Bad Kids
2 Capítulo 2 - Os Dois Mundos
A família O’Neil trabalhava com o sobrenatural há muito tempo.
Jessica e James se lembravam perfeitamente do dia em que sua mãe lhes contou sobre isso. Os dois estavam preparados para dormir, deitados cada qual com a cabeça em um dos ombros da mãe, que não parava de mexer em seu colar de pentagrama. Seu pai havia acabado de morrer e, de repente, Elana achara que quanto mais cedo contasse aos filhos a verdade sobre o mundo em que vivia, melhor seria para eles.
— Crianças, vocês sabem com o que a mamãe trabalha? — ela perguntou.
— Tia Carol disse que você trabalha enganando as pessoas — James disse.
A resposta magoou Elana, mas não a surpreendeu. Era muito difícil que as pessoas acreditassem no sobrenatural, quando não pertenciam a esse mundo. Quer dizer, as pessoas pediam por “provas”, mas não as viam, enquanto para a mulher era clara como a água.
— Sua tia diz isso porque ela não acredita, meu amor — a mulher respondeu. — E tudo bem. Não faz parte da realidade dela, ela não é obrigada a entender.
Jessica olhou para a mãe com confusão.
— Sabe, crianças... — a mulher se perguntou como começaria a contar essa história para duas crianças de seis anos. — A nossa família é muito especial. É um poder que nossos ancestrais chamavam de “consciência”.
— Poder? Tipo... como super-heróis? — a garota perguntou, empolgada.
A mulher soltou uma risada.
— Bem... não é como se nós pudéssemos sair voando por aí, mas... é algo que nos torna diferente de pessoas como tia Carol — ela continuou. E então olhou para James. Ele sempre foi uma criança quieta e emburrada. — Meus pais e avôs costumavam acreditar que existem dois mundos: aquele que vemos e o que sentimos. O mundo físico, no qual a tia Carol vive e conhece, e o mundo espiritual.
Ele franziu o cenho, naquela cara emburrada de sempre.
— A gente não vive no mesmo mundo que a tia Carol? — Jessica perguntou.
— Vivemos. Vivemos nesse mundo, mas a questão é... que a gente sente o outro mundo também... e também sentimos as pessoas que moram nele — a mulher continuou. — E isso é algo que a Tia Carol não sente.
— Por que ela não sente também? — a garota quis saber.
Elana soltou um suspiro.
— Porque é um poder que apenas filho o mais velho tem. Ou seja, eu o herdei — a mulher respondeu com pesar. Como se fosse um fardo.
As crianças trocaram olhares, confusas.
— Então isso significa que James também tem esse super-poder... não é? — Jessica perguntou, pensativa, encarando o irmão.
— Eu não sei. Nunca teve relatos de gêmeos antes — a mãe respondeu. Então olhou para os filhos com os olhos estreitados. — Vocês me contariam se sentissem alguma coisa de diferente, não é?
As crianças trocaram olhares novamente, mas não responderam. Elana nunca achou que, naquela ideia, seus filhos já conhecessem o conceito de “mudar de assunto”, mas James perguntou:
— Esses moradores do outro mundo... como eles são?
— Eles devem ser tipo E.T. s — Jessica brincou, fazendo careta para ele.
— Bem... eles são muito diferentes uns dos outros. Têm de vários tamanhos e formas... eles podem até mesmo se fazer passar por uma pessoa normal. Podem alterar sua aparência para tentar enganar, mas... Na maioria das vezes... — a mulher estendeu a mão para frente da luz-noturna das crianças e brincou com a sombra da própria mão. — Eles se parecem com sombras. E gostam de espreitar pelos cantos escuros.
James franziu o cenho novamente.
Jessica, por outro lado, deixou transparecer o medo que sentiu em seu olhar.
— Ei, não precisam ficar com medo — ela disse, voltando a abraçar os gêmeos, um em cada braço. — É para isso que mamãe briga com esses bichos. Para que eles não façam mal a ninguém... mesmo as pessoas que não os veem. Graças ao meu super-poder posso senti-los chegando. É para isso que ele serve.
Seu tom tranquilizador não serviu para muita coisa.
Principalmente, porque os gêmeos sabiam.
— A sensação é como se fosse um arrepio descendo pela espinha?
Elana olhou para o filho, com espanto.
— Ou como se fosse uma dor de cabeça bem forte atrás dos olhos?
Ela olhou para a filha. Assustada.
Os dois haviam nascido com o dom da família, e ela nunca havia visto isso antes. Por um instante, Elana não soube o que pensar e nem o que sentir. Perguntou-se desde quando as crianças haviam visto as sombras e porque não teriam lhe contado, mas então, a mulher sentiu alívio. Os gêmeos eram muito unidos. Se um houvesse nascido com o dom e o outro não, poderia ser algo que os separasse.
