Bad Reputation
5 Chapter 4.2
Notas iniciais
Bruce atravessou o terreno, que começava a esvaziar. A tarde dava o lugar para noite com a mesma pressa que os detentos iam deixando o gramado e indo para o vestiário. O calor ainda era incômodo e fazia Bruce querer retirar a regata cinza que vestia, já marcada pelo suor. A calça de tecido grosso parecia pesar mais que o necessário e esquentava suas pernas, piorando a sensação.
Ele observou, logo à frente, Roy ao lado de um rapaz desconhecido, provavelmente o transferido. Apesar de mais novo, era mais alto que Oliver. Tinha traços latinos, a pele era de um bronzeado amarelado. Seu físico não era forte, mas corpulento e pouco parrudo. Os cabelos negros, crescidos até os ombros, eram ondulados e desgrenhados, com um aspecto sujo. Os olhos eram redondos e verdes. Um nariz fino e alongado. Lábios grosseiros, que deveriam trazer um sorriso ainda mais cínico que o de Oliver. Ambos estavam a caminho da casa de revista, para todo o ritual de chegada de cada novo detento. Roy parecia inerte a toda a situação que envolvia aquele rapaz, apenas o conduzia como um lacaio robótico.
Ele os seguiu com o olhar, sentindo a preocupação arranhar sua garganta. Bruce sabia como era lidar com meliantes perigosos, e sabia que aquela experiência não seria saudável para os rapazes dali. Trazer um criminoso de nível hediondo para o acampamento era como dar uma cartilha para o crime. Então, invés de tentarem reverter a situação de inúmeros garotos, acabariam por abrir mais portas para o mundo do crime. E se já era difícil colocar algo decente na cabeça daqueles rapazes quando ainda eram apenas iniciantes naquela vida, corrigi-los caso se bandeassem, era quase impossível.
Caminhou apressado até o gabinete de Terrence. Seus maxilares estavam travados de tanta tensão e preocupação. Precisava arrumar um jeito de fazer Terrence tirar Maxwell dali, mas ele estava tão autoritário que Bruce se preparou para o pior. Bateu na porta com as juntas dos dedos e, sem esperar por uma resposta, logo adentrou o lugar. Estava mais bagunçado que o normal e cheirava a livro velho. Encontrou Terrence atrás de uma folha, provavelmente a ficha criminal do garoto. Quando notou sua presença, apenas ergueu os olhos até Bruce.
— Terrence, eu preciso ter uma conversa contigo. — Bruce se aproximou e apoiou ambas as mãos sobre a mesa dele.
Ele bufou e retorceu o canto dos lábios, inconformado.
— A Ginger se abriu feito uma flor para você, pelo visto. — queixou-se.
— Ótimo! Sinal que sabe, também, que isso é errado! — ele arqueou as sobrancelhas. — Desde quando a legislação permite que a Fraternidade aceite réus de crimes hediondos?
Terrence apoiou a folha na mesa e encostou-se na cadeira, que rangeu. Um suspiro impaciente saiu de seus lábios, mostrando a insatisfação de ter aquela conversa.
— Não há nenhuma prova de que ele realmente tenha cometido o estupro, Rogers.
— Ainda é uma acusação e deveria ser investigada! Você não pode burlar o sistema, Terrence! — contestou-o alto, perdendo um pouco do controle. — Quando o estado liberou verba para a Fraternidade, entregou um regulamento bem claro: somente jovens de doze a dezessete anos, até terceira passagem na polícia e apenas crimes de baixa escala! — lembrou em alto e bom tom, irritando-o.
— Sim, Rogers, eu sei a droga do regulamento! — Terrence bateu a destra na mesa, furioso. — Mas será que você percebeu que estamos falindo? A porcaria do estado reduziu a verba drasticamente quando percebeu que quase não há aproveitamento disso aqui!
Bruce discordou, afastando-se da mesa.
— E do que vai adiantar você abrigar bandido de crime hediondo? Porra nenhuma! Se o aproveitamento já está ruim, vai piorar!
Terrence se levantou e encarou Bruce de igual para igual.
— Eu dependo desta joça, Rogers, ou será que você ainda não percebeu isso? Eu preciso da droga do salário, e o que o mantém decente são os delinquentes abrigados aqui! — esclareceu, disputando num tom ainda mais alto.
— Então, você vai quebrar o regulamento, corromper todo o sistema, só para manter seu salário alto? — questionou incrédulo. — Terrence, você sabe que isso não vai dar certo! A Fraternidade Maus Elementos deveria agir como uma medida preventiva, que melhorasse o comportamento e impedisse jovens de cometer mais e piores crimes! E não trazer "especialistas" em criminalidade, geralmente incorrigíveis, para servir de mau exemplo a essas mentes fracas! É quase como abrir uma escola para o crime!
