Bad Reputation

17 Cause everybody here got's somebody to lean on...


Notas iniciais
[Perdoem qualquer erro ortográfico, revisei de madrugada. Caso tenha algo errado irei consertar logo ♥] Olá, menines! Então, voltei e dessa vez é pra valer. Primeiramente, eu queria pedir desculpas. Desculpa pela demora a postar, juro que não foi intencional. Eu estava com ordem de despejo, já que vendeu a casa e bem, depois de muita procura consegui achar uma casa e cara... Vocês sabem que mudança é um saco. E, para variar, fiquei sem internet e só consegui por esses dias. Enfim, vamos ao que interessa. Este é o último capítulo e cara, eu já estou morrendo de saudades. Tanto de escrever sobre esses dois lindos quanto de receber o carinho de vocês. Portanto, eu sou muito agradecida. Muito obrigada por tudo e muito mais. Por tirarem um momento do dia de vocês para lerem minha história. Por esperarem minhas demoras e por me darem os melhores feedbacks. Sério, foi incrível trazer essa história aqui. Obrigada por me acompanharem até aqui, isso valeu todo o esforço! Bem, espero que gostem do capítulo que pode derramar algumas lágrimas. Bem, eu derramei ao escrever, então... Se preparem. xx

Quando Oliver recolheu suas coisas e abandonou sua irmã, ele quis chorar. A sensação de impotência escorreu por seu corpo, causando uma tristeza indescritível. Tanto por ser agredido novamente quanto por não ser capaz de proteger a própria irmã. E o pior de tudo é estar no mesmo lugar de todas as outras vezes. Na sarjeta, marginalizado como um monstro que não merece conviver com os humanos. Condenado por amar uma pessoa fisicamente igual a si mesmo.

Ele respirou fundo e se distanciou da casa, com pressa. Seu coração doía. Batia dentro do peito de forma que machucava. Ele sabia o que significava aquela dor. A conhecia melhor do que ninguém. Era como ser um profissional naquilo em que sentia mesmo não querendo sentir. E então, ele se perguntava quando aquilo iria passar. Se perguntou inúmeras coisas, mas não obtinha nenhuma resposta. Tudo o que ele conseguia obter, tudo o que conseguia ouvir, era o som do próprio coração.

A vida, vista daquele ponto, não lhe parecia justa. Em um momento, Oliver foi capaz de conhecer a sensação de ser amado, e no próximo, ele tornou a sentir o peso que uma mão tem. Em tão pouco tempo, ele foi capaz de sentir os dois extremos do homem. O extremo do amor, que deveria ser sempre o necessário. E o ódio, aquele que Oliver tanto conhecia e que o machucou por tanto tempo.

Ódio era uma palavra bem presente na vida de Oliver, embora ele não tivesse, sequer, escolhido isso. Sabia todos os seus significados e todos os modos em que o verbo era aplicado. Conhecia todas as faces que o ódio poderia ter, desde o verbal até o físico, e nenhum deles era mais ameno que o outro. Todos doíam da sua forma específica. E como, geralmente, vinha acompanhado de outros adjetivos negativos.

Ele acelerou os passos, investindo em uma corrida sofrida e incerta. Afinal, ao mesmo tempo que queria fugir de tudo aquilo, não queria deixar sua irmã para trás. Entretanto, sabia que se voltasse as coisas poderiam ficar piores. Tanto para ele quanto para Lisa. Sabia que se retornasse lá, poderia acabar com a vida dela, mas principalmente, teria o cuidado de acabar com a vida de George, mesmo que isso significasse voltar de vez para a cadeia. Por isso, precisava pensar em algo que não envolvesse sua condenação e a desgraça da vida da irmã com uma filha pequena.

Olhou por cima do ombro, assistindo a casa se distanciar cada vez mais. Se perguntava o que estaria acontecendo lá naquele momento, mas percebeu que era melhor não saber. Portanto, continuou andando, ainda sem rumo. Seguiu em frente, enquanto sentia o olho direito pulsar de dor, assim como seu lábio.

Enquanto continuava seguindo um trajeto aleatório, Oliver pensou em Bruce. Na verdade, não havia deixado de pensar nele em um momento que fosse. Mas quando sua cabeça pareceu procurar um refúgio, recorreu a Bruce.

Parte sua queria ir até ele e dizer tudo o que aconteceu. Contar tudo e pedir sua ajuda. Porém, de que forma Bruce poderia ajudá-lo? Oliver estava sem onde morar. Não restava mais nada a ele, senão a mochila pendurada nos ombros. Ele não podia pedir tal tipo de ajuda a Bruce, sabia que era pedir demais. Sabia que Bruce daria um jeito de ajudá-lo, mas Oliver não queria arriscar. Era fato que fazia parte da vida de Bruce, mas não podia avançar tanto o sinal como aceitar um quarto em sua casa. Pois, apesar de tudo, tudo aquilo era novo para Bruce. Ele havia acabado de sair de uma tragédia com a mulher grávida, as feridas ainda estavam recentes. Oliver o amava demais para admitir, mas no fundo sabia que aquilo poderia não ser tudo aquilo que imaginavam.

Por mais que Bruce demonstrasse todo um afeto e garantisse que o amava, a consciência de Oliver se protegia do pior atrás de um escudo. Isso não significava que Oliver não confiasse em Bruce ou duvidasse de seu sentimento. Significava que Oliver estava acostumado demais com as coisas dando errado em sua vida, portanto se proteger nunca parecia demais. Nem mesmo quando se tratava de Bruce. Mesmo que o amasse e não duvidasse que ele retribuísse aquilo, Oliver tinha a sensação que algo, alguma hora, daria errado. Pois sua vida toda foi assim. Por que seria diferente daquela vez?