— Crianças... quando...?
— No dia em que o papai se foi — James respondeu.
— Ele estava do lado de fora da casa da tia Carol — Jessica respondeu, como se quisesse falar disso a muito tempo. Ela sempre foi uma tagarela. — Era feio. Comprido. Com os dedos longos e olhos vermelhos... — James assentiu com a cabeça. — Mas titia disse que não viu nada. E o Dr. Payne disse que só tínhamos muita imaginação...
Elana então, sentiu raiva.
Havia sido uma briga e tanto entre as duas irmãs para tentar entender o porquê diabos Tia Carol enviara seus filhos para um psicólogo infantil, sem a sua permissão. E a resposta havia lhe deixado mais irritada ainda:
— É assim que resolvemos as coisas, como adultas, Elana! Você não pode arrastar os seus filhos para a mesma loucura na qual você vive!
Como sabia que apelar para um mundo, no qual Carol não entendia e nem fazia questão de entender, seria visto apenas como um atestado de insanidade pela outra, a mulher se ouviu obrigada a dizer:
— São os meus filhos! Você não pode mandá-los para um psicólogo sem o meu consentimento! Você não pode decidir como cuidar deles melhor do que eu! É a minha religião, Carol! É o que acreditamos! É o que vivemos!
Tia Carol olhou para a irmã como se ela fosse maluca, e então disse:
— Se eles são tão seus filhos assim, porque você não passa a cuidar deles de agora em diante, hã? Sem ficar os empurrando para mim toda vez que precisa viajar para o outro lado do país caçar algum bicho-papão!
E foi aí, que Elana passou a treinar os filhos para lidar com o mesmo mundo que ela lidava. O mesmo mundo que ela via. Não que as crianças se ressentissem disso. Todo os dias que viveram depois disso havia sido de completa aventura, uma depois da outra. Eles gostavam de tudo o que aprendiam com uma empolgação quase ingênua.
Então, você deve estar se perguntando: por que chamar a tia Carol?
Bem, porque se a família O'Neil sabia lidar com o mundo espiritual, ela era a única que sabia lidar com o mundo físico.
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Não é como se a família O’Neil saísse pelo país caçando histórias de fantasmas, como algumas pessoas fazem. Não. Era um trabalho. Eles distribuíam cartões do tipo: “oi, você acha que está com problemas de assombrações na sua casa? Ou na sua família? Coisas estranhas andam acontecendo e você não sabe o que fazer? Ligue para nós: os caça-fantasmas!” e, pelo incrível que pareça, as pessoas ligavam.
Às vezes, não era nem pelo cartão, mas por indicação de alguém.
Na maioria das vezes, as pessoas já estavam desesperadas.
A primeira cosa que passou pela cabeça de Jessica foi: isso não pode ser coincidência. Eles serem pegos no mesmo dia... na mesma hora.
Eles já haviam feito aquilo milhares de vezes.
Era a divisão mais comum do trabalho: Elana ficava em distrair a criatura que fosse o problema, e os gêmeos cuidavam do exorcismo ou trabalhavam de apoio. E nunca, nenhuma vez sequer, eles haviam sido presos. Quase processados? Sim. Milhares de vezes. Mas presos? Nunca. Porque na maioria dos casos, eles tinham permissão.
— Presa? — o policial perguntou, em tom de deboche.
O delegado, um homem alto e forte, entrou na sala e respondeu:
— Isso mesmo. Ela estava sob posse ilegal de arma.
O homem parecia um super-herói de histórias em quadrinhos. Sem brincadeira. Era tipo um Henry Cavell vestindo camisa de botão, calça jeans, e um casaco de couro. Uma mistura de Henry Cavell com Dean Winchester, talvez.
— Vocês sabiam que a mãe de vocês tinha uma arma crianças? — perguntou Carol, olhando para os sobrinhos como se eles tivessem respostas.
— É claro — James respondeu.
— É para auto defesa — Jess acrescentou. — Quer dizer, moramos num trailer galera. Pegamos a estrada, viajamos o país inteiro... às vezes é meio perigoso, né?
— Bem, ela não tem permissão para ter uma arma — o homem insistiu.
— A gente quase não usa! — Jessica mentiu.
O que ela queria falar de verdade era: “moço, se você abrisse o tambor dessa arma veria que nem tem bala de verdade!”. Pelo menos, a garota esperou que não. Sua mãe sabia que usar balas de verdade não adiantava nada em fantasmas, mas nunca se sabe. Ela pode ter levado às de prata só para deixá-los irritados.
