Bad Heroes
8 Show Time, Ladies!
Notas iniciais
Uma semana se passou desde o ocorrido com Aria, e com isso, chegou o fim de abril. Frio e tempestuoso. Essas palavras definiam bem o clima de Rosewood esta manhã, então nada melhor do que me embrenhar em uma jaqueta de couro marrom para ir à escola hoje. No quarto ao lado, Caleb parecia estar abalando uma festa da Playboy já que o barulho que fazia era imprescindível. Aria ainda não estava falando abertamente conosco, mas retribuía aos sorrisos e cumprimentos que eu lhe dava quando nos víamos nos corredores.
Excepcionalmente, meu irmão havia pegado uma gripe insistente que se instalou em seu sistema há uma semana, deixando Caleb de cama e sem comparecer à escola por tais dias, logo ele não pôde reconhecer os transgressores do Caso Montgomery. No dia seguinte ao fato infeliz, o jornal da escola estava estampado com a manchete “CASO MONTGOMERY AINDA SEM RESPOSTAS”, fiquei desconfortável em ter que ler aquele tipo de coisa e tenho certeza que Aria também deve ter ficado. Apesar de tudo, Caleb não se esqueceu da minha promessa e me fez contar o que estava acontecendo comigo e com as meninas. Ele também só acreditou quando viu o que eu podia fazer.
Abracei a jaqueta escura no corpo e me direcionei ao quarto de Caleb, que estava com a porta semiaberta, e espreitei o lado de dentro na ponta dos pés. Estava uma grande confusão lá dentro, algo que não me chocou muito já que coordenação não era o forte dele, mas algo parecia muito torto. As roupas jaziam reviradas em cima dos móveis e sua cama estava com o colchão virado para o outro lado, as gavetas abertas e algumas no chão. Movi meus olhos um pouco mais para a direita, enxergando Caleb sentado perto da porta do banheiro. A calça jeans que ele usava estava toda machucada e o suor deslizava livre pelos ombros e costas desnudos, a cabeça estava abaixada e sua testa encostada num dos joelhos. Parecia cansado; respirava com se tivesse acabado de correr uma maratona e tinha os olhos fechados numa expressão de dor.
Entrei no quarto de surpresa, mas isso não fez com que ele levantasse a cabeça para me olhar.
— Você está bem? — Perguntei, me abaixando para ficar na altura dele. Caleb pareceu se dar conta da minha presença e içou a cabeça, me olhando de lado. Seus olhos estavam meio avermelhados.
— Sim. — Fungou com o nariz. — Estou bem, eu só... — Empacou no meio da frase e fechou os olhos com força. — Acho que vou vomitar. — Eu saí de perto com medo de tomar um jato de vômito na cara e fui até o corredor para ver se achava Melissa ou minha mãe.
— Melissa? Mãe? — Chamei, mas não ouvi nada além de alguns barulhos na sala assim que um vento rápido e veloz cortou pelas minhas costas. — Droga. — Resmunguei voltando para o quarto de Caleb, encontrando o vazio por lá. Ele havia simplesmente sumido.
Fechei a porta do quarto, deixando a televisão ligada, e fui procurar por Caleb. Encontrei-o na cozinha, curvado sobre a pia, a água correndo. Ele estava com as mãos cruzadas na placa de drenagem.
— Caleb? — A cozinha era clara, de um amarelo alegre, as paredes decoradas com desenhos de giz de cera e lápis emoldurados que Caleb e eu tínhamos feito na escola. Caleb tinha talento para o desenho, dava para perceber, mas os meus, que deveriam retratar pessoas, pareciam parquímetros com tufos de cabelo.
Ele não levantou o olhar, apesar de eu saber, pelo enrijecimento dos músculos dos ombros, que ele tinha me escutado entrar. Fui até a pia e pousei uma das mãos sobre as costas dele. Sentia as protuberâncias da espinha dorsal através de sua pele e fiquei imaginando se ele tinha emagrecido. Não dava para perceber apenas observando-o, mas olhar para Caleb era como olhar para um espelho — quando você vê alguém todos os dias, nem sempre percebe as pequenas diferenças na aparência.
— Você está bem?
Ele fechou a torneira com um movimento brusco.
— Vomitar me fez melhorar um pouco, eu acho.
Pus um dedo na lateral do queixo dele e virei seu rosto em direção ao meu. Ele estava suando, os cabelos escuros na testa grudados na pele, apesar de o ar que entrava pela janela entreaberta da cozinha estar fresco.
— Você quer ir ao hospital?
Ele não respondeu.
— Você se lembra do que aconteceu depois da tal chuva? — A voz dele parecia rouca.
— Eu... — Me interrompi. Aquela noite, olhando para trás, parecia um grande borrão de corrida, sangue e suor, de sombras que corriam entre as árvores. Eu me lembrava dos rostos brancos de Aria e Alison, como disjuntores de papel contra a escuridão, e me lembrava de Emily me segurando, gritando em meu ouvido. — Na verdade, não. É tudo um borrão.