Portanto, lhe parecia bem óbvio que não pedisse a ajuda de Bruce naquele momento. Talvez se fossem amigos, mas eram mais que isso. E era isso que dificultava tudo. Não eram simples amigos como pareceram ser quando iniciaram uma relação. Haviam se beijado. Se tocado. Dormiram juntos. Haviam se declarado um para o outro. Dividir uma casa naquelas circunstâncias, para Oliver, era como assumir um compromisso sério. E ele, claro, não se importaria, afinal amava Bruce mais do que qualquer outra coisa que chegou a amar na vida. E, no entanto, não tinha certeza quanto ao próprio Bruce. Pelo que conhecia dele, sempre se relacionou apenas com mulheres. Amou uma delas de forma incondicional, construiu uma vida ao seu lado e se não fosse uma fatalidade, Oliver tinha certeza que ele continuaria com ela. E o que o preocupava, no fundo do seu âmago, era um dia Bruce conhecer uma outra mulher, pela qual poderia se apaixonar. Não por ciumes, afinal queria vê-lo feliz, além de tudo. Se preocupava porque o amava demais, e embora ele tenha retribuído, se um dia Bruce o deixar, Oliver jamais será capaz de se recuperar.

Quando se deu conta, já estava longe o suficiente. Não conseguia ver mais a casa e nem as esquinas que levavam a ela. Ele tornou a olhar para trás e respirou fundo. Mexeu nos cabelos em um ato de desespero e voltou à frente. Encarou o caminho a sua frente enquanto se perguntava aonde iria e o que deveria fazer. Continuava não obtendo respostas.

Por um momento, se lembrou de Jeffrey. Se lembrou de sua antiga casa. Mas, mesmo que parecesse sua única opção, Oliver não a cogitava como uma. A última coisa que pensava era ter de habitar, novamente, o mesmo lugar que Jeffrey. Queria manter o máximo de distância possível, sendo capaz até de trocar de calçada caso cruzasse com ele. Preferia ficar na rua a ter de lidar com os abusos daquele homem. Homem que deveria ser seu pai, mas não era nada mais do que um monstro bêbado. Oliver ainda se perguntava o que sua mãe viu em um homem como aquele. Então, se lembrou de Amanda. Da forma como não lembrava muito dela, mas Lisa lhe trazia recordações pela semelhança. E de como ela fazia falta, afinal a figura materna sempre fez falta.

Nesse momento, enquanto pensava em sua mãe, Oliver se permitiu diminuir os passos. Já estava longe o suficiente para não precisar correr. Não precisava correr, pois não tinha de chegar a lugar nenhum. Ou melhor, não tinha lugar nenhum em que chegar. Ele suspirou, na tentativa de livrar seus ombros de algum peso, mesmo sendo em vão. Seus pés seguiram um ritmo menor depois dele ajeitar a mochila em suas costas e perguntar a si mesmo, ou ao universo, onde sua mãe estaria agora.

As memórias que tinha de Amanda eram escassas, considerando que a perdeu ainda novo. Mesmo assim, conseguia se lembrar com clareza do dia em que ela morreu, o deixando sozinho naquele mundo, para se criado por um monstro que um dia ela chamou de marido. Oliver considerava que não lembrar-se dos sorrisos e dos afagos de sua mãe, mas da tragédia, significava o costume das coisas ruins em sua vida. Como se fosse um sinal, ele estaria fadado a se lembrar para sempre do primeiro sofrimento, já que, dali em diante, sua vida seria um plano sequência deles. Entretanto, ele conseguia ter noção de que não era o que sua mãe queria. Parece um tanto óbvio, uma mãe não querer o sofrimento de um filho, mas na hora do desespero, no aperto, Oliver chegou a considerá-la culpada. Culpada por deixá-lo sozinho, sem seu amparo e à deriva de um sofrimento sem fim. Culpada por não levá-lo junto.

A verdade é que Oliver estava cansado. Cansado dos tombos que levava e da sequência de tragédias que seguiam em sua vida. Cansado de ser como vítima. Ele odiava se ver como uma. Por isso, tentava sempre parecer superior a tudo aquilo, ou pelo menos, inerte. Então, reproduzia isso em comentários ácidos e um sorriso cínico. Se escondia atrás da figura de Cherry Bomb, porque assim era melhor. Assim poderiam culpá-lo de ser insuportável e ele não seria uma vítima. Ser uma vítima não traria nada a ele, pelo contrário. Quanto mais ele pudesse contornar a situação de vulnerabilidade, melhor seria. Mais fácil seria. Pois se fosse capaz de parecer superior àquilo tudo, então as coisas ficariam melhores

Ele continuou caminhando, parecendo sem rumo. Dobrava uma esquina, cruzava ruas e prosseguia. Seus olhos percorriam por todos os lugares, mas não viam nada, realmente. Apenas se deslizavam pela vista costumeira daquela cidade. Sua visão, na verdade, estava focada em seus pensamentos longínquos e lembranças embaçadas. E, além de tudo, havia o cansaço presente. Fazia um certo tempo que havia descansado, se alimentado direito, suspirado de alívio. Ainda permanecia com as roupas de Bruce, e elas pareciam o único refúgio carinhoso de um corpo abatido. Um corpo que não teria descanso nem tão cedo.

Conforme as horas iam passando, as ruas iam se enchendo de pessoas atarefadas com seus afazeres diários. Oliver não fazia ideia de que horário um relógio poderia estar apontando, já que não tinha ideia de onde havia deixado o telefone, desde que estava no hospital. E também não fazia diferença, como nunca fez. Nunca teve para quem ligar e seu aparelho era tão antigo que, às vezes, ele ficava admirado de ainda funcionar. Onde quer que ele estivesse, Oliver não se importou mais. Não seria mais necessário ter um.

Por um momento, teve de esperar o sinal fechar para poder atravessar, então conseguiu esvaziar a cabeça. Não pensou em muitas outras coisas, senão nos carros passando acelerados pela rua. Enquanto esperava, pacientemente, afundou as mãos nos bolsos da calça emprestada. Passou o olhar pelas pessoas que andavam nas calçadas e conversavam, e reparou na placa com o nome da rua. Reconheceu-a e percebeu que estava próximo ao cemitério. Se lembrou da última vez que visitou o túmulo de Amanda, as coisas não saíram como planejadas. Havia se reencontrado com Bruce em um momento delicado e a discussão que tiveram, sequer o deixou conversar com sua mãe. Ou a única coisa que restou dela.

