longos cabelos negros presos num coque baixo, e alguns fios encaracolados escapavam e balançavam ao vento. Seu vestido era azul celeste, e não era possível ver seus sapatos. Em suas mãos, uma mala. As outras malas estavam no carro. Pelo visto a mãe queria ver a casa primeiro, livrar-se daquela pequena mala de mão e depois vir buscar o resto da bagagem. Claro que seria bom ter um homem para ajudar com este serviço, mas não havia, e nem necessitava. A mãe não teria problemas em descarregar o carro. Elas não tinham muita bagagem.
Amelia ainda estava parada. Olhava para o passeio, para a grama, para a casa, para o céu. O céu estava escuro e chuvoso. O vento se infiltrava entre os fios de cabelo da menina, e os fazia balançar. Ela começou a caminhar, e observava com atenção por onde estava caminhando.
O passeio que levava à entrada era formado por grandes placas de cimento. Ao redor, uma superfície gramada e sem atrativos. De fato, nada do lado de fora da casa possuía qualquer atrativo. Era sem cor, sem graça e sem vida. Suas cores pareciam ter sido apagadas com uma borracha. Na verdade todo o contorno da casa parecia ter sido apagado com uma borracha. Era só um borrão, um rascunho do que deveria ser uma casa, mas não era uma casa.
Era uma casa.
Não, não era.
Mas devia ser.
Não havia varanda, após o passeio já havia a porta. A porta escura. A mãe tirou a chave de sua bolsa, uma chave também escura e sem brilho, voltou a pendurar a bolsa em seu ombro, introduziu a chave na fechadura e girou. Daí ela girou a maçaneta.
Amelia não queria entrar. Não queria sair do carro, e agora não queria entrar na casa. A mãe entrou, e ao entrar pareceu que ela sumira na penumbra. Amelia ficou parada na porta, segurando Nelson, que dava menções de que logo dormiria. A mãe voltou-se para a filha, mas uma vez mirando-lhe aquele olhar.
“Entre.”
Ela colocou o primeiro pé para dentro da casa, pisando sobre o tapete de entrada. Colocou o segundo. No tapete estava escrito “Bem Vindo”. Amelia não se sentiu bem-vinda. O tapete era muito fofo. Mas não era acolhedor. Amelia não gostava de coisas muito fofas. Só de Nelson. Nelson era muito fofo. E sempre fora acolhedor.
O corredor era amadeirado. Esse foi o melhor adjetivo que Amelia conseguiu encontrar em sua cabecinha de 8 anos, e de fato era o adjetivo apropriado para aquele corredor. Tudo nele era de madeira.
O teto.
O chão.
O pequeno aparador que se estabelecia mais á frente e tornava o corredor ainda mais apertado.
A mãe voltou a andar. Amelia a seguiu.
—Lidia chegará logo. — a mãe disse. — Ela só precisava retirar um pouco de poeira da antiga casa, e já estaria se dirigindo para cá. De qualquer forma, podemos arrumar as coisas nós mesmas enquanto ela não chega.
Amelia escutava a mãe, e imagens vinham a sua cabeça.
A antiga casa. Uma construção de dois andares, de cimento e madeira, com uma varanda e uma porta cor de chocolate. As paredes eram brancas, o chão era marrom, e as cortinas nunca eram da mesma cor. Os quartos eram amplos e arejados, as janelas eram grandes. Amelia amava aquelas janelas. Elas eram grandes. E ainda havia a porta da entrada cor de chocolate. Amelia amava aquela porta também. Dava vontade de comer. Dentro da casa, havia tudo o que lhe dava alegria e aconchego. E nada tinha poeira. Isso graças a Lidia.
Lidia, a empregada. Uma mulher no auge de seus 35 anos, e que aparentava ter 45. Quando perguntada, sempre dizia que o tempo era seu maior inimigo. Ela sempre culpava o tempo. Mas Amelia sabia a verdade. Seu pai lhe contara. Em noites chuvosas, quando Amelia se deitava na cama para ouvir histórias de ninar, seu pai nunca lhe contava histórias comuns. Nada de Chapeuzinho Vermelho, ou João e o Pé de Feijão, ou mesmo Branca de Neve. Não. Seu pai lhe explicava o porquê das coisas serem do jeito que são. E uma noite ele explicou por que a empregada era daquele jeito. Ele disse que, quando as pessoas aparentam ser mais velhas do que realmente são, não era culpa do tempo, isso era por que existia um ser matreiro que lhes roubava a juventude, um pouquinho de cada um, para que ninguém percebesse o que ele fazia. Um ser matreiro que não envelhecia, mas que espreitava a todos, observando-os, mas nunca interferindo. Um ser que Amelia chamava de “gatinho caolho”.