— Escute, Jimmy — Carol interviu, acariciando a cabeça de Jessica. — Se ela não tem permissão para usar arma, não basta apenas confiscá-la e soltar a minha irmã?
O delegado olhou para a mulher como se realmente quisesse apenas fazer isso.
— Eu adoraria fazer isso, Carol, mas essa história está mal contada — o delegado respondeu. — Encontramos a sua irmã, Elana O’Neil, num galpão abandonado junto com Vanessa Hopkins. Nenhuma das duas estava ferida, mas recebemos denúncias sobre disparos. Se ela abriu fogo é mais do que apenas uma posse de arma — o homem respondeu. — Ela colocou a vida de outra pessoa em perigo.
James soltou uma risada sarcástica e meneou com a cabeça.
— Por acaso viram algum corpo por lá? — ele perguntou. — Sangue? Algum sinal de que minha mãe pode ser uma assassina e estava matando alguém à tiros?
O policial Bart olhou para o garoto com uma vontade enorme de lhe dar um safanão. Na época dele, era assim que se educavam adolescentes como aquele.
Aquele garoto tinha tudo para ser problema.
James possuía os cabelos ruivos, grandes demais para um jovem “de bem”, possuía o rosto cheio de sardas, olhos verdes escuros e uma expressão carrancuda que ele fazia na tentativa de se fazer passar por mais velho. Possuía um corpo incrivelmente atlético, metido dentro de jeans rasgados, tênis desgastados e camiseta preta de alguma série que esses jovens de hoje em dia gostavam de assistir.
Sua irmã tinha os mesmos cabelos ruivos que o irmão, num corte que policial Bart declarou como “curto demais para uma garota”, e os mesmos olhos verdes escuros. Ela tinha uma expressão incrivelmente petulante e metida a engraçadinha e suas roupas pareciam tão masculinas que ela só podia ter roubado do próprio irmão: calça jeans rasgadas, tênis gastos e camiseta.
— Não — o delegado respondeu. — Por isso vamos investigar.
O garoto se jogou contra a cadeira e meneou com a cabeça.
— A gente vai ser preso também? — Jessica perguntou. — Por tacar fogo num corpo enterrado há mais de cem anos em um cemitério?
O delegado olhou para o policial com a sobrancelha erguida.
— Hum... não — ele respondeu à garota. — A Srta. Vanessa explicou que mandou que vocês botassem fogo no jazigo do tatatatatat... sei lá o que, avô dela.
— Como é que é? — Bart perguntou, surpreso.
— Já que o jazigo pertence à família dela e vocês tiveram a permissão... não vejo porque prendê-los — o delegado continuou. — Exceto dar uma boa puxada de orelha a respeito de invadir um cemitério! E da próxima vez que alguém mandar algo tão absurdo assim, não façam isso!
Os gêmeos trocaram olhares, estupefatos.
— Espera. Então, Vanessa limpou a nossa barra, mas você não pode simplesmente perguntar à ela sobre o que aconteceu com a nossa mãe? Sendo que ela estava lá e pode te dizer exatamente o que aconteceu? — Jessica perguntou, em tom divertido e confuso. — A gente só se meteu nessa por causa dela...
Carol apertou o ombro da garota, para que ela ficasse quieta.
— Ai!
— Jess, o senhor delegado está fazendo o trabalho dele — a mulher respondeu, em tom dócil. — E está fazendo um ótimo trabalho, Jimmy.
— Elana O’Neil foi presa em flagrante e ficará detida até o julgamento, enquanto durar a investigação...
— O quê?! — Jessica soltou, levantando-se da cadeira.
Policial Bart-amante-de-gatos alertou a garota com o olhar.
— Enquanto isso, vocês dois ficarão sob custódia da tia de vocês — então ele olhou para a mulher e soltou um suspiro, antes de dizer: — é bom contratar um advogado. E um dos bons.
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Aquilo era tão inacreditável! Tão injusto!
Jessica não conseguiu mais ficar quieta, principalmente depois que os gêmeos, acompanhados de sua tia, saíram da sala que estavam. Tudo no que a garota conseguia pensar era que precisava falar com Vanessa. Precisava saber o que ela havia dito à polícia e por que diabos eles estavam mantendo a mãe presa sem ter uma prova de que ela havia cometido um crime.
Ao olhar para James, a garota percebeu que ele se sentia do mesmo jeito, mesmo que não estivesse andando em círculos ou prestes a subir pelas paredes, como sua irmã estava. Ele sempre parecia calmo, até quando não estava. Só quem olhasse no fundo daqueles olhos verdes, saberia a espiral de pensamentos que rondavam em sua mente.