Desistindo de atravessar a rua, ele seguiu pela calçada em que estava. Dessa vez, tinha um rumo traçado em mente. Um lugar bem temporário, que não lhe traria nenhum benefício, senão saudade. Ainda assim, um rumo. Um encontro sozinho, mas que valeria pena. Por mais que fosse a lápide de sua mãe o esperando, como esperava qualquer um, ainda era o resquício de família. Ainda era um refúgio.

Da onde estava até chegar ao cemitério, não era nem mesmo distante. Com menos de cinco minutos, ele foi capaz de avistar a entrada do cemitério. Como era de se esperar, estava silencioso e pouco movimentado. Oliver não se lembrava de ver muitas pessoas frequentando aquele lugar melancólico. Talvez a vida fosse corrida demais, para que dispusessem um tempo e visitassem entes que já foram. De toda maneira, aquele lugar estava sempre vazio e repleto de saudade.

Ele adentrou o grande portal negro e como sempre fazia, quase como um ritual, lia todos os nomes de todas as lápides pelas quais passava. Não conhecia nenhum daqueles nomes, mas ainda assim, o fazia. Alguns daqueles já havia até mesmo decorado e nem precisava demorar a vista mais que dois segundos para identificar. Então, foi lendo as placas mortuárias que seu olhar pairou sobre uma recente. Um nome recente e conhecido por ele.

— Margot. — sussurrou a si mesmo.

Seu olhar permaneceu fixado nas letras por algum tempo. Oliver teve a sensação de não estar pensando em nada naquele momento, afinal não sabia o que pensar. Assim, ele desviou o seu olhar e seguiu em frente. Concluiu que não havia nada para fazer ali.

Um pouco mais a frente ele vislumbrou a placa de sua mãe. Amanda Vincent. Um suspiro saiu de seus lábios, assim que as letras fizeram sentido ao formarem o nome dela. Ele se aproximou mais, soltando a mochila dos ombros e a apoiando na lápide. Então, agachou-se e tocou a ponta da pedra de mármore.

Durante algum tempo, Oliver não disse nada. Tinha tanta coisa para falar e sabia que não teria nenhum tipo de resposta. Fungou o nariz, olhando em volta. E dando-se por vencido, ele sentou sobre o chão arenoso e encostou as costas na pedra fria.

— Eu tinha tantas perguntas para fazer a você. — ele começou, apoiando os braços sobre os joelhos. — A começar com... Como você foi capaz de se apaixonar pelo Jeffrey?

O silêncio foi a única resposta que obteve. Também não tinha certeza se queria obter algum tipo de resposta.

— Sério, o que você viu nele? — Oliver meneou, indignado. — Você parecia tão boa. Alguém como ele não merecia você.

Ele riu, de repente.

— Bem, se não fosse aquele idiota, certamente eu não teria nascido. Não estaria aqui. Nem mesmo teria existido. — admitiu baixo, curvando a cabeça. — Mas de alguma maneira, isso parece reconfortante, sabe? Não estar aqui. Em lugar algum. Não ter nascido. Não existir.

Seus olhos arderam, apontando a presença de lágrimas.

— Você morreu quando eu tinha nove anos, Amanda. Se eu fosse inteligente teria me juntado a você. — deu de ombros, fungando o nariz.

Parecia injusto dizer aquilo, mas fazia um sentido confortável a Oliver. Tanta coisa teria sido evitada. O sofrimento teria um ponto final. Nada daquilo poderia estar acontecendo. E, no entanto, mesmo cogitando a morte como uma saída amigável, Oliver não a considerava, verdadeiramente, como uma. Ele se impedia de morrer. Ele não, outra pessoa. A única pessoa.

— Se estivesse viva teria me dado um tapa na boca, eu sei. Ou, pelo menos, acho. Mas não se preocupe. Eu não vou me matar. — falou sozinho, observando a terra em que estava sentado. — Nunca planejei isso, pois daria um certo gosto de vitória àqueles malditos. E, de qualquer maneira, eu conheci alguém. Alguém que me impede de desistir, sem nem fazer esforço. Só por existir.

Um sorriso ocupou seus lábios ao se lembrar de Bruce. Ele era seu primeiro e único pensamento feliz.

— Você teria gostado dele, se estivesse aqui. Acho que todo mundo gosta um pouco dele. Me parece impossível odiá-lo por completo. Eu tentei, mas eu falhei. Felizmente.

O silêncio permaneceu, isento de respostas, argumentos e contra argumentos.

— Às vezes, eu me pergunto... Como só fui conhecê-lo agora? — Oliver olhou para cima. Conversando mais consigo mesmo do que com a lápide. — Bem, não ia fazer diferença.

Então, ele se calou. Sentia que não estava falando nada com nada. Na verdade, sabia que não estava. Porém, aquelas falas desconexas com o nada era a única coisa que o impedia de cair ao desespero. E mesmo assim, quando tornou a pensar na sua realidade, seus olhos tornaram a arder.

— Alguma vez você só teve uma única alternativa para qual recorrer e mesmo assim, achou melhor não recorrer? — perguntou baixo, dessa vez esperando algum tipo de resposta que não chegou. — Não adianta, estou bancando o maluco. Você não tem resposta alguma para me dar.

Quando sua ficha tornou a cair e percebeu a situação em que se encontrava, Oliver chorou. Estava sozinho, mais uma vez. E isso doía como um inferno. Mas o que ele esperava?

A mulher esticou os braços, espreguiçando-se de maneira preguiçosa. Ajeitou os cabelos vermelhos no rabo de cavalo apertado e começou a recolher suas coisas sobre a mesa. Enquanto o fazia, seu olhar seguiu até o relógio pendurado na parede. Os ponteiros apontavam quase oito horas da noite. E já não era sem tempo, seu turno estava acabando e ela não via a hora de ir para casa, descansar seus pés doloridos dentro daqueles sapatos apertados.