Terrence coçou a testa, irritado e impaciente.
— Tudo bem, você está certo! Agora, me diga, Rogers, essa droga de medida preventiva funcionou? — ele cruzou os braços e respirou fundo, fitando fixamente o rosto de Bruce.
— A FME não é reformatório para crimes hediondos, Terrence! Isso é outro departamento! Eu não sei se essa droga de medida preventiva alguma vez funcionou, mas devemos continuar obedecendo ao regulamento imposto! — ralhou aborrecido. — Não sei qual medida seria mais eficiente para tirar esses moleques da vida do crime, mas eu sigo ordens e...
— Exatamente, Rogers! Exatamente! — Terrence o interrompeu, apontando-lhe o dedo. — Você segue ordens, e sou eu quem dito as ordens aqui! Então, trate de engolir essa baboseira, dar meia volta e ir para o seu posto de soldadinho seguir as ordens que eu lhe der! — vociferou e apontou a porta, em seguida.
Bruce o olhou por uma última vez e desaprovou, balançando a cabeça. Saiu irritado pela porta, a qual bateu com toda força. Se afastou o mais rápido que pode, tentando manter a calma, o que parecia impossível.
Encontrou com Roy e o novo garoto no meio do caminho, parecendo esperarem Terrence. Desviou-se deles e foi direto para o vestiário, tomar um banho e tentar esfriar a cabeça.
Oliver acabava de sair do refeitório, onde tinha ido lanchar após o banho, ainda sem ter o trabalho de amarrar o cadarço da calça de moletom e os das botinas. Seu corpo parecia se derreter aos poucos, de tão exausto que estava. Precisou encostar-se na parede de madeira para conseguir amarrar os cadarços, e assim que se levantou sentiu tudo rodar brevemente. Até para respirar parecia difícil. O pior era saber que o dia ainda não tinha terminado. Ele olhou para frente, fitando os outros rapazes se arrumando nas fileiras e abaixou a cabeça, desanimado.
Foi um dos últimos a se alinhar ao restante. Acabava de chegar a seu lugar na última fileira, quando Terrence apontou mais a frente. Bruce e Roy estavam ao lado dele, mas Oliver sequer conseguiu prestar atenção. Precisava piscar seguidas vezes e passar a mão pelo rosto, só para manter os sentidos funcionando. Seu corpo inteiro pedia por descanso, latejava de exaustão. Seus membros estavam amolecidos e seus músculos repuxavam de dor. O rapaz ao seu lado notou sua situação e apesar de estranhar, não dirigiu-lhe uma palavra. Decidiu ignorar e olhar para frente, esperando as ordens de Terrence.
— Estão cansados? Espero eu que não! Ficaria muito chateado, afinal temos companhia nova! — falou alto em relação a Maxwell. — Por isso, nada mais justo que uma provinha de resistência para testar nosso novo membro!
As pernas de Oliver afrouxaram quando o escutou. O rapaz ao seu lado lhe direcionou o olhar, achando que ele estava prestes a cair. Seu semblante era de pavor e desespero.
— Bem, temos aqui sacos e sacos de areia! — anunciou, apontando para os sacos que Roy buscara da casa de ferramentas, depois de receber Maxwell. — Temos de cinco e dez quilos, quero que cada um de vocês aguentem quinze quilos sobre os ombros! Vamos ver como se saem sentindo o que trabalhadores decentes sentem todos os dias!
Ele tentava prestar atenção no que Terrence dizia, mas sua cabeça estava latejando. Seu corpo fazia esforço só para se manter em pé, por isso pensou em levantar a mão e pedir desistência. Entretanto, sabia que seria negada. Seria capaz de Terrence aumentar os pesos, só para ter o prazer de vê-lo sucumbir.
Logo, Bruce e Roy começaram a dividir as sacas para os detentos. Nesse momento, Oliver fez força para se lembrar de qualquer oração para qualquer deus, mas foi em vão, tudo o que conseguia pensar era na sensação exaustiva horrível que estava sentido. Quando sua vez começava a se aproximar, ele começou a suar frio. Sabia que seria sua ruína. Ele não aguentaria e imaginar o que Terrence seria capaz de fazer com ele, o fez querer chorar.
Bruce aproximou-se e viu o olhar morto do rapaz. Notou que o corpo dele estava cambaleando, parecendo estar no limite.