— Vou falar primeiro com a mãe de vocês — a mulher os avisou. — Depois eu venho chamá-los, está bem?
E como os gêmeos não queriam estar no mesmo ambiente que Elana quando dissessem o que tinha acontecido para ela, os dois concordaram com a cabeça e assistiram a tia entrar na sala.
Eles se encostaram contra a parede e ficaram olhando o corredor.
— Que merda — James soltou, passando a mão pelos cabelos.
— É... — Jessica suspirou. — Nada disso faz sentido para mim.
— Nem para mim.
— O que será que Vanessa disse aos policiais? Será que não foi o suficiente? Será que eles não acreditaram que mamãe só a estava protegendo? — a garota perguntou ao irmão. — Precisamos falar com ela. Só ela pode tirar a nossa mãe da cadeia.
— Você atendeu a ligação. Ainda tem o número dela?
— Eu sempre gravo o número no meu celular — a garota respondeu.
Jessica pegou o celular em sua calça jeans para tentar ligar para a tal Vanessa, mas justo nessa hora, sua tia voltou e ela se viu obrigada a voltar a guardá-lo. Não que Carol não pudesse ficar sabendo sobre o que eles estavam planejando fazer, mas era o tipo de conversa que Jessica preferia evitar ter na frente dela.
— Namoradinhos, Jess? — a mulher lhe provocou.
— A-hã, pode crer. Eles se amarram numa delinquente — ela respondeu.
— Podem entrar, crianças. A mãe de vocês quer vê-los — a mulher disse, bagunçando os cabelos de James, o que o deixou com raiva.
— Não sei se você viu, mas não somos mais crianças — ele respondeu.
— Para mim ainda são — ela o provocou, apertando a bochecha dele.
— Aff — ele soltou, afastando sua mão e entrando na sala de uma vez.
— Garotos — Jessica disse, dando de ombros.
— Vou esperar vocês aqui fora — foi tudo o que Carol respondeu.
A garota respondeu concordando com a cabeça e entrou para ver a mãe.
Não se surpreendeu ao encontrar James agarrado à mãe deles. Por mais rabugento e durão que gostasse de se fazer (principalmente do tipo que reclamava de tudo) ele era o bebezão da mamãe. Jessica achava que era porque ele e papai tinham esse negócio de “precisamos cuidar das mulheres da família”.
Às vezes a garota se perguntava se esse tipo de coisa, de juramento ou sei lá o que arcaico, apenas não fazia com que James se sentisse mais pressionado à cuidar das duas. Quer dizer, ela tinha certeza de que o seu pai não esperava morrer dez anos atrás, e muito menos que seu filho tivesse que cuidar “das mulheres” tendo apenas seis anos.
Sua mãe era incrivelmente parecida com eles, cabelos ruivos e olhos verdes. Quando ela se casou com um homem de cabelo tão escuro quanto os pais dele, só conseguiu pensar que aquela herança desapareceria nos filhos. Não desapareceu. Parecia tão hereditária quanto o dom que a família carregava.
— Mãe! — ela gritou, se jogando sobre os dois e os abraçando.
— Jess! Minha Jess! — ela suspirou, aliviada ao ver a garota.
— O que diabos aconteceu? — ela perguntou à mulher, soltando-a. — Como você se deixou ser pega desse jeito?! Você vive nos dizendo para termos cuidado!
A mulher deu de ombros, sem saber também.
— Acho que não tomei cuidado... não sabia que havia gente morando naquele bairro — ela respondeu. — Mas o que me importa são vocês. Deu tudo certo? Não tiveram nenhum problema, eu espero.
— Vanessa conseguiu limpar a nossa barra — a garota respondeu.
— É, mas não entendemos como ela não conseguiu limpar a sua! — James disse.
A mulher deu de ombros, também sem saber como explicar.
— Vou ligar à ela e pedir para que insista que você só a estava protegendo — a garota sugeriu à mulher. — Se você usou a arma para proteção, então não tem como ser presa por nada, certo?
— Não, não faça isso — sua mãe mandou. — Escuta, sua tia Carol estava me aconselhando antes de vocês entrarem. É melhor que não falem com Vanessa, ou vão achar que vocês estão tentando obstruir a justiça... O melhor que podemos fazer é esperar a investigação terminar. Eles não vão encontrar nada e vão ter que me soltar. Talvez eu precise pagar uma multa e perder a arma..., mas é só.
Os gêmeos trocaram olhares.
Sentar e esperar não era o que eles gostavam de fazer.
— Você tem certeza de que isso vai dar certo? — James perguntou.
— Tem que dar... — a mulher respondeu, com um sorriso matreiro. — Essa é a vantagem de brigar com essas coisas. Eles não deixam rastro.
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