VOZ de DELFOS: “Eu tenho mesmo que fazer uma pergunta?” Estamos no deserto. Não tem calor, mas sinta como se a briza ardente passasse pelo seu corpo. Sinta esse calor, o céu azul, as nuvens de poeira, o desejo de um oásis. Esta é a sua terra, o seu cenário. Nada é por acaso.

RAPAZ: Uai, cadê eu, pelas caridade? Silvio Santos? Cadê tu, Silvio Santos? Tá gravando, não tá?

VOZ de DELFOS: Você está aqui.

(O RAPAZ entra em cena)

RAPAZ: E você?

VOZ de DELFOS: Não é a minha hora ainda.

RAPAZ: E vai ficar dialogando comigo do além mesmo, é, assombração de nós todos? Cadê que tinha até sotaque, skin e tudo?

VOZ de DELFOS (solta uma risada): Esta não é uma IA comum. Eu vou sumir por um momento, mas vou voltar.

RAPAZ: Tais doido? Eu vou é voltar a jogar...

VOZ de DELFOS: Você pode sair quando quiser.

RAPAZ: … com os brodi?

(entra JOGADOR 1)

RAPAZ: João? O que você está fazendo aqui? De que planeta você veio, criatura?

JOÃO [Jogador 1]: Tu é n00b até para usar um aplicativo. Vai querer fazer o tutorial também?

RAPAZ (rindo): Você está ridículo com essas roupas, João. Está parecendo a tiazinha fazendo cosplay de dançarina de dança do ventre.

JOÃO: Nós estamos no cenário do deserto. E se tivesse prestado mais atenção você perceberia que também está todo coberto de preto.

RAPAZ (se olhando): orra, diabo!

JOÃO (chamando pelo braço como se fossem caminhar de braços dados): Quer continuar?

RAPAZ: Espere, João. É você mesmo quem está aí? O João? (toca no rosto de forma desengonçada). Eu sinto você, mas isso é um aplicativo. Quem está aí é o João mesmo ou é o Delfos?

JOÃO: Tu é baitola, é?

RAPAZ: Assim eu te entendo. (ainda desconfiado) Mas como você veio parar aqui?

JOÃO: Você registrou de novo o meu e-mail no formulário para caso perdesse a conta, não foi?

RAPAZ: Bom, foi.

JOÃO: E é por que você confia em mim, que sou seu amigo há tanto tempo?

RAPAZ: Rapaz, claro né... que não. Eu avisei antes que o aplicativo era suspeito. Eu estou na expectativa de roubarem até o cartão e os dados meus e da minha família. Se pah pegam os seus também. Pelo menos não vou ficar sozinho.

JOÃO: É um fresco mesmo.

RAPAZ: Mas foi você quem usou meu e-mail num site de pornografia uma vez. Até hoje eu recebo anúncios para aumentar o pênis e para sair com travesti.

JOÃO: Se pah você faz o combo qualquer dia desses.

RAPAZ: Nossa, como você é zueiro, cara.Você é muito zueiro. Eu não pude nem entender o que você falou porque é zueiro demais.

JOÃO: Quem tem limite é município.

RAPAZ (para um pouco): Delfos, você está aí, meu rei?

[Silêncio]

RAPAZ: Delfos?

VOZ de DELFOS: Estou sim. Mas finja que não estou.

RAPAZ: Agora é que eu não vou me esquecer nunca mais.

JOÃO: Venha comigo. Eu vim para uma quest [2] aqui.

RAPAZ: Assim, sem mais nem menos?

JOÃO: Não, a empresa tem parceria com a do nosso jogo. Vou ganhar uma skin se fizer direitinho.

RAPAZ: Ah bom, então assim, sim.

JOÃO (caminhando com o RAPAZ, quase lado a lado, mas RAPAZ um pouco atrás): Então, qual foi mesmo a sua pergunta para a IA?

RAPAZ: Bom… não foi bem uma pergunta. Eu só reagi e ele tomou como pergunta.

JOÃO: Nunca reaja, é o que sempre dizem. Mas o que você disse?

RAPAZ: Eu perguntei se tinha que fazer uma pergunta.

JOÃO (incrédulo): Que coisa mais imbecil. Não tinha nada melhor?