Colocou tudo o que pode dentro da bolsa pequena e o que não coube, pôs nos bolsos da calça grosseira do uniforme. Antes que se esquecesse, recolheu o celular de cima da mesa e o colocou em um dos bolsos restantes. Assim, ajeitou a cadeira de encontro a mesa.

O rapaz que iria substituí-la no turno acabava de entrar, puxando sua atenção com um cumprimento que ela retribuiu sorrindo. Deixou-o sozinho e se desviou, abrindo a porta e indo para o corredor. Nesse momento, alguém se aproximou depressa, chamando-lhe atenção.

— Desista, meu turno já acabou! — ela cortou o outro oficial, antes mesmo que ele pudesse dizer algo.

— Sinto muito, Ginger, mas Martin pediu um favor.

Ela parou de repente, voltando o olhar severo de encontro ao oficial.

— Ele sempre tem um favor para mim quando estou indo embora. — reclamou, colocando as mãos na cintura. — O que é dessa vez?

— Precisa entregar o novo mapa de ronda do Maximoff. — explicou, entregando-a uma cartilha pequena.

Ginger revirou os olhos, tomando a cartilha para suas mãos.

— E onde diabos está o Maximoff?

— Na ronda da praça.

Sem responder, ela deu as costas ao oficial. Bufou de irritação e adiantou os passos até o estacionamento.

Desativou o alarme do carro e assim que entrou, jogou a bolsa e a cartilha no banco do carona. Antes de dar partida, ela esfregou a testa, suspirando de cansaço. Pretendia visitar Bruce assim que saísse do trabalho, mas estava reconsiderando a ideia por conta do cansaço.

Depois de uns segundos aproveitando o silêncio do seu carro, ela deu partida, indo em direção a praça, obedecer a ordem camuflada de favor que Martin a pediu.

O lado bom de sair um pouco mais tarde do serviço era o tráfego menos caótico. Dessa maneira ela evitava o horário de pico e todos os engarrafamentos de bônus. Porém, de todo o jeito, ela acabava se irritando no trânsito. Alguns engraçadinhos achavam que podiam passar dos limites já que ela era mulher, mas ela sempre anotava algumas placas e todas as vezes que iria rebocar os carros, o sorriso engraçadinho sumia dos rostos dos rapazes.

Quase se esquecendo da ordem que deveria obedecer, ela dobrou uma curva de forma mais agressiva e se xingou internamente por isso. Se permitiu acelerar mais para poder terminar aquilo logo.

Provisoriamente, ela parou o carro próximo a praça e observou através do vidro aberto, procurando Maximoff com o olhar. Encontrou-o acordando alguém que dormia nos bancos da praça, logo mais a frente. Então, resolveu chamá-lo.

— Maximoff! — gritou de dentro do carro, na esperança de não precisar sair, mas ele pareceu não escutar. — Maxi... Ah, que droga!

Dando-se por vencida, ela achou melhor sair do carro e ir até ele. Recolheu a cartilha nas mãos e acelerou os passos até Maximoff, que discutia com o rapaz deitado no banco. Ignorando toda a situação, ela pigarreou.

— Martin pediu para te entregar o novo mapa da ronda e... — seu olhar reconheceu a pessoa deitada sobre o banco. — Oliver? — perguntou surpresa, reparando nos hematomas em seu rosto.

Ele suspirou, se erguendo de pé e a encarando.

— Espere, você o conhece? — Maximoff perguntou confuso.

— O que está acontecendo? O que está fazendo deitado nesse banco? — Ginger questionou, ignorando a presença do oficial.

— Estava só tomando um ar fresco...

Maximoff revirou os olhos.

— Ele estava dormindo! Mandei-o ir para casa, mas ele disse que não tinha para onde ir...

Ginger suspirou. Empurrou a cartilha para Maximoff e se dirigiu para Oliver.

— Vamos, vou te levar embora.

— Não precisa, Ginger, eu...

— Quer passar a noite na cadeia? Porque é isso o que acontece se você insistir em dormir no banco da praça! — alertou impaciente, já dando as costas. — Ande logo!

Sem muitas escolhas, Oliver colocou a mochila por cima dos ombros e seguiu a mulher apressada até o carro dela. Ajeitou-se no banco do carona, depois que ela deslocou os pertences para o banco traseiro. Então, assim que deu partida, voltou a falar com ele, de forma mais calma:

— O que aconteceu?

— Longa história. — deu de ombros.

— Me faça um resumo, então.

Oliver suspirou, levando o olhar para a janela.

— Não parece meio óbvio? Por que não tenta adivinhar? — respondeu emburrado, evitando o contato.

Ela o olhou através do espelho interno, notando seu semblante cansado e triste, também os hematomas.

— Estou tentando te ajudar, Oliver. Sei que foi expulso, ninguém dorme em um banco de praça por simples vontade. Só preciso saber o que, de fato, aconteceu. Quem sabe eu não possa te ajudar?

— Me desculpe. Às vezes, eu esqueço que pode ter gente boa no mundo.

Ela sorriu.

— Tudo bem, imagino que não esteja nos melhores dias mesmo! — comentou compreensiva. — Vamos fazer o seguinte: eu vou te levar até minha casa. Lá você vai poder comer e descansar. Então, nós conversamos sobre isso. Combinado?

— Obrigado, Ginger.

Até mesmo a voz de Oliver mostrava o quão ruim estava, mas assim que ela se calou, Ginger achou melhor esperar para fazer perguntas. Não podia negar a curiosidade e também preocupação, afinal os ferimentos no rosto mostravam que algo sério havia acontecido. Além de tudo, Ginger estava se perguntando por que Oliver não havia recorrido ou entrado em contato com Bruce. Pelo que sabia, as coisas estavam dando certo para os dois. Era esperado que um recorresse ao outro quando as coisas ficassem difíceis.

