Bad Heroes
7 Mercurianos
A roupa de combate dos Puros ficara completamente desigual em Megan, ela pensou. As mangas do macacão de couro branco feito leite e macio estavam frouxas em seus braços curtos e suas pernas também estavam soltas dentro daquilo. Um cinto preto brilhava em sua cintura, nele havia frascos com líquidos coloridos pendurados, um desenho de Saturno estava sobreposto em seu peito e outro maior estava em suas costas. Ela se olhou pela milésima vez no espelho e jogou os cabelos longos para o lado. Ele se destacava perfeitamente na roupa inteiramente branca que lhe cobria o corpo, assim como os olhos castanhos. Sentiu um pingo de vergonha, mas resolveu sair do quarto bagunçado de tripulação que Samuel arrumara para que eles se trocassem. A ideia de visitar Saturno ainda fazia a cabeça de Megan enrolar e o interior dela palpitar de nervosismo.
Do lado de fora, Jade já estava lá, encostada a uma parede enquanto parecia morrer de tédio. Samuel estava ocupado com os milhares de botões no painel de controle da nave, mas ergueu os olhos ligeiramente assim que os passos de Megan ecoaram no chão. Os olhos azuis não pareceram demonstrar muito interesse nela, apesar de ele ter comprimido os lábios.
— Nada mal, Srta. Heist. — Ele apenas disse, voltando a remexer os botões coloridos a sua frente.
— Está parecendo uma gota de leite ambulante. — Jade disse, prendendo um risinho.
Ela estava simplesmente maravilhosa, Megan pensou. Com um macacão que parecia igual ao dela, mas este era preto com pequenos tubos minúsculos transparentes correndo pelo torso e braços e um decote singelo no zíper aberto até o meio do peito, as curvas do corpo bem treinado tracejadas no macacão. A pele agora postumamente cinzenta e pálida se sobressaía na roupa preta. Megan percebeu pulseiras de balas de gelo em seus pulsos finos.
— Você é tão engraçada. — Megan disse, mostrando a língua. — Mas está bonita.
— Eu sei. — Ela respondeu da mesma maneira audaciosa de sempre.
Megan ficou ao lado dela na parede.
— Eu me sinto solta nesta roupa. — Disse ela.
Jade a olhou, a pupila oscilando os tons de castanho com pequenas rachaduras azuis.
— Parece bom para uma gota de leite.
— O branco representa a paz, Filha do Gelo. — Samuel levantou de sua cadeira futurística na cabine de comando e abotoou o paletó preto. — E os Puros conservam-na de qualquer maneira, como uma doutrina sagrada. A filha escolhida deverá levar a paz em suas “batalhas”.
— Batalhas? — Megan franziu o rosto.
— Vocês geralmente não batalham. Um de seus poderes é amansar qualquer um que queira lhe atacar, suponho que você tenha essa capacidade. Mas é bom manter treinos de luta para qualquer eventualidade. — Ele disse perambulando os mocassim pretos pela nave, gesticulando com as mãos.
— Então porque o Urien me atacou? E aquele gigante? Ele não me pareceu muito manso. — Disse Megan. Sua perna começando a suar.
— O caso com o Urien foi porque seus poderes ainda estavam inativos, e bem, o gigante estava enfurecido demais para notar sua pureza.
— É ótimo saber disso. — Jade resmungou.
— Alguns aliens, os mais antigos... Eles podem resistir a seus encantos puros. — Informou Samuel, hesitante. — Baleias de Obsessão, Dragões de Mercúrio...
— Dragões? — Jade esbugalhou os olhos.
— Sim. — Ele disse como se estivesse falando de um cachorro. — Eles existem em outras dimensões de difícil acesso, mas quando um buraco negro é aberto, ah... Você não vai querer ver isso.
Aquilo com certeza serviu para deixar Megan menos animada para se tornar uma Protetora de verdade.
— E você já viu um Dragão de Mercúrio? — Megan o olhou. Animação brilhando em seu esboço de sorriso.
Megan apostaria que ele ia dizer sim, mas antes que a boca de Samuel formulasse uma resposta alguém passou pela porta que vinha do corredor apertado dos quartos da tripulação. Alguém com um macacão azul escuro com listras brancas na barriga e uma estrela dourada no peito, além de luvas vermelhas na altura do cotovelo e botas também vermelhas. Uma espécie de capacete-máscara azul com um “J” pintado de branco na testa estava em sua cabeça.
Megan diria que Edward estava irreconhecível naquela roupa chamativa. Ela só o reconheceu porque notou que o uniforme estava frouxo na cintura fina dele, e sempre soube que Edward tinha um quadril estreito. Os ombros estavam estranhamente largos, ou talvez ela só não conseguisse notar o tamanho deles nas camisetas que ele usava.
Jade estourou numa risada quando ele apareceu e fez uma pose engraçada. Em suas mãos o escudo prateado brilhava, refletindo a luz nos olhos de Samuel.