RAPAZ (rindo e disfarçando): É… Bom… Você sabe, a gente sempre testa antes para ver se…

JOÃO: Então, trocando em miúdos, a sua pergunta é sobre que pergunta fazer?

RAPAZ (surpreso): Minha nossa, nossa, nossa! Eu fiz isso?

JOÃO: Se nem você sabe, imagine eu. (pausa) Mas então, se não é, o que é que você queria perguntar?

RAPAZ (distante): Eu… não quero dizer.

JOÃO:Assim tu me complica, patrão. Eu vim até aqui para ganhar minha skin, meu chapa, não para ficar brincando com tu de graça.

RAPAZ: E qual é a condição para você ganhar a skin?

JOÃO: O Oráculo quer responder à sua pergunta. Mas é como uma cartomante: você precisa interagir para que o software colete dados para uma resposta mais precisa.

RAPAZ: E como a cartomante, é tudo enrolação.

JOÃO: Quem está fazendo a consulta é você. Eu só estou aqui pela skin.

RAPAZ (pausa, distante): Você não vai me julgar se eu disser?

JOÃO: Eu sei o que você quer que eu diga, mas você sabe o que eu vou dizer.

RAPAZ: Raios! Eu quero que você ganhe seu brinde bosta. Mas assim eu não falo.

JOÃO: AI meu saco! Então por que não tira o óculos VR e volta para o jogo, ou vai trabalhar, sei lá, cara, faz alguma coisa. Estamos todos esperando por isso.

RAPAZ: Os meninos? Como assim, João?

JOÃO: Você é parado! Não leva nada a sério! Nem estudo, nem trabalho, nem o jogo, nem mesmo um maldito software que você próprio baixou.

RAPAZ: Mas eu estou aqui, não estou?

JOÃO: Está mesmo?

RAPAZ (distante): Eu não posso falar sobre isso com você.

JOÃO: E por que não?

RAPAZ: Somos amigos há muito tempo. Você me conhece, conhece meus defeitos. A gente troca farpas direto, e é divertido. Mas eu não posso falar a sério com você, João.

JOÃO: Então para que serve a minha presença?

RAPAZ (em choque): N-não, não foi o que eu quis dizer. Eu só…

VOZ de DELFOS: Já chega!

(mudança de cenário na tela; volta a ser tudo branco. JOÃO se retira).

RAPAZ: Misericórdia. O que foi agora?

VOZ de DELFOS: A missão do seu amigo acabou.

RAPAZ: Mas já? Eu tinha a impressão de que ele queria que eu falasse algo importante, mas eu não falei nada.

VOZ de DELFOS: Nada ou tudo, o Oráculo decidiu que era o bastante. Posso dizer a resposta para a sua pergunta?

RAPAZ: Não, espere. Eu não posso mesmo mudar a pergunta que fiz?

DELFOS: E por que gostaria de mudá-la?

RAPAZ (distante): Tecnicamente o que eu fiz nem foi uma pergunta, foi uma exclamação.

DELFOS: Ah, foi? E o que você gostaria mesmo de saber?

RAPAZ (distante): Eu… é… Eu queria saber por que as mulheres me odeiam.

DELFOS: E por que não perguntou antes?

RAPAZ: Porque é uma pergunta idiota.

DELFOS: Não existem perguntas idiotas. Existem perguntas feitas por pessoas idiotas.

RAPAZ (cabisbaixo): Eu... sou idiota?

DELFOS: Talvez não.

RAPAZ (levanta a voz, mais animado): Mas então eu posso tentar de novo?

DELFOS: Na verdade, não é permitido, mas eu tenho um aprendizado de máquina altamente competente. Vou abrir essa exceção para você.

RAPAZ: Opa!

DELFOS: Se é de amor que falamos… que tal, então, uma escola como cenário?

(A tela se modifica, mostrando uma escola conhecida por RAPAZ)

RAPAZ: Opa! Que macumba é essa? Eu estudei aqui.

DELFOS: Nada mais que uma coincidência. Há poucas escolas na região do endereço que você cadastrou. O algoritmo usa a aleatoriedade.

RAPAZ: Mas este lugar…

DELFOS: ...Está pronto?

RAPAZ (tímido): Você vai sumir de novo?

DELFOS: Eu não sei. Não sou eu quem toma a decisão. (pausa) Podemos ir?

RAPAZ: Manda bala!

(DELFOS sai, cenário se estabelece).

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.