Durante o caminho silencioso, Oliver conseguia perceber os olhares laterais que Ginger dava, o que tornava aquele silêncio todo um pouco constrangedor, já que era notório a curiosidade dela. Não que Oliver não quisesse contar as coisas a ela, sabia que poderia confiar em Ginger, principalmente sobre o caso de violência que sua irmã sofreu. Entretanto, tinha medo que ela contasse a Bruce. Não sabia muito bem porque queria que ele ficasse alheio a tudo aquilo, mas achava que era melhor assim. Sentia que estaria exigindo demais dele.

Não tardou muito e eles chegaram ao prédio em que Ginger morava. Era numa rua movimentada, bem mais próxima do centro do que a de Bruce. Ela estacionou o carro na garagem e quando estavam saindo, pediu que Oliver levasse algumas pastas que estavam no fundo do carro para ela. Sem pensar, Oliver anuiu, ajudando-a.

Ela morava no primeiro andar e optou por subir pela escadaria do estacionamento. E logo nos primeiros degraus começou a reclamar da fofoca que ocorria no local.

— Se eu aparecer com você na portaria, amanhã o prédio todo vai estar comentando que eu sou uma papa-anjo! — comentou, fazendo Oliver rir baixo.

Assim que entraram no apartamento dela, Oliver a ajudou a guardar as coisas do serviço. Era um apartamento pequeno, com apenas um quarto, uma cozinha razoável, um banheiro, uma pequena área de serviço e a sala, que era o maior cômodo. Depois, ela apontou o sofá com uma mão.

— Sinta-se em casa! Está com fome? — perguntou educada.

Oliver a olhou antes de responder. Não podia negar que estava mesmo com fome, afinal seu estômago estava roncando tão alto que talvez até ela estivesse escutando.

— Acho que estou sim.

— Não fique acanhado! Onde come um, come dois! — ela brincou, dando um tapinha no ar. Depois, se desviou até a cozinha para procurar algo para comer.

Oliver se sentou sobre o sofá macio e suspirou aliviado. Estava preparado para pedir algum tipo de ajuda, mas não para si mesmo. Desde que Ginger apareceu, ele não conseguia esquecer a cena de sua irmã sendo maltratada. Ele precisava fazer algo quanto a isso, mesmo que ela tenho o implorado o contrário.

Ginger retornou da cozinha com um prato com dois sanduíches naturais e biscoitos. Na outra mão trazia um refresco de frutas. Oliver sorriu agradecido e logo se adiantou a tomar a refeição em mãos.

Enquanto ele se alimentava, ela se sentou na poltrona a sua frente, o observando. Esperou que desse algumas mordidas vorazes para saciar o desejo e então, retornou ao assunto principal.

— Então, pode me contar o que aconteceu? — ela perguntou delicada.

Oliver terminou de engolir um pedaço do sanduíche e anuiu com a cabeça.

— Basicamente, eu fui expulso da casa da minha irmã porque eu beijei um homem. — respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo, o que incomodou Ginger.

— Achei que sua irmã estava querendo te ajudar...

— Pois então, Ginger. É sobre ela que eu realmente preciso falar. — falou sério, parando de comer por um momento. — Foi o marido dela que decidiu me expulsar de casa. Ela, claro, se opôs a isso. Tentou me defender, mas... Eu não gosto nem de lembrar.

Ginger já conseguia imaginar do que se tratava, mas ainda assim incentivou-o a continuar.

— E então?

— Além de bater em mim, ele também bateu nela. Fui capaz de protegê-la naquele momento, mas agora, estando longe, eu não sei o que ele pode fazer com ela. — explicou, sentindo os olhos arderem. — Ela me implorou para que não levasse isso até a polícia, mas eu não posso deixar isso assim. Eu preciso que você faça alguma coisa para protegê-la.

— Você fez certo em me contar, Oliver! — ela deu um sorriso reconfortante. — Não se preocupe, eu vou dar um jeito nisso e garantir que sua irmã fique bem!

Ele acenou com a cabeça, esboçando um sorriso. Um pouco mais tranquilo, ele voltou a comer, com Ginger lhe observando em silêncio, mas não por muito tempo.

— E quanto a você, Oliver? — perguntou de repente, fazendo-o erguer o olhar desconcertado. — Bruce sabe do que está acontecendo? Se não, acho que ele deveria saber...

Oliver engoliu rapidamente o último pedaço do sanduíche e deixou o prato de lado.

— Não, ele não sabe, e Ginger... — ele meneou nervoso. — Não conte a ele sobre nada disso.

Ela franziu o cenho.

— Como assim? Por que não?

— Eu não quero preocupá-lo. E mesmo assim, o que ele poderia fazer?

Ginger esboçou uma careta.

— Eu não sei o que ele poderia fazer, mas ele daria um jeito de te ajudar! — ela balançou os ombros, confusa. — Não estou entendendo você, Oliver! Achei que confiasse no Bruce!

— E eu confio, Ginger! Confio minha vida a ele! É só... — Oliver se calou por um segundo, tomando ar. — Eu estou cansado demais disso tudo. De ser tratado como uma vítima, se feito como uma por pessoas ignorantes! Estou cansado de depender da bondade dos outros, que geralmente é escassa e acaba no primeiro choque de realidade! Queria fazer algo por mim mesmo, mas olhe para mim... Eu não sou nada se não tiver ninguém em que me apoiar! Não sou capaz nem de agradecer corretamente a alguém que me ajudou.

Ginger observou-o em silêncio, notando o olhar marejado. Não conseguia imaginar tudo o que ele passou e como deveria ser, mas tinha noção de que ser sempre a vítima de tudo não era das melhores sensações.

— Ginger, eu não tenho dúvidas de que Bruce faria qualquer coisa para me ajudar, mas é exigir demais dele! — ele continuou, fungando o nariz. — Ele já fez demais por mim, sem que eu pedisse. Ele enfrentou um par de gente por mim. Fez de tudo para que eu me sentisse seguro. Eu queria, ao menos uma vez, que eu pudesse fazer algo por ele! Mas, tudo o que eu tenho e posso dar a ele é amor...