— Capitão Júpiter se apresentando. — Edward fez uma continência e riu. Samuel revirou os olhos.
— Ótimo. — Ele analisou Edward com o olhar cítrico cintilando amargamente. — Agora, onde está Logan?
Jade vasculhou os bolsos.
— Comigo ele não está.
Samuel retorceu o rosto em desdém e se virou para o garoto com roupa azul.
— Eu não sei, professor.
Logan então irrompeu na sala, como se estivesse esperando sua deixa para aparecer. Megan esperava vê-lo em algum tipo de roupa semelhante à de Edward, mas a verdade era que ele estava usando as mesmas roupas de antes: jeans rasgados e camiseta de algodão. Ele estava atordoado, os passos aleatórios batendo forte no chão.
— Eu não vou vestir aquilo! — Ele apontou para o corredor. A pele branca ficando vermelha.
Edward soltou o escudo no chão e foi até ele.
— Qual é cara! — disse ele, dando tapinhas no ombro do amigo. — É tão ruim assim?
— Pode acreditar que sim.
— Adolescentes tolos! — Expirou o professor. — Mais um pouco de petulância.
Megan tirou o cabelo da pele, que já estava grudenta. Perguntou-se se abraçar Jade resolveria o problema.
— O que há de errado com a roupa, Logie? — Jade se desencostou da parede e cruzou os braços.
— É muito... — Ele desfocou os olhos. — Não senti uma vibração muito boa.
— Vibração? — Disse Megan.
Samuel bufou e rolou os olhos pela milésima vez naquele dia.
— Deem um jeito de fazê-lo vestir a roupa. Estarei muito ocupado dirigindo até as Estrelas Azuis para cuidar dos bebezinhos. — Ele remexeu a mão esquerda, que era fina e delicada como a de uma mulher.
— Samuel! — Disse uma voz irritadiça, vinda da entrada. Era Natalie, que ainda usava sua roupa de professora duvidosamente boazinha. — Não vai levá-los a lugar nenhum.
Ela os analisou cuidadosamente, olhando de Jade para Edward e ignorando Megan como se ela fosse uma gota de leite derramada no chão.
O homem com terno preto se virou para olhar, a expressão debochada voltando a dar as caras em seu sorriso descrente.
— Não? — Disse ele, voltando a ser uma pessoa séria. Megan achou que os dois dariam um belo par de namorados briguentos. — E quem vai me impedir?
— Samuel Conrad Olsen. — Ela disse. — Ora, ora. Não me lembro de ter autorização para ficar perambulando pelo espaço com os Protetores.
Ele pegou um papel do paletó e balançou como uma bandeira branca.
— Eu tenho uma autorização. Sou o Guardião do Cetro e encarregado destes insignificantes aqui. — Ele indicou o restante do grupo com um grande aceno de braço.
Natalie pegou a autorização da mão dele e olhou para o papel com profundo desgosto.
— Tanus devia estar bêbado. — Ela disse. E depois abriu a porta. — Saiam, e tentem tirar essas roupas.
Ela continuou na entrada, medindo Samuel com o olhar. Quando Edward ameaçou se mover para trocar de roupa, Samuel o parou.
— Fiquem aqui. — A voz estava firme.
— Oi, professora! — Megan acenou para ela sorridente, esquecendo que fora ignorada mais cedo. — Fiz seu dever, mas não todo. Eu não entendi a questão cinco, será que você...
— Megan, cala a boca. — Jade disse.
— Cala a boca você.
— Meninas. — Alertou Natalie. — E meninos, saiam, por favor. Eu preciso conversar seriamente com Samuel.
O olhar sério de Natalie deixou Megan em estado de alerta. Ela conhecia a professora há três anos, e sabia que aquele era o olhar dela de superirritada. Do tipo quando Russel Durant ficava fazendo perguntas tolas nas aulas de biologia, deixando Natalie em um nível insano de raiva. Era fácil perceber quando ela estava assim. Os olhos castanhos ficavam duas vezes maiores, os lábios se juntavam em um bico e a face ficava rígida, além da voz que ficava irrevogavelmente mais grave.
— Fiquem. — Samuel ordenou novamente, segurando fortemente o ombro de Edward. O rapaz lançou um olhar sugestivo para Megan e depois para Jade.
— Mesmo que Samuel tenha uma autorização, não acho que seria realmente seguro irmos com ele, não é professora? — Jade disse, raspando as unhas umas nas outras. Logan olhava as unhas dela e piscava aborrecido, como se o barulho — que era quase inaudível — o incomodasse bastante.
Natalie não tirou os olhos de Samuel nem por um segundo. As pupilas castanhas ficando cada vez maiores.
— Você tem razão, Jade. — Ela simplesmente disse.
— Ah, por favor. — Disse Samuel, dando um tapa dramático no ar.
— Isso não é bom, Sam. — Disse a outra professora, num tom menos raivoso e sim controlado. — Os poderes ainda não estão totalmente ativos...
— Poupe-me dessa baboseira, Nat. — Respondeu ele. — Poderes, poderes... Quem liga?