— Oliver... Oliver! — chamou, estranhando a demora dele para atender. — Você está bem?
Ele fez apenas um sinal com a cabeça para anuir e estendeu os braços. Notando sua dificuldade, Bruce fez o favor de ajudá-lo a por os pesos sobre o corpo. Um suspiro de preocupação saltou de seus lábios ao ver as pernas dele tremerem, mas acabou se afastando.
Quando todos estavam prontos, Terrence deu-se a andar em volta das primeiras fileiras, como sempre fazia. Olhava no rosto, ainda tranquilos, dos rapazes e sorria, provavelmente imaginando o discurso.
— Os músculos de vocês estão cansados, não devem demorar a demonstrar isso e exigir de vocês mais esforço. Logo, esse cansaço vai se converter em dor! — começou, olhando para cada um deles. — Trabalhadores sentem isso todos os dias e têm orgulho disso, pois sabem que tudo o que conquistaram, eles lutaram por isso. Então, vocês estão se perguntando agora: por que Terrence está falando sobre trabalhadores? — ele riu de escárnio, avançando nas fileiras e indo para um ponto específico. — A resposta é simples: É a diferença entre vocês e os trabalhadores! Vocês tentaram pelo lado mais fácil e por isso, trapacearam. Nada mais justo do que sentir a dor deles, que trabalham duro para conseguir as coisas, enquanto vocês abrem esses sorrisos cínicos e fogem de suas responsabilidades como cidadãos decentes!
Bruce adiantou-se ao notar que Terrence parava diante de Oliver. Por mais que ele fosse autoridade ali, não seria capaz de assistir mais algum tipo de humilhação contra o garoto.
Oliver sentia o corpo cedendo aos poucos. O peso dos sacos parecia esmagá-lo contra o chão lentamente. Ainda assim, quando Terrence parou em sua frente, teve a audácia de olhá-lo nos olhos. Seus lábios estavam pálidos e tremiam pela força que exigia do corpo cansado.
— Estão sentindo a dor tomar o corpo de vocês? — perguntou em geral, mas seu rosto aproximava-se do de Oliver e o encarava feio. Notou o esforço que ele estava fazendo, até sua respiração estava entalada. Então, sorriu. — Respira. Isso é desespero!
Oliver franziu os lábios, inspirou o máximo de ar que seus pulmões cansados aguentaram. Então, expirou o berro mais alto que podia contra o rosto de Terrence. Seu rugido humano fez todos os rapazes, mesmo com peso sobre os ombros, virarem-se para vislumbrar.
Berrou o máximo que pode, rugindo contra a face dele. Entretanto, seu corpo não aguentou. Sua voz sumiu e sua visão escureceu gradativamente. Logo, todos os seus sentidos abandonaram seu corpo e Oliver caiu desmaiado no chão.
Terrence encarava o corpo desfalecido com surpresa. Seus olhos estavam estatelados e seus ouvidos ainda escutavam o berro de Oliver. Sentia todos os olhares sobre si e então, Bruce trombou contra seu corpo imóvel, lhe afastando. Observou apático ele atender o rapaz apagado, com certo desespero. Olhou em volta e percebeu todos tão surpresos quanto ele, então se afastou.
Bruce segurou o rosto branco de Oliver entre as mãos e o sentiu gelado. Tocou seu pescoço e sentiu o pulso fraco do rapaz, assim tomou-o nos braços fortes, o apertando contra o corpo. Ergueu-se com ele nos braços e deslocou-se para longe, junto de Roy.
Os rapazes desmontaram os sacos de seus ombros ao perceber a apatia de Terrence. Ele parecia estar em choque. Não falaram nada por um tempo, apenas observavam o corpo desfalecido de Oliver ser carregado para o dormitório. Apenas Luke revirou os olhos e se dirigiu ao rapaz a seu lado, Maxwell.
— Viadinho escroto! — comentou e escarrou no chão. — Tomara que tenha morrido!
Maxwell franziu o cenho e se aproximou, curioso.
— O que disse sobre ele?
— Ah! Disse que ele é um viadinho! Precisa ver, ele adora dar em cima dos oficiais, igual uma putinha! — explicou com desgosto. — Alguém tinha que ensinar uma bela duma lição para ele!
O rapaz abriu um sorriso maldoso e assentiu.
— Concordo com você.
Bruce ignorou todo o murmurinho que estava atrás dele e seguiu Roy, que abriu a porta do primeiro quarto que encontrou no dormitório. A falta de luz no quarto foi compensada pela luz da lua, que refletia através da pequena claraboia.