— E amor não é suficiente? — contestou-o. Ele a observou com os olhos bem abertos, notando a besteira que havia dito. — Oliver, quando estava no hospital fazendo companhia a ele, saiba que você era o único assunto que saía dos lábios dele! Ele não parava de falar de você, mesmo que os médicos o mandassem calar a boca, ele continuava. — ela abaixou a cabeça, dando uma risada frouxa. — Ele dizia que se perdesse você, não teria mais ninguém por quem permanecer aqui. Que você, apesar de tudo, era aquele que estava sempre lá, tentando fazer o pior parece melhor. Disse-me que ao seu lado era capaz de esquecer as coisas ruins da vida, pois tudo o que vinha de você era novo. Não era nada comparado a antes. E, Oliver, você tem noção do quanto Bruce era apaixonado pela esposa dele?

Oliver desviou o olhar para cima, tentando conter as lágrimas. Comprimindo os lábios, ele acenou negativamente para Ginger.

— Não deve ser difícil de imaginar, mas eu já fui completamente apaixonada por ele. Quem não seria? — ela deu de ombros. — Porém, ele sempre foi um homem de muitas mulheres e eu sabia que eu seria somente mais uma. Mas quando Margot apareceu, ele só teve olhos para ela. Não tinha um dia em que ele não estivesse com aquele sorriso besta nos lábios! Chegava a me dar raiva a inveja que eu tinha dela! Mas no fundo, eu sabia que eu não podia fazer nada. O que ele estava sentindo por ela, não poderia ser parado! Eles se casaram e formaram uma família, que eu não tenho dúvida, teria durado até o famoso "até que a morte os separe".

Oliver abaixou a cabeça. Ele tinha completa certeza sobre aquilo também.

— Até que a tragédia aconteceu. — murmurou baixo.

— Até que a tragédia aconteceu. — reafirmou junto dele. — Achei que ele não seria capaz de sair dessa. Eu não sei se eu seria capaz. Pensei que ia vê-lo se afundar naquela tristeza até o fundo do poço, mas você reapareceu. E por mais que vocês estivessem de birra por alguma coisa, eu vi o Bruce retornar. Só a sua presença fez aquele maldito ter vontade de continuar a viver. Então, não ache que você deve alguma coisa a ele. O que vocês fazem um pelo o outro, é incrível e vocês nem percebem. E eu nem sei se isso pode ser chamado de amor, é tão forte que... Talvez tenha outro nome.

Ele escondeu o rosto entre as palmas da mão e esfregou a pele, se controlando para não chorar. Toda aquela conversa, além de deixá-lo ainda mais sensível, o deixou ainda mais confuso sobre o que fazer.

Ginger respeitou o silêncio dele e manteve-se apenas o observando. Era fato que era uma novidade imaginar Bruce com outro homem, mas a conexão entre ele e Oliver era tão grande, que Ginger sentia que sempre fora assim. Quando olhava para os dois juntos, tinha a sensação que eles se conheciam desde sempre e para sempre.

— Posso usar seu banheiro? — Oliver perguntou de repente, puxando a atenção dela.

— Ah, claro! — ela acenou e então, se levantou. — Enquanto isso, eu vou tentar ver o que posso fazer quanto a sua irmã, certo?

Ele acenou com a cabeça, se desviando até o banheiro, mas antes de dar o primeiro passo, voltou a ela.

— Ginger?

— Oi?

— Por favor, não fale com ele. Não ainda. — insistiu.

— Você quem sabe. — ela bufou, cruzando os braços.

Observou-o se afastar até o banheiro e assim que escutou a tranca da porta dar o clique, levou a mão até o celular em seu bolso e discou o número de Bruce. Para não arriscar ser escutada, ela abriu a porta da sala e foi até o corredor daquele andar enquanto esperava a ligação ser atendida.

Não demorou muito e Bruce atendeu, com uma voz sonolenta:

— Ginger? Por que está me ligando a essa hora?

— Preciso que venha aqui em casa e rápido! — ordenou sem delongas.

Ele deu uma risada rouca e confusa.

— Como assim? Por que...

— Oliver foi expulso de casa! Encontrei-o dormindo em um banco de praça e o trouxe para cá! — explicou com pressa, colocando a cabeça para dentro de casa algumas vezes para não ser pega por Oliver.

— Puta merda, você só pode estar brincando!

— Ele pediu que eu não contasse nada a você, mas era impossível.

— Por que ele te pediu isso? — questionou assustado.

— Sem tempo para explicações! Venha logo para cá!

Ela desligou o telefone apressada e retornou para dentro de casa.

Por incrível que pareça, Oliver ainda não havia retornado do banheiro, o que Ginger não deu muita importância no começo. Preferiu tentar achar um jeito para ajudar a irmã do rapaz enquanto esperava a chegada de Bruce. Entretanto, os minutos se estenderam perante a demora de Bruce e, principalmente, a demora de Oliver no banheiro. O que começou a preocupá-la.

De primeiro, ela cogitou a ideia dele estar passando mal, então achou melhor esperar um pouco mais. Se estivesse se sentindo mal, ele iria reclamar em breve. Entretanto, o tempo continuou passando e nenhum sinal de Oliver. Então, ela começou a considerar a pior das hipóteses.

Oliver estava muito chateado, isso era evidente. A tristeza que carregava em seu tom de voz, o olhar de desistência e a insistência em não contar nada a Bruce começou a fazer um sentido ruim para Ginger. Embora ele não apresentasse sinais de depressão, ela sabia que não foi uma boa ter deixado-o sozinho. Quando considerou a ideia de que ele poderia tentar algo contra a si mesmo, sentiu-se desesperada. Adiantou-se até a porta do banheiro, mas antes que pudesse encostar na madeira, escutou baterem a porta. Sabendo de quem se tratava, voltou correndo para receber.