— Aposto que eu ligo. — Edward murmurou. Ele havia pegado o escudo de volta e o segurava de forma compromissada.
Logan ficou ao lado de Megan, e Jade ao lado de Edward. Logan se destacou por ser o único com uma roupa normal.
Natalie remexeu os braços e segurou a raiva dentro de si. Ela passeou até Samuel.
— Samuel — Ela penetrou-o com o olhar sério. —, você não tem que regredir por causa disso, acharemos esse Cetro, mas não os aborreça. E muito menos os ponha em perigo.
Os olhos dele faiscaram, como se as lembranças da perda do Cetro passassem diante deles. Megan observou os amigos. Todos assistiam Natalie e Samuel como se estivessem prestes a ir fazer pipoca para se sentirem mais confortáveis como plateia, inclusive a própria Megan.
— Vamos fazer uma votação aqui. — Samuel se desprendeu da atmosfera dele e de Natalie. — Quem quer ir para Saturno, Júpiter, Plutão e Lua?
Os amigos se remexeram, inquietos. Jade sorriu.
— Eu voto para que você seja extraditado para o Triângulo das Bermudas. — Ela disse, levantando a mão.
Natalie cobriu a boca como se aquela fosse uma ofensa enorme. Como se Jade tivesse dito que ele havia se originado de estrume de vaca.
O rosto de Samuel falhou por um instante, a boca se dobrando.
— Vou ignorar isso por enquanto, Jodelyn. Por enquanto. — Ele avisou. Jade apenas sorriu com aquela cara de “vou pagar para ver” e foi para perto de Natalie. — Logan?
O garoto pálido que parecia aperreado com os barulhos mais sensíveis, se espertou ao ouvir seu nome.
— Ãnh?
— Seu voto.
— Ah... Eu...
Atrás das costas de Natalie, Jade fazia gestos para que Logan escolhesse ficar do lado dela. Logan olhou no primeiro instante, mas depois desviou os olhos e piscou fortemente.
— Uh... Eu voto para que fiquemos. — Ele cambaleou para perto de Natalie.
Megan notou que havia algo de muito errado com ele. Ela conseguia ver a aura negra ao redor de Logan, entrando pelos pulmões dele, deixando-o perturbado.
Os olhos de todos se voltaram para ela.
— Eu voto para ficarmos! — Megan exclamou sorridente. — Hehehe! — Ela saltitou até Jade sendo assistida por Samuel, que tinha os olhos cerrados, e abraçou Jade fortemente. A amiga retribuiu meio sem jeito. Megan sabia do problema dela com abraços.
— Megan, menos. — Jade sussurrou para ela, acariciando seus ombros pequenos que batiam nas costelas de Jade.
— O voto de minerva é seu, Edward. — Samuel incentivou. Megan gostava dos momentos que ele parecia um pouco menos infeliz e grosseiro com todo mundo.
Edward a fitou, tenso. Ela sorriu largo, fazendo caretas para ele numa tentativa de dizer que não importava qual dos dois ele escolhesse, pois elas ganhariam do mesmo jeito.
— Eu voto para...
— Ah! — Um grito dolente cortou Edward no meio de seu voto. — Meus olhos!
Logan caiu de joelhos com as mãos no rosto, gritando loucamente. Samuel pareceu remotamente surpreso, mas não demorou a avançar até ele junto com todos.
— Logie! — Megan gritou. Ela viu a aura negra se dispersando para dentro de Logan. Seu coração acelerou e algo em seu interior pulsou.
— Fiquem longe! — Samuel alertou, afastando-os com os braços enquanto Natalie se abaixava até Logan e segurava os braços dele. Jade permaneceu olhando com atenção e Edward tirou o capacete da cabeça, revelando os cabelos espetados e molhados de suor.
— Logan. — Natalie chamava. A voz macia como pelo de gato. — O que está sentindo?
Ele, ainda com as mãos sob os olhos, disse:
— Meus olhos! Não consigo ver nada!
Natalie olhou para Samuel como se estivessem pensando a mesma coisa. Megan instintivamente agarrou a mão de Edward, que mesmo coberta pela luva, lhe passou certa segurança.
— O que está acontecendo? — Jade perguntou com a voz alterada. — O que ele tem, Samuel?
Samuel continuou olhando para Natalie. Ela assentiu para ele, como se falassem por telepatia. Logan gritava nos braços de Natalie.
— Eu tenho ervas de Wakanda. Já volto. Um segundo. — Samuel sumiu pelo interior da nave e Natalie começou a consolar Logan.
— Natalie! — Jade rosnou, pedindo respostas. Mas Natalie tocou as mãos de Logan cuidadosamente, e ele as agarrou com força. Então Megan quase engoliu a própria traqueia quando viu as unhas dele explodindo para fora da pele, afiadas como uma navalha e pontiagudas. Eram metálicas, como lâminas. Edward se soltou de Megan e segurou os pulsos de Logan no alto, mantendo-os longe da pele de Natalie, que havia recolhido as mãos, apavorada. Dava para perceber que Logan estava se esforçando para segurar as unhas, mas aquilo parecia machucá-lo.