Seu olhar me atravessou, para em seguida, ficar focado novamente.
— Eu pareço diferente para você? — Perguntou.
Levantei meus olhos até encontrar os dele. Eram cor de café — marrom rico sem qualquer nuance de cinza ou avelã. Se ele parecia diferente? Talvez um toque extra de confiança na maneira como se comportava desde que tinha voltado; mas havia também uma introspecção nele, como se estivesse observando ou esperando alguma coisa.
— Você continua sendo Caleb Rivers.
Ele fechou um pouco os olhos como se estivesse aliviado, e quando seus cílios baixaram, reparei no quão angulosas as maçãs do rosto dele estavam. Ele tinha emagrecido e eu estava prestes a dizer isso quando ele saiu pela cozinha.
— Vou me arrumar. Vamos à escola. — Nem seus passos na escada eu consegui ouvir, pareceu rápido demais para mim. E quando cheguei na sala notei o abajur amarelo que ficava na mesinha de carvalho ao lado do sofá no chão, apenas o coloquei de volta em seu lugar percebendo com refresco que não tinha quebrado. Depois me coloquei sentada ao pé da escada, esperando por Caleb, ainda ouvindo barulhos estrondosos no andar de cima.
***
O corredor da escola estava abarrotado de alunos e alguns professores caminhavam espremidos entre os estudantes, com as mãos apertando seus materiais. Caleb se arrastava silencioso rente ao meu corpo, ainda estava pálido e sua respiração permanecia entrecortada, lançando lufadas de ar na parte de trás da minha cabeça freneticamente. Seguimos naquela mesma lentidão até alcançar o outro bloco da escola, que parecia menos tumultuado, com apenas alguns alunos transitando por ali. Avistei Hanna e Alison perto do armário de Emily e uma raiva tomou meus pensamentos quando visualizei a figura da própria Emily entre as duas, dividindo um assunto que parecia ser sério por conta do maxilar trincado de Emily, que sempre ficava assim quando ela estava no meio de algum assunto importante.
Caleb passou as mãos pelo cabelo enquanto nos aproximávamos, deixando-o estrategicamente bagunçado.
— Eu consegui isso no quarto do Jason. — Alison puxou um sinalizador com o rótulo desgastado de seu armário.
— O que estão fazendo? — Perguntei notando Caleb tentando normalizar sua respiração atrás de mim.
— Conferindo os últimos detalhes do nosso plano, oras. — Hanna disse como se fosse óbvio.
Agora eu me lembrava vagamente de tudo que foi discutido no quarto de Alison há uma semana. Ela tinha sugerido que jogássemos fogos de artifícios na casa dos culpados exclusivamente para assustá-los. Apesar de parecer insignificante perto da humilhação que fizeram Aria passar, concordei com a ideia.
— Quem é vivo sempre aparece. Como está, Johnny Depp? — Alisou sorriu travessa para o garoto atrás de mim.
— Faz um tempão que a gente não te via grudado nos armários alheios. — Hanna sorriu amigavelmente. Franzi minhas sobrancelhas para aquele sorriso que eu quase nunca via no rosto dela ou no de Alison. Infelizmente a segunda vivia mandando sorrisos como estes para Emily, o que eu detestava. Eu já havia dito para ela ficar longe de Alison, mas ela parecia entorpecida pelos cabelos irritantemente louros daquela insolente.
Caleb sorriu meigamente com o comentário.
— Eu vim exclusivamente para ajudá-las com o tal plano. — Disse ele, ficando sério.
— Assim que você notar algum rosto familiar pelos corredores nos avise. — Disse Emily.
— Ótimo! Porque acabei de reconhecer a mandante do crime. — Ele sussurrou e apontou com o dedo para além do ombro de Emily.
Uma garota caminhava despreocupadamente pelo corredor quase vago, seus cabelos castanhos brilhavam na luz fluorescente e seus olhos eram tão verdes quanto folhas. Não era muito alta e usava um conjunto de preto com cinza, combinações mórbidas e sem vida. Hanna a mediu dos pés a cabeça, olhando-a com desdém explicito e sendo notada na ação. Ela seguiu andando pelo corredor até desaparecer, seu jeito de andar exalava autoconfiança.
— Maldita! — Alison praguejou. — Foi a mesma garota que amassou meu carro! Eu devia ter matado ela naquele dia para evitar o que rolou com a Aria. — Disse entredentes.
— Você tem certeza, Caleb? — Hanna o olhou.
Caleb assentiu convicto.
— Hanna e Emily, tratem de descobrir tudo sobre essa vadia até o fim da aula. Quero saber onde ela mora, qual seu nome, quero tudo! — Ali ordenou com empáfia, jogando o sinalizador de volta em seu armário com força bruta. — Essa despeitada vai ter o que merece, porque ninguém mexe com as minhas amigas.