— Onde ele está? — Bruce questionou assim que adentrou o apartamento.

— Está no banheiro, mas está demorando muito! Estou com medo de que ele...

— Tente se matar? — Bruce a interrompeu, fazendo uma careta. — O Oliver não faria algo assim, Ginger.

Ela passou a mão na testa, ainda nervosa.

— Eu não sei, ele estava muito triste e...

— Ei, está tudo bem! Só preciso conversar com ele!

— Sim, claro! Fique à vontade, eu preciso ir resolver algo que ele me pediu mesmo. — ela acenou, caminhando até a porta.

Bruce teve vontade de perguntar o que era, mas preferiu deixar para depois. Tinha assuntos mais sérios a tratar naquele momento. Esperou que Ginger abandonasse o apartamento, e então foi até a porta do banheiro. Não conseguiu escutar nenhum tipo de som, por isso bateu as juntas dos dedos na madeira.

— Oliver? — o chamou bem próximo a porta.

— Bruce?! O que está fazendo aqui, eu...

— Surpreso? — cortou-o com a voz grossa. — Por que pediu a Ginger que não me chamasse?

Fez-se silêncio por um tempo. Bruce somente escutou os passos de Oliver se aproximando da porta, porém não a abriu.

— Não queria preocupar você. — respondeu baixo com a voz abafada.

— Quando o assunto é você, eu estou sempre preocupado. — contou, suspirando pesaroso.

Oliver ficou quieto novamente, sem saber o que dizer. Portanto, Bruce tentou girar a maçaneta, mas a porta estava trancada. Estalando os lábios, tornou a bater na madeira.

— Vamos, abra a porta. — pediu sério.

— Não.

Ele franziu o cenho.

— Por que não?

— Não quero que me veja assim, nessa situação ridícula.

— O que? Oliver, eu... — percebendo que seu tom estava grosseiro e sério demais para uma situação delicada como aquela, Bruce se calou por um momento. Tomou ar e apoiou o antebraço sobre a porta, onde pode escorar a cabeça. — Disse que me mostraria todas as suas feições, se lembra? Isso inclui até a mais triste delas.

— É diferente agora. — respondeu curto.

— Por que é diferente? — Bruce questionou em um tom paciente e calmo.

— Porque isso dói como se eu estivesse no inferno. Mais uma vez. Estou sozinho de novo. — choramingou.

Bruce suspirou, balançando a cabeça de forma negativa. Deu as costas para a porta e deixou o corpo deslizar até se sentar sobre o chão. As coisas não iriam se resolver de maneira tão fácil, mas ele já havia previsto e não culpava Oliver. Entretanto, escutá-lo dizer que estava sozinho quando, na verdade, Bruce sempre esteve ali, soava decepcionante.

— Não está sozinho, sabe disso. Tem a mim, sabe que tem. Por que não pensa nisso? — ralhou triste.

— Não penso em outra coisa, senão você. — admitiu com a voz rouca de pranto.

— E porque não veio até mim? Por que não me contou ou pediu ajuda? Eu...

— Porque é pedir demais, Bruce! — interrompeu-o com a voz esganiçada, dando a entender que estava chorando. — O que você poderia fazer?

Bruce esfregou o rosto com a mão esquerda. Nesse momento, sentia seus olhos lacrimejarem e seus lábios tremerem. Era horrível ver Oliver naquela situação de vítima novamente, mais horrível ainda era parecer impotente para ele.

— Sabe que eu te daria abrigo. Há espaço suficiente para nós dois lá em casa. — explicou, sentindo seu tom de voz ficar embargado.

— Não, Bruce, não! Depois de tudo?

— Qual o problema? Nós...

— Exatamente! Esse é o problema, Bruce. Nós. — desabafou, interrompendo-o. — Não somos mais simples amigos que acolhem um ao outro. Há algo a mais entre a gente. E se isso não der certo, eu nunca vou te superar.

— Como pode ter tanta certeza? — Bruce perguntou, sentindo o pranto engasgado.

Mesmo que estivesse difícil de escutar, ele foi capaz de ouvir Oliver fungando o nariz e suspirando.

— Porque você foi a única pessoa em que confiei amor. A única que me fez sorrir só de escutar o som de sua voz. Você é o único que disse que me amava e me mostrou o que era isso dentre tanta dor. Você é o meu primeiro pensamento feliz. Isso é significante demais para se esquecer. Por isso, não importa quanto o tempo passe, haverá sempre uma parte de mim que amará você.

Foi inevitável que as lágrimas viessem a tona e banhassem seu rosto em um pranto doloroso. Oliver conseguiu escutar os soluços de Bruce através da porta e enxugou os próprios olhos. Sabia que ele estava chateado por não ter sido valorizado como a ajuda que queria ser, mas Oliver só queria poupá-lo. E, no entanto, acabou fazendo-o chorar.

Apesar do pranto ser por toda a situação, também era da emoção daquele sentimento. Bruce também chorava pelo o que aquelas palavras de Oliver significavam. Sabia que o amor era algo ausente na vida dele e escutar que era o único que proporcionava isso a ele, era indescritível. E entendia que ele sentisse medo. Era a primeira vez que amava. E seu primeiro amor era complicado, Bruce tinha noção disso. Porém, tinha noção de que jamais o magoaria novamente. Tudo o que menos queria era perder Oliver, fosse de qualquer maneira. Ele sequer gostava de cogitar essa ideia.

Entretanto, precisava entender o lado dele. Era normal que ele tivesse aquela espécie de medo, afinal era a primeira vez que amava alguém. Claro que ele teria medo de perder aquele sentimento. De se perderem e tudo dar errado. Era plenamente compreensível para Bruce, ainda mais quando se lembrava que Oliver sempre gostou de homens, mas que esse pensamento nunca passou por sua cabeça até então. Havia sido casado com uma mulher e teria filhos com ela, caso estivesse viva. Isso podia soar impulsivo para Oliver, que tinha a segurança de ser o que era desde que se entendia por gente. Podia soar como algo momentâneo que se quebraria quando Bruce se apaixonasse por outra mulher, afinal era isso ao que estava acostumado.