O coração de Megan pareceu diminuir do tamanho um grão de arroz ao ver aquela cena. Logan estava com os olhos fechados com eficácia, as pálpebras vermelhas pela força. Natalie tocou o rosto dele de novo, acalmando-o. De longe, Megan conseguia perceber o olhar desolado de Jade.
— Não lute contra isso. — Natalie disse baixinho para o aluno. — Está bem, Logan? Não lute, deixe acontecer. Relaxe.
Isso pareceu acalmar Logan rapidamente. Depois de resistir mais um pouco, ele relaxou os músculos, mas as unhas ainda estavam a postos e os olhos ainda fechados como se estivessem costurados.
— Abra os olhos, Logie. — Megan pediu baixo. Ele pareceu ouvir, pois tranquilizou a feição de desesperança do rosto.
Devagar Logan desfez a força nas pálpebras e abriu os olhos lentamente, apenas para deixar Megan ainda mais preocupada. As órbitas estavam brancas como sal. Sem pupila, sem nada. Somente os globos oculares brancos e brilhantes. Edward congelou, Jade abriu a boca como se aquilo fosse um absurdo — e era — e Megan sentiu as lágrimas chegarem até os olhos na mesma hora. Ela se lembrou do sonho que tivera com ele quando foram para o Quartel Móvel de Bradley, onde Logan estava com os olhos brancos como sal.
— Eu — Logan se perdeu de novo. — ainda não vejo nada, Srta. May, por favor...
Samuel apareceu no nada segurando uma caixa preta, havia detalhes em relevo como cabeças de panteras esculpidas nas laterais da caixa. Ele olhou de uma forma particularmente intensa para Natalie, e ela só disse uma frase para que ele pudesse entender o que estava por vir:
— Está acontecendo.
***
A casa de Jade estava vazia quando ela entrou. Já eram mais de seis e meia da noite quando saíram do depósito. Aquilo com certeza era o mais esquisito, se lembrar das coisas que havia visto por lá. Depois do surto de cegueira de Logan, ela não podia se sentir mais desesperada e perdida, ainda mais depois do ritual de cura que Samuel havia feito. Depois de chegar com aquela caixa preta, ele retirou de lá várias folhas de um verde cintilante e entoou um canto em uma língua que Jade não conseguira identificar, marciano talvez. Ela havia visto os olhos do amigo voltarem a cor normal, que era verde claro, depois que Samuel pressionou as folhas sob as pálpebras cansadas de Logan. Ele voltou a falar normalmente, mas estava exausto. E depois de discutir mais com Samuel sobre a falta de responsabilidade dele, Natalie os levou para casa e se desculpou carrancuda pelo ocorrido. Logan ainda estava febril, mas mesmo assim dispensou ajuda e foi tropeçando até a casa em que morava sozinho com o pai. Edward foi para a casa da tia, com sua roupa de combate amassada dentro de uma bolsa, assim como Megan e Jade. E agora Jade estava sozinha em sua sala, que estava devidamente silenciosa e não demonstrava nenhuma presença. É claro que isso já era de se esperar, pois Phillip deveria estar na escola, Jacke não parava em casa, e Brianna... Será que ela estava em casa?
Jade tentou ignorar as lembranças de horas atrás e subiu as escadas rapidamente, deixando um rastro de gelo no corrimão da escada, mas não achou que os irmãos fossem tão detalhistas a ponto de notar. A porta de seu quarto estava aberta, então tudo que fez foi atirar sua mochila lá dentro e partir corredor a dentro para procurar por Brianna no quarto dela. Felizmente a porta do quarto dela estava aberta, e Jade se escorou no batente e assistiu a irmã lá dentro.
Brianna Western não era uma irmã mais velha comum, do tipo que se vê em filmes, aquelas que são chatas e odeiam as irmãs mais novas, aquelas que são fanáticas por boybands como One Direction e cantores pop como Justin Bieber e que tem namorados que os pais não aprovam. Não, Brianna não era nada disso. Ela quase sempre era legal com Jade, liberal ela poderia dizer, e ela odiava Justin Bieber e não engolia o Zayn Malik da One Direction. E Brianna não namorava, ela apenas se divertia fazendo os caras comerem na palma de sua mão — uma coisa que ela ensinara a Jade. Agora, Brianna estava só de shorts de ginástica e top preto e luvas de boxe também pretas nas duas mãos, e socava o saco de areia a sua frente com tanta força que Jade já estava vendo o momento em que ele iria explodir. O corpo inteiro suava, a feição em seu rosto magro era no mínimo intimidante.
— Boa noite. — Jade sorriu. Brianna parou de esmurrar o saco e sugou o ar pelos dentes.
— Boa, não é? — Brianna disse sem ar. — Onde esteve?
Enquanto Jade pensava em uma mentira, Brianna tirou as luvas.