Deitou o corpo dele sobre a cama e assim que começou a estimular a circulação sanguínea, Roy decidiu que buscaria água para ele. Bruce fez todos os procedimentos e aguardou ansioso o corpo reagir, o que não demorou. Oliver logo sentiu os sentidos retornarem e abriu os olhos. Ainda sentia-se exausto, mas só o fato de não ter os pesos sobre seus ombros, respirou mais aliviado. Encarou a silhueta de Bruce, acendendo o lampião, com surpresa e logo, viu Roy se aproximar com um copo de água, que foi muito bem-vindo.
— O que aconteceu? — perguntou fraco, ajeitando-se com dificuldade sobre a cama.
— Bem, você apagou de cansaço.
— Mas não sem antes berrar na cara do Terrence! — Roy completou, olhando-o admirado. — Ele está em choque com isso, mas eu não quero saber o que ele vai fazer quando se recuperar!
Bruce suspirou preocupado, concordando com Roy.
— E é isso que eu preciso conversar com você! — apontou para Oliver, mas foi em direção a porta. — Pode nos dar um momento, Roy? E se puder... Tente acalmar os nervos de Terrence! — Roy concordou e os deixou sozinho.
Oliver sabia o que estava por vir. Nunca sugeriam uma conversa a sós por boa coisa, além de que o semblante de Bruce indicava o sermão que estava por vir. Como não podia escapar, apenas abaixou a cabeça, olhando para o copo ainda com água.
— Oliver, as coisas não podem continuar assim! — repreendeu-o, cruzando os braços sobre o peitoral.
Ele não respondeu, apenas manteve-se de cabeça baixa. Bruce notou que era um ato de respeito. Sentiu uma leve euforia por perceber aquilo. Enquanto Oliver berrava contra o rosto de Terrence, abaixava a cabeça para lhe ouvir. Entretanto, isso não o fez desistir do sermão.
— Dessa maneira vai ser impossível, Oliver! Seu comportamento não está ajudando em nada! Terrence não vai perdoar essas ações e sabe lá o que ele pode fazer! — alertou, aproximando-se e sentando sobre a beirada da cama, perto dele. — Olha... Eu sei que você odeia tudo isso, Cherry Bomb. E eu também odeio, tanto quanto você! Mas se você puder enfrentar isso, eu também vou enfrentar! Então, chega de dificultar as coisas! Vamos fazer do modo mais simples e, eu prometo, tudo isso vai acabar logo...
Apesar do sermão sincero, Bruce estava sendo compreensivo. Sua voz não soava rude como a de Terrence, apesar de ser intensa. Oliver conseguia sentir segurança nas palavras dele. Ergueu o rosto e o fitou, bem a sua frente. Ele parecia esperar algum tipo de resposta.
— É verdade, eu odeio tudo isso aqui, mas... — ele engoliu a seco, tomando ar nos pulmões para prosseguir. — Você é o alívio cômico disso tudo. Bruce, você é a única pessoa que consigo respeitar e admirar, por isso, quando olho para você, eu tenho vontade de melhorar e mudar. Só que mudar significa ir embora e voltar para o meu pai... — desabafou, sentindo o coração bater mais forte.
Bruce não soube reagir diante daquelas palavras, só conseguia sentir a euforia em seu peito aumentar e arder, mas de uma maneira boa. Não conseguia negar a felicidade que teve de escutar aquilo, porém olhar para o semblante tristonho de Oliver, o fazia esquecer.
— Bruce, sabe porque eu cometi esse crime? — perguntou de súbito, fazendo-o abrir os lábios surpreso e logo em seguida, comprimi-los, demonstrando certo nervosismo. — Bem, certa vez... o meu pai, depois de me surrar, olhou para mim e disse "faça algo como um homem de verdade, e talvez eu te considere como um filho, mas não antes disso". — Bruce notou a dificuldade dele em citar aquilo e sentiu seu coração apertar. — Então, eu lembrei de tudo o que ele cometeu contra mim e decidi que cometeria um. Afinal, ele era um criminoso e, ainda assim, se achava homem de verdade.
Ele sentiu os olhos arderem ao escutar aquilo e teve vontade de abraçar Oliver. Teve de desviar o olhar para manter-se no controle, não conseguia ver aquela face demonstrando tanta dor.
De repente, Oliver segurou sua mão, puxando seu olhar surpreso. Bruce pôde sentir a fraqueza do toque cansado.