Amelia chegou ao seu quarto. Ela sabia que aquele era seu quarto porque sua mãe lhe dissera isso. Ela dissera isso e voltara a caminhar pelo corredor, entrando por outra porta e fechando-a. Ouviu-se o barulho de um trinco. Amelia observou seu novo quarto. Era um cômodo sem cor, assim como o resto da casa, coberto por penumbra e com apenas uma janela, que estava fechada. Já havia uma cama, um criado-mudo e um guarda roupa. Nada com cor, tudo encoberto por sombras, tão diferente de seu antigo quarto.
Sua antiga casa. Lá sim havia cor.
Ela entrou no quarto, foi até a cama e colocou Nelson, que dormia gostoso, com cuidado sobre o colchão. Abriu o guarda-roupa, que estava vazio, deu alguns passos atrás e sentou-se sobre a cama. Ela sabia que a mãe não sairia do quarto em que entrara. Pelo menos não tão cedo. E sabia que Lidia demoraria. Também não chegaria nem tão cedo. Ela pensou no carro parado lá embaixo na rua. Pensou no porta-malas que a mãe deixara aberto. Isso não era bom. Trolls poderiam se aproximar do carro, abordá-lo e levar todas as meias. Então, o que Amelia faria sem suas meias? Como calçaria os sapatos?
Amelia se levantou. Desceu correndo as escadas, passando pelo corredor amadeirado e saindo da casa. O carro estava do mesmo jeito, com o porta-malas aberto e ninguém passando na rua. Amelia aproximou-se do carro, olhando em volta com olhos cerrados. Os trolls estavam lá, escondidos, espreitando o carro. Ela não podia vê-los, mas ela sabia de sua presença. Teriam atacado, se Amelia não tivesse surgido. A menina respirou fundo. Eles não iam vencer.
Uma mala por vez. Assim foi o procedimento até o porta-malas ficar vazio. Amelia deixou tudo na sala do andar de baixo. Protegido dos trolls. Ela fechou o carro, correu para dentro de casa e fechou a porta. Podia sentir os trolls correndo atrás dela, e quase entrando, se ela não tivesse fechado a porta rapidamente. Suspirou de alívio. Havia salvado o dia. Olhou suas mãos, estavam vermelhas. Devia ser uma maldição dos trolls por ela não tê-los deixado entrar. Foi até a sala, passando por cima daquelas malas volumosas e procurando a sua. Achou-a, uma mala de couro claro com algumas flores arranhadas na superfície, e carregou-a para cima até seu quarto. Abriu-a, tirando suas roupas e seus ursos de pelúcia, colocando tudo sobre a cama. Tirou também a gaiola de Nelson, deitando o bichinho lá dentro e colocando a gaiola sobre o criado mudo.
Nelson sequer se importou. Prosseguiu com seu sono gostoso.
Amelia observou o guarda-roupa. Daí olhou suas roupas.
Saiu do quarto, indo até o quarto onde estava a mãe. Bateu na porta, que era de um marrom muito escuro e sem graça.
Nenhum som de resposta.
Amelia bateu de novo.
Nada.
Amelia bateu novamente, desta vez com mais força.
Nada mais uma vez.
Talvez a mãe pensasse que fosse um ladrão, e estivesse morrendo de medo encolhida dentro do quarto.
—Mamãe! — Amelia chamou, batendo na porta. — Sou eu, abre a porta! — nenhum som vindo de dentro do quarto. — Não sei como arrumar minhas roupas no guarda-roupa, e não tenho cabides, por favor me ajude! Mamãe, sou eu, Amelia!
Nenhum som mais uma vez, e Amelia voltou ao seu quarto, percebendo que sua mãe sabia que não era um ladrão quem estava batendo na porta. Ladrões não batem na porta. A mãe sabia que era a filha. Mas simplesmente não queria atender.
Amelia fechou a sua própria porta.
O quarto escureceu.
Ela abriu a janela, achando-a muito pequena em comparação com a de seu quarto anterior. Pôde ver uma pequena parte de sua cidade através daquela janela, mas isso não melhorou nada. De sua antiga janela ela podia ver muito mais. Podia ver o rio Tâmisa, podia ver a ponte Blackfriars, podia ver várias casinhas com chaminés de onde saia fumaça negra. Mas desta nova janela... Só se via telhados sem graça.
Ela começou a arrumar seu guarda-roupa. Arrumava-o como podia, pois não tinha cabides, e nem a mãe. Enquanto fazia isso, sequer olhava para a porta fechada.
Afinal ela sabia que ninguém iria pedir para entrar por ela...
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