— Você sabe. — Disse Jade, vendo Brianna sair do quarto e seguindo-a até a cozinha. — Com Megan, Logan e Edward.
Brianna abriu a geladeira e pegou uma garrafa azul de água. Jade imaginou que ela provavelmente não tinha medo de ter um acidente vascular cerebral, pois se expôs ao frio estando com o organismo aquecido. Ela balançou a cabeça espantando seu nerd interno para longe. Afinal, se Brianna não ligava, porque ela ligaria?
— O Quarteto Fantástico. — comentou Brianna, dando um gole na água. — Refresque minha memória, Edward é o magrelo de topete?
Jade ergueu uma sobrancelha.
— Só se lembra dele?
— É difícil não se lembrar de alguém que parece um poste de luz. — Disse Brianna com os olhos escuros brilhando.
— Sei... — Jade cruzou os braços, desconfiada. — Jacke está aí?
— Não. — Disse Brianna.
— E Phillip?
— Provavelmente não. — disse Brianna. — Que merda! — ela olhou para a entrada, onde a porta havia abrido com um estrondo.
A voz de Jade era como mel entornado em pedras de gelo.
— Agora ele está.
Phillip largou a bolsa de carteiro no sofá e afrouxou a gravata listrada com um apertão. Jade notou que os cabelos encaracolados estavam levemente puxados, como se ele tivesse os puxado de stress ou frustração. Phillip realmente não parecia fazer parte daquela família, onde Brianna, Jade e Jacke tinham a pele banhada de mel e ele era pálido e de olhos pretos como túneis. Além de ser o único com gentileza e paciência o suficiente para não entrar em uma briga a cada um minuto, que eram os casos de Jade e seus outros dois irmãos.
— Boa noite. — Phillip sorriu sem mostrar os dentes, mas o cansaço não se escondeu atrás de seu sorriso.
— O que fazia na escola até essa hora? — Brianna perguntou, levando água para Phillip, que estava descansando no sofá.
Jade tentou ignorar a ideia de que os irmãos também poderiam ter sangue de Filhos da Lua, frios e com comportamentos semelhantes aos de um psicopata. Ela não duvidava que Jacke tivesse mesmo nascido na Lua, mas e Phillip? Gentil daquela maneira, feliz e saltitante, não parecia alguém com caráter perigoso. Ela perguntaria sobre os irmãos a Samuel no dia seguinte.
— Conselho de classe. — Ele respondeu entre um gole e outro. — E estávamos discutindo sobre a entrada de dois novos alunos.
— Novos alunos? — Jade franziu o rosto, sentando no braço do sofá.
— Benjamin e Helena cujos sobrenomes não sei pronunciar, vieram de algum lugar da Rússia. — Ele disse fugando o nariz como se tentasse reconhecer algum cheiro. — Aposto que são refugiados dos ataques que a Rússia tem sofrido, pobres adolescentes... — Ele voltou o olhar para a cozinha. — Brianna, está fazendo o jantar?
— Oh! — Ela correu até a cozinha. Jade a seguiu com os olhos. Ao lado do fogão vermelho de ferro fundido, estava Brianna, com uma colher redonda na mão. Vapor saía da panela, e os ingredientes estavam espalhados por todo lugar — tomates, alho e cebolas picadas, pedaços de ervas escuras, queijo ralado, cascas de amendoins, um punhado de azeitonas e um peixe inteiro, olhando para cima. Jade tentou entender como não notara todas aquelas coisas ali, inclusive a panela no fogo e o peixe bizarro, e concluiu que estava pensativa demais quanto a Logan e outras baboseiras que ela não iria querer comentar.
— Estou fazendo sopa. — Disse Brianna, balançando a colher para Phillip. — Você está com fome? — Então ela olhou para Jade. — Aposto que essa bonitinha já deve ter comido alguma besteira por aí. Peguei essa receita com Daniel e ele disse que era deliciosa...
Não, Daniel, não, pensou Jade. Daniel Bryan havia sido o ex-namorado e atual caso de Brianna, o cara era um hippie com uma barba loura e era poucos centímetros maior que Megan.
— Se você soubesse cozinhar, talvez eu comesse. — Resmungou Jade.
Brianna congelou, segurando a colher num gesto ameaçador.
— O que foi que você disse?
Jade foi até a geladeira.
— Eu disse que vou procurar algum lanche para comer.
— Foi o que pensei. — Brianna voltou a atenção para a sopa. Phillip continuou olhando para as duas.
O interior da geladeira estava cheio de caixas de leite cujas datas de validade já haviam expirado há semanas, e potes de plástico rotulados com fitas nos quais se via escrito com tinta vermelha: DO JACKE. NÃO COMA OU BEBERÁ O PRÓPRIO SANGUE.
— Essas coisas assustam nossas visitas. — Phillip já estava atrás de Jade na geladeira. Ele pegou um dos potes de Jacke e destampou. O conteúdo era alguma coisa pastosa e amarelada, com fios de macarrão salpicados por cima. Phillip cheirou e torceu o nariz. — Jade, você chegou da rua agora?