— Você devia ter me achado super idiota por tentar invadir uma casa com os moradores presentes e bem na Avenida, não é? Foi proposital, Bruce. Quando eu decidi que iria cometer o crime pelo meu pai, eu decidi que seria pego, porque... — foi inevitável para Oliver segurar as lágrimas de banharem seu belo rosto. Bruce mordeu o lábio inferior, evitando chorar também. — Porque qualquer coisa é melhor do que ficar com ele! Porque se eu fosse preso, eu ficaria longe dele, eu nunca mais ia ver seu rosto novamente...
Oliver sentia as lágrimas mancharem seu rosto ao se lembrar de todas as agressões, físicas e verbais, que sofreu junto do pai. Era algo que ainda ardia em seu interior e doía muito mais do que a dor que o cansaço daquele dia árduo causava.
Bruce precisou olhar para cima e evitar que as lágrimas viessem à tona. Escutar as soluções de Oliver e saber o motivo delas dilacerava seu peito. Havia uma grande impotência em saber que Oliver sofreu tudo aquilo e que ele não estava lá para protegê-lo, salvá-lo dos abusos do pai. Doía no âmago mais particular de Bruce saber que ele não pode poupar Oliver de ter uma vida como aquela.
Questionou se aquela vontade de mantê-lo em seus braços e o proteger era mesmo o instinto paterno que Roy dissera. Ele não queria ser um pai para Oliver, até porque ele já tinha passado pela pior experiência paterna que podia e isso era algo que Bruce jamais consertaria. Tudo o que queria era poder manter Oliver sempre perto, para que pudesse ampará-lo quando as coisas ficassem difíceis. Queria estar perto e mostrar a ele que era alguém em quem confiar. Alguém que não roubaria sua confiança e o machucaria depois, como todos os outros antes. Queria ser o abraço carinhoso que o receberia como nenhum outro recebeu. E se isso tudo era algum tipo de instinto materno, Bruce desconhecia.
Oliver afastou sua mão da dele, nervoso. Nunca tivera tamanha audácia, por mais que parecessem próximos.
— Eu vou melhorar o comportamento, eu prometo. — disse conformado, engolindo o choro. Seu olhar desviou-se de Bruce e pousou sobre o próprio colo. — Você tem uma vida fora daqui, tem de voltar para ela... Tem de voltar para sua esposa... — Oliver precisou respirar fundo e segurar as lágrimas ao dizer aquilo.
Era doloroso lembrar que Bruce tinha uma família. Talvez por inveja, por nunca ter tido qualquer laço familiar. Talvez por ciumes, pois Bruce era a única pessoa que ele chegou mais perto de criar algum tipo de laço. Pensar que ele tinha pessoas mais importantes a se preocupar e que um dia ele iria retornar a elas, fazia Oliver sentir a solidão de novo. Havia uma voz dentro de Oliver, pronta para suplicar que Bruce nunca partisse, que ficasse com ele. No entanto, Oliver sabia que não tinha nenhum direito de pedir aquilo.
De repente, Bruce segurou seu rosto e limpou a mancha que as lágrimas deixaram em suas bochechas. Oliver fechou os olhos, sentindo pela primeira vez um toque gentil e carinhoso. Sentiu-o balançar seu rosto, como se pedisse para que olhasse de volta e o fez. Quando os olhares encontraram-se, ambos sentiram algo estranho acontecer entre eles. Uma sensação de euforia misturada com ansiedade e um nervoso gostoso de sentir. Isso fez com que Bruce hesitasse no que ia dizer. O olhar de Oliver trazia sensações que ele jurou sentir quando teve o primeiro encontro com Margot.
— Eu não vou voltar para ninguém, nem mesmo para minha esposa e meu filho, enquanto eu souber que você não está seguro. — confessou depois de um tempo. Sua mão deslizou do rosto dele até os cabelos, bagunçando-os carinhosamente. — E bem, acho que não posso enfrentar tudo isso aqui sem você ser quem você é. Sem ser o Cherry Bomb e me provocar o dia inteiro!
Oliver sorriu apenas com os lábios, causando uma sensação de alívio em Bruce ao vê-lo sorrir depois de tantas lágrimas. Sorriu de volta e mexeu em seus cabelos uma última vez, depois se levantou.
— Está me devendo um strip-tease, Bruce! — Oliver cobrou-o antes que ele saísse. — Não pense que eu esqueci!
Bruce virou para ele, trazendo um sorriso brincalhão nos lábios.
— Caso você terminasse o trabalho, mas... — deu de ombros, fingindo lamento.
Oliver bufou e lhe direcionou uma careta de deboche. Bruce riu e acenou para ele, por fim, deixando-o sozinho para descansar. E só então, notou que sorria abobado.
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