Tentando conter as lágrimas, pois precisava prosseguir na conversa, Bruce tomou o máximo de ar que pode. Inspirou e expirou quantas vezes fossem necessárias para que o choro cessasse e ele conseguisse se conter. Oliver permanecia em silêncio do outro lado, provavelmente também chorava. O silêncio ainda perdurou mais alguns segundos, até Bruce pigarrear e fungar o nariz.

— Oliver, lembra quando disse, lá em casa, que precisava me contar algo e disse que estava me amando? — sua voz soou rouca e um pouco mais grossa que o usual.

— Sim...

— Bem, preciso te dizer algo também.

— Tudo bem, diga.

Bruce tornou a respirar fundo. Inclinou a cabeça para trás, encostando-a na madeira. Então, começou:

— Quando conheci a Margot, eu me apaixonei por ela logo de cara. Foi instantâneo. E embora ela tenha retribuído e se casado comigo... De alguma maneira, eu não me sentia bom o suficiente para ela. Ela era perfeita demais para o meu próprio bem. E eu sentia que nunca seria o suficiente para ela. Enfim, nós seguimos em frente e o tempo foi passando, mostrando aos poucos que eu estava certo. Então, eu nunca duvidei de que se um dia ela encontrasse um outro alguém para amar, alguém que mostrasse a ela o verdadeiro significado do amor, ela me deixaria num piscar de olhos. Bem, ela nunca não encontrou, sequer teve tempo, mas... Eu tinha tanto medo porque eu sabia que se isso acontecesse, seria algo que eu não poderia parar e porque eu a amava e se eu a perdesse, jamais conseguiria superar. E de fato, eu amei. Amei muito Margot, ainda amo. Mas, Oliver... Eu estou aqui com você e eu não tenho medo de não conseguir superar. Porque eu amo você agora e... Te querer por perto o tempo todo é o mínimo. Por isso eu sei que vai dar certo. Porque você é a única parte viva em mim.

Quando a voz de Bruce se calou, o mundo inteiro pareceu se calar junto dele. Não havia mais som, nem mesmo de sua própria respiração. Tudo ficou tão mudo que o mundo pareceu ter parado naquele momento. Entretanto, não era um silêncio melancólico, nem mesmo triste. Era apenas um silêncio necessário, que logo se rompeu. E o som que interrompeu aquele silêncio foi a tranca da porta fazendo o clique de destrava. E assim que a escutou, Bruce sorriu aliviado e se ergueu.

Oliver o esperava no portal. O rosto amassado de pranto, mas o olhar esboçando amor. Bruce o olhou por inteiro, notando o hematoma no olho direito e o corte no lábio inferior. Um sorriso cansado escapou de seus lábios e ele segurou o rosto do garoto.

— Droga, Oliver... Por que as pessoas sempre insistem em bater em você? — ele perguntou ainda esboçando o sorriso cansado, mas ainda assim, um sorriso.

Oliver tocou carinhosamente as mãos grossas que seguravam seu rosto e se permitiu sorrir. Somente Bruce era capaz de arrancar um sorriso verdadeiro seu nos momentos mais tristes.

— Bem, eu não sei. Eu tento explicar para eles que só você pode fazer isso, mas eles nunca aprendem!

Sem mais delongas, Bruce o puxou para seus braços e o abraçou com força. Era o único lugar que sabia que Oliver estaria plenamente seguro e o lugar que jamais queria tirá-lo. Oliver o abraçou de volta, apertando-o contra si, como se fosse a coisa mais importante de sua vida. E de fato, era.

Não demorou e os lábios se encontraram e iniciaram um beijo intenso. Apesar do gosto de ferro pelo sangue seco no lábio de Oliver, Bruce não hesitou. Precisava senti-lo novamente. Precisava tê-lo em seus braços e beijando seus lábios para saber que era seu Oliver. Que era seu, e apenas seu, Cherry Bomb.

No entanto, por um mero segundo, os lábios se separaram, mas apenas para Oliver dizer algo:

— A propósito... — sussurrou, encostando a testa na dele. — Você é a única parte viva de mim. E a única que quero manter viva até quando eu não puder mais viver.

E naquele momento, olhando para os olhos de Bruce e vendo a silhueta de seu sorriso, Oliver teve uma certeza interessante. A certeza de que, apesar de tudo o que viesse acontecer, Bruce seria sempre o seu primeiro pensamento feliz. A certeza de que ele seria seu começo problemático e seu final feliz. Certeza de que haveria sempre uma parte sua que o amaria para sempre. E a maior delas. A certeza de que era recíproco.

Notas finais
Juro que se eu pudesse escolher uma música para definir esse dois como casal, eu escolheria No Way No, do Magic!, na minha cabeça combina demais, tanto que esse final eu escrevi escutando-a. E falando em final... Imagino que muitos não esperavam um final como esse e que não agrade a todo mundo, mas eu escolhi dar um final feliz (entre todos os outros alternativos), porque o Oliver merecia. Deixei inúmeros registros com a palavra "vítima" no capítulo, porque eu queria que vocês percebessem isso. O Oliver não quer ser mais uma vítima e o Bruce proporciona esse horizonte a ele. Desde o primeiro capítulo, tentei passar a imagem do Oliver como um rapaz que, apesar de sofrer horrores, segue em frente e enfrenta tudo isso da maneira dele. Então, achei que esse era o melhor final para ele. Claro, pensei também no Bruce e ele merecia uma segunda chance. Era claro o amor dele para com Margot e perdê-la quase significou perder a si mesmo. Por isso, quis criar um horizonte que um amparasse o outro, já que faz sentido. Bem, novamente quero agradecer a vocês por tudo, sério! Significou demais! Espero que tenham gostado e eu vejo vocês nas próximas histórias ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!