— Sim. — Ela cantarolou fechando a geladeira com um chute e caminhando confiantemente até o pé das escadas.
— Fazendo o que? — O olho esquerdo dele tremeu por um segundo.
— Dever de Inglês Avançado. — Disse e subiu as escadas, deixando pequenos rastros de gelo por onde os pés passavam.
No outro dia na escola, parecia que tudo estava normal. Mas só parecia. Logan Echolls, um dos melhores amigos de Jade, caminhava pelos corredores com olheiras tão fáceis de notar quanto se ele tivesse um terceiro braço saindo das costas. As mãos estavam dentro dos bolsos do casaco preto, Jade se perguntou se aquelas garras metálicas ainda estariam lá. A cabeça estava abaixada, mas os passos eram certeiros, como se ele pudesse sentir a presença de algum obstáculo a sua frente. Ele passou por ela e Edward sem dizer um “oi” ou fazer algum aceno do tipo: Ei galera! Não estou cego! Prometo não dilacerar os rostos de vocês com minhas garras.
— Cara, Megan me ligou durante a noite dizendo que não parava de sonhar com Logan. — Jade bateu a porta do armário e andou ao lado de Edward no corredor formigando de alunos naquela manhã.
— Também demorei a pegar no sono depois daquilo. Imagino que ele deve estar envergonhado ou assustado. — Edward estava com o rosto mais redondo, Jade percebeu. Sem falar nos ombros que se exprimiam dentro da camiseta laranja.
— Acha que tem algo a ver com os poderes?
Os lábios de Edward se juntaram pensativos.
— É muito provável que sim.
— Ed... Você já ouviu falar sobre Dragões de Mercúrio? — Jade disse enquanto esbarrava propositalmente em Cindy Crofford e depois a olhava caída no chão e sorria como quem diz: bom dia, vadia.
Edward franziu a testa e desviou de alguns alunos.
— Não, mas creio que algo que fale sobre dragões não deve ser muito bom.
— Samuel disse que esses tipos de aliens podem... — Jade foi interrompida quando algo — ou melhor, alguém — se chocou contra seu ombro. Ela continuou no mesmo lugar, apenas deu um passo pra trás e viu um copo de café sair voando pelos ares, derramando o líquido preto e quente por todo o chão. Jade rangeu os dentes, pronta para acertar um soco em quem quer que fosse, mas ao olhar viu que se tratava de Jessica Akeley, sua professora de Inglês Avançado.
— Nossa! Desculpe-me, flor. — Ela disse de um jeito afobado, quase rindo. Pegou sua bolsa Prada do chão e olhou Jade e Edward. — Estou atrasada, meus amores, me desculpem. Eu machuquei você?
Jade normalmente não estava acostumada com tanto alvoroço pela manhã, mas tentou ser legal com a professora nova.
— Não, está tudo...
— Sim, minha flor. Sinto muito mesmo! Até mais! — Ela saiu driblando o mar de alunos no corredor. O sinal soou e Edward riu.
— Acho que ela tomou café demais. — Ele disse, guiando Jade até sua aula.
Pelo visto Stacy Baker também tinha passado da hora de acordar, pensou Jade. Estava cerca de quinze minutos atrasada para a aula teórica de educação física. Os alunos estavam falando sem parar, um emaranhado de vozes e várias bolas de papel sendo atiradas de um canto ao outro. Jade estava sentada em cima de sua mesa conversando com os amigos e tentando imaginar como seria uma Baleia de Obsessão.
— Posso fazer uma pesquisa, mas duvido que exista algo sobre isso na internet. — Disse Edward, varrendo os olhos por todos ali.
— Existe tudo na internet. — Rebateu Logan, a voz extremamente suave e silenciosa.
— Sobre Tanus deve existir, mas não acho que tenha algo sobre Dragões de Mercúrio ou Baleias de Omissão. — Megan disse remexendo o estojo freneticamente. Ela não parecia estar procurando nada, apenas buscando algo em que ocupar as mãos. Deveria ser a hiperatividade dando as caras de novo.
— Baleias de Obsessão. — Corrigiu Jade, quase rindo.
— Podemos ir pelo meio mais fácil: perguntar a Samuel ou Natalie. Aposto que eles devem saber. — Edward sugeriu.
— E eu duvido que queiram responder. — Jade acrescentou rapidamente.
— Isso não importa muito, na verdade. — Admitiu Logan, dando de ombros.
Uma bola de papel voou pela sala até a cabeça de Logan, que estava de costas, mas ele rapidamente esticou a mão e a pegou. Quando se virou, atirou a bola tão forte no rosto de George Gonust que ele caiu no chão.
— Uoou! — Edward riu.
— Essa coisa está cada vez mais forte. Os poderes, digo. Consigo ouvir os corações de todos batendo, sinto o cheiro de todos aqui e vejo quase que microscopicamente. — Logan confessou baixo, parecendo assustado com as próprias afirmações.