Bateu a porta do armário com eficácia exagerada e saiu marchando rapidamente pelo corredor. Uma coisa que me surpreendeu foi o fato de ela não ter esbarrado no meu ombro quando saiu caminhando já que ela fazia isso sempre que tinha a oportunidade. Pensei alguns segundos sobre o que ela tinha dito e me repreendi por não tê-la corrigido, pois nós não éramos amigas. Mas alguma coisa no meu interior não me deixou fazer isso. O motivo? Eu não saberia dizer.
— Meio doida ela. — Caleb comentou enquanto olhava sobre o próprio ombro.
— Alguém vai precisar de uma nova porta para o seu armário. — Hanna olhava com um riso entalado para o armário de sua amiga, que estava parcialmente amassado e com uma enorme crosta de gelo na frente.
— Meio doida você também. — Caleb olhou para ela. Emily riu. — Mas eu gosto disso.
Hanna revirou os olhos em um meio sorriso tímido.
***
Quando a tarde chegou, menos fria do que a manhã, eu esperava nervosamente pela ligação de uma das meninas para botarmos nosso plano em prática. Olhava meu celular em cima do balcão de cinco em cinco segundos e batucava meus dedos no mesmo desvairadamente. As coisas pareciam calmas e silenciosas na casa dos Hastings, Caleb dormia pesadamente em seu quarto e eu estava na cozinha, impaciente e nervosa. E como sempre, éramos os únicos em casa já que nossos pais viviam para trabalhar e trabalhavam para viver e Melissa provavelmente estava com algum namorado gostoso que ela adorava esfregar na minha cara.
— Parada aí, mocinha, isso é um assalto! — Anunciou uma voz distinta, atrás das minhas costas.
Meu coração disparou alarmado e meu corpo entrou em estado de alerta, apertei minhas mãos fortemente. Fitei o copo de água quase intacto à minha frente e agradeci aos céus. Em um abalo rápido, lancei minhas mãos para trás, esperando atingir o ladrão com um jato de água para distraí-lo e me dar tempo de chamar por Caleb.
No entanto, quando me virei ainda espantada, um sorriso zombeteiro e uma risada escandalosa ecoaram por toda a cozinha. Alison riu tanto que chegava a fechar os olhos, eu acharia fofo se não estivesse odiando-a agora. Nas mãos ela segurava um pedaço desforme de gelo, presumi que ela tinha congelado a água que eu lancei nela. Se fôssemos despontar na briga de verdade, eu sairia em desvantagem por conta desse pequeno detalhe.
— Não tão rápido, Spence. — Ela continuou rindo e minha mandíbula se trincou por conta da raiva.
— Isso não teve a menor graça. — Voltei a me sentar no balcão, dando as costas para ela.
— Ah, teve e muita. — Disse, sentando-se ao meu lado e depositando o caco de gelo em cima do balcão. Mantive-me imparcial. — Ah, qual é! Foi só uma brincadeira, só para quebrar o gelo! — Voltou a rir de sua piada sem graça. — Você entendeu? Quebrar o gelo! — Eu tinha que confessar que por mais irritante que ela fosse, sua risada era contagiante a ponto de me fazer rir também.
— Posso saber o motivo de tanta graça? — A fala de Melissa entrou por meus ouvidos como uma melodia extremamente irritante. Ela franziu o cenho quando encontrou Alison ao meu lado.
Com certeza não é porque você chegou, pensei.
— Espero que esteja pronta para o jantar de hoje. — Ela continuou, jogando sua bolsa no sofá. — Ian está ansioso para se juntar à família. — Disse altiva, ignorando Alison completamente e subindo as escadas.
Ian Thomas era o futuro noivo de Melissa. Eu não tinha o visto muitas vezes, mas ele me pareceu bonito o suficiente para Melissa me fazer inveja. Ele tinha cabelos negros e costas largas, olhos misteriosos e, pelo que eu soube, veio de algum lugar do Canadá. Quando ele me olhou pela primeira vez, me senti vulnerável diante de seus olhos, que pareciam me despir por inteiro. Ele parecia do tipo de cara que gostava de iludir adolescentes.
— Ian Thomas é o noivo dela? — Ali perguntou. — Sério?
— Você o conhece?
— O suficiente para saber que você deve ficar longe dele. — Advertiu seriamente, com um olhar repreensivo; seus olhos azuis estavam mais claros que o normal, lembrando-me automaticamente de Toby. Franzi as sobrancelhas. — Deixe Melissa se ferrar sozinha. — Riu com crueldade.
— De onde você o conhece? — Indaguei com puro interesse.
— De muitos lugares. — Riu sem emoção. — Fique tranquila, ele não vai machucar a Melissa, não literalmente. — Ela deu um empurrão no meu ombro de leve e eu devolvi com a mesma força.
Abri minha boca no intuito de dizer algumas coisas para Alison quando fui interrompida por batidas na porta. Emily e Hanna estavam do lado de fora.
— O nome dela é Jenna Marshall. — Emily disparou assim que eu abri a porta e dei passagem para as duas entrarem.
— Mora a quatro casas daqui. — Hanna completou.
— Ótimo! — Ali se aproximou. — Hora do show, senhoritas.
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