— Hoje eu destruí meu despertador. Fui apertar o botão de soneca, mas acho que foi forte demais, pois ele simplesmente se espatifou. Depois quebrei a maçaneta da porta ao tentar abri-la, e a torneira do banheiro também. — Edward disse, embora estivesse meio pesaroso, dava para notar a diversão ao relatar isso aos amigos. Ele rabiscava alguma coisa em um pequeno pedaço de papel.
— Bom dia! — Disse uma voz feminina carregada de sotaque francês.
Os amigos se viraram para ver a Srta. Baker entrar na sala com várias pastas na mão. Algumas garotas que puxam saco foram até lá para abraçá-la, mas a maioria apenas se sentou nas cadeiras e continuou falando sem parar. A professora sorria, como sempre, e estava com os olhos pequenos, típicos de quem acabou de acordar.
Jade se ajeitou na cadeira e Logan, que se sentava atrás dela, ficou sem expressão e se deitou na cadeira também. Edward e Megan sentavam um atrás do outro na fileira ao lado, e Jade os observou antes de dar atenção a alguma coisa que Stacy falava para a turma.
Edward deu o pequeno pedaço de papel para Megan. Ele sorria com aquele aspecto sapeca no rosto, o olhar zombeteiro. Ela examinou o papel e sorriu com a testa franzida.
— Isso sou eu?
Edward deu um sorriso sábio.
— É claro que é você. — Disse astutamente.
Megan deu um risinho sem graça e jogou o papel na cara dele.
— Muito engraçado. — Ela sorriu se virando para frente.
No centro da sala, Stacy se equilibrava no alto dos seus 1,55, tentando ter a atenção completa da turma.
— Alguém quer me contar o que é um movimento peristáltico? — Ela juntou as mãos e olhou a turma falante com expectativa. — Edward?
— Movimentos realizados involuntariamente. — Edward disse em cima da lata, com toda certeza.
— Isso aí! — O rosto estreito dela se alargou em um sorriso. Stacy pegou um pincel e foi até a lousa. — Abrindo os cadernos, galera.
A aula teria sido chata, porque Jade odiava as aulas teóricas, mas acabou que ela achou uma nova maneira de se divertir. Stacy estava explicando sobre o funcionamento dos movimentos corporais, ou pelo menos estava tentando. Jade a encarava fixamente, com os olhos borbulhando. A professora se enrolava e brincava dizendo que Jade estava desconcentrando-a, o que não era uma mentira. Jade mexia os lábios, piscava e sorria. E ver Stacy ficar vermelha a fazia se contorcer de risos por dentro. Edward ficava sério, prestando atenção enquanto Megan soltava risinhos irritantes e mexia na gola da camisa dele apenas para tirar a atenção de Edward.
A aula estava prestes a acabar. Stacy, nas pontas dos pés, escrevia o dever de casa no quadro enquanto a sala inteira copiava em silêncio — o que Jade achou um milagre. Até Megan estava quieta. Mas então ela sentiu um dedo duro cutucar seu ombro, e teve impressão de que seu osso iria quebrar com aquele cutucão. Olhou para trás e viu Logan a olhar com os olhos quase transparentes. Ah meu Deus, ela pensou, ele vai outro ataque daqueles.
Mas Logan não parecia estar à beira de uma crise de cegueira novamente. Ele apontou com o dedo para o final da sala, onde um menino estava em pé à procura de um lugar. Mas não era qualquer menino. Jade se lembrava muito bem daqueles cabelos prateados — como prata mesmo — caindo desajeitadamente pela testa e daquela feição marcante. Era o cara da estação, que olhara Logan com cara de pouquíssimos amigos. Ele parecia menos bagunçado agora: sua barba fora severamente aparada, tanto que parecia apenas um desenho na pele, que era leitosa. Mas tinha olheiras quase saradas debaixo dos olhos azuis, as quais ficavam visíveis em seu rosto abatido. Usava um casaco de malha com o zíper aberto até a metade do peito, revelando outro casaco azul com o zíper totalmente fechado. Jade não podia deixar de notar no quão bonito ele era. As mesmas feições delicadas de Logan, o jeito desleixado. Ele olhava as cadeiras sem pressa, sem preocupação. Meio perdido, ficava franzindo o nariz imperceptivelmente. Não notou Jade e Logan, apenas se sentou em uma das cadeiras lentamente.
Stacy se virou, pronta para explicar o dever. Jade apostava que do jeito que Stacy era lerda, ela não perceberia a presença do garoto do cabelo prateado no fim da sala, sentado como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse chegado três minutos antes de a aula acabar. Mas ela notou.
Stacy cerrou os olhos, que estavam em um azul-oceano.
— Benjamin Maxi... — Ela fechou os punhos em torno do pincel, tentando lembrar. — Benjamin Maximoff.
Ele se levantou, cheio de si. Era o que Jade costumava ver toda vez que se olhava no espelho: alguém confiante. Em suas mãos alguns cadernos e pastas, e nas costas uma mochila preta e surrada. A turma toda se virou para vê-lo, assistindo-o sem piscar. Os lábios rachados e sem cor de Benjamim sorriram.
— Não me viu chegando? — Perguntou debochado, sorrindo e indo até a porta no mesmo segundo que o sinal zumbiu por toda escola.
Stacy o olhou sair curiosa, mas depois se sentou à mesa e tentou se concentrar em seus papeis. Os outros alunos logo dispararam pela porta como se estivessem prestes a serem devorados por algum monstro gigante.
— É o cara da estação. O que ele faz aqui? — Logan perguntou no seu ouvido.
— Credo, Logan! Que susto! — Jade fez careta para ele, que ficou sem graça.
— Desculpe, eu só...
— Acho que ele veio estudar, sabe. — Jade o cortou com um tom óbvio na voz. — Embora pareça velho demais para isso.
— Acha que ele viu a gente? — A voz de Logie parecia insegura.
— Está com medo? — Jade zombou.
— Bem, da última vez que o vimos ele não pareceu ir com a minha cara, e depois você deu língua para ele!
— Ah! Qual é! — Ela empurrou Logan com o ombro. — Você é o Rei Pantera! — Disse mais baixo. — Não precisa ter medo de um branquelo daqueles.
Então Jade se lembrou de que Logan era ainda mais pálido do que Benjamin.
— É... — Ele deu de ombros. — Talvez.
Quando se juntaram em torno da mesa redonda no refeitório, tudo parecia normal de novo. Como nos velhos tempos. Natalie junto com Stacy e Jessica transitaram entre as mesas com sorrisinhos nos rostos. Pareciam três bonecas. Jade piscou um dos olhos para Stacy, que sorriu e acenou de volta. Megan não parava de rir e beliscar a bochecha de Logan. Jade riu um pouco e foi buscar sua bandeja de salada na cantina. Furando a fila o máximo que pôde, ela pegou seu lanche e estava quase saindo de lá intacta quando alguém esbarrou nela pela segunda vez. E agora ela não perdoaria. Então, no mesmo segundo, sem nem olhar de quem se tratava, ela acertou um soco na pessoa. Sentiu os dedos amolecerem rapidamente quando a pele de seus dedos encontrou o nariz de quem quer fosse. E quando se virou viu que junto a sua salada espatifada no chão, estava Benjamin Maximoff gemendo e resmungando.
— Au! — Ele engrolou. A própria Jade sentia que o vento que vinha dela era desagradavelmente gelado.
A garota que estava ao lado de Benjamin o ajudou a levantar, e Jade percebeu que era a mesma garota que Logan havia ficado encarando na estação.
— Garota, qual seu problema? — Disse ela, enquanto Benjamin estava com os olhos vesgos, tentando estabilizar a visão. A tal garota tinha um sotaque russo tão forte quanto o de Benjamin.
Benjamin e Helena cujos sobrenomes não sei pronunciar, vieram de algum lugar da Rússia. Ela se lembrou do que Phillip dissera.
— Acredito que eu deva fazer essa pergunta para esse incompetente. — Jade rosnou, apontando para Benjamin.
— Helena. — Benjamin disse, olhando-a com censura e tomando a frente dela. — Qual é o problema, senhorita? — Ele perguntou despreocupado, olhado Jade tranquilamente.
Infelizmente, Jade notou, o nariz dele parecia em perfeito estado.
— O problema é que você derrubou minha salada!
— É só pegar outra, oras. — Ele sugeriu, dando de ombros.
Jade olhou para ele e depois para a enorme fila que se seguia pelo refeitório.
— Vai demorar horas, seu estúpido!
— É só furar a fila como você fez antes, não é mesmo?
Atrás do ombro de Benjamin, os olhos de Helena brilhavam furiosamente, com um mistério enlouquecedor.
— Ah, você só pode estar de brincadeira...
— Mas não estou. — Disse Benjamin simples. — Vamos, Helena.
E eles deram as costas para Jade, como se ela fosse um pedaço de alface qualquer. Ela se sentiu tentada a socar a cara dos dois, mas apenas voltou para sua mesa.
Edward foi o primeiro a notar o mal humor.
— Hiiiiii... — Ele assobiou. — Parece que a salada não estava fresca.
— Não estava mesmo, mas a carne de alguém vai ficar...
Ela estava praticamente soltando fumaça pelos ouvidos, se é que era possível sendo uma garota descendente do gelo. Mas ainda conseguiu perceber quando a boca de Megan, que estava sentada na sua frente, parou de mastigar o sanduíche de Edward e olhou para alguém além do ombro de Jade.
Ela se virou e viu Samuel vindo na direção deles, o terno bem passado berrando libras por todos os cantos, mas a feição dele estava mais séria do que de costume.
— O que houve? — Logan o olhou com um terror enorme.
Samuel olhou para os lados, desfocando os olhos. Os lábios estavam entreabertos.
— CyMax mandou uma mensagem. — Ele disse, engolindo em seco. — E não é nada